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O Suicídio como Projecto: Leaving Las Vegas

No documento VIOLÊNCIA E CINEMA | LabCom (páginas 62-68)

II. Dor e Soberania: a Violência Sobre Si Mesmo

II.I. O Suicídio como Projecto: Leaving Las Vegas

aquele que conduz, num vórtice magnético, ao absoluto desprendimento das pulsões vitais e à recusa das feéries da existência? Só através de uma predicação negativa podemos descrever æ investigando ou sondando em esforço analítico (desmesurado e insuficiente) a intimidade æ o indivíduo que determina para si mesmo o trajecto do total despojamento e que nenhuma norma moral, nenhum sentimento de auto- compaixão, nenhuma assistência solidária, pode resgatar do domínio da mais violenta de todas as ocorrências: a morte, que enquadra e fecha todo o horizonte.

Em Leaving Las Vegas, Ben (um escritor decadente interpretado por Nicolas Cage) é um alcoólico crónico, uma alma cuja carência afectiva só tem equivalente na determi- nação com que assume o projecto de cessar a existência.

É um ser que parece — vã ilusão que as almas piedosas dos espectadores se reservam— suplicar um auxílio, mas em cujos clamores se aninha um desejo mais profundo: não se arredar da queda, da morte, destino que para si mesmo estipulou. Avesso a qualquer narcisismo auto-protector, ele torna-se um diletante: o hedonismo de um total despren- dimento para com o futuro une-se a uma destruição física dolorosa, mas apetecida. Numa lógica de dispêndio sem cálculo emocional ou resguardo, a vida serve-lhe apenas para ser gasta. O seu programa não podia ser mais brutal: consiste na negação ou (se lido sob uma diferente perspectiva, pois de uma experiência dos abismos se trata) na exorbitação do que se pode fazer da vida. Deixar a vida sair da sua órbita implica necessariamente votá-la a um caminho sem retorno, sem inflexão, sem arrependimento, sem traição.

Para ele, a violência do suicídio não esbate o desejo (ou a compulsão) que este reivindica. Ao ingerir doses desme- suradas de álcool, ele encontra o instrumento para cumprir

o seu objectivo. E, desse modo, submete o corpo a uma violência com a qual se pretende colocar suficientemente longe de todo o vínculo social, de modo que nenhum auxílio o possa socorrer. Incapaz de, por uma e última vez, lançar sobre si mesmo um olhar de esperança, de ouvir um cha- mamento moral que o subtraia às garras da delapidação da sua existência, de reavaliar qualquer pretexto que o faça comungar das expectativas e apologias do vitalismo, Ben adopta a violência sobre si mesmo como formulação da indiferença perante qualquer laço social ou enamoramento.

Mesmo se se enamora, é com a plena consciência da precaridade dos actos solidários ou das partilhas eróticas.

E, dessa forma, aceita sem desolação ou entusiasmo a contingência em que se sustentam e que constitui o fundo frágil em que se desenrolam as danças amorosas e se oferecem as fidelidades mais promissoras.

Ultrapassar “as proibições que limitam na base a sobe- rania do homem” (como diz Bataille, e entre as quais se conta a mais imediata, a de matar) é a forma de agir de Ben. Não é mais que um uso absolutamente soberano da sua existência, corpórea e social, aquilo que ele pratica. Neste sentido, ele é autenticamente soberano porque se coloca no

“ponto de indiferença entre violência e direito, no limiar em que a violência se transforma em direito e o direito em violência”, como refere Giorgio Agamben (p.39). Reverter a violência contra si mesmo, manifestando nesse acto o mais radical e inefável direito, eis o seu procedimento (num certo sentido, este procedimento suicidário que manifesta a so- berana decisão da auto-aniquilação é também aquele que orienta a acção de Bess no filme Ondas de Paixão ou de René Gallimard em M. Butterfly, como se verá em capítulos posteriores). A teleologia que determina a sua conduta é tão precisa quanto trágica: beber até morrer — no limite, dispor de si sem constrangimentos. Desempregado e divor- ciado, de rumo incerto de bar em bar, a linearidade do seu

percurso terminal não podia ser mais pura e, pela forma abnegada com que a conduz, poderíamos também dizer, mais bela. É uma expiação violenta e sem desvio, onde cabe a beleza do mundo (na forma das cumplicidades amorosas, obviamente, mas também, e esse é um sentimento quase inefável e incerto, na entrega a um procedimento de auto- destruição premente) como cabe a sua sordidez (a solidão irreversível e a sequente aniquilação de qualquer expectativa de re-ligação ao universo, de recuperação de uma presença válida). Paradoxo das almas inquietas, puras e órfãs, essa sordidez e essa beleza convivem nele como que sem opo- sição, como se a escolha e a fatalidade fossem indistrinçáveis nos seus contornos. E não se sabe nunca — mistério indecifrável que se abriga nas profundezas das almas — porque submete alguém o corpo a uma dor tão atroz quando os indícios de uma reconquista da felicidade ainda não se apagaram totalmente. A não ser que olhemos tal atitude como um acto de imaculada coragem: aceitar, para sempre e sem constrangimentos, uma decisão (última e sem reversibilidade) em todas as suas consequências: o fim da penúria existen- cial, do regime quantas vezes aleatório em que se processa a ocorrência do bem e do mal, da dor e do idílio.

Se um horizonte de felicidade pode ainda ser vislum- brado para Ben (antes de mais pelo espectador, desejoso de o reabilitar para o espaço da vida), é porque o percurso que o deve conduzir à morte parece algures poder ser interrom- pido pelos bons ofícios de um ser humano feito anjo que, como uma anunciação mística, aparição e promessa de um futuro radioso, se vem cruzar no seu caminho para o res- gatar. É o artífice e mensageiro de uma alternativa (o regresso à ordem social e à vida) que ele pode ou não escolher æ escolha soberana. Esse anjo é Sera (interpretação de Elisabeth Shue), fada ferida e perdida num inferno de sofrimento, crime, abuso e violentações: o universo da prostituição, do excremento, da imundície, da possessão desregrada. Na

existência desta, pautada pela violência irregular, a neces- sidade e a resignação misturam-se. O seu corpo e a sua vontade encontram-se tão objectivados, feitos mercadoria, quanto aprisionados. São dois destinos de desilusão e deriva que se tocam quando Ben e Sera se encontram, talvez para se oferecerem uma promessa recíproca de apaziguamento da violência a que se encontram submetidos, uma promessa de reunião que parece destinar, por inevitável necessidade, dois entes distantes ao reencontro — exposição clara da magia constitutiva de todas as partilhas amorosas. Sera oferece- lhe a fantasia de um afecto tão apaixonado quanto caritário.

Poderia ele vislumbrar aí uma apego salvífico, aceitar a assistência que ela lhe endereça, religar-se ao mundo? Quando, aparentemente, tudo lhe é oferecido, todo o auxílio está disponível, o que lhe falta ainda (e de que natureza é essa falta?) para se dispor a abandonar o destino tumular e retomar a vida como preservação e empreendimento? Tentemos com- preender indo ao pensamento de Sade e citando Bataille:

“Sade fala, mas fala em nome da vida silenciosa, em nome de uma solidão perfeita, inevitavelmente muda. O homem solitário de que Sade é o porta-voz não se importa, de forma alguma, com os seus semelhantes, porque é, na sua solidão, um ser soberano, que nunca se explica, que nunca tem contas a dar a ninguém” (p.166).

Insondável é a força ou o sinal com que o acaso ou o rito pode, a qualquer momento, resgatar alguém do abismo para onde a pulsão de morte parece inelutavelmente con- duzir. Como insondável é o seu fracasso. É isso mesmo que este filme nos mostra: seja compaixão ou obsessão, ou ambos os sentimentos, o amor de Sera não provoca qualquer reajustamento na trajectória que Ben gizou. Se a salvação algures parece possível é porque o espectador, por piedade, o quer salvar e se quer salvar. Mas, desconfiamos desde sempre, essa eventualidade está excluída, porque estas são

“personagens que ficaram para lá da vida, no limbo entre

a desistência e a morte” como referiu José Navarro de Andrade. Ben persiste simplesmente numa dimensão sem regresso: como quem entra no inferno, ao entrar no hotel onde esperará a vinda da morte, uma inscrição apresenta- lhe o sinal da perdição, como se os signos em volta só confirmassem o seu desespero: “The whole year in”, o nome do hotel, transforma-se, num misto de alegoria e penumbra, na realidade mais negra da sua alma: “the hole you’re in”.

Que nem um amor sem restrições, nem uma solidariedade piedosa, nem toda a assistência que Sera literalmente lhe devota, possam restituir-lhe um desejo de felicidade, uma sutura das feridas anímicas, só prova que o romantismo, todo o romantismo, tem no limite a figura incontornável da dilaceração. Assim, o extâse da intimidade é apenas com- parável à violência da separação. Que desejo move Ben e Sera? A ideia mais simples: um porto de abrigo temporário, um companheirismo sem preço, uma disponibilidade sem compromisso. Para Sera é ainda a entrega a uma expectativa e uma tarefa: recuperá-lo de um destino que ele não quer abandonar. No seu sofrimento individual, na sua perda de coordenadas e normas de acção, no casulo onde se isolam provisoriamente do mundo, eles são os ocupantes de um refúgio mútuo e gracioso. Mas nenhuma ética benevolente, nenhuma generosidade, nenhuma partilha pode escamotear o egoísmo auto-aniquilador de Ben. Encontrado o conforto na superfície do mundo e dos afectos, subrepticiamente aloja- se e irrompe o vórtice imparável da morte que o espera.

Que a violência desse destino se imponha sem que, por um momento, se perceba claramente a justificação de tão alarve extremismo, prova a contiguidade (ou a coincidência) com que a razão e a emoção, o discernimento e a devassidão partilham as almas e determinam os estados e os intentos destas. E, também, o quanto de violência e penitência o corpo e a alma estão dispostos a suportar em nome da assumpção de um mandamento que, afinal, não é mais que um calvário sem revisão possível.

Talvez possamos afirmar com alguma exactidão (cautela sempre necessária pois na hermenêutica dos afectos nenhu- ma ilação é definitiva) que para Ben a morte se configura e se impõe como a propriedade que falta à vida, como o momento e acto último onde todas as carências são supridas, onde todos os ideais e projectos se liberam dos seus embaraços: porque todo o esplendor de um refúgio encar- nado no outro, no parceiro, enferma de precaridade, porque nenhuma relação se afigura alicerçada na racionalidade e há-de perecer, o brilho da comoção que emerge da sua relação com Sera torna-se ainda mais resplandecente e, por isso, mais frágil. Nada é perene a não ser a morte, podemos adivinhar no pensamento de Ben.

No trilho que o conduzirá à violência da finitude, Ben deixa progressivamente de ser — a figura humana com que se nos apresenta é, nesse trajecto, decomposta e os sinais físicos desse facto são evidentes. Ele torna-se um espectro de decadência, mais cadáver e tormento do que pessoa, os gemidos da ressaca, as chagas da deterioração dão-nos a ver um vulto em queda, ao qual a luminária exuberante de Las Vegas mais do que um fundo contrastante, um negativo, faculta um sentimento de melancolia. Na solidão da grande cidade, como na penumbra do quarto, entre diálogos, ter- nuras, cisões, partilhas, crueldades e silêncios, Ben é ainda um ser comprometido, a sua vontade ainda lhe pertence, mas apenas com um propósito: que nenhum obstáculo venha entravar o seu desejo de morte, nenhuma dissuasão venha tolher a sua argúcia. Aceite a violência que os seus desígnios lhe impuseram, vive em recusa: de qualquer força exterior ou estratégia que o possa impedir de cumprir o seu acto soberano de receber a morte, seja a da razão vitalista e conservacionista, seja a do afecto e todas as suas promessas de idílio. Se pode ter alguma adequação falar de uma procura solitária do paraíso, se retomando uma ideia filosófica que é também um dogma ético, é de um anseio de felicidade

que Ben alimenta o espírito, nenhuma crença lho promete através de um regresso à vida, a uma vida nobre e aprazível.

Se tal paraíso existe, ele só pode estar para lá, muito além da morte. Uma acepção comummente partilhada faz acreditar que a felicidade se materializa em fragmentos, mas Ben quer a experiência total, seja silenciosa ou eufórica, dessa felici- dade — de qualquer forma nunca será a vida nem em vida.

Demitindo-se da vida, é na melancolia e no martírio da queda que encontra o caminho que o deverá conduzir a esse paraíso, mesmo se, todos o sabemos, a imagem da morte é a ficção mais cruel e emudecedora que se pode experimentar.

Aceitar cada qual na sua integridade voluntária e na sua condição foi o pacto que uniu Ben e Sera — pacto que ela, num ímpeto quase religioso de assistência, só pode desejar quebrar, em nome do amor, quando tenta salvá-lo do trilho sepulcral. Mas aquilo que acaba por fazer, nessa tentativa (fracassada) de ingerência, é iluminar todo o vigor da decisão de Ben. Cada qual está sujeito ao seu purgatório e não o pode iludir: ela exibindo as cicatrizes e nódoas (metáforas e metonímias) de uma vida de espancamentos e violências num mundo que, com demasiada frequência, substitui o respeito pela barbárie; ele expondo o seu corpo debilitado e deteriorado e a sua alma crescentemente apagada. Duas almas lançadas na vertigem da violência que um sussurro, como uma cintilação, pôde, por uns breves instantes, ilu- minar com a luz divina e ilusória da salvação: “ — És o meu anjo. — És o meu amor”. Leaving Las Vegas é melodrama penosamente ilustrado: romantismo, desespero, piedade, destruição — haverá espaço mais propício a uma eclosão da violência nos corpos e nas emoções?

II.II. - O Sacrifício Amoroso: Breaking the Waves

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