2. ALUSÃO
2.2 Memória
2.2.1 O revi(ver) de uma vida nas malhas do tempo
quaisquer que sejam as concepções de memória, em sua maioria, têm em comum que os seus fenômenos são resultados de uma organização dos sistemas e que é por esta organização que ela se mantém ou se reconstitui. Estas concepções não consideram o tempo da lembrança, o presente, como refacção do passado; a memória é tomada como mera reprodução do lembrado, não exerceria uma ação no passado (TORGA, 2011, p. 40).
Na construção da significação literária, a memória é mecanismo imprescindível, pois, rememorando o passado e ressignificando-o, libera-se o que estava oculto (VILLAÇA, 2007, p. 72). Os eventos e ações comunicam um passado que é tomado em um presente não mais sentido, mas lembrado. Com isso, o ato de leitura e escrita, em um dado tempo histórico, carrega possíveis interrupções da eventividade, moldado pelo presente da lembrança. Compreender esse processo é colocar-se em posição responsiva ativa, que pressupõe a análise, a contemplação, cujos tons axiológicos identificam os fatores que estão além da palavra, porque
“também pela superfície da pele a memória se faz palavra” (QUEIRÓS, 2011, p. 30).
E,
a identificação e a contemplação se dão via memória, que, enquanto refacção, re-vivência, deve ser entendida não como preenchimento de lacunas, mas como a própria lacuna onde há a subversão da ordem, o amarrotamento, a rasura do que foi (TORGA, 2006, p. 79).
Olhar o passado é colocar-se na condição de ‘outro’, aquele que repensa a experiência com olhos do presente. A imagem do passado é rasurada pelo tempo,
“a lembrança é, portanto, algo distinto do acontecimento passado: é uma imagem (imago mundi), mas que age sobre o acontecimento (anima mundi), não integrando a duração e acrescentando o futuro do passado” (CANDAU, 2014, p. 66), ou seja, não é cópia fiel do vivido, mas representação mnemônica.
A (re)ordenação das referências memoriais, pressuposta no lembrar e no esquecer, evidencia a alteração da ordem temporal em um tempo que não é mais cronológico, íntimo, privado, cognoscível e individual, mas social, pois tem as intervenções de ‘outros’. É subversão do que foi, ressignificação do que é e projeção do vir a ser. É o próprio
movimento do já-sido em direção ao que ainda não é em sendo, ou seja, um passado que pelo presente indicia o futuro. [...] Esse movimento [...] caracteriza a dinamicidade do real que embora linear é constituído de fragmentos, rupturas, partes, faltas, silêncios porque neste real está o sujeito rememorador (TORGA, 2001, p. 57).
Esse sujeito rememorador recupera o passado, “incorpora e coloca sua marca em uma espécie de selo memorial que atua como significante da identidade”
(CANDAU, 2014, p. 74). O mundo de suas representações é moldado pelas coordenadas temporais de onde origina a sensação de continuidade, “condição necessária da representação da unidade do Eu” (CANDAU, 2014, p. 61). Memória e identidade são indissociáveis, pois as lembranças e evocações do passado perpetuam “o sentimento de nossa identidade” (HALBAWACHS, 1925; 1994, apud CANDAU, 2014, p. 17), já que, “esquecer é desexistir, é não ter havido” (QUEIRÓS, 2011, p. 65). As memórias consolidam nossa existência no mundo. Como afirma Bosi:
[...] a memória permite a relação do corpo presente com o passado, e, ao mesmo tempo, interfere no processo ‘atual’ das representações. Pela memória, o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, ‘desloca’ estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência (BOSI, 1994, p. 46-47).
Nas representações das lembranças, o passado sobrevive. Só a Mnemosyne, divindade da memória, é capaz de “unir aquilo que fomos ao que somos e ao que seremos” (CANDAU, 2014, p. 59). Sendo assim, a Literatura serve como via de transmissão memorial. No tecido das linguagens, estarão as evocações das imagens atualizadas pela experiência. “Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado”
(BOSI, 1994, p. 55), pois cremos em Queirós (2011) que “a memória suporta o passado por reinventá-lo incansavelmente” (QUEIRÓS, 2011, p. 60).
Assim, a Literatura não será em si mesma cópia do real, mas representação do que fica do real. E fica o que significa ao sujeito rememorador, modificado pelo tempo e espaço, pois, a ação memorial não é apenas individual e particular, mas
social, ideológica, histórica e cultural. “Recordar, assim como esquecer, é, portanto, operar uma classificação de acordo com as modalidades históricas, culturais, sociais, mas também bastante idiossincráticas” (CANDAU, 2014, p. 84). A assimetria das relações que envolvem o tempo-espaço pela memória impõe ao indivíduo a necessidade de operar com as descontinuidades: mesmo/outro, semelhante/diferente, estranho/familiar, presente/ausente. A memória atua na linha da contradição, onde ‘um’ pressupõe ‘outro’, e o que ao mesmo tempo se revela se esconde, pois a memória é apenas uma parte de um todo recortado, dada a
dificuldade, senão da impossibilidade, de reviver o passado tal e qual; impossibilidade que todo sujeito que lembra tem em comum com o historiador. Para este também se coloca a meta ideal de refazer, no discurso presente, acontecimentos pretéritos, o que, a rigor, exigiria se tirassem dos túmulos todos os que agiram ou testemunharam os fatos a serem evocados. Posto o limite fatal que o tempo impõe ao historiador, não lhe resta senão reconstruir, no que lhe for possível, a fisionomia dos acontecimentos. Nesse esforço exerce um papel condicionante todo o conjunto de noções presentes que, involuntariamente, nos obriga a avaliar (logo, a alterar) o conteúdo das memórias (BOSI, 1994, p. 59, grifo do autor).
Nesse sentido, a Literatura autobiográfica se inscreve com e nas memórias, e nos dá o sentido de continuidade temporal, a sensação de que o tempo passado é acessível e submisso às nossas evocações, que, embora aparentem ser de ordem subjetiva, estão submersas em uma teia dialógica da comunicação do ‘eu’ com
‘outro’, dando ênfase ao caráter social e dialógico da memória.
Se, por um lado, as evocações sofrem interferências, por outro, a leitura que fazemos dessas evocações quando as verbalizamos também já não são as mesmas e nem expressam o que realmente foi. São representativas dos fatos alterados pelo tempo e de nossas ressignificações semânticas. Em uma análise mais metodológica, as representações dos fatos são aquelas “relativas à existência”, e as representações semânticas são as “relativas ao sentido atribuído aos fatos”
(CANDAU, 2014, p. 39). Assim, coexistem, simultaneamente, a memória factual e a memória semântica, sendo que ambas são indissociáveis à nossa formação. Elas se
tornam os fios condutores para constituição e representação do espaço autobiográfico.