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OS EFEITOS DAS DECISÕES NO CONTROLE CONCENTRADO DE

O efeito vinculante das decisões proferidas no julgamento dos processos de controle de constitucionalidade não se confunde com a súmula vinculante, mas é importante estudar as diferenças existentes entre esses dois institutos.79

Atualmente, o Direito brasileiro conta com alguns mecanismos distintos para exercer o controle da constitucionalidade: o controle pelo processo difuso, por meio de recurso extraordinário; e o controle pelo processo concentrado, mediante as seguintes modalidades de ações: ação direta de inconstitucionalidade [CRFB, artigo 102, I, a, primeira parte]; ação declaratória de constitucionalidade [CRFB, artigo 102, I, a, in fine]; ação por descumprimento de preceito fundamental [CRFB, artigo 102, § 1º] e ação de inconstitucionalidade por omissão [CRFB, artigo 103, § 2º].80

As decisões de mérito proferidas pelo Supremo Tribunal Federal no controle concentrado de constitucionalidade possuem hoje efeitos erga omnes e vinculante, previstos no § 2º do artigo 102 da CRFB/1988, acrescentado pela EC n. 45/2004;

bem como no parágrafo único do artigo 28 da Lei n. 9.868/99; e no § 3º do artigo 10 da Lei n. 9. 882/99.81

79 SORMANI, Alexandre; SANTANDER, Nelson Luis. Súmula Vinculante... p. 60.

80 REIS, Palhares Moreira. A súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal. p. 129.

81 SORMANI, Alexandre; SANTANDER, Nelson Luis. Súmula Vinculante... p. 60.

É relevante dizer que “até 1993 não existia efeito vinculante em matéria constitucional no Direito brasileiro, revogados que foram os assentos82 oriundos do Direito português e os prejulgados83 da Justiça do Trabalho”.84

A partir da EC n. 3, de 17.03.1993, que acrescentou o § 2º ao artigo 102 da CRFB, a ação declaratória de constitucionalidade foi introduzida no sistema jurídico brasileiro com efeitos erga omnes e vinculante85, com a finalidade de demonstrar a existência de conteúdo interpretado à luz da Constituição e impedir que outros juízes se posicionassem de modo diverso ao entendimento do Supremo Tribunal Federal86.

Mais tarde, a Lei n. 9.868, de 10.11.1999 ampliou o alcance dos efeitos erga omnes e vinculante para as decisões proferidas nas ações diretas de inconstitucionalidade, atribuindo esses efeitos também para a interpretação conforme a Constituição e a declaração parcial de inconstitucionalidade, conforme prevê o artigo 28, parágrafo único da lei citada87:

A declaração de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade, inclusive a interpretação conforme a Constituição e a declaração parcial de inconstitucionalidade sem redução de texto, têm eficácia contra todos e efeito vinculante em relação aos órgãos do Poder Judiciário e à Administração Pública federal, estadual e municipal.88

82 “Os antecedentes portugueses do Direito brasileiro é que primeiro dão notícia dos assentos, que eram firmados pela Casa da Suplicação, nos termos das Ordenações Manuelinas, com a finalidade precípua de extinguir dúvidas jurídicas suscitadas em causas submetidas a julgamento. As soluções dadas aos casos que se constituíssem objeto de dúvida por aquela Casa e definidas nos assentos convertiam-se em normas, tendo sido adotada essa figura pelas Ordenações Filipinas. Se entre os juízes da Casa de Suplicação não se chegasse a uma deliberação quanto à dúvida, em razão de sua extensão a todos eles, a matéria seria encaminhada para a solução do Rei, que a sanaria mediante lei, alvará ou decreto [...] Os assentos da Casa de Suplicação e, posteriormente, da relação do Rio de Janeiro tinham natureza normativa, mas não constituíam óbice ao conhecimento de casos e recursos contra decisões judiciais neles fundamentadas.” (ROCHA, Carmen Lúcia Antunes. Sobre a súmula vinculante. Revista de Informação Legislativa do Senado Federal.

Brasília, a. 34, nº 133, jan./mar., 1997, Disponível em www.senado.gov.br>. Acesso em: 15 abr.

2010. p. 53.)

83 “Após o desaparecimentos dos assentos do Supremo Tribunal de Justiça do Império, não recepcionados pela Constituição da República em 1891, um procedimento semelhante veio a ser adotado no Brasil, a saber o prejulgado. Tal ocorreu, primeiro no Direito Processual Civil, pelo Código Instrumentário de 1939, e depois na Justiça do Trabalho, quando o assunto foi tratado no Decreto-Lei nº 5.452, de 01.05.43, a Consolidação das Leis do Trabalho. O prejulgado difere do assento e também da súmula, eis que no mesmo se contem ‘um pronunciamento prévio quanto à interpretação de uma norma diante de um real ou iminente conflito na hermenêutica a ser produzida em face de situações concretamente postas à decisão judicial’”. (REIS, Palhares Moreira. A súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal. p. 84.)

84 REIS, Palhares Moreira. A súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal.p. 131.

85 SIFUENTES, Mônica. Súmula vinculante... p. 267.

86 REIS, Palhares Moreira. A súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal. p. 134.

87 SIFUENTES, Mônica. Súmula vinculante... p. 267.

No mês seguinte, a Lei n. 9.882, de 03.12.1999 estendeu esses efeitos para a arguição de descumprimento de preceito fundamental, estabelecendo no § 3º, do artigo 10 que “a decisão terá eficácia contra todos e efeito vinculante relativamente aos demais órgãos do Poder Público”.89

O procedimento da arguição de descumprimento de preceito fundamental difere dos outros mecanismos de controle de constitucionalidade, pois os efeitos da decisão não atingem apenas o Poder Executivo e o Poder Judiciário, nesse caso a decisão do Pretório Excelso também tem como alvo o Poder Legislativo90.

Tavares demonstra a finalidade dessa medida:

Em relação ao legislador, os efeitos vinculantes atuam a fim de impedir que editem normas com idêntico conteúdo ao daquela anteriormente declarada inconstitucional, por desrespeitar um preceito fundamental; ou ainda, normas que convalidem os efeitos de uma norma declarada inconstitucional por desrespeito ao preceito fundamental ou anulem os efeitos da decisão do Supremo Tribunal Federal.91

A EC n. 45, de 8.12.2004 alterou o texto do § 2º, do artigo 102, da CRFB, antes trazido pela EC n. 3, de 17.03.1993, atribuindo efeito vinculante para as decisões de mérito proferidas na ação declaratória de constitucionalidade, como já previa a emenda anterior, e agora também para a ação direta de inconstitucionalidade92. É o que se infere do mencionado dispositivo:

As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, nas ações diretas de inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade produzirão eficácia contra todos e efeito vinculante, relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal.93

88 BRASIL. Lei n. 9.868, de 10 de novembro de 1999. Dispõe sobre o processo e julgamento da ação direta de inconstitucionalidade e da ação declaratória de constitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9868.htm>. Acesso em:

15 abr. 2010.

89 BRASIL. Lei n. 9.882, de 03 de dezembro de 1999. Dispõe sobre o processo e julgamento da argüição de descumprimento de preceito fundamental, nos termos do § 1o do art. 102 da Constituição Federal. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9882.htm>. Acesso em: 15 abr. 2010.

90 REIS, Palhares Moreira. A súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal. p. 138.

91 TAVARES, André Ramos; ROTHENBURG, Walter Claudius. Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental: análises à luz da Lei n. 9.882/99. São Paulo: Atlas, 2001. p. 33

92 REIS, Palhares Moreira. A súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal. p. 138.

93 BRASIL. Constituição (1988). Emenda Constitucional n. 45, de 30 de dezembro de 2004. Altera dispositivos dos arts. 5º, 36, 52, 92, 93, 95, 98, 99, 102, 103, 104, 105, 107, 109, 111, 112, 114, 115, 125, 126, 127, 128, 129, 134 e 168 da Constituição Federal, e acrescenta os arts. 103-A, 103B, 111-

A partir da EC n. 3/93, e a redação que ela conferiu ao § 2º, do artigo 102, da CRFB, criando a ação declaratória de constitucionalidade, os efeitos erga omnes e vinculante passaram a ser interpretados distintamente.94

A eficácia erga omnes em uma decisão no controle concentrado quer dizer

“que ela atinge a própria eficácia geral e abstrata da norma objeto do controle e, por conseguinte atinge a todos”.95

Silva leciona que a eficácia erga omnes significa que a declaração de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade da lei se estende a todos os processos em andamento, sendo que, no primeiro caso, o feito será interrompido e os efeitos das decisões nele proferidas serão desfeitas, e no segundo caso, os efeitos serão ratificados. Significa também que a validade do ato será correspondente a decisão proferida, ou seja, é constitucional e não pode haver declaração contrária, ou é inconstitucional e perde sua eficácia no ordenamento jurídico.96

Já o efeito vinculante significa algo distinto, como bem leciona Souza:

Em resumo, ele é um plus em relação á eficácia erga omnes e significa a obrigatoriedade da Administração Pública e dos Órgãos do Poder Judiciário, excluindo o Supremo Tribunal Federal, de submeter-se à decisão proferida na ação direta. Em termos práticos, significa que o Poder Executivo e os demais órgãos judicantes, no julgamento de casos de sua competência em que a mesma questão deva ser decidida incidentalmente, devem, obrigatoriamente, aplicar o provimento contido nessa decisão. Se não o fizerem, afrontam autoridade de julgado do Supremo Tribunal Federal, o que “abre as portas” para a reclamação, conforme prevista no art. 102, I, l, da Constituição Federal, além, naturalmente, dos recursos cabíveis às instâncias superiores.97

A questão de o Supremo Tribunal Federal ficar ou não vinculado à sua decisão é indagada por Silva, o qual entende se tratar de questão processual que se

A e 130-A, e outras providências. Disponível em

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc45.htm>. Acesso em 16 abr.

2010.

94 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 27. ed. ver. e atual. até a Emenda Constitucional n. 52, de 8.3.2006. São Paulo: Malheiros, 2006. p. 60.

95 SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do precedente judicial à sumula vinculante. Curitiba: Juruá, 2006. p. 209.

96 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. p. 60.

97 SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do precedente judicial à sumula vinculante. p. 210.

resolve com a teoria da coisa julgada material oponível a todos os órgãos judiciários, inclusive o que proferiu a decisão.98

Vislumbra-se que a EC n. 3/93 e as alterações introduzidas nas ações de controle de constitucionalidade pelas Leis n. 9.868/99 e n. 9.882/99 e pela própria EC n. 45/04 surgiram como mais uma forma de aperfeiçoamento do sistema processual e com os objetivos de diminuir a quantidade de recursos e processos nos Tribunais e uniformizar a jurisprudência.99

Mas é bom frisar que as decisões proferidas nas ações de controle concentrado de constitucionalidade possuem características distintas da súmula vinculante, embora ambos os institutos tenham efeito vinculante.

Mezzomo ensina que “sob a fórmula do controle de constitucionalidade, encontram-se definidas uma série de atividades destinadas a aferir a compatibilidade de atos normativos com a Constituição Federal”100, enquanto a súmula vinculante, como extrai-se do § 1º do artigo 103-A da CRFB, destina-se a validar, interpretar e dar eficácia a normas determinadas, acerca das quais haja controvérsia atual entre órgãos judiciários ou entre esses e a administração pública, ocasionando grave insegurança jurídica e relevante multiplicação de processos sobre questões idênticas.

Também se observa do disposto no artigo 103-A em comparação com o § 2º do artigo 102, ambos da CRFB, que a súmula vinculante é resultado de sucessivas decisões do Supremo Tribunal Federal sobre a questão constitucional, e não, de uma decisão isolada do plenário em uma ação.101

Outra diferença é que para se proferir uma decisão de mérito em ação de controle concentrado, com efeito vinculante, exige-se a maioria absoluta dos membros da Corte, isto é, o quórum de votação é de seis ministros, abrindo-se a sessão de julgamento com oito ministros (Lei n. 9.868/98, artigos 22 e 23; Lei n.

9.882/99, artigo 8º; CRFB, art. 97). Enquanto para a edição, revisão e cancelamento de enunciado de súmula com efeito vinculante, exige-se decisão tomada por 2/3

98 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. p. 60.

99 SORMANI, Alexandre; SANTANDER, Nelson Luis. Súmula Vinculante... p. 66.

100 MEZZOMO, Marcelo Colombelli. Introdução ao controle de constitucionalidade, difuso e concentrado. Jus Navigandi, Teresina, ano 10, n. 1005, 2 abr. 2006. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8186>. Acesso em: 23 maio 2010. p. 03.

101 SORMANI, Alexandre; SANTANDER, Nelson Luis. Súmula Vinculante... p. 66.

(dois terços) dos membros da Corte, ou seja, o quórum de votação é de oito dos onze ministros (Lei n. 11.417/06, art. 2º, § 3º).102

Portanto, esses institutos não se confundem, embora guardem algumas semelhanças.