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Os altos postos e as alegrias da vida do crime

INTRODUÇÃO

Capítulo 3 O ex-traficante e o ingresso no crime

3.4 Da entrada na carreira do tráfico à crise

3.4.6 Os altos postos e as alegrias da vida do crime

Os relatos apontam que ninguém entra e permanece no tráfico de drogas por acaso. As explicações mais sistêmicas, que tentam olhar o ingresso na vida do crime pelo prisma da falta (de serviços, de oportunidades, etc), costumam deixar de lado os prazeres e a dimensão positiva

da carreira. Como notou Jack Katz (2008), o crime tem seu poder de sedução. Por isso, no caso do território da favela, ser traficante é, entre outras coisas, se destacar dos demais e, mais do que isso, é ser dotado de um poder especial. E quanto mais você cresce na hierarquia, mais esse poder se atualiza na pessoa e uma espécie de aura especial parece habitar o seu entorno.

Pato, por exemplo, fala do reconhecimento e do poder que se obtém com o ingresso e o crescimento na carreira do crime. Ele narra a mudança que sentiu quando chegou na posição de gerente das armas na Cidade de Deus. Mais até que o dinheiro, Pato destaca que o traficante de alta hierarquia

tem o poder, tem o poder de ser visto na comunidade que mora, tem o poder de passar e tudo mundo falar: ó, fulano, ó, cicrano. Falam por respeito, muitas vezes por medo, mas falam, tá entendendo? Às vezes chega à noite, [o traficante] pode ter gasto tudo que ganhou das cargas e estar até sem dinheiro para comprar uma quentinha, mas ele tem o poder na mão, tem o poder de ter uma arma na cintura, ele tem o poder de estar pegando as garotinhas, pegando as melhores gatinhas da comunidade; ele tem o poder de visto, de ser reconhecido. Ele é alguém.

De modo distinto, Maia enfatiza o dinheiro e a possibilidade de, com ele, inserir-se em um mercado de bens de consumo valorizados no ambiente da favela. Ainda, diz que as primeiras cargas vendidas já lhe possibilitaram ter esse prazer de ingressar em um novo ciclo de vida, em uma nova fase de desfrute de prazeres. Assim, Maia descreve a sua experiência:

Peguei a primeira, peguei a segunda, gostei, vi um dinheiro limpo, (...) comprei o primeiro tênis da Redley, comprei a primeira bermuda e aquilo ali..., eu fui gostando, nós somos cristãos, e a Bíblia diz que um abismo chama outro abismo, aquilo ali eu comecei a me aprofundar, me aprofundar, eu fui comprando roupa, fui comprando roupa, e fui gostando... A comunidade boa, fui ganhando namorada e aquilo ali, eu fui me aprofundando e fui me acostumando com aquilo ali. Conclusão: com o decorrer do tempo, já estava de vez no tráfico. E aí fui crescendo na hierarquia, mais dinheiro, mais fama, mais poder, mais dinheiro, mais tudo. Quando eu virei dono então, eu tinha um império. Era tudo meu. Eu passei a ter tudo isso em abundância.

Nilton relata a mudança que sentiu ao galgar os cargos da hierarquia do tráfico. E diz que, quando se tornou frente da favela, ele via que as pessoas lhe tratavam como

o rei da cocada preta. Um trabalhador não pegava a mulher que eu pegava. Eu não sabia ler, eu não sabia escrever, mas eu tinha as mulheres mais bonitas do Rio de Janeiro, tá entendendo? Porque o dono tava preso, eu era o presidente em exercício da favela, era eu que mandava e desmandava na comunidade. A maioria das coisas, eu é que decidia, porque era eu que tava na pista, botando a boca pra funcionar e coordenando as atividades aqui fora. Eu tinha poder de matar, tinha poder de tirar uma vida, isso é muito forte, tá entendendo? E as pessoas tinham que me obedecer. Eu era chamado de presidente, de papai, de patrão. E isso me deixava poderoso.

Dinheiro, fama, poder, drogas e mulheres são as benesses mais enfatizadas da vida do crime. Como todas as pessoas mencionadas chegaram a altas patentes, todos desfrutaram do que há de melhor na vida do crime. Os relatos dos ex-traficantes de alta hierarquia, ao falarem da vida antiga, ainda que façam questão de sublinhar que era tudo ilusório – já que hoje estão na igreja –, não deixam de ressaltar os prazeres e o poder que ela lhes conferia.

No entanto, ocorre que, com o tempo, os ex-traficantes costumam dizer que os prazeres passam a não compensar mais os problemas. A vida do crime “cobra o seu preço”, dizem os ex-traficantes. Além de várias situações de risco – o medo da morte e da prisão –, a experiência contínua de ver pessoas próximas morrendo, a impossibilidade de ter o direito de ir e vir, de não poder conviver em paz com a família, o medo contínuo da traição de amigos, o pânico que tem de morrerem e terem sua mulher e seus filhos sendo cuidados por um outro homem são apenas algumas das mazelas apresentadas pelos que saíram da vida do crime. Foi Maia quem disse:

De que vale você ter um império, um mundo dentro da favela, se você nem pode nem circular livremente na tua própria favela? De que vale ter vários homens fortemente armados sob o teu controle se você vive que nem um bicho pulando de galho em galho, as vezes com medo dos próprios parceiros te traírem?

3.4.7 “Alguma coisa está fora da ordem”

Depois de descrever uma trajetória de sucesso e certos prazeres na carreira do crime, os relatos de vida de convertidos aludem aos momentos em que as coisas parecem “estar fora da ordem” ou “sair do lugar”. Trata-se de algo semelhante ao que Anselm Strauss (2009, p. 95) fala, a respeito dos incidentes críticos que faz as pessoas perceberem que já não são mais o que eram.

Porém, quando isso ocorre, as reações variam de caso a caso. Maia, por exemplo, narra uma mudança de rumos na sua vida a partir da segunda vez que foi preso. Se, na primeira vez, ele diz ter se envolvido ainda mais, em razão da rede de contatos que ele passou a fazer dentro do “universo da criminalidade”, da segunda vez, a prisão parece ter tido um efeito contrário.

Ao invés de fazê-lo engajar-se ainda mais na vida do crime, o segundo período na prisão o fez ter uma apreensão mais reflexiva da vida que vinha levando. Ele diz que nessa vez, na qual ficou preso por nove anos, passou a ter outra perspectiva acerca de sua vida e, motivado pelo contato com um grupo religioso que começou a evangelizá-lo, Maia diz ter mudado sua visão com relação à família e ao futuro que gostaria de ter dali em diante.

Quando eu cumpri a minha segunda sentença (nove anos), a minha mentalidade começou a mudar. Na rua não tinha como refletir porque eu estava no auge, eu andava pra lá e pra cá com vários homens à minha disposição, eu tinha o que eu queria, mulheres à minha disposição. O sucesso, a gente deixa subir à cabeça. É uma cegueira.

O Diabo engana mesmo a agente. A gente quando tá no poder, a gente não pensa. Não adianta falar que não tinha medo, porque eu não tinha só quando tava drogado, endemoniado. Mas quando eu estava em sã consciência, o medo vinha. Ninguém quer morrer. Imagina você pensar que pode ganhar uma rajada de fuzil no meu corpo... Aí, o que eu pensava? Minha mulher vai ficar pra outro. Um outro cara vai cuidar das minhas filhas. A minha mãe vai sofrer. Então aquilo tudo vinha à mente. Mas quando [a gente] se drogava, botava um fuzil, botava um baile da Furacão 2000, aquele pensamento ele fugia. O que vinha? O pensamento do auge, do sucesso, da fama, tá entendendo? É assim, irmão. A vida do criminoso é assim. É entre altos e baixos. Foi onde um dia mais uma vez eu fui preso. Aí eu parei de usar cocaína, parei de usar tudo, e a minha consciência começou a mudar. Comecei a conhecer alguns cristãos que começaram a pregar a palavra de Deus pra mim, foi aquilo que começou a [me fazer] refletir, eu comecei a ver um montão de jovem que se idolatrava em mim, que se espelhava em mim, queria ser um Maia futuro, e eles estavam morrendo. Aquilo ali começou a pesar minha mente... Deus trazendo à minha memória de todos os erros que eu tava e tinha cometido. Foi onde eu comecei a botar no meu coração: quero mudar. Desejava ter a minha família construída, ser um bom exemplo para as minhas filhas, para minha esposa, para os meus pais. E também para a comunidade, né?

Porque um dia eu destruí muitas vidas. Eu fui um mau exemplo para a comunidade, e eu queria retribuir isso..., não era [então] continuando no crime, nem dando dinheiro para ninguém. Se eu fui um espelho pro mau, agora eu tinha que mudar esse quadro da minha vida, tinha que ser um espelho pro bem, foi onde eu decidi, ouvindo a palavra de Deus, mudar a minha vida. “Chega, eu tenho que dar um basta nisso tudo.

A minha idade tá chegando, já vi todo mundo morrendo, e eu não quero morrer também.”, eu disse pra mim.

Além disso, Maia começou a repensar o seu papel dentro da comunidade. Se antes, como líder do tráfico, ele acreditava fazer o bem da favela, ele relata que, com o tempo, se deu conta de que os problemas que ele mesmo resolvia eram em grande parte causados pela boca de fumo da qual ele era o líder e chefe maior.

Eu, falando de mim, né? Maia! Porque eu não posso envolver segundos e terceiros, independentemente deu ser traficante, ser líder, eu tinha um coração, eu achava bom, ainda que a minha vida estivesse errada, mas eu tinha um coração bom. Pessoas chegavam, com necessidade de um gás, de remédio, de tudo, de tudo..., tudo o que estava ao meu alcance, até casa eu cheguei a dar; aluguel, cheguei a pagar muito, pra muitas pessoas, e existia..., Então a gente ajudava, ajudava muito. Com gás, com remédio, com aluguel, com passagem, com tudo. E existia casos de briga de família, a gente tinha que chegar ali, ia lá e separar. [Casos] de esposo batendo em esposa, a gente chegava ali e dizia: “ó, se não parar agora, a gente vai te cobrar…” Tudo isso.

Todos os tipos de problema, a gente procurava solucionar. Eu agia aqui como um verdadeiro líder, ainda que do lado do mal. Porém, a gente resolvia as coisas pelo lado do bem. Pessoas que estavam sendo sufocadas, massacradas, agredidas, elas recorriam ao Maia. Quando eu não podia ir, eu mandava meu subordinado:” Vai lá e resolve isso agora”. Filhos batendo em mãe também, porque isso acontece muito com drogados.

E eu ia lá: “meu irmão, se você não parar, você vai sofrer o reflexo”. Porém, isso acontecia, mas isso também pesou na minha consciência. Eu comecei a entender que muitos erros que aconteciam na comunidade eram minha culpa. Eu vou explicar isso:

um filho drogado agredia a mãe, mas quem tava vendendo a droga pra ele? Era o Maia. Quem tava liderando, quem tava distribuindo? Era o Maião (o antigo homem que habitava em mim). Se um esposo drogado, que deixava de levar o leite pro teu

filho, fazia compra, pagava luz, água..., [de repente] gerava uma briga com a esposa..., para onde tava indo o dinheiro dele? Aquilo começou a pesar na minha consciência, ou seja, muitas brigas, muita confusão, muita destruição dentro da comunidade, eu comecei a entender que tudo tinha a ver comigo. Eu, Maião. Então eu comecei a refletir dentro da cadeia. Eu vivia até então em uma cegueira. Está escrito na Bíblia, na Bíblia existe uma palavra... 2ª. Coríntios, capítulo 4, versículo 4... O Deus desse século, que é o Diabo, cegou o entendimento dos incrédulos, para que não nos resplandeça a luz do Evangelho, a luz de Cristo, que é a imagem de Deus. O que quer dizer isso? O Diabo cega o homem, dá fama, dá ilusão, da sucesso, dá tudo. Tudo o que o Diabo pode dar ao homem, para ofuscar, para que ele não entenda..., o Diabo oferece. Mas aí você vira uma marionete na mão dele, quando você acha que você é o tal, você não passa de uma marionete usada por Satanás para satisfazer a vontade dele.

O processo descrito por Maia lembra aquele descrito por William James, a respeito da mudança de opinião. Segundo o filósofo pragmatista americano:

o processo é sempre o mesmo. O indivíduo já tem um estoque de velhas opiniões, mas se depara com uma nova experiência que as coloca em processo de triagem. Alguém as contradiz; ou então, em um momento de reflexão, descobre que elas é que se contradizem umas com as outras; ou toma conhecimento de fatos com os quais são incompatíveis; ou surgem desejos que elas deixam de satisfazer. O resultado é uma perturbação íntima, à qual até então o seu espírito tinha sido estranho, e da qual procura escapar modificando a sua massa prévia de opiniões. (JAMES, 1967, p. 50- 51).

Assim como Maia, Pontes também passou a refletir melhor sobre a vida quando foi preso e, então, teve um momento reflexivo que o fez rever tudo que vivera até aquele instante.

Pontes diz que na cadeia começou a pensar no Geraldão (um jovem que ele próprio tinha matado) e teve vontade de pedir perdão, passando a sentir culpa por vários atos de crueldade que ele tinha cometido. Além disso, Pontes começou a ter surtos de paranoia que, progressivamente, foram tornando a sua situação no tráfico insustentável; começou a ter visões e a achar a todo momento que pessoas próximas estavam tramando para matá-lo. A seguir, ele descreve detalhadamente essa experiência de paranoia:

Eu olhei pro meu primo e falei pra mim mesmo: "Meu primo tá mandado, quer me matar!" Eu achei mesmo que ele queria me matar, o Bico. Eu fiquei olhando estranho para ele e ele perguntou: "O quê, rapaz?" Aí eu falei: "Ó, tu num tenta não, hein? Tu num tenta, não! Tu tá ligado, rapaz?”. Do nada, eu comecei a achar que ele tava tramado com os caras pra me matar. Tô dormindo angustiado, aí no outro dia eu acordei. Eu só andava com o responsável da comunidade... Aí ele me ligou e perguntou: "Ô, Bola, tu tá aonde?" Eu respondi: "Eu tô aqui, vem cá, vem aqui na praça"... Aí tava eu e ele lá na pracinha, irmão, daqui há pouco, eu vi doze viaturas passando, doze viaturas, mas não tinha nada. Eu vi lá na X, e a favela arregrada, cara.

Aí eu falei assim pra mim: "Os cara tão tudo tramado aí". Eu tava vendo os cara, mas não era nada, não tinha ninguém. Hoje eu vejo que era Deus que tava me dando aquela visão. Aí eu falei assim pro responsável: "Vamos embora, vamos sair daqui, olha os homens lá". Aí foi onde eu entendi que eu tava vendo as coisas, mas ninguém tava vendo, entendeu? Aí começou a ter comentário que eu tava ficando... entendeu? Aí eu tô lá dizendo: "olha lá os homens lá, irmão, nós tem que correr". Aí eu botei a mão na

cabeça e pensei: “eles [os meus amigos do tráfico] chamaram os homens (policiais) pra me matar!” Entendeu? Eu achei que os caras tavam tramado junto com os homens (policiais)... Eu vendo... Aí eu tive a certeza que eu tava ficando meio coisa... Outro dia tamo lá no campo, daqui há pouco eu tô escutando tiro, eu tô escutando tiro. E aí eu falei: "sujou" e todos viemos correndo. E o responsável tava comigo e só ria,

"quaquaquaqua", só dava risada... E já tava rolando aquele comentário que eu tava ficando... entendeu? Aí chega aqui meu irmão, com maior cordãozão de ouro: "Pô, num quer comprar não, Bola?" Ah, rapaz! meti a mão na [pistola de marca] Rugle, aí falei: "Ah, tu tá mandado, rapaz! Cocada, vem cá Cocada!” E ele perguntou: "Quê foi, rapaz?" Eu peguei a pistola assim, mas eu peguei ela apontada pra mim entendeu?

Com o cabo assim virado pra ele e falei: "Toma aí, rapaz, não tenho vacilação, não!".

Aí falei: "É, num tenho vacilação com ninguém não, vocês querem me matar?" Aí ele:

"Qual foi?" Eu falei: "É, rapaz, todo mundo me olhando aí, e você tá querendo me matar, rapaz! Num tenho mancada com ninguém, não tenho vacilação”. Aí ele começou rir ("quaquaquaquaqua"). E ele me disse: "tu tá louco?" Eu falei: "Tá louco o quê, irmão! Puxa meu fundamento aí, foi quem que eu caguetei? Quê que eu já roubei da boca? Tu sabe aonde que eu, eu sei de tudo irmão, nunca vacilei com ninguém! Aí ele: "Rapaz, olha o que você tá falando!" Eu falei: "Olha o que você tá falando o quê... todo mundo sabe... todo mundo me olhando aí". Todo mundo passou a ficar com medo de mim. Quando eu chegava, os caras deixavam já as pistolas na cintura e falavam: "E aê, Pontes, tá tranquilo rapaz, entendeu?” Aonde eu chegava eles tava com medo geral, geral! E começaram a falar que eu tava ficando maluco...

Até que o Cocada, o responsável, falou assim: "Leva ele agora lá no pastor Alexandre, porque ele não tá normal". Mas eu não queria ir, eu achava que aquilo era uma trama pra me matar. Ele dizia: "Vambora irmão". E eu respondia: "Vambora o quê, rapaz?

Vocês quer me matar!” E eu fui piorando, ficando mal, aquilo começou a mexer comigo. Aí eu já não tava conseguindo comer já há dois dias, aí minha cabeça ficou mais... entendeu? E eu sabia de muita coisa, eu sabia onde tinha duzentos caroço, duzentos mil não sei quantos quilos de cocaína, eu sabia de tudo onde é que tava, onde que não tava. Eu sabia quem era o tesoureiro, sabia tudo, entendeu? Só comigo ficavam dois fuzil, entendeu? Aí eu comecei a ficar com mais medo ainda. Porque como eu ficava dizendo que eles tavam querendo me matar, eu comecei a achar que por eu ta falando aquilo, eles iriam passar a achar que eu tava com culpa no cartório e iam achar que eu tinha feito alguma coisa. E aí iam querer me matar mesmo. Aí eu pensava: "Rapaz, se alguém roda, se alguma coisa acontecer, isso vai cair nas minhas costas.

Pato também passou a ver a vida no crime de outra forma a partir de um determinado momento. Se antes, mais jovem, ele dizia que tinha uma disposição especial para enfrentar os riscos das situações do crime, depois de um tempo, começou a temer a morte. Também fala de sua filha e de experiências que ele considera inexplicáveis, sendo dois os fatores que o teriam motivado a refletir sobre um sentido mais profundo da vida que estava levando.

Eu comecei a parar para analisar: eu tenho uma filha, minha filha cresceu e eu não pude viver muitas coisas com ela. Minha filha também passou situações comigo que contando assim, é inexplicável, só Deus mesmo, tá entendendo? Cheguei a passar assim, por coisas que eu falava: “Caramba eu estou vivo cara, como eu passei por isso e estou vivo?” Uma vez eu estava morando por um tempo na Ilha do Governador numa comunidade – porque eu tava pichado na Cidade de Deus–, e uma facção invadiu o morro lá. Estávamos eu, minha filha, minha ex-esposa e umas outras pessoas numa quitinete, uma quitinete pequena, tá entendendo? Só um quarto, uma cozinha, um banheiro. E ali, entraram três traficantes dentro daquela quitinete, tá entendendo?

E os traficantes entraram me procurando. Uma garota entrou na frente falou: “Que isso, que isso, polícia!” E disse: “não tem ninguém aqui dentro, não!” O traficante falou: “Eu não sou polícia, não, eu sou fulano de tal, do morro tal, e eu quero fulano

de tal”. Nisso, eu estava sentado na cama assim, não tinha pra onde esconder, não tinha, eu olhei pro meu cumpadre, e falei assim: “Cara, que isso, cara”, olhei pra ele e falei: “é os alemão: depois de tanta luta, eu vou morrer nas mãos desses caras!”. E ali, a minha filha chorando assim. Os três traficante entraram cada um com um fuzil, entraram dentro da casa, viraram de costas pra mim, tiraram a toca, e falaram assim:

“só quero quem é da facção tal, que era da facção rival da dele” (...), e para honra e glória de Deus, ele não me viu, eu ali dentro daquela casa, não sei como, só Deus mesmo, eu creio que ali naquele momento, Deus, botou a mão assim, cegou eles, eu não sei, sei que eles não me viram, e tem pessoas que testemunharam esse fato. Como aconteceu também, da outra vez: eu estava aqui na comunidade, a gente estava numa moto, montado numa moto, que quando eu e mais um chegamos ali atrás do X, quando eu olhei assim, que vi tudo vazio, com um rapaz que a gente tinha deixado na contenção, o rapaz não tava, eu virei e falei assim: “Domdom, volta que tá estranho”.

Quando eu falei volta que tá estranho, os policiais estavam todos de tocaia, tá me entendendo? Em cima de uma loja, deitado assim, na entrada do Sitio, e ali foi muito tiro em cima da gente, muitos tiros, muito tiro, deveria ter uns 12 policiais, tá entendendo? Tudo dando tiro, muito tiro, muito tiro, muito tiro, esse jovem, que estava comigo, tomou três tiros, eu sentado na garupa dele, e ali nós conseguimos passar por aquele tiroteio. Eu socorri ele, carreguei ele nas costas, e quando eu cheguei em casa, tinha (só Deus, mesmo cara!) tinham três tiros na minha roupa, minha calça estava com um tiro e minha blusa com dois tiros, furado assim, a blusa e a calça, mas em mim, não tinha pegado nada! Antes disso, no Jacaré, um rapaz tentou me matar, ele me deu quatro tiros, me deu muitos tiros assim, os quatro pegaram em mim, também, mas não arrancou órgão nenhum meu, não foi um tiro que causou lesão grave em mim, então foi mais um livramento que Deus me deu! Eu tenho livramentos, muitos outros livramentos, muitos outros livramentos de policiais, é eu defrontar com policial, cara cara, distância de dois ou três metros assim, e o policial, já de arma empunho gritando:

“Perdeu, perdeu, perdeu!”, eu falei “Perdi”, e quando eu fui botar a arma no chão, eu corri, e ali o policial começou a dar tiros em mim, eu muito próximo dele, e baleou morador, baleou criança, mas eu consegui sair sem ter eu ter ganhado nenhum tiro. E outros livramentos mais, tá entendendo? Aí, eu comecei a parar analisar, que um dia Deus poderia ser cansar de mim, tá me entendendo? E deixar algo acontecer comigo.

Eu tinha uma filha, o que seria de minha filha, se eu morresse? E, como eu estava falando um minuto antes, eu tinha dinheiro, tinha mulher, tinha poder, mais tinha algo que nada preenchia dentro de mim, nada preenchia nada, eu sempre fui de usar muitas drogas, eu era de usar muitas drogas: usava ecstasy, usava maconha, só não cheirava cocaína. Eu usava o envenenado, misturava pó, maconha e crack, fumava haxixe, eu usava tudo que era droga, só não cheirava cocaína porque me deixava depressivo. Aí depois, eu comecei a perceber que não servia mais pro crime. E eu percebi quando eu comecei a ficar com medo das coisas, tá entendendo? Na época, eu tinha uma disposição tremenda pra trocar tiros, eu tinha disposição pra assaltar, assaltava carro forte e tudo, mas depois eu comecei a ficar com medo. Eu falei: “Pô, se eu morrer, minha filha vai ficar sozinha!” Comecei a ficar com medo, ficar com medo, tá entendendo? Aí, eu calculo que isso foi com uns 26, 27 anos, aí eu comecei a ficar com medo.

Se Maia e Pontes passaram a ter uma outra visão sobre o tráfico a partir da prisão, Pato mudou, de pouco em pouco, sua perspectiva através de um conjunto de experiências. Com o tempo, ele próprio, assim como Pontes, passou a ser ver como inapto para o crime. Enquanto Pontes foi por causa da paranoia, Pato foi pelo medo.

Nilton e Tuca, de modo distinto aos outros três, passaram a repensar a vida de traficante a partir das tensões internas com outros membros da própria quadrilha do tráfico de drogas. A situação de Nilton e Tuca parece ter sido mais repentina e menos molecular, isto é, gerada mais por um acontecimento crítico e repentino do que pelo acúmulo infinitesimal de pequenas