As culturas estão todas envolvidas umas com as outras; ne- nhuma é pura e singular, todas são híbridas, heterogéneas, extraordinariamente diferenciadas e nada monolíticas.
Edward Said
1. Processos culturais – Dimensões e abordagens
As sociedades são hoje um mosaico de culturas, composto por várias etnias, várias formas de expressão, várias linguagens, vários signos e identidades múltiplas.
O mundo é hoje um complexo mosaico de culturas, fruto do fenómeno da globalização.
A globalização é um processo económico, político, tecnológico, social e cultural em grande escala, que consiste na cres-
Madalena Mendes
Licenciatura em Direito, Mestrado em Ciências da Educação, especialização em Educação, Desenvolvimento e Políticas Educativas. Professora e Formadora Titular de Formação Especializada para as áreas e domínios da Educação e Desenvolvimento e Política Educativa, certificada pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua. Investigadora na área das políticas educativas com participação em projetos e grupos de trabalho nacionais e internacionais. Expert do Programa Pestalozzi do Conselho da Europa e do Propjeto Erasmus+ - Inter+ Plurilinguismo e Interculturalidade no Contexto Educativo Europeu. Representante do Ministério da Educação na CPCJ de Almada (2010-2017). Vice-presidente Almada Mundo Associação Internacional de Educação, Formação e Inovação. Participação em Conferências, Encontros, Seminários e Reuniões Científicas. Publicações nacionais e internacionais na área da educação e das políticas educativas.
num carro que, numa velocidade avassaladora, esmagava tudo e todos à sua passagem. A referência ao ídolo hindu “senhor do mundo” simboliza os riscos incontroláveis da globalização ante a razão expectante e indolente de Leibniz.
Segundo Boaventura Sousa Santos, sociólogo português, a “razão indolente” ou “razão preguiçosa”, apontada por Leibniz, assim o é, porque desistiu de pensar ante a necessidade e o fatalismo: “se o futuro é necessário e o que tiver de acontecer acontece independentemente do que fizermos, é preferível não fazer nada, não cuidar de nada e gozar apenas o prazer do momento” (2000, p.40).
A veiculação da globalização como fenómeno linear, monolítico e inequívoco é hoje prevalecente, tanto no discurso cien- tífico, como no discurso político (Santos, 2001). Este sociólogo faz o levantamento das seguintes falácias que impregnam o carácter apolítico da globalização: a) determinismo – a globalização como processo espontâneo, inelutável e irreversível com um ethos, uma força e uma dinâmicas próprias impositora, incontestável e imbatível; b) desaparecimento do sul (con- junto dos países e regiões do mundo que foram dominados e submetidos a relações desiguais de saber-poder) – esta falácia tende a naturalizar as relações Norte/Sul, a destituí-las de conflito e a esvaziar de sentido a distinção entre Norte e Sul. A invisibilidade do sul e da periferia conduziu ao desperdício das vozes locais, das culturas locais e das vozes oprimidas des- truindo equilíbrios, comunitarismos e identidades insubstituíveis. Conduziu ao epistemicídio.
Necessitamos de uma nova geopolítica do saber, do conhecimento, do reconhecimento dos vários saberes e do reconheci- mento da pluralidade dos lugares da sua enunciação.
Santos diz-nos que uma epistemologia do Sul assenta em três orientações: Aprender que existe o Sul; Aprender a ir para o Sul; Aprender a partir do Sul e com o Sul (Meneses & Santos, 2010).
A diversidade de culturas pode ser lida como uma ameaça, ou como uma oportunidade que rasga novos horizontes sobre a dimensão humana e sobre a sua capacidade criadora. Pode ser vista como um elemento perturbador ou como um fator de enriquecimento. Pode ser vista como um foco de tensões e conflitos ou como uma fonte estimulante de descobertas.
A este propósito, relembramos que só em dia 21 de Maio de 2001 foi aprovada a Declaração Universal da UNESCO sobre a
2. Competência Nepantla
Não faz sentido considerar as histórias globais fora dos contextos mais amplos de outras histórias locais, de outras culturas, de outros continentes. Continuar considerando apenas as formações sociais e os processos civilizatórios europeus, criando novas fronteiras, ou consolidando as estabelecidas, é desconhecer o rico movimento da con- temporaneidade, que combina localismo com globalismo, “glocalismo”, no melhor sentido dialético do termo.
Identificar, reconhecer e buscar a convivência com todas as formas e processos sócio-culturais de todas as partes do pla- neta, como queria o sociólogo brasileiro Octavio Ianni, deve ser a meta do século XXI. Além disso, considerar “sociedades europeias” e suas respectivas culturas, sem tomar em conta as contribuições extraeuropeias é insistir na hegemonização cultural.
Mais do que tentar “traduzir” as demais formações culturais, o importante é desenvolver a competência “nepantla” (“viver entre e além” na língua náhuatl - um grupo de línguas e dialetos pertencentes ao ramo asteca). A competência Nepantla”
(“viver entre”) significa:
- desenvolver a capacidade de viver (“viver entre”) duas ou mais culturas, sem colonialidades;
- desenvolver o olhar estrábico e a consequente capacidade de aproveitar todas as potencialidades de todas as culturas;
- liquefazer todas as fronteiras entre as formações sócio-históricas, transformando o que era separação, divisão e alfân- dega em pontes sobre as quais se cruzam e interagem processos produtivos, associativos e simbólicos, por todo o Globo.
Desenvolver a competência nepantla é o desafio maior deste mundo globalizado.
Este conceito de fronteira permite-nos encontrar respostas que tentam dar conta do que significa viver dentro de e entre mundos, na encruzilhada de histórias esquecidas, relembradas, recompostas e revisitadas, cruzando territórios, pensa- mentos, corpos, línguas e a vida e, nesse processo, ser territorializado, desterritorializado e reterritorializado. A localização na fronteira emerge como local de intervenção crítica, como local de resistência, como confluência entre o viver global e as histórias locais.
No contexto da Aldeia Global, temos que aprender a ver o mundo, não mais como ele foi ou imaginamos que ele seja, mas como ele realmente se tornou: um mundo híbrido, globalizado e feito a partir de muitos fios e de múltiplas identidades que entrecruzam, que se interpenetram e que se mesclam.
3. Mundos em diálogo
As identidades não são um conceito homogéneo, fechado, monolítico, mas um processo sempre inacabado, em curso (San- tos, 1996), em trânsito, em relação de alteridade (Glissant, 1990), com o outro, o diferente, o diverso. Temos que entender as identidades na sua tensão dialética, tanto fragmentação, desenraizamento e perda como redescoberta e incorporação.
Todos somos sujeitos inseridos em estruturas dialogais atravessadas por deslocamentos, por trajetórias e por viagens identitárias, num constante processo de negociação de identidades. A identidade é multiétnica, transitória, mutante e mi- grante porque formada por vários elementos cruzados de várias culturas.
Mia Couto, escritor moçambicano, alerta-nos, precisamente, para o facto de que “Ser branco não é assunto que venha da raça. Bem vistas as contas, todos nós somos mulatos. Só que em alguns isto é mais visível por fora” (Couto, 1996, p. 55).
Para nos abrirmos à leitura e pronunciamento do mundo, Santos propõe a hermenêutica diatópica, “uma hermenêutica ir- requieta capaz de atravessar e ultrapassar centros e certezas monoculturais (Pessoa diria decerto uma hermenêutica do desassossego) e que assim nos ajude a conceber as identidades, todas as identidades de forma produtiva, como identida- des ameaçadas e ameaçadoras. Ou, como sempre descobrimos no texto poético, como inter-identidades” (Ramalho, 2001, p.549).
E acrescenta “O outro está dentro de nós como nós estamos dentro do outro, a ameaça identitária é recíproca” (idem, p.550).
Almada Negreiros (1893-1970), no poema Rosa dos Ventos, fala-nos da nossa consanguinidade interidentitária:
Não foi por acaso nada de quem sou agora.
Em mim se cruzaram finalmente todos os lados da terra.(…)
O caráter relacional e contextual dos processos sociais e culturais, entendidos na sua complexidade, fluidez, hibridez e po- lissemia, acarreta profundas implicações na construção de mundos em diálogo, baseados:
numa racionalidade comunicacional, dialógica e autonómica;
numa nova geopolítica do conhecimento entendida como ecologia de saberes;
no reconhecimento das interidentidades e das identidades múltiplas.
É no exercício democrático da democracia, da participação crítica e da cidadania ativa e expansiva que é possível recuperar e reinventar as narrativas da emancipação, da liberdade e da autonomia e conceber novos processos sociais e culturais que, nas sábias palavras de Paulo Freire, tornem “o mundo mais redondo, menos arestoso e mais humano e em que se prepare a materialização da grande Utopia: Unidade na Diversidade” (Freire, 1993, p. 36).
Referências Bibliográficas
Couto, M. (1996). A varanda do Frangipani. Lisboa: Editorial Caminho.
Freire, P. (1993). Política e Educação. São Paulo: Cortez Editora.
Glissant, E. (2005). Introdução a uma Poética da Diversidade. Trad. Enilce Albergaria Rocha, Juiz de Fora MG: Ed. UFJF.
Meneses, P. & Santos, B. S. (2010). Epistemologias do Sul. Porto: Edições Afrontamento.