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O surgimento da favela Cidade de Deus

INTRODUÇÃO

Capítulo 1 Dois movimentos paralelos: a “onda de violência” e a “onda pentecostal”

1.2 O surgimento da favela Cidade de Deus

geral entre os moradores de que “tudo estava voltando a ser como antes”. Bandidos andando armados de pistola, vias fechadas com sofás, troncos de árvores e outros artefatos, traficantes circulando com sacos de droga visíveis e de modo tranquilo, além de um retorno, ainda que menos frequente do que no período pré-UPP, de troca de tiros, eram alguns dos elementos apontados pelos moradores para dar validade a sensação de uma volta ao que vivam antes da presença permanente da polícia no território. Por isso, se no início do trabalho de campo eu ouvia frequentes relatos por parte dos crentes de que os efeitos positivos da UPP eram resultados das orações do povo de Deus, no final do campo escutei, com relativa reincidência, crentes falarem de revelações nas quais Deus já teria, desde muito antes do declínio do projeto, apontado que a UPP não passava de uma “maquiagem”.

Na próxima seção, irei contar em detalhes como e em que contexto ocorreu o surgimento da favela Cidade de Deus, apontando, em seguida, como ela é um caso emblemático do crescimento da onda de violência e do aumento do pentecostalismo que ocorreu nas regiões pobres e periféricas do país. Em seguida, conto como a história do pastor presidente da ADEP – e da própria ADEP – tem a ver com a história desse duplo crescimento nos territórios da pobreza. Por fim, na última parte, mostro como esse crescimento concomitante no mesmo território entre pentecostais e traficantes acabou gerando uma teia de interdependências e um circuito de trocas entre um e outro.

hegemonia do discurso remocionista. Assim, foram construídas 173324 habitações populares entre 1964 e 1969, 65633 entre 1970 e 1974 e 469599 no período de 1975-7830 (AZEVEDO, 1979, p. 103). O foco dessa política remocionista incidiu, sobretudo, sobre os assentamentos da população pobre situados perto de encostas e na Zona Sul, deslocando assim seus moradores para locais mais distantes e menos valorizados, como a Zona Oeste e a Zona Norte do Rio de Janeiro.

É nesse contexto que o conjunto habitacional da Cidade de Deus começou a ser construído pela COHAB (Companhia de Habitação Popular) com financiamento da USAID (United States Agency for International Development)31 no Governo de Lacerda, tendo suas obras sido terminadas no Governo de seu successor, Negrão de Lima (1965-1971) 32. Segundo Giussepe Badolato, idealizador do projeto arquitetônico do conjunto habitacional, o desenho inicial da Cidade de Deus consistia em prédios que seriam designados para a população removida de 63 favelas cariocas distintas – sendo as mais significativas a Praia do Pinto, a Rocinha, o Parque do Leblon, o Parque da Gávea, a Catacumba e a Ilha das Dragas”

(Valladares, 1976; Abreu, 1997; Zaluar, 2000) – e mais 2500 casas que foram vendidas a funcionários públicos do antigo Estado da Guanabara (Mello, 2010).

O conjunto habitacional começou a ser ocupado entre 1965 e 1966 (ZALUAR, 1985, p.67). Quando as primeiras famílias nele chegaram, ainda não havia na Cidade de Deus qualquer infra-estrutura em termos de comércio ou serviços públicos. Como lembra Mello (2010, p.43), naquele momento, “as residências, ainda em fase de conclusão, eram muito precárias, não dispondo de rede de esgoto, abastecimento de água ou energia elétrica”.

Valladares (1978), a partir de uma pesquisa realizada no ano de 1970 na Cidade de Deus, verificou a existência de um sistema hierárquico na distribuição de habitações adotado pela COHAB, que consistia na distinção das residências segundo a origem dos futuros moradores.

A classificação adotada baseava-se nas categorias “removidos”, “inscritos” e “invasores”. Os

30 Essas oscilações ocorreram porque “nos períodos mais autoritários, em que o voto do favelado deixava de ser importante, a política de remoção compulsória era executada, enquanto que em períodos populistas medidas de urbanização das favelas ainda existentes e critérios voluntários de inserção no programa eram adotados (LEEDS

& LEEDS, 1978; VALLADARES, 1978, p. 26-27). Outros autores assinalam, entretanto, as flutuações ocorridas durante a vigência do regime autoritário vinculando-se à necessidade de obter ou não base social de sustentação do regime (PORTES, 1978, p.135-136; AZEVEDO, 1979, p.108-109). Quando o regime buscava apoio popular, o mercado popular de habitação era mais incrementado, quando este apoio tornava-se irrelevante, os mercados médios eram amis atendidos em detrimento do mercado popular” (ZALUAR, 1985, p.65).

31 Segundo Mello (2010, p.31), este órgão, através do chamado acordo do trigo, investiu cerca de três milhões de dólares em projetos, cujo objetivo era a urbanização de favelas.

32 Zaluar aponta que, no mesmo período, outros conjuntos, como a Vila Aliança ou a Vila Kennedy, também foram construídos, mas ficavam nos subúrbios distantes e a “Cidade de Deus era o conjunto maior, tendo inicialmente 6.658 unidades habitacionais, ao passo que a Vila Kennedy reunia 5.509 unidades e a Vila Esperança, apenas 464.” (ZALUAR, 2007, p. 2).

primeiros designavam a população retirada de diferentes favelas localizadas e levados compulsoriamente para o conjunto. Eles não tinham o direito de escolher a localização ou do tamanho da nova moradia. Os “inscritos”, por sua vez, eram funcionários públicos, em sua maioria da Policia Militar, cadastrados previamente na COHAB, por isso tinham poder de escolha das melhores residências (MELLO, 2010, p. 45). Já a categoria “invasores” foi usada para designar a população oriunda de áreas atingidas por fortes enchentes que ocorreram em 1969. Essas pessoas não tinham contrato específico de moradia com a COHAB e, inicialmente, invadiam casas que ainda não tinham sido concluídas, nas quais não havia qualquer saneamento básico. Posteriormente, elas foram alocadas em abrigos provisórios, chamados de “triagem”, financiados pelo próprio Governo Estadual. Mas, como resume Mello (2010, p.47), “o que era para ser provisório se tornou permanente. Nos abrigos de um cômodo, sem luz, água ou esgoto, se fixou uma população oriunda de diversas favelas cariocas extintas por enchentes ou incêndios”.

Mello também destaca que as categorias “removidos”, “inscritos” e “invasores”

acabaram sendo utilizadas pelos moradores para produzir a delimitação de fronteiras entre eles.

Assim, de uma classificação formal essas categorias passaram a ter um sentido próprio para os residentes de diferentes lugares da Cidade de Deus que passaram a utilizá-las para se identificarem e se posicionarem uns em relação aos outros. Como afirma Mello (2010):

Nos primeiros anos de formação do Conjunto Habitacional a representação preponderante sobre ele, entre grande parte dos moradores, era a de um espaço multifacetado, composto por uma população heterogênea diferenciada entre si segundo critérios de origem e tipos de moradia. Assim, na leitura dos moradores, os

“inscritos”, de origem não favelada, passaram a ser identificados como os habitantes das “casas”, local considerado central e, portanto, mais valorizado. Já os “removidos”, de origem favelada, correspondiam aos residentes dos “Apês”, área percebida como periférica, associada a “desordem” e a “bagunça”. No limite extremo estavam os

“invasores”, ocupantes das “triagens”, também oriundos de favelas, porém, em situação irregular e sem previsão legal para alocação nas residências. Sobre estes a visão mais imediata era de um grupo “perigoso” e “agressivo”, cujo contato devia ser evitado. (MELLO, 2010, p.40)

Mello (2010) ressalta que a chegada dos chamados “invasores” foi vista por muitos moradores como um marco determinante na configuração que o bairro assumiria posteriormente. As invasões foram percebidas de certa forma pelos residentes “inscritos” como responsáveis pela passagem do status de bairro à favela. Com o adensamento do conjunto, ele foi transformando-se e sendo progressivamente percebido como uma favela. Valladares aponta que já na década de 1970 era possível notar que estavam ocorrendo transformações que contribuíam para que o conjunto ganhasse uma nova fisionomia:

Quem não pode construir muros revestidos, de tijolos, improvisa cercas com os mais variados elementos (tábuas, folhas de zinco, cabos de vassouras, molas de colchão, etc.); quem não tem condições de aumentar a área construída com material de alvenaria, puxa um cômodo de madeira no estilo barraco da favela. Em muitos casos, utilizam a habitação também como ponto de comércio, seja instalando uma birosca na sala do apartamento, seja construindo uma uma tendinha em frente à própria casa. Há casos ainda de habitações que servem também de oficinas mecânicas (ferreiro, conserto de rádio, tevê, geladeira, etc.), ou de local de trabalho manual (sapateiro, costureira, etc.). (VALLADARES, 1978, p.102)

É interessante notar que se a Cidade de Deus surgiu como uma “solução”33 para o

“problema” da habitação de parte da população favelada carioca que foi removida de outras áreas, menos de duas décadas depois que o conjunto foi inaugurado, ela já começava a configurar-se como um “problema” para a “segurança pública” carioca. Como resume Mello:

no processo de sua formação houve a confluência de políticas públicas habitacionais que podem ser resumidas através dos seguintes objetivos: remover as favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro, acomodar desabrigados das enchentes de 1966 e 1967 e resolver o problema de moradia para funcionários públicos do antigo Estado da Guanabara, que formavam uma classe média emergente. (...) Houve um distanciamento cada vez maior entre a concepção original do conjunto habitacional da COHAB (e suas promessas) e os resultados de sua implantação. Assim, nos anos oitenta, pouco mais de uma década depois do surgimento do bairro, as notícias que circulavam nos principais jornais cariocas sobre ele destacavam a crescente criminalidade associada à introdução do tráfico de drogas no local, a expansão de loteamentos irregulares e a ausência de serviços de infraestrutura básica. Aspectos que, sem dúvida, concorreriam para situar o bairro, dentro do cenário urbano carioca, como uma das favelas mais violentas. Neste contexto, a Cidade de Deus passa gradativamente de “solução” do problema de habitação para a população favelada – conforme preconizado pelas políticas públicas da época –, e transforma-se em questão de “segurança pública.

(MELLO, 2010, p. 51)

Zaluar aponta que ao chegar à Cidade de Deus em 1980 – para dar início à longa pesquisa etnográfica que realizou no conjunto –, os habitantes já viviam sob a tensão gerada por conflitos armados que ocorriam na localidade. Segundo a antropóloga, nesse período, já havia na Cidade de Deus fuzis, “três-oitões” e uma guerra entre quadrilhas que gerava um crescente número de mortes violentas:

Quando lá cheguei, no início do ano de 1980, as notícias nos jornais diários eram desabonadoras da vida no conjunto, limitadas que estavam à guerra de quadrilhas que havia se iniciado no ano anterior e que já deixava vários mortos. Era o auge do que alguns de seus líderes comunitários, consideravam como uma campanha negativa que visava desalojá-los do local. O noticiário policial, então, já não comportava todas as

33 Como aponta Valladares, “no decorrer dos anos 1960, a tendência dos diferentes Estados latino-americanos foi, de fato, investir em grandes projetos de construções de habitações sociais convencionais destinados à remoção dos habitants dos bairros “marginais” (GILBERT & WARD, 1985, p. 12-13). Pouco a pouco, vários fatores constribuíram no sentido de recolocar em questão essa maneira de ver a favela como problema, e a sua remoção em operações massivas para novas habitações como solução” (2005, p.130).

notícias sobre a crescente criminalidade na cidade do Rio de Janeiro e se espalhava por outras folhas, anunciando às vezes em manchetes de primeira página. O teor dessas notícias era claramente sensacionalista: a criminalidade incontida, a violência cada vez maior cometida durante assaltos, o clima de guerra em que estavam envoltos os bairros pobres onde atuavam qualidades de traficantes de tóxicos. Cidade de Deus era apontada como um dos principais focos do tráfico de maconha e, portanto, do clima de guerra e violência que tomava conta da cidade. Havia realmente uma guerra entre as três principais quadrilhas da Cidade de Deus. Mas essa guerra tinha regras que tornavam a sua violência até certo ponto compreendida pelos moradores locais.

A guerra era assunto dos “bandidos” apenas. O resto da população vivia o seu cotidiano de trabalho e de luta para manter um padrão de vida digno. Os jornais confundiam o que deveria estar claramente separado, além de difamá-los por não mostrarem o lado “bom”, positivo, do conjunto. Isso só acrescentava dificuldade ao seu viver, já tão prejudicado pela pobreza, e os “revoltava”. (ZALUAR, 1985, p.13)

Se logo no início da ocupação da Cidade de Deus as categorias “removidos”, “inscritos”

e “invasores” eram importantes para entender a heterogeneidade da população que passou a habitar no conjunto, Zaluar indica que duas décadas depois, outras categorias passaram a ser fundamentais para compreender a sociabilidade local. Entre elas detacavam-se as categorias de

“trabalhador” e “bandido”. A autora aponta que na década de 1980 se, por um lado, o trabalho era apresentado como uma “fonte de superioridade moral dos trabalhadores e seus familiares”34 (1985, p.146), por outro, as armas passaram a ser ostentadas pelos bandidos como uma indiscutível fonte de poder.

O aumento da quantidade de armas de fogo, assim como o crescimento da ocorrência de tiroteios, de venda de drogas, de “guerras” e de mortes violentas na Cidade de Deus começou a ganhar destaque na mídia carioca entre os anos 1980 e 1990. Foi assim que, como resume Mello (2010, p.53), a Cidade de Deus “começou a ser identificada (...) como uma das favelas mais temidas do Rio de Janeiro”. Segue abaixo algumas notícias que me foram cedidas por um morador da Cidade de Deus que, ao longo dos anos, acumulou um vasto material de notícias acerca da favela:

Fotografia 1 – Notícias sobre a Cidade de Deus

34 Cabe notar que a categoria “crente” não era apontada pela autora como significativa para produzir distinções morais com relação aos bandidos locais.

(a) (b)

(c) (d)

(e) (f) Fonte: Acervo do autor, 2015.