Expondo a capacidade plástica e polivalente do racismo, chamo a atenção para a necessidade de, em vez de tentar conter as sangrias, colidir energias para lidar teoricamente como boa parte das mobilizações políticas tem tentado fazer: articulando suas questões locais a um panorama e a uma rede global.
O que algumas análises nos ajudam a ver é que o racismo é facilmente assimilável a um certo grau de nacionalismo, ou a uma certa dimensão nacional, ou que está radicado sob as divisões dos Estados-nação. Já o antirracismo tende a ser menos alinhado aos territórios fixados na terra, e aponta para rotas cosmopolitas.
Essas vozes em coro é uma composição em aberto, que atua entre contratempos, ruídos e samplers – nem sempre inteligíveis nos termos do universalismo de base iluminista.
As ideias, táticas e estratégias da maior parte dos movimentos pelos direitos civis e nacionalistas negros não emanam do Estado nem do capital, mas da interação da luta popular com as filosofias da práxis que tiveram dimensões locais, nacionais e transnacionais. […] Mas eu aqui gostaria de levar minha resposta mais um passo adiante; a circulação de ideias, táticas e filosofias das lutas por direitos civis negros nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar é útil para a circulação contínua da discussão sobre a relação entre poder e cultura na esfera pública transnacional negra. É um passo em direção à transcendência (se é que é possível) das limitações de ambos os argumentos: de um lado, os direitistas, sobre a inferioridade cultural ou biológica de uma espécie de sujeitos, africanos e descendentes de africanos;
de outro, os esquerdistas (europeus e outros), que relegam a política transnacional negra ao reino do sempre exótico, ou pior, “provinciano”.
(HANCHARD, 2002, p. 73).
77 Aqui têm sido desenvolvido um mapa interpretativo marcado pelas implicações do racismo em territórios ocidentalizados, o que omite da análise mas não exclui a sua validade para territórios orientalizados – aqui faço referência direta ao seminal trabalho de Edward Said, Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente (2007 [1978]). Ficamos em débito, não sem pesar, da inclusão do genocídio racista na Palestina no escopo do parecer sobre os processos de radicalização e racialização da alteridade apresentado aqui.
O trânsito de ideias e influências mútuas – ainda que não paritárias – da resistência e combate ao racismo é mais um elemento para esse quadro complexo e instável, mas imprescindível para a composição de um conceito para a negritude.
Concordando com Sérgio Costa, creio que “o desafio analítico que se coloca é precisamente o de desvendar as formas de mediação entre os contextos transnacionais de ação e a multiplicidade de formas de vida nos diversos contextos locais regionais.” (COSTA, 2006, p. 129).
Mesmo que com ressalvas, não há dúvida de que estamos falando de um mesmo fenômeno, mas somente enquanto uma narrativa, ou seja, uma abstração que visa ordenar o caos do mundo, e aqui, tratamos de uma narrativa específica, a científica78, o racismo pode ser tomado como unívoco. E é por isso que o próximo passo é a ampliação do zoom das lentes analíticas, para assim sermos capazes de perceber o quanto as implicações do racismo são suscetíveis ao GPS e à timeline, mas que, diferente de quando é inscrito no papel, onde rasurado perde o sentido e/ou a inteligibilidade, na pele, seus paradigmas se superpõem na experiência cotidiana das pessoas negras.
Ainda que de modo acidentado e em espiral, podemos identificar uma evolução linearizada da teoria sobre o racismo. No entanto, enquanto essas compreensões conceituais sobre o racismo vão sendo contestadas e desenvolvidas ao longo do tempo no campo científico, e talvez no campo político, para as pessoas negras, estas perspectivas se sobrepõem. Embora possa haver (sempre) uma nova versão que se perde de vista, via de regra, o conceito de racismo carrega esse tom valorativo que desabona e condena as violências e discriminações racistas. Mesmo assim, para escapar as estas contingências, novos e velhos racismos se arranjam em camadas de constrangimentos e violências sobre os ombros, na pele de pessoas negras – e/ou racializadas.
78 Em uma bravata que tem o mesmo intuito da que é feita aqui, mas por outros caminhos, mais influenciados por uma abordagem compreensiva e sistemática das teorias raciais, apoiada em três pilares: “reflexividade, relacionalidade e reconstrução”, em uma síntese eclética e criativa do resgate e do realce de algumas reflexões relacionais de Émile Durkheim; da escola estadunidense da filosofia pragmatista a partir do trabalho de John Dewey; e da teoria do capital social, no caso determinante das posições e da reflexividade no campo onde se dão os conflitos raciais, de Pierre Bourdieu, Mustafa Emirbayer e Matthew Desmond empreendem um ordenamento (ou uma tentativa de) da
“raça”. Mas Howard Winant, que décadas antes, em parceria com Michael Omi, já havia feito esforço na mesma direção, avalia muito sensivelmente os esforços quixotescos de The Racial Order (2015):
“A ‘ordem’ no livro é produzida pelaaplicação da teoria sociológica à raça, mas essa ‘ordem’ não é realmente sobre raça; é sobre a sociologia da raça.” (WINANT, 2016, p. 2286).
Ao de novo tentar trazer para o primeiro plano as experiências de pessoas negras em vez das sínteses e/ou abstrações teóricas desenvolvidas a partir delas, não se quer insinuar a dimensão da identidade não exerça influência sobre a análise, e menos ainda que as desigualdades raciais cristalizadas em estruturas sociais não importem, mas com isso queremos indicar que atualmente os contextos e as narrativas identitárias delimitados pelos Estados-nação não são suficientemente estáveis e coesos como referências dos poderes da matriz colonial. Por exemplo, assim como nos Estados Unidos e na África do Sul, territórios tomados aqui como emblemáticos, a escravização e a carnificina de multidões de pessoas sequestradas e racializadas é indissociável ao racismo contra pessoas negras no Brasil. Ao que parece, essa matriz histórica escravocrata comum não é o suficientemente determinante para os desdobramentos seja do racismo ou mesmo dos repertórios de negritude para as pessoas negras de cada um desses territórios experimentam. Esse movimento subsequente e complementar de mudança de foco, por seu turno, quer abrir caminhos para a consideração da experiência das pessoas nas formulações teóricas sobre a identidade e sobre a subjetividade, visto que ela não estão mais dadas de partida79.
Em seguida ampliaremos o zoom nas implicações da experiência do racismo, elencando alguns dos riscos da cor no contexto brasileiro, com a ajuda de mensurações estatísticas das persistentes desigualdades raciais. Este tópico é uma etapa preliminar e preparatória para o que considero a questão mais visceral do nosso pretenso conceito de negritude: o que as pessoas que sentem e vivem na pele o processo de racialização precisam para dispor de segurança ontológica para serem o que são, pessoas negras e dignas de respeito?
Esta aposta quer argumentar que enquanto o racismo descrito no papel é determinado de modo diacrônico (e por vezes anacrônico), o racismo inscrito pela pele, é fundamentalmente sincrônico.
79 Mais uma vez, concordo e convoco Stuart Hall (2003), que nos alerta para o desdobramento da identidade cultural em três concepções ao longo do tempo: a do sujeito iluminista, a do sujeito sociológico e a do sujeito pós-moderno, autocentrada, centrada na interação entre o interior do indivíduo e a sociedade em seu exterior e capaz de ter mais de um centro simultaneamente e ao longo do tempo, respectivamente.
3 O RACISMO NA PELE
O sol do meio dia arranca fumaças das pedras e relâmpagos dos metais. Alvoroço no porto: os galeões trouxeram de Sevilha a artilharia pesada para a Fortaleza de São Domingos; o prefeito, Fernández de Oviedo, dirige o transporte de colubrimas e canhões.
A golpe de chibata, os negros arrastam a carga a todo vapor.
Rangem os carros, sufocados pelos pesos dos ferros e bronzes, e através do torvelinho outros escravos vão e vem jogando caldeirões de água contra o fogo que brota dos eixos aquecidos.
Em meio da zoeira e da gritaria, uma moça índia anda em busca de seu amo. Tem a pele coberta de bolhas. Cada passo é um triunfo e a pouca roupa que usa atormenta a sua pele queimada. Durante a noite e meio dia, esta moça suportou, de alarido em alarido, os ardores do ácido. Ela mesma assou as raízes de guao e esfregou-as entre as mãos até convertê-las em pasta. Untou-se inteira de guao, da raiz dos cabelos até os dedos dos pés, porque o guao abrasa a pele e limpa a cor, e assim transforma as índias e negras em brancas damas de Castilha.
– Me reconhece, senhor?
Oviedo afasta-a com um empurrão; mas a moça insiste, com seu fio de voz, agarrada ao amo como sombra, enquanto Oviedo corre gritando ordens aos capatazes.
– Sabe quem sou?
A moça cai no chão e do chão continua perguntando:
– Senhor, senhor, não sabe quem sou?
Eduardo Galeano