4.2 Os alvos preferenciais
4.2.1 Os intelectuais
Há os pregadores, os professores...
Jornal O Imparcial 700
Esse grupo mereceu especial atenção na guerra contra o “comunismo” travada pelo regime e por determinados setores da sociedade, e dentre esses, alguns mereciam ainda mais aos olhares dos anticomunistas: os professores. Rodrigo Motta comenta que:
os setores anticomunistas guardavam especial rancor em relação aos professores [...], considerando-os perigosos propagadores das ideias revolucionárias. Temia-se o contato dos ‘mestres comunistas’ com os jovens estudantes, que poderiam ser levados a abraçarem as doutrinas exóticas por influência de tais professores. 701
O “perigo” dos professores foi tema do plano de ação contra o comunismo, elaborado pelo Ministério da Guerra. Tal perigo, seria:
[...] divulgação das ideias principais da doutrina e dos pseudossucessos maravilhosos, de sua aplicação na Rússia, feita pela palavra escrita e oral; pelo livro [...], pela cátedra. [...] professores que destroem na juventude sua solidariedade com a tradição social e nacional, pregando o credo revolucionário moscovita [...] se prevalecem da posição oficial que ocupam para inocular no espírito daqueles que caem em sua esfera de ação, a doutrina destruidora. 702
Aos professores – como a outros colaboradores do comunismo – ainda coube uma
“honrosa” descrição: “são elementos sem escrúpulos e insinceros, [...] que desservem a pátria, servindo aos verdadeiros comunistas”. 703 Para Amoroso Lima, esse “comunismo teórico” era o mais nocivo à sociedade, e não tinha dúvidas em apontar seu campo mais profícuo:
Nas classes intelectuais, porém, e que esse comunismo teórico lavra, hoje em dia, mais intensamente entre nós. Os intelectuais – estudantes, professores, [...]
700 O Imparcial. 01 jan. 1936. p. 2.
701 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. 2020. Op. cit., p. 232-233.
702 Arquivo Nacional. Fundo Gabinete Civil da Presidência da República. Código de referência:
BR_RJANRIO_GCPR_35. Lata 40.
703 Ibidem.
tem uma tendencia natural a aceitar facilmente tudo o que seja inovação, seja em matéria de cultura, seja em matéria social. 704
Adalberto Corrêa, em seu discurso em defesa dos tribunais especiais, afirmou serem os catedráticos um verdadeiro problema a ser resolvido. Para ele, esses corrompiam a mocidade com práticas degradantes e ideias perigosas.
Com tais ideias observadas e estudadas nos lupanares em que habitam, esses pregadores e catedráticos das nossas escolas pretendem modificar os ensinamentos da natureza humana e da moral social, traçando para nossa inexperiente mocidade o rumo da prostituição, da perda da personalidade e da escravização completa do indivíduo. 705
Corrêa foi enfático em afirmar que essa era uma questão que urgia em ser resolvida. Para ele, os intelectuais constituíam “uma causa permanente de corrupção da mocidade e consequentemente de todas as classes sociais”. 706
Na imprensa, a ideia do perigo oferecido pelos professores já era ventilada há muito. A prédica era de recomendação ao regime: “Urge ser bem fiscalizada e impedida a atividade de intelectuais comunistas que fazem obra antipatriótica”. 707 “Não se deve permitir [...] nas cátedras de nossas escolas, o apostolado comunista. Queremos que o Sr.
Getúlio Vargas se valha dessa oportunidade para uma justa triagem”. 708 Julgando ter sido fraca a ação do regime em relação aos professores “comunistas”, às vésperas do Estado Novo, o Correio da Manhã deixou a sugestão e passou à cobrança:
Pregou-se o comunismo na cátedra, [...] sob amparo dessa lamentável cegueira governamental. Quando se denunciou a perversão do espírito da mocidade por professores comunistas, resguardados, na sua tarefa sinistra, pela liberdade de
704 Fundo Nacional de Informação. Arquivo Nacional. Código de Referência:
BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_AAA_75112395_an_01_d0001de0001.
705 Correio da Manhã. 02 de set. de 1936, p. 4.
706 Ibidem. Em seu discurso, Adalberto Corrêa afirmou que os intelectuais comunistas são perigosos, pois vivem às sombras das suas prerrogativas funcionais, e quando instados a se posicionarem, negavam veementemente suas simpatias pelo comunismo – em outra ocasião ele se referiu a essa questão como sendo de “gente sem vergonha” –. Por esse motivo ele fez a defesa de uma mediada efetiva por parte do regime, pois, segundo o deputado, se assim não fosse, voltariam as mesmas práticas, bastando para isso retornar a liberdade. Embora não tenha citado qual seria essa medida, o deputado Adalberto Corrêa, em reunião com o presidente, defendeu o fuzilamento para os acusados de envolvimentos com o comunismo.
Cf. Vargas, 1995. Op. cit. passim, p. 488. A ideia já havia sido defendida por órgãos da imprensa cerca de três meses antes. “Um bom revólver com um tambor de balas. Hipócritas! Quem não tem vergonha, não tem direito a vida”. A Batalha. 05 de dez. de 1935, p. 4. O Estado de São Paulo. 07 de dez. de 1935, p.
13.
707 Correio da Manhã. 16 de Jan. de 1935, p. 4. O texto insinua ser estes intelectuais assalariados por Moscou, motivo pelo qual, sugere, “deveriam ser considerados estrangeiros deportados”.
708 O Estado de Minas. 05 de dez. de 1935, p. 2.
cátedra, o Departamento de Educação Nacional [...] transigiu com os fatos e guardou o silencio. 709
A preocupação em ligar os professores ao comunismo era uma questão que rondava a cúpula do poder e, por sua vez, foi reverberada pela imprensa a título de res gestae. Na “superfície” era tudo muito simples, era uma luta do bem contra o mal, entre os que detinham uma verdade divina e os que desejavam destruí-la. Contudo, o verdadeiro objetivo dessa narrativa era uma luta ferrenha pelo poder, ou pelo medo de perdê-lo.
Trocando em miúdos, era uma luta pela manutenção do status quo, e por ser a educação um agente de mudança social, seus operadores foram os primeiros alvos.
Na capital federal, naturalmente o centro do poder, essa luta foi ainda mais dramática atacando, além dos professores, o próprio sistema. Quando Pedro Ernesto, então prefeito da capital, buscou integrar as zonas norte e oeste da cidade à economia por meio de promoção de políticas públicas que atendesse as necessidades dessas populações, especialmente, inserindo-as no projeto educacional, não demorou a surgir quem se opusesse, tudo em nome do comunismo. Não obstante o projeto capitaneado por Anísio Teixeira – Secretário de Educação – ter suas bases no modelo capitalista, de igualdade de oportunidade no mercado de trabalho, 710 pela possibilidade da exclusão do ensino religioso do currículo escolar: “a Igreja Católica [...] disparou contra Teixeira as mais contundentes acusações de comunismo”. 711 E a Igreja não brigava por pouco, como comenta Orlando de Barros, até aquele momento “a Igreja exercia um quase virtual monopólio das escolas”. 712
O que se passava no momento em questão era mais um daqueles casos em que, na dita luta contra o comunismo, a lógica era posta à parte, em qualquer ação. Ante a possibilidade da perda de espaço na formação educacional da sociedade, a Igreja não hesitou em colocar mais essa questão na conta do comunismo. Tudo isso, ainda que o projeto do então prefeito visasse o contrário.
Uma observação feita por Thiago Mourelle, sobre os objetivos desse projeto, nos ajuda a entender a importância do “comunismo” nessa luta. Em suas palavras, o projeto visava “atingir diretamente os mais necessitados, ampliando a esfera de influência do
709 Correio da Manhã. 20 de ago. de 1937, p. 4.
710 MOURELLE, Thiago Cavaliere. 2010. Op. cit., p 61.
711 Ibidem. p. 62.
712 Barros, Orlando de. 1987. Op. cit., p 10.
Estado e obtendo a simpatia de parte da população que estava esquecida pelo poder público e, consequentemente mais suscetível a aderir a movimentos de esquerda”. 713 Esse era também o entendimento dos militares à época, e não só. No relatório dos negócios militares, do ano de 1935, a miséria foi apontada como a principal causa para a aceitação das chamadas ideias subversivas, situação que o próprio presidente “reputou premente”.
Embora o relatório não fosse específico para o Rio de Janeiro, as questões nele levantadas eram as das periferias, atingidas pela:
[...] incúria do governo e pela exploração criminosa dos magnatas, que [...] não querem ouvir falar de levantamento do proletário [...] que vive o espetáculo contristador de desconforto, de falta de higiene, de degenerescência, enfim, da mais impressionante miséria da população proletária daquelas paragens, a qual se arrasta a uma existência de verdadeiros párias. Nesses ambientes, todas as ideias subversivas proliferam [...]. 714
É fato que o regime buscou atacar de frente a questão social, haja visto a criação do Ministério do Trabalho, de leis trabalhistas e outras medidas. Mas também é fato que tudo isso seguia a cartilha autoritária do regime e dos setores já estabelecidos na hierarquia social. Não seria por meio de uma educação livre e democrática, que ameaçasse esses potentados, que se daria a ascensão social, como afirmou o próprio ministro da educação, Gustavo Capanema:
[...] a educação ficará ao serviço da Nação, queremos significar que ela, longe de ser neutra, deve tomar partido, ou melhor, deve adotar uma filosofia e seguir uma tábua de valores, deve reger-se pelo sistema das diretrizes morais, políticas e econômicas, que formam a base ideológica da Nação, e que, por isto, estão sob a guarda, o controle ou a defesa do Estado. 715
O ataque aos professores constituiu uma ferramenta bastante eficaz para a manutenção da “ordem das coisas”. Pintar os professores com o vermelho de Moscou, suscitava o medo do perigo que a educação poderia representar, pelo menos aquela que estivesse fora dos preceitos morais definidos pelo regime. Quanto ao professor, estar fora de tais preceitos significavam ser transformado em alvo para a artilharia anticomunista.
Como bem observou Rodrigo Motta, nesse caso, como em tantos outros, o adjetivo
713 Ibidem.
714 Arquivo Nacional. Fundo Gabinete Civil da Presidência da República. Código de Referência:
BR_RJANRIO_GCPR_35. Lata 114.
715. BERCITO, Sônia de Deus Rodrigues. Nos tempos de Getúlio: da Revolução de 30 ao fim do Estado Novo. 6 Ed. São Paulo: Atual, 1990. p. 55.
comunista foi usado de modo impreciso, a fim de abranger intelectuais sem qualquer relação com o comunismo. 716
Em abril de 1936, quando o governo apertou o cerco contra os professores, a essa altura munido pelo estado de guerra, a imprensa não hesitou em comemorar, classificando as medidas adotadas contra os professores como “atitude recomendável” 717 ou
“saneamento”. 718 Todo o empenho da propaganda anticomunista foi coroado em novembro de 1937, quando a comissão executora do estado de guerra recomendou, e o Ministério da Educação designou “uma comissão para elaborar medidas de ordem educativa que serão tomadas no sentido de preservar as instituições das influências do comunismo”. 719 Desse modo, a narrativa organizada contra o comunismo disseminava o medo em ambas as direções, tanto a sociedade ficava em alerta contra os “pregadores do credo vermelho”, quanto os professores se viam acuados, temendo as represálias.