Segundo determinações das DCNERER constantes no artigo 1º parágrafo 1º:
A Educação das Relações Étnico-Raciais tem por objetivo a divulgação e produção de conhecimentos, bem como atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos quanto à pluralidade étnico-racial, tornando-os capazes
de interagir e de negociar objetivos comuns, que garantam a todos respeito aos direitos legais e valorização de identidade, na busca da consolidação da democracia brasileira (BRASIL, 2004).
A unidade administrativa responsável por cuidar dos assuntos relativos à pesquisa científica e fomentar e estimular atividades de pesquisa é a Pró-Reitoria de Pesquisa. Nessa Pró-Reitoria desenvolve-se um trabalho no âmbito das ações afirmativas voltadas para o estudante afrodescendente cotista por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), nas “Ações Afirmativas”.
O PIBIC nas “Ações Afirmativas” é um programa do Governo Federal destinado às universidades públicas contempladas com bolsas do PIBIC e que adotam programas de ações afirmativas. O propósito do programa é complementar as ações afirmativas já existentes e possibilitar aos alunos beneficiários dessa política a possibilidade de participar de trabalhos de iniciação científica58. Parceria realizada entre a Unimontes e o Governo Federal, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Conforme o Pró-Reitor de Pesquisa, “[...] só podem candidatar à iniciação científica, só podem receber, melhor dizendo, só podem receber essa bolsa59 de iniciação científica os alunos que ingressaram na universidade pelo sistema de cotas” (Entrevista concedida à autora pelo Pró-Reitor de Pesquisa, 02/11/2015).
Esse programa começou a vigorar na Unimontes no ano de 2009 e vem atendendo aos alunos dos diversos cursos de licenciatura e do bacharelado. Ao longo desse período, foram concedidas 82 bolsas, conforme descrevemos na tabela:
Tabela 5 - Bolsas do PIBIC na Unimontes
Ano 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 Total
Quantidade 10 12 12 12 12 12 12 82
Fonte: Relatório Número de Bolsas PIBIC – AF/CNPQ.
Ao compararmos o número de bolsas concedidas anualmente com o número de alunos afrodescendentes cotistas que ingressam nos dois semestres do ano, conforme vimos na tabela dois na página 75 desse texto, temos em torno de 3% de estudantes atendidos por essa ação afirmativa. No universo dos oitenta e dois bolsistas afrodescendentes cotistas, observamos que foram desenvolvidos cinco
58 Cf. informações disponíveis em: <www.cnpq.br>. Acesso em: 09 jan. 2016.
59 A bolsa é concedida por um período de 12 meses, sendo no valor de 400,00.
projetos com temas voltados para esse segmento da população brasileira. Sendo eles:
Quadro 11 - Projetos desenvolvidos no PIBIC que contemplam a diversidade étnico- racial
Projeto Curso Ano
Negros do Norte de Minas: concepções e práticas políticas na
Comunidade Negra Rural de Vereda Viana. Ciências Sociais 2010
Política pública educacional em área de remanescentes de
quilombo: caso do município de São João da Ponte. Pedagogia 2010 Atenção primária e saúde materno-infantil em comunidades
quilombolas no norte de minas gerais. Medicina 2012
Mulheres negras na docência do Ensino Superior: discriminação e
resistência. Pedagogia 2013
Saúde reprodutiva de mulheres quilombolas no Norte de Minas
Gerais. Medicina 2014
Fonte: Relatório PIBIC - Af 2009 a 2015.
Essa Pró-Reitoria apresenta, além dos projetos desenvolvidos pelo PIBIC, Ações Afirmativas que são voltadas especificamente para atendimento aos alunos cotistas, alguns grupos de pesquisa que trabalham com temáticas que envolvem a população negra, as comunidades tradicionais e a diversidade cultural. Nessa direção nosso Pró-Reitor de Pesquisa esclarece “[...] eu destacaria alguns grupos de pesquisa que tem se dedicado a essa temática no âmbito das Ciências Humanas e Sociais60 [...]” (Entrevista concedida à autora pelo Pró-Reitor de Pesquisa, 02/11/2015). Os grupos de pesquisa destacados são: Grupo de Estudos e Pesquisas em Cultura, Processos Sociais - Sertão, Projeto de pesquisa Negros do Norte de Minas, Grupo de Pesquisa Ô Pará e o Núcleo Interdisciplinar de Investigação Socioambiental.
O Grupo de Estudos e Pesquisas em Cultura, Processos Sociais – Sertão tem como propósito o estudo da história, tradições, religiosidade, origens e costumes relacionados à cultura sertaneja do Norte de Minas Gerais, paralelamente são também realizados estudos sobre comunidades tradicionais e quilombolas61. Vários professores da Unimontes e de outras IES participam do projeto, entre eles destacamos a participação do professor Carlos Rodrigues Brandão. O projeto
60 Cf. Projeto de Desenvolvimento Institucional (PDI) vigente, existe o registro de 33 grupos de pesquisa consolidados na Unimontes e certificado pelo CNPQ.
61 Cf. informações disponíveis em: <grupoecpss.blogspot.com.br>. Acesso em: 11 jan. 2016.
Negros do Norte de Minas: Cultura, Identidade e Educação Ética em uma Comunidade Quilombola foi objeto de um artigo62 sobre uma pesquisa em educação realizada no âmbito desse projeto. As professoras Andréa Cardoso Silva, Maria Helena de Souza e Mônica Maria Teixeira, descrevem:
O projeto “Negros do Norte de Minas: Identidade, Cultura e Educação Étnica em uma comunidade Quilombola”, estrutura-se como trabalho de pesquisa e extensão que objetiva produzir conhecimentos sobre comunidades negras rurais do Norte de Minas. Constitui-se de grupo interdisciplinar composto por professores e acadêmicos das áreas de antropologia, sociologia, política, arte e educação. Orientado por uma abordagem majoritariamente qualitativa o grupo desenvolveu estudos na comunidade quilombola do Agreste – localizada no município de São João da Ponte, Norte de Minas Gerais (SILVA, ett all, s/d, p.01).
As pesquisas desenvolvidas no âmbito desse projeto de pesquisa no campo da educação apresentaram como propósito a análise da Educação das Relações Étnico-Raciais no Quilombo Agreste, universo de pesquisa do referido projeto. As atividades desenvolvidas
direcionaram-se para a leitura da realidade da escola e adotaram como procedimentos técnicos a revisão teórica, a análise documental, a aplicação de questionários e entrevistas com a comunidade escolar. Tais estudos adentraram pela análise do projeto político pedagógico da escola, do currículo e da formação de professores para a educação das relações raciais. Os resultados revelam que o projeto pedagógico e o currículo não contemplam as especificidades étnicas e raciais da comunidade, e que os docentes enfrentam dificuldades para realizar um trabalho de valorização da cultura e identidade negra (SILVA ett all, s/d, p.01).
Essa realidade levantada com o trabalho de pesquisa na área da educação no âmbito do Projeto Negros do Norte de Minas foi constatada em uma escola situada numa comunidade quilombola, cuja população é majoritariamente negra.
Esse grupo de pesquisa desenvolveu outras pesquisas e ações de extensão na comunidade de Agreste, com vistas a contribuir para a mudança dessa realidade escolar63, que apresentaremos no quarto capítulo, na análise das entrevistas realizadas com os professores.
Outro grupo de pesquisa citado pelo Pró-Reitor foi o projeto OPARÁ que se constitui em um Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Comunidades Ribeirinhas do
62 Disponível em: <www.afirse.com>. Acesso em: 11 jan. 2016.
63 Para maiores informações consultar Revista Intercâmbio, da Pró-Reitoria de Extensão, e a Revista Educação, Escola e Sociedade, ambas editadas pela Unimontes.
Rio São Francisco. A Universidade Federal de Uberlândia é parceira no desenvolvimento desse trabalho que conta com financiamento da FAPEMIG e do CNPQ. Projeto disponibilizou algumas publicações com resultados sobre os estudos realizados64. Conta com participação de vários professores da Unimontes, tendo como um dos coordenadores o professor Carlos Rodrigues Brandão.
E o último grupo de pesquisa mencionado foi o Núcleo Interdisciplinar de Investigação Socioambiental (NISA). O trabalho desenvolvido nesse núcleo tem como objetivo problematizar o tema dos processos socioambientais, utilizando metodologias que visam à articulação do ensino, pesquisa e extensão65. O NISA apresenta uma linha de pesquisa denominada Processos Socioambientais, Movimentos sociais e Povos e Comunidades Tradicionais, cujo objetivo consiste em
“estudar as dinâmicas sociais, políticas e econômicas que incidem sobre o ambiente e os diferentes grupos étnicos”66. No âmbito dessa linha de pesquisa, foram desenvolvidos alguns materiais sobre os estudos realizados, entre eles um livro sobre a temática das matas secas e os povos tradicionais do Norte de Minas: De gente bichos e plantas: diversidade e conservação nas matas secas do Norte de Minas Gerais, destinado aos estudantes do Ensino Médio das escolas públicas. Foi desenvolvido também um vídeo com informações sobre o livro e sobre a temática.
O objetivo do NISA com a publicação dessa obra consiste em divulgar a flora e a fauna da mata seca e a sua importância para a sobrevivência dos grupos sociais que nela vivem, bem como dar visibilidade a estes povos que se constroem identitariamente nas relações com seus territórios. Grupos considerados pelo NISA como principais atores que lutam pela preservação de sua cultura e modo de vida e pela preservação do ambiente do qual dependem. O Pró-Reitor de Pesquisa, participante do NISA e um dos autores do livro, relatou que o material estava sendo utilizado no Curso de Ciências Sociais à Distância ofertado pela Unimontes.
Verificamos o Ambiente Virtual de Aprendizagem67 do curso e encontramos o referido material sendo utilizado na disciplina Estágio Supervisionado, para
64 Algumas publicações: “Comunidade São Bento: município de Buritizeiro, MG; “Viva e Reviva:
dançando o São Gonçalo na Barra do Pacuí - MG; “Vozes do Rio”.
65 Cf. dados do Núcleo registrados na pag. do Diretório dos Grupos de Pesquisa do Brasil. Disponível em: <dgp.cnpq.br>. Acesso em: 11 jan. 2016.
66 Cf. dados das linhas de pesquisa do Núcleo. Disponível em: <dgp.cnpq.br>. Acesso em: 11 jan.
2016.
67 O vídeo sobre a temática de estudos do NISA e as informações sobre o livro estão disponíveis no AVA do curso de Ciências Sociais, alocado no site <www.ead.unimontes.br>. Acesso em: 11 jan.
2016.
orientação dos futuros professores em relação aos trabalhos a serem desenvolvidos no período de estágio nas escolas, com alunos do Ensino Médio. Ao ser indagado se a Pró-Reitoria de Pesquisa tinha conhecimento de alguma outra ação nesse sentido, nosso Pró-Reitor relata: “Não. O que eu poderia dizer pra você é que eu...
eu vi algumas iniciativas, mas iniciativas que não têm uma ação... uma articulação centralizada” (Entrevista concedida à autora pelo Pró-Reitor de Pesquisa 02/11/2015).
Ao que parece, falta uma ação mais articulada com outras unidades administrativas e setores acadêmicos da Unimontes, no sentido de divulgar e trabalhar os conhecimentos produzidos sobre a população negra, no âmbito da pesquisa, com vistas ao atendimento das diretrizes curriculares. O acompanhamento da Pró-Reitoria de Pesquisa no que se refere à produção e divulgação de conhecimentos na temática da Educação para as Relações Étnico-Raciais é realizado da seguinte forma:
Eu destacaria duas, duas iniciativas. Uma iniciativa ela é mais de... de apoio, que é fazer com que, criar condições pra que determinados grupos de pesquisa que tenha essa temática como linha, eles possam desenvolver esses conteúdos. Eu destacaria uma experiência que já vem se consolidando há algum tempo eh... de um grupo de pesquisa que...
chamado “Negros do Norte de Minas” [...] então no âmbito dessa iniciativa
“Negros do Norte de Minas” foi produzido eh... materiais importantes e que eu penso que são, que podem servir de subsídios inclusive para geração de material didático no âmbito das nossas licenciaturas (Entrevista concedida à autora pelo Pró-Reitor de Pesquisa 02/11/2015).
Observa-se o reconhecimento da existência e da qualidade dos trabalhos desenvolvidos no âmbito da pesquisa, não sendo mencionada uma linha de ação institucional concreta de articulação, para que os conhecimentos que são produzidos sobre a população negra nos amplos estudos dos grupos de pesquisas possam chegar até a licenciatura. A segunda iniciativa relatada:
Diz respeito, não diretamente à questão do conteúdo nos processos de ensino-aprendizagem nos cursos de licenciatura, mas à estruturação de linha de pesquisa sobre comunidades afrodescendentes, comunidades quilombolas, ou que não seja comunidades quilombolas, comunidades tradicionais [...]” (Entrevista concedida à autora pelo Pró-Reitor de Pesquisa 02/11/2015).
Esse trabalho está sendo desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa OPARÁ, em comunidades tradicionais em São Francisco, pequeno município do Norte de Minas,
localizado às margens do Rio São Francisco.
Ao nos debruçarmos sobre as ações da Pró-Reitoria de Pesquisa, observamos que o trabalho desenvolvido por essa unidade administrativa está voltado mais para o apoio aos grupos de pesquisa da instituição e de iniciação científica dos acadêmicos. Existe um consistente trabalho de pesquisa desenvolvido pelos professores nos grupos de pesquisa da universidade relacionados à população negra, como estudos sobre comunidades tradicionais, quilombolas, bem como estudos sobre a diversidade cultural presentes na região norte-mineira. São estudos e trabalhos no âmbito da pesquisa que envolvem professores e acadêmicos nos diversos cursos, produzindo materiais, artigos e realizando ações no sentido de dar visibilidade a esse segmento da população. Ao que parece, falta ainda a estruturação institucional de ações e articulações mais concretas para que os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos nesses grupos de pesquisa possam ser interligados, ou com a Pró-Reitoria de Ensino, ou com a coordenação e professores dos cursos de licenciatura, ou outras ações diretamente com as licenciaturas, no sentido de fazer com que esses conhecimentos produzidos cheguem até lá com maior frequência e maior intensidade.