distribuem entre grupos raciais, que se reproduzem nos âmbitos da política, da economia e das relações sociais cotidianas.
Devo destacar que o debate sobre o racialismo e o racismo esteve presente na literatura desde o século XIX, inclusive na formação dos Estados nacionais e da descolonização da América Latina. Os Estados europeus ao tentarem justificar a colonização e, por vezes, com objetivo de explicar o porquê da América Latina não ter capacidade de ser independente, utilizam o cientificismo, especificamente o racialismo para explicar as diferenças entre as raças e reafirmar sua superioridade. Após a Segunda Grande Guerra, quando se tornam públicos os resultados do que foi o nazismo para os judeus, é possível ver emergir no novamente as teorias racialistas. A ONU, através da UNESCO, organiza uma força-tarefa em resposta ao holocausto, mobilizando biólogos, historiadores, antropólogos e outros cientistas a fim de provar que as raças não existem no sentido biológico, como já dito.
Finalmente, na Primeira Declaração sobre Raça da UNESCO a afirmação “raça é menos um fato biológico do que um mito social e, como mito, causou severas perdas de vidas humanas, escravização, desumanização, desigualdade, destruição de modos produtivos, etc.
O racismo articula- se com a segregação racial73, ou seja, a divisão espacial de raças em localidades específicas – bairros, guetos, bantustões, favelas, periferias etc. – e/ou à definição de estabelecimentos comerciais e serviços públicos – como escolas e hospitais – como de frequência exclusiva para membros de determinados grupos raciais, como são exemplos os regimes segregacionistas dos Estados Unidos, o apartheid sul-africano, no próprio Brasil; para autoras como Michelle Alexander74 e Angela Davis75, o atual sistema carcerário estadunidense.
Vou justificar mais adiante minha defesa sobre como o racismo brasileiro também se materializou segregando, discordando de autores que não observaram dialeticamente a realidade do país. É praticamente impossível dizer que não vivemos numa sociedade segregada, onde percebemos a separação racial nos mínimos e máximos detalhes. Também apresentarei minha tese de que há uma combinação de segregacionismo e assimilacionismo marcando a existência do racismo brasileiro.
As características sui generis do racismo no Brasil, outrora chamado de racismo à brasileira, descrito em suas características sutis e gritantes ao mesmo passo, fora destrinchado por uma literatura clássica da temática negra, cujo pioneiro foi Abdias Nascimento.
Nascimento é um dos idealizadores das ações afirmativas no país, baseadas em ações compensatórias para com a população negra, conforme dito anteriormente. É preciso compreender que tais propostas não nascem de um dia para o outro da cabeça de Nascimento, são frutos de uma discussão e produção científica que iniciaram no autoexílio dele, pois proporcionaram uma convivência ampla com militantes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, pan-africanistas, etc. Tais perspectivas advêm das formulações teóricas sobre as quais ele se debruçou durante anos, incluindo as contribuições de marxistas e pan- africanistas do movimento negro norte-americano e das lutas de descolonização do continente africano.
De certo modo, a sua produção surge de sua experiência intelectual como testemunha da história do negro brasileiro e ator político nacional. Uma produção densa e crítica que gera questionamentos proveitosos para a agenda sobre política e pensamento social da academia brasileira. Escreveu textos considerados referência no estudo das relações étnico-raciais no país, trabalhos que merecem a devida atenção. Nei Lopes crê que Nascimento foi o primeiro negro que realmente expôs, aqui e no exterior, uma imagem sem retoques da realidade da população negra no país (SEMOG; NASCIMENTO, 2006).
Todavia, é necessário ressaltar neste item que haverá diálogo com autores e produções científicas que fogem ao meu recorte temporal, ou seja, a crítica à democracia racial enquanto conceito irá recorrer aos considerados autores clássicos do tema advindos de final da década de 1970 em diante. Haverá um diálogo conceitual entre uma literatura mais atual e outra mais clássica, isto porque a partir de Nascimento (1978) é que a ideologia da democracia racial será entendida como uma espécie de racismo brasileiro.
Nascimento (1978) entende que, no Brasil, há um racismo mascarado, pois ele articula o genocídio do negro brasileiro a um sistema racial hierárquico da nossa estrutura societária. Este genocídio, que existe em função de um racismo mascarado, está associado à noção de mestiçagem. Tal processo coloca em prática o genocídio racial, imposto pela ideologia eurocêntrica que aqui toma forma na/ou da democracia racial. A democracia racial está ligada a produtos conceituais e termos do tipo assimilação, aculturação, miscigenação, que camuflam, sob uma superfície teórica, a crença intocada na inferioridade dos afro- brasileiros e seus descendentes.
Poderia dizer que a democracia racial é uma espécie de síntese de racismo e racialismo. Um esforço de explicação ou da construção de um entendimento que é ao mesmo tempo acadêmico, militante e social, tendo implicações políticas em termos de redefinição de relações de poder e reflete o racismo já existente na sociedade.
É possível perceber na obra O genocídio do negro brasileiro (1978) que Nascimento opera sobre as categorias mestiçagem e genocídio como fundamentais para sua pesquisa sobre a condição social, econômica e política do negro brasileiro. A mestiçagem pode ser entendida como a imbricação entre a miscigenação, uma forma biológica de intercurso racial e uma espécie de sincretismo cultural que formaria, médio prazo, uma sociedade unirracial e unicultural. Nesta mestiçagem está grande parte do aporte teórico da democracia racial, consequentemente, do embasamento do debate que permeia as ações afirmativas.
O Genocídio do Negro Brasileiro, com prefácio de Florestan Fernandes, reproduz um ensaio redigido para o Colóquio do Segundo Festival Mundial de Arte e Cultura Negras (FESTAC) - em Lagos, na Nigéria, 1977. Observa-se, nesta obra, as características do racismo do Estado brasileiro e demonstra-se também os possíveis aspectos de luta, os quais Nascimento denominou de Quilombismo.
O conteúdo de O Genocídio do Negro Brasileiro expunha a realidade da discriminação racial no Brasil, que era mascarado pela ideia de democracia racial. Daí a concepção de racismo mascarado. Tal texto fora rejeitado pelo Ministro da Educação da Nigéria na época, o Coronel Almadu Ali, sob a acusação de que ele estaria utilizando o fórum da FESTAC no intuito da propagação de crenças ideológicas. Logo, no lugar dele, o governo brasileiro enviou como delegado o Professor Fernando A.A. Mourão (USP). Segundo Abdias, o professor defendia a tese da existência da harmonia racial no Brasil (NASCIMENTO, 1978). Nesse sentido, a Ditadura não apenas torturou, mas também calou a discussão a respeito da questão racial.
Para Nascimento (1978), estes fatos denunciavam a hipocrisia do modelo político e institucional da democracia racial e demonstravam, mais uma vez, o caráter ativo do Estado no genocídio do negro brasileiro, pois negavam as discussões a respeito. Nesse sentido, uma espécie de silenciamento do debate, um genocídio acadêmico, científico da temática racial, uma vez que as discussões em volta do tema, ainda que feitas por acadêmicos reconhecidos e indivíduos de produção relevante nos espaços formais de saber, foram impedidos de levar a diante suas pesquisas e considerações.
Em O genocídio do negro brasileiro, Nascimento (1978) critica os efeitos que a ideologia da democracia racial impôs aos afrodescendentes brasileiros, e também à toda
sociedade, uma vez que seus efeitos políticos, psicológicos e ideológicos podem ser percebidos atualmente. O conceito de democracia racial erigiu-se no Brasil a partir de especulações, com o apoio das chamadas ciências históricas, e refletia determinada relação concreta na dinâmica da sociedade brasileira: que negros e brancos têm uma convivência harmônica, e que desfrutam de oportunidades iguais de existência, sem interferência de origens raciais ou étnicas. Ideologia esta formulada por Gilberto Freyre (2004) como se pudesse haver um luso-tropicalismo, onde a ideia de um Brasil sem raças e problemas raciais pudesse florescer, sem a necessidade de ações compensatórias para com as populações um dia escravizadas e seus descendentes.
Devemos compreender “democracia racial” como significando a metáfora perfeita para designar o racismo estilo brasileiro: não tão óbvio como o racismo nos Estados Unidos e legalizado qual o apartheid da África do Sul, mas eficazmente institucionalizado dos níveis oficiais de governo assim como difuso no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país. Da classificação grosseira dos negros como selvagens e inferiores, ao enaltecimento das virtudes da mistura de sangue como tentativa de erradicação da “mancha negra”; da operatividade do “sincretismo” religioso; à abolição legal da questão negra através da Lei de Segurança Nacional e da omissão censitária – manipulando todos esses métodos e recursos – a história não oficial do Brasil registra o longo e antigo genocídio que se vem perpetrando contra o afro-brasileiro. Monstruosa máquina ironicamente designada “democracia racial” que só concede aos negros um único
“privilégio”: aquele de se tornarem brancos, por dentro e por fora. A palavra senha desse imperialismo da brancura, e do capitalismo que lhe é inerente, responde a apelidos bastardos como assimilação, aculturação, miscigenação; mas sabemos que embaixo da superfície teórica permanece intocada a crença na inferioridade do africano e seus descendentes. (NASCIMENTO, 1978, p. 93)
Adeptos desta teoria expuseram ao mundo um novo modelo de sociedade, baseada na superioridade racial portuguesa, leia-se branca, e em sua importância em relação à concepção de uma civilização avançada, fundada na mestiçagem que, neste caso, é aquela que embranquece e assimila as outras culturas.
Conforme demonstra Nascimento (1978), o luso-tropicalismo é a ideologia que levou a elite intelectual a crer que os portugueses tiveram o mérito de colonizar o Brasil e parte do continente africano, sendo esta ideia a base política, histórica e ideológica da teoria da democracia racial.
Nos debates sobre a questão racial podemos encontrar as mais variadas definições de racismo. A fim de apresentar os contornos fundamentais do debate de modo didático, classificamos em três as concepções de racismo: individualista, institucional e estrutural.
O racismo não é uma patologia social, uma anormalidade. A noção de racismo estrutural deve ser vista como algo que existe dentro da normalidade. Contudo, o racismo
constitui relações no padrão de normalidade social. Sobre esta ótica, é que Nascimento (1978;1980) questionou a ideologia da democracia racial, conhecida também como racismo à brasileira. O racismo é uma forma de racionalidade, de normalização, de compreensão das relações. Ele constitui as ações conscientes e inconscientes, de acordo com Almeida (2019).
Gilberto Freyre (2004) cunhou alguns rodeios que visavam racionalizar as relações raciais no país. O termo morenidade seria o maior exemplo desta racionalização que tem como objetivo, segundo Nascimento (1978) o desaparecimento inapelável do descendente de africano, tanto fisicamente quanto espiritualmente, através do intenso e malicioso processo de embranquecer a pele negra e a cultura do negro.
O fato é que a discussão mais uma vez está no centro do debate da democracia racial, que Nascimento tenta desconstruir em duas das suas principais obras O Genocídio do Negro Brasileiro e O quilombismo.
A metarraça significaria o além-raça, suposta base de consciência brasileira.
Atingiríamos neste ponto do nosso desenvolvimento demográfico uma síntese suprema: a morenidade metarracial, oposta aos conceitos fornecidos por arianismo e negritude (NASCIMENTO, 1978 p.44).
O processo de genocídio do negro, diz respeito à ideologia do branqueamento que, para Nascimento, era um dos pontos centrais acerca da formação social no Brasil. O racismo assimilacionista é verificado na ideia de miscigenação que não atingiu seus objetivos, mas que ronda o inconsciente comum da sociedade brasileira. A elite intelectual dominante ao eleger o mulato como símbolo de brasilidade e sustentáculo da democracia racial, estabelece o primeiro degrau na escala daquilo que chama de branquificação sistemática do povo brasileiro.
O mulato é o marco que busca iniciar a liquidação da raça negra no Brasil. Nas ações afirmativas, aparece este problema como um dos principais, mas já resolvido se nos atentarmos para Hasenbalg (1979), quando identifica que na verdade o mestiço, hoje reconhecido dentro da população negra como pardo, goza dos mesmos problemas do resto de seu grupo. A policromática da população negra no Brasil foi observada na literatura de diversas formas e sentidos, contudo concordando com os dados, ainda que haja distinções pontuais, o abismo econômico e social os coloca do mesmo lado, ao contrário da chamada população branca. Censos e ampla literatura estatística têm demonstrado isso ao longo das décadas. O autor identifica um processo progressivo de clareamento da população brasileira, com o avanço do elemento mulato e o sistemático desparecimento do negro, ideia que vai
tendo dificuldade de prosperar a medida que os pardos não tem se reconhecido como brancos, muito menos integra este grupo do ponto de vista socioeconômico.
Por isso, não se percebe qualquer tipo de vantagem no status social, pois a posição do mulato se equivale àquela do negro, visto que ambos são vítimas de igual desprezo, idêntico preconceito e discriminação, cercado pelo mesmo desdém da sociedade brasileira, institucionalmente branca.
Nascimento (1978), na visão de Florestan Fernandes, contribui de forma evidente no que diz respeito à proposição de uma série de medidas que poderiam configurar a construção de um novo quadro social. A tentativa de superação de uma condição de desigualdade e opressão encontra-se na base das reivindicações e proposições apresentadas pelo autor.
Qualquer esforço por parte do afro-brasileiro esbarra neste obstáculo. A ele não se permite esclarecer-se e compreender a própria situação no contexto do país; isso significa, para as forças no poder, ameaça à segurança nacional, tentativa de desintegração da sociedade brasileira e unidade nacional (NASCIMENTO, 1978 p.
78).
Ao que parece há um objetivo não expresso no âmbito da democracia racial; o que Nascimento chama de processo de um racismo mascarado é negar ao negro a possibilidade de se autodefinir, desfalcando-lhe os meios de identificação racial. É exatamente numa espécie de negação do direito do autorreconhecimento identitário que se encontra a chave da dominação e exploração da população negra no Brasil, uma vez que serve como fator que mobiliza e desmotiva qualquer tipo ou grau de organização que vise questionar a real condição deste segmento.
O Estado brasileiro construiu durante longo período uma imagem que visou sempre negar e suprimir a perspectiva racial como fator determinante em sua dinâmica social, política e pública. É neste fato que residirá nossa articulação entre os conceitos aqui citados e o caminhar do trabalho, no que se refere às políticas afirmativas na modalidade de cotas.
Contudo, segundo Nascimento, criou-se assim um modelo que esteve, e acreditamos que continua a estar, na contramão da realidade nacional cotidiana.
Nascimento (1978) demonstra que desde a classificação grosseira dos negros como seres selvagens e, por isso inferiores, até o enaltecimento das virtudes da mistura de sangue como tentativa de erradicação da mancha negra; da capacidade operacional do sincretismo religioso, à abolição legal da questão racial através de medidas legais, como a omissão
censitária; as técnicas de invisibilizar o negro e seus dramas na sociedade brasileira têm se aprimorado e se pautado em diversas teorias políticas e sociais76.
A situação desfavorável e desigual a que foram submetidos os afro-brasileiros ao longo da história não é apresentada nem pela bibliografia mais contemporânea ao cenário internacional. A partir da elite política do país se afirma, com certa veemência, a importância de se constituir uma nação de acordo com um conjunto de relações sociais e raciais harmônicas, inclusive buscando colocar a sociedade brasileira como exemplo de inexistência de conflitos raciais. Este é o caso da discussão que aprofundaremos mais a frente com o tema da democracia racial no âmbito das políticas afirmativas de reserva de vagas.
O imperialismo da brancura, termo utilizado pelo autor (1978), marcado pelo capitalismo que lhe é inerente, nos permite concluir que o racismo é parte integrante do sistema capitalista. Para ele, o racismo estrutural e institucional brasileiro, não pode ser entendido e pesquisado descolado do sistema político e econômico. Nascimento em seus ensaios no livro O Quilombismo, afirma:
De uma coisa estava convencido: que uma coerência fundamental e uma unidade íntima entrelaçavam os ensaios em si; e que essa essência unificadora se exprimia no objetivo comum de revelar a experiência dos africanos no Brasil, assim como na tentativa de relacionar dita experiência aos esforços das mulheres e dos homens negro-africanos de qualquer parte do mundo em luta para reconquistar sua liberdade e dignidade humana, assumindo por esse meio o protagonismo da sua própria história. (NASCIMENTO, 1980, p. 13)
(...) os homens e as mulheres da África, e de descendência africana, têm tido uma coisa em comum – uma experiência de descriminação e humilhação imposta sobre eles por causa de sua origem africana. Sua cor foi transformada tanto na marca como na causa de sua pobreza, sua humilhação e sua opressão (NEYRERE, apud NASCIMENTO, 1980, p. 17).
Especificamente, observando o caso brasileiro, pode-se perceber que a ideia de morenidade é fator que põe a democracia racial como teoria central que pode conferir o status de pertencimento a uma identidade nacional negadora da plurirracialidade; logo a mestiçagem submete a diversidade dos componentes culturais do país à homogeneidade expressa pelo sincretismo. No entanto, para Nascimento é necessário justamente negar os termos da morenidade, pois nele que se encontra o ápice do processo ao qual ele define como genocídio.
Isto se dá através da implementação organizada de uma mestiçagem programada, conforme
76 Necessário registrar o fracasso dessa intenção: Atualmente, a população negra é majoritária no país. Em 2000, brancos eram 53,7%. Em 2010 são 47,8% enquanto pardos (43,1%) e pretos (7,6%) somados são a maioria negra, segundo IBGE.
dito anteriormente, que objetiva eliminar sistematicamente o elemento negro da dinâmica social brasileira.
Podemos ler as páginas da história da humanidade abertas diante de nós, e a lição fundamental que nos transmitem é de uma enorme fraude teórica e ideológica articulada para permitir que a supremacia ário-euro-norte-americana pudesse consumar sua imposição sobre nós. (NASCIMENTO, 1980, p. 22).
O racismo estrutural77 espraiado na sociedade brasileira se faz presente nas instituições e políticas públicas, neste quesito, outra vez, Nascimento se coloca de forma pioneira:
Além dos órgãos de poder – o governo, as leis, o capital, as forças armadas, a política – as classes dominantes brancas têm à sua disposição poderosos implementos de controle social e cultural: o sistema educativo, as várias formas de comunicação de massa – a imprensa, o rádio, a televisão – a produção literária.
Todos esses instrumentos estão a serviço dos interesses das classes no poder e são usados para destruir o negro como pessoa e como criador e condutor de uma cultura própria. (NASCIMENTO, 2002, p. 142).
Diante destas afirmações e dos referenciais que nos apoiamos, pode ser possível sustentar que há barreiras sociais e também racialmente seletivas, que impedem a mobilidade social de parcelas negras da população e os mesmos de acessar mecanismos fundamentais na construção da cidadania nacional.
A fim de que conceitos tenham alguma relevância científica e, consequentemente, possam servir como meios para que aspectos importantes da realidade concreta possam ser desvendados, é necessário que sejam tratados com o devido rigor.
Nesse sentido, deve-se considerar que na sociologia os conceitos de instituição e estrutura deve-se considerar que na sociologia os conceitos de instituição e estrutura são centrais e descrevem diferentes fenômenos sociológicos. Assim, os adjetivos institucional e estrutural não são meramente alegóricos, mas representam dimensões específicas do racismo, com significativos impactos analíticos e políticos.
Desse modo, se é possível falar de um racismo institucional, significa que a imposição de regras e padrões racistas por parte da instituição é de alguma maneira vinculada à ordem social que ela visa resguardar. Assim como a instituição tem sua atuação condicionada a uma estrutura social previamente existente – com todos os conflitos que lhe são inerentes –, o racismo que essa instituição venha a expressar é também parte dessa mesma estrutura.
77 Ao contrário de grande parte da literatura sobre o tema que utiliza os termos indistintamente, diferenciamos o racismo institucional do racismo estrutural. Não são a mesma coisa e descrevem fenômenos distintos.
As instituições são apenas a materialização de uma estrutura social ou de um modo de socialização que tem o racismo como um de seus componentes orgânicos. Dito de modo mais direto: as instituições são racistas porque a sociedade é racista. Esta frase aparentemente óbvia tem uma série de implicações.
A primeira é a de que, se há instituições cujos padrões de funcionamento redundam em regras que privilegiem determinados grupos raciais, é porque o racismo é parte da ordem social. Não é algo criado pela instituição, mas é por ela reproduzido. Mas que fique a ressalva já feita: a estrutura social é constituída por inúmeros conflitos – de classe, raciais, sexuais etc.
–, o que significa que as instituições também podem atuar de maneira conflituosa, posicionando-se dentro do conflito.
Em uma sociedade em que o racismo está presente na vida cotidiana, as instituições que não tratarem de maneira ativa e como um problema a desigualdade racial irão facilmente reproduzir as práticas racistas já tidas como “normais” em toda a sociedade.
É o que geralmente acontece nos governos, empresas e escolas em que não há espaços ou mecanismos institucionais para tratar de conflitos raciais e sexuais. Nesse caso, as relações do cotidiano no interior das instituições vão reproduzir as práticas sociais corriqueiras, dentre as quais o racismo, na forma de violência explícita ou de microagressões – piadas, silenciamento, isolamento etc.
Enfim, sem nada fazer, toda instituição irá se tornar uma correia de transmissão de privilégios e violências racistas e sexistas. De tal modo que, se o racismo é inerente à ordem social, a única forma de uma instituição combatê-lo é por meio da implementação de práticas antirracistas efetivas.
É dever de uma instituição que realmente se preocupe com a questão racial investir na adoção de políticas internas que visem 1) promover a igualdade e a diversidade em suas relações internas e com o público externo – por exemplo, na publicidade; 2) manter espaços permanentes para debates e eventual revisão de práticas institucionais; 3) remover obstáculos para a ascensão de minorias em posições de direção e de prestígio na instituição; 4) promover o acolhimento e possível composição de conflitos raciais e de gênero.78
Isso leva a mais duas importantes e polêmicas questões: i) a supremacia branca no controle institucional é realmente um problema, na medida em que a ausência de pessoas não brancas em espaços de poder e prestígio é um sintoma de uma sociedade desigual e,
78 A segunda consequência é que o racismo não se limita à representatividade. Ainda que essencial, a mera presença de pessoas negras e outras minorias em espaços de poder e decisão não significa que a instituição deixará de atuar de forma racista.