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Os estudos pós-coloniais

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 63-66)

2 O PENSAMENTO DECOLONIAL COMO ESPAÇO DE RESISTÊNCIA

Neste capítulo, apresento um panorama sobre o chamado pensamento decolonial, com o intuito de historicizar perspectivas elaboradas a partir da América Latina em resposta à imposição da singularidade do pensamento ocidental. Disserto sobre as circunstâncias que deram origem ao pensamento pós-colonial, enquanto crítica à colonialidade. Apresento também o contexto que provocou o desenvolvimento da Rede Colonialidade/Modernidade enquanto catalisadora de discursos e práticas centradas na experiência colonial latino-americana. Em seguida, disserto sobre o pensamento de Frantz Fanon, resgatando suas análises sobre o processo colonial e as posicionando como precursoras da crítica decolonial. Fruto de suas experiências pessoais e do testemunho e engajamento em processos de descolonização na Argélia e na Tunísia, seus contributos teóricos influenciaram sobremaneira a produção intelectual de Paulo Freire, considerado nesta pesquisa como um importante crítico da colonialidade.

Uma melhor compreensão da construção do pensamento decolonial exige uma breve revisão histórica dos chamados estudos pós-coloniais, que embora sejam encontrados nos fundamentos dos estudos da Rede M/C, sofreram rejeição por alguns de seus integrantes em função da manutenção de vínculos com algumas bases teóricas europeias. Desse modo, o argumento pós-colonial, que foi desenvolvido a partir da década de 50, foi posteriormente radicalizado pelo Grupo Modernidade/Colonialidade.

A descolonização dos países do chamado "Terceiro Mundo38" a partir da metade do século XX, em especial da Ásia e África, gerou uma ampla produção intelectual que, já na década de 80, seria conhecida pela alcunha de "estudos pós-coloniais" ou "pós-colonialismo".

Esses estudos alcançaram ampla disseminação em diversos países. Sua demarcação temporal não indica, no entanto, a institucionalização do pensamento pós-colonial, uma vez que um número considerável de pensadores pós-coloniais pode ser identificado décadas ou séculos antes, já que a sua chave essencial está no reconhecimento da relação antagônica entre colonizador e colonizado. Ballestrin afirma que:

Mesmo que não linear, disciplinado e articulado, o argumento pós-colonial em toda sua amplitude histórica, temporal, geográfica e disciplinar percebeu a diferença colonial e intercedeu pelo colonizado. Em essência, foi e é um argumento comprometido com a superação das relações de colonização, colonialismo e colonialidade. Dessa forma, ele não é prerrogativa de autores diaspóricos ou colonizados das universidades periféricas (BALLESTRIN, 2013, p.91).

As obras consideradas seminais sobre a relação colonizador-colonizado são Retrato do colonizado precedido de retrato do colonizador (1947), de Albert Memmi (1920-2020), Discurso sobre o colonialismo (1950), de Aimé Césaire (1913-2008) e Os condenados da Terra (1961), de Frantz Fanon (1925-1961). Além das três, a obra Orientalismo (1978), de Edward Said (1935-2003), é igualmente considerada como influência importante para a transformação das ciências sociais, que passam a considerar a experiência do colonizado em sua base epistemológica. Com o amadurecimento dos estudos pós-coloniais, o binarismo e o essencialismo na interpretação da relação colonizador-colonizado foi rompido por autores como Albert Memmi (1920-2020), Edward Said (1935-2003), Gayatri Spivak (1942-) e Homi Bhabha (1949-). Posteriormente, a compreensão dessa relação foi aprofundada por Mignolo (Ibidem, p.91), através do conceito "diferença colonial". Décadas antes, porém, o argumento já havia sido apresentado por Franz Fanon no livro Os condenados da Terra.

38 O termo foi cunhado à época da Conferência de Bandung, em 1955, que reuniu 29 países da Ásia e da África que buscavam alternativas de desenvolvimento independente dos eixos capitalista e comunista. Conforme Mignolo (2017), o caminho encontrado por esses países foi da “descolonização”, em busca de um

desprendimento das principais macro-narrativas ocidentais. Após seis anos, ocorreu em Belgrado a Conferência dos Países Não Alinhados, que contou com a participação de países latino-americanos que somaram suas forças aos asiáticos e africanos. Mignolo considera que essas conferências e a publicação de Os condenados da Terra, de Frantz Fanon (publicado em 1961), são marcos importantes para o estabelecimento dos fundamentos políticos e epistêmicos da decolonialidade.

Paralelamente, outro movimento epistêmico, cultural e político ajudou a consolidar os estudos pós-coloniais. O Grupo de Estudos Subalternos, liderado na década de 1970 no sul asiático por Ranajit Guha, se propunha a revisar a historiografia colonial da Índia, a historiografia eurocêntrica nacionalista indiana e a historiografia marxista ortodoxa. A partir da década de 80, o grupo passou a ser conhecido pela alcunha de Subaltern studies, ganhando ampla disseminação nos Estados Unidos, graças à Gayatri Spivak que em 1985 lançou a obra Pode o subalterno falar?. Além dos Estados Unidos, os estudos pós-coloniais disseminaram- se na Inglaterra, no campo da crítica literária e dos estudos culturais, sendo Homi Bhabha (indiano e autor de O local da Cultura), Stuart Hall (jamaicano e autor de Da diáspora) e Paul Gilroy (inglês, autor de Atlântico negro) os autores e livros mais conhecidos. Traduzidos para o português, passaram a figurar nas referências das ciências sociais brasileiras que, a partir da década de 80, passam a debater com mais ênfase as categorias cultura, identidade, migração e diáspora, especialmente no contexto da globalização (BALLESTRIN, 2013).

Já na década seguinte, é criado nos Estados Unidos o Grupo Latino-Americano dos Estudos Subalternos (1992), inspirado no Subaltern studies, porém engajado na superação do legado indiano pela falta de ruptura com autores eurocêntricos e pela ocultação das trajetórias de dominação e resistências na América Latina. O Grupo Latino-Americano dos Estudos Subalternos foi desfeito em 1998 em função de divergências teóricas, que definiram “a necessidade de transcender epistemologicamente – ou seja, de descolonizar – a epistemologia e o cânone ocidentais (GROSFOGUEL, 2008, p.116). Nas palavras de Mignolo:

O projeto des-colonial difere também do projeto pós-colonial (...). A teoria pós-colonial ou os estudos pós-coloniais estão entre a teoria crítica da Europa (Foucault, Lacan y Derrida), sobre cujo pensamento se construiu a teoria pós-colonial e/ou estudos pós- coloniais, e as experiências da elite intelectual nas ex-colônias inglesas na Ásia e África do Norte (MIGNOLO, 2007, p.26).

Com o argumento de radicalizar a crítica ao eurocentrismo e renunciar a referências europeias pós-modernas, o Grupo Modernidade/Colonialidade (M/C) é aos poucos estruturado, através da realização de seminários, publicações e trocas entre os seus integrantes. Em 2003, o grupo contava com pesquisadores de diferentes nacionalidades, como Aníbal Quijano; Enrique Dussel, Walter Mignolo, Immanuel Wallerstein; Santiago Castro-Gómez; Nelson Maldonado- Torres; Ramón Grosfóguel; Edgardo Lander; Arturo Escobar; Fernando Coronil; Catherine Walsh; Boaventura Santos e Zulma Palermo. Parte desses integrantes já havia desenvolvido

proposições teóricas importantes para o pensamento crítico latino-americano, como Enrique Dussel e a Filosofia da Libertação, Aníbal Quijano e a Teoria da Dependência e Immanuel Wallerstein com a Teoria do Sistema-Mundo (BALLESTRIN, 2013, p.98-99). Essas referências influenciaram a identidade do Programa de Investigação Modernidade/Colonialidade, além de outras fontes críticas que se debruçam sobre a realidade cultural e política latino-americana, com ênfase aos conhecimentos produzidos pelos grupos subalternizados.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 63-66)