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OS PRINCÍPIOS ELEMENTARES DA DEFESA SOCIAL

Através de um apanhado realizado sobre as idéias da Escola Clássica, Escola Positiva e do moderno Sistema Penal, o Doutrinador Alessandro Baratta, vai criar o termo “ideologia da defesa social” e também definir seus princípios.

O estudo destes princípios elencados por Baratta é relevante, pois são eles que legitimam o funcionamento do Direito Penal, e este por sua vez é a tradução da defesa social, já que funciona com o objetivo de defender a sociedade.

Como conceito de ideologia da defesa social, aponta a Doutrinadora Vera Regina:

o conjunto das representações sobre o crime, a pena, e o Direito Penal construídas pelo saber oficial e, em especial, sobre as funções socialmente úteis atribuídas ao Direito Penal (proteger bens jurídicos lesados garantindo também uma penalidade igualitariamente aplicada para os seus infratores) e à pena (controlar a criminalidade em defesa da sociedade, mediante a prevenção geral (intimidação) e especial (ressocialização)143.

Em relação aos princípios definidos pelo autor temos, primeiramente, o Princípio do Bem e do Mal, que trata o delito como um perigo para a sociedade e o delinqüente como um elemento negativo e disfuncional do sistema144. A sociedade seria o bem, e a conduta desviante, o mal145. A Escola Clássica demonstra esse princípio quando acredita que o delinqüente é um elemento disfuncional do sistema, pois, agindo conforme seu livre-arbítrio, atenta contra a ordem estabelecida pelo Contrato Social146.

Já a Escola Positiva retrata o princípio do bem e do mal quando apresenta sua concepção de delinqüente, baseada em concepções científicas. Para ela, e mais especialmente para Henrique Ferri, o delinqüente positivista seria aquele que, por força de anomalias biológicas, antropológicas e sociológicas, cometeria o delito, evidenciando sua anormalidade, e se apresentando como um perigo social, não se encaixando no sistema147.

143 ANDRADE, Vera Regina Pereira de, A ilusão de segurança jurídica, p.137.

144 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

145 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

146 Ver nota nº 3 que trata do Contrato Social.

147 Cf. FERRI, Henrique, Princípios de Direito Criminal.

Baratta aborda ainda do Princípio de Culpabilidade, onde o delito seria a expressão de uma conduta interior reprovável, já que o autor age de acordo com sua vontade livre e consciente, violando normas sociais, presentes antes mesmo de serem sancionadas pelo legislador148.

Esse princípio evidencia a idéia da Escola Clássica de que o delinqüente comete o delito sobre sua livre e espontânea vontade, que é regida por sua responsabilidade moral, de onde deriva a responsabilidade penal. O indivíduo tem o poder de decidir se age conforme as regras estabelecidas pelo Contrato Social, ou não. Porém, caso viole essas normas sociais, tem o Estado direito de reprimi-lo, o que nos remete ao Princípio da Legitimidade, tratado a frente.

Já para os Positivistas, o delito se traduz na atitude interior reprovável do criminoso, que ao praticar o crime evidencia sua anormalidade biológica, sociológica e antropológica, devendo também ser reprimido, porém não pela legitimidade que o Estado possui ao ser autorizado pela sociedade, e sim pela evidente periculosidade social do delinqüente.

O Princípio da Legitimidade traz o Estado como expressão da sociedade, e por isso tem legitimidade para agir com repressão em defesa desta149. A criminalidade seria responsabilidade de alguns indivíduos, e o seu controle seria realizado através de agentes do sistema como a legislação, polícia, juízes, etc150. Esses agentes representam “a legítima reação da sociedade, ou da grande maioria dela, dirigida à reprovação e do comportamento desviante individual e à reafirmação dos valores e normas sociais”151.

Quando o princípio se refere ao Estado como expressão da sociedade, e por isso estaria legitimado para reprimir a criminalidade em sua defesa, aponta, assim como Beccaria, para a função do Contrato Social. Ou seja, a idéia de Contrato Social, que nasceu da burguesia insatisfeita com o governo fundamentado na religião e nos laços de sangue, desejando agora, um governo baseado na vontade da sociedade, passa a legitimar o Estado, que é a expressão da mesma, a agir contra a criminalidade para defendê-la. Isso acontece caso algum indivíduo resolva conscientemente, através do seu livre-arbítrio, não seguir as novas regras impostas, legitimando o Estado a punir aquele que escolhe não se enquadrar no sistema.

148 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

149 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

150 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

151 BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

Já no sistema penal moderno, o labelling approach152, ou teoria da reação social, vai expor esse princípio quando relata que o sistema moderno funciona de maneira seletiva e rotulante, e que essa seleção é feita primeiramente através da legislação, e completada pelos agentes desse sistema, que, assim como exemplifica o princípio, se traduzem em juízes, na polícia e etc.

Já o Princípio de Igualdade afirma que o Direito Penal é igual para todos os indivíduos e a reação penal é aplicada a todos os criminosos igualmente153. A criminalidade seria a expressão do comportamento de uma minoria que viola diretamente o Direito Penal154.

Esse princípio é demonstrado pela Escola Clássica quando, se preocupando apenas com o estudo do delito, aponta que não tratou de analisar o homem criminoso, como feito pela escola posterior, pois para ela os cidadãos seriam todos iguais.

Ferri, como já dito, expõe a idéia de minoria quando aponta que essa parcela que viola o direito diz respeito a uma minoria de indivíduos anormais da sociedade.

Porém, a parte do princípio que expõe que a criminalidade é a expressão do comportamento de alguns, que violam diretamente o Direito Penal dá margem para elaboração de um outro princípio, qual seja o Princípio da Legalidade.

Este aduz que o Estado “não apenas está legitimado para controlar a criminalidade, mas é autolimitado pelo Direito Penal no exercício desta função punitiva”155.

Ou seja, a criminalidade se traduz na violação da lei penal, o delito constitui o ato descrito na norma penal, o tipo penal.

A idéia da Escola Clássica de que a pena e o Direito Penal eram maneiras de se intervir sobre o delinqüente, e de defender a sociedade do crime criando uma desmotivação em relação a este, fazem parte desse princípio da legalidade, onde há limites para cominação e aplicação da sanção e para as modalidades do Estado exercer seu poder punitivo156.

O Princípio do Interesse Social e do Delito Natural vai ser aquele que acredita que os tipos penais são violações de interesses e necessidades próprios de toda a comunidade157. Assim, de acordo com Baratta, o princípio se traduz:

No núcleo central dos delitos definidos nos códigos penais das nações civilizadas representa ofensa de interesses fundamentais à existência de toda a sociedade. Os

152 Ver nota nº 82, que trata da Teoria da Reação Social, ou Labellig Approach.

153 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

154 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

155 ANDRADE, Vera Regina Pereira de, A ilusão de segurança jurídica, p.137.

156 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 31.

157 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 118.

interesses protegidos pelo direito penal são interesses comuns a todos os cidadãos.

Apenas uma pequena parte dos delitos representa violação de determinados arranjos políticos e econômicos, e é punida em função da consolidação destes (delitos artificiais)158.

Seus pressupostos são: a concepção da criminalidade como qualidade ontológica de certos comportamentos ou indivíduos, bem como a homogeneidade dos valores e dos interesses que são protegidos pelo Direito Penal159.

Aborda a idéia de Contrato Social, defendida por Beccaria, como já dito, quando expõe que os interesses que o Direito Penal protege são comuns a todos, ou seja, o Direito estaria legitimado pelos próprios cidadãos a defender seus interesses, que seriam condições essenciais de existência da sociedade.

Demonstra ainda, a idéia positivista de naturalização da criminologia. Isso acontece através da idéia científica da Escola, que acredita que por fatores biológicos, sociológicos e também antropológicos, o criminoso nasce anormal, ou seja, já nasce criminoso.

Por fim, o Princípio da Finalidade ou da Prevenção que diz que a pena não tem intenção de retribuir o delito, mas sim de prevenir novos crimes160. Ela, como sanção abstrata legalmente prevista, tem como objetivo desmotivar o comportamento contrário à lei, fazendo assim, parte da Teoria da Prevenção Geral Negativa161. E como sanção concreta tem o escopo de reeducar o criminoso, Prevenção Especial Positiva162.

No caso da sanção abstrata, temos como expoente Beccaria, que acreditava que os delitos deveriam ser combatidos através da Teoria da Prevenção Geral Negativa, ou seja, pena teria a finalidade de desmotivar o comportamento delituoso.

E ainda sobre a sanção concreta, que possui como objetivo a reeducação e é traduzida pela Teoria da Prevenção Especial Positiva, podemos apontar as idéias Ferrianas de repressão como meio para a ressocialização.

Foi através desses princípios, que traduzem a conclusão do estudo de Alessandro Baratta sobre as idéias dos principais pensadores da Escola Clássica, bem como da Positiva, que se funda a legitimidade do Direito Penal em agir em defesa da sociedade, sendo, portanto relevante estudá- los.

158 BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 43.

159 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 117-118.

160 Cf. BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e Crítica do Direito Penal. p. 42.

161 Ver nota nº 8 que trata da Teoria da Prevenção Geral Negativa.

162 Ver nota nº 8 que trata da Teoria da Prevenção Especial Positiva.

Porém, todos os princípios vão ser combatidos, demonstrando sua eficácia na teoria, e não na prática, gerando assim a negação da ideologia da defesa social, que é o assunto explanado a seguir.

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