3.2 EXCLUDENTES DE REPARAÇÃO NA RESPONSABILIDADE MÉDICA
3.2.3 P OSSIBILIDADES DE EXCLUDENTE DE RESPONSABILIDADE
Demonstrados os elementos que podem interferir na responsabilização do profissional médico, destaca-se que aqui, traçar-se-á as possibilidades de excludente de responsabilidade civil, que, conseqüentemente, são aquelas inerentes à responsabilidade médica.
Ensina Sílvio de Salvo Venosa que “são excludentes de responsabilidade, que impedem que se concretize o nexo causal, a culpa exclusiva da vítima, o fato de terceiro, o caso fortuito e força maior [...]”210, motivo pelo qual, serão estas excludentes tratadas nos itens seguintes.
3.2.3.1 Fato da vítima
Aponta Carlos Roberto Gonçalves, que quando o dano ocorre por culpa exclusiva da vítima, não há responsabilidade do agente, pois neste caso inexiste relação entre a causa e o efeito do ato e prejuízo sofrido pela vítima. Afirma-se, então, que em caso de culpa exclusiva da vítima, o agente que causou o dano não passa de um simples instrumento do acidente, razão pela qual, não há relação de causalidade entre o seu ato e o prejuízo suportado211.
Aludem Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho, que “a exclusiva atuação culposa da vítima tem também o condão de quebrar o nexo de causalidade, eximindo o agente da responsabilidade civil”212.
Por sua vez, observa Hildegard Taggesell Giostri, que o fato da vítima pode dividir-se em culpa exclusiva da vítima e culpa concorrente:
A culpa exclusiva do paciente libera o médico de toda e qualquer responsabilidade pelo dano sofrido por aquele. Assim, em não
210 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. p. 43-44.
211 Cf. GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade civil. 2005. p. 741.
212 GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil. p. 114.
havendo culpa por parte do médico, não há que falar-se em reparação. [...].
Havendo culpa concorrente da vítima e do médico, não estaria configurada a excludência de responsabilidade, mas, sim, a presença de uma responsabilidade bipartida, em que cada uma das partes responderia pela parcela de culpa que lhe coubesse213. Para tanto, explica Március Alves Crispim, que sintetizando o acima exposto, diz-se que o fato concorrente da vítima minimiza o valor da indenização na sua proporção. Se o fato da vítima for determinante para o evento, isto é, se revestir-se das características da imprevisibilidade e inevitabilidade, deve-se reconhecer a culpa exclusiva desta. Entretanto, se inexiste relação de causalidade, não se pode impor a obrigação de reparar, vez que as razões são simples e óbvias: quem deve indenizar o prejuízo da vítima é quem produziu causa ao evento danoso, e se esta é responsável pela conduta formadora do nexo causal, deverá suportar os danos decorrentes de sua conduta214.
Isto posto, demonstrado a primeira possibilidade de excludente de responsabilidade, passa-se à segunda, qual seja, fato ou culpa de terceiro.
3.2.3.2 Fato ou culpa de terceiro
Maria Helena Diniz doutrina que:
Na responsabilidade por fato alheio alguém responderá, indiretamente, por prejuízo resultante da prática de um ato ilícito por outra pessoa, em razão de se encontrar ligado a ela, por disposição legal. Há dois agentes, portanto: o causador do dano e o responsável pela indenização215.
Outrossim, entende Cláudia Miranda Pagano, que na linha da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, o fato de terceiro enseja a
213 GIOSTRI, Hildegard Taggesell. Erro medico à luz da jurisprudência comentada. p. 200.
214 CRISPIM, Március Alves. Responsabilidade objetiva extracontratual nos acidentes de trânsito.
Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 596, 24 fev. 2005. Disponível em:
<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6370>. Acesso em: 29 mai. 2008.
215 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro. p. 509.
exclusão da responsabilidade civil e é aquele imprevisto e inevitável (fortuito externo)216.
Destaca Sílvio de Salvo Venosa:
No caso concreto, importa verificar se o terceiro foi o causador exclusivo do prejuízo ou se o agente indigitado também concorreu para o dano. Quando a culpa é exclusiva de terceiro, em princípio não haverá nexo causal. Cabe ao agente defender-se, provando que o fato era inevitável e imprevisível. [...]217.
Deste modo, afirma Hildegard Taggesell Giostri, que o fato de terceiro pode isentar o médico de sua responsabilidade perante o paciente, somente quando o dano ocasionado tenha sido cometido por interferência ou ato de alguém próximo ao paciente218, visto que cabe ao patrão ou comitente, a culpa presumida por prática de ato culposo do seu empregado ou preposto, conforme bem esclarece a Súmula nº 341, do Supremo Tribunal Federal219.
Isto posto, visto, brevemente, no que consiste o fato de terceiro, conforme entendimentos doutrinários, estuda-se a seguir, a última hipótese de possibilidade de excludente de responsabilidade, qual seja, caso fortuito ou força maior.
3.2.3.3 Caso fortuito ou força maior
Destaca Antônio Lindenberg C. Montenegro que o caso fortuito ou força maior configura-se nas situações em que o prejuízo ocorreu e, mesmo assim, não se pode imputar a culpa ao causador220.
216 Cf. PAGANO, Cláudia Miranda. O consumidor por equiparação e a culpa de terceiros nos contratos de transporte. Disponível em: <http://jusvi.com/artigos/29408>. Acesso em: 29 mai.
2008.
217 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. p. 54.
218 Cf. GIOSTRI, Hildegard Taggesell. Erro medico à luz da jurisprudência comentada. p. 201.
219 Cf. BRASIL. In: Supremo Tribunal Federal. Súmulas nº 301 a 400. Disponível em:
<http://www.stf.gov.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=jurisprudenciaSumula&pagina=sumula_30 1_400>. Acesso em: 29 mai. 2008. “[...]. É PRESUMIDA A CULPA DO PATRÃO OU COMITENTE PELO ATO CULPOSO DO EMPREGADO OU PREPOSTO”.
220 Cf. MONTENEGRO, Antônio Lindbergh C. Responsabilidade civil. p. 318.
Por sua vez, leciona Plácido e Silva que:
O caso fortuito é, no sentido exato de sua derivação (acaso, imprevisão, acidente), o caso que não se poderia prever e se mostra superior às forças ou vontade do homem, quando vem, para que seja evitado.
O caso de força maior é o fato de que se prevê ou é previsível, mas que não se pode, igualmente evitar, visto que é mais forte que a vontade ou ação do homem221.
Para Hildegard Taggesell Giostri a força maior se constitui de um poder ou razão mais forte do que aquela que atua, sendo, normalmente, decorrente da qualidade de irresistibilidade de um certo fato que, por ser considerado exacerbado, impede ou modifica a realização do cumprimento de uma obrigação. Já, caso fortuito, é a conduta de um médico, por exemplo, que apesar de correta e adequada, causa conseqüências de fatos estranhos e alheios, também denominadas de ocorrências extraordinárias ou excepcionais222.
Portanto, esclarece Sílvio de Salvo Venosa:
O conceito de ordem objetiva gira sempre em torno da imprevisibilidade ou inevitabilidade, aliado à ausência de culpa. A imprevisibilidade não é elemento especial a destacar: por vezes, o evento é previsível, mas são inevitáveis os danos, porque impossível resistir aos acontecimentos. Um tufão ou ciclone, por exemplo, pode ser previsto com dias de antecedência, mas seus efeitos são, em princípio, inevitáveis; da mesma forma que uma longa estiagem em determinada região; o avançar de um incêndio na mata etc. Nessas situações, nem sempre, apesar de toda tecnologia, os danos podem ser evitados223.
Desta forma, interligando estas informações ao tema em tela, verifica-se, por conseguinte, que tanto a força maior quanto o caso fortuito ensejam nas possibilidades de excludente de responsabilidade, posto que:
221 SILVA, De Plácido E. Vocabulário jurídico. Rio de Janeiro: Forense, 1982. p. 380.
222 Cf. GIOSTRI, Hildegard Taggesell. Erro medico à luz da jurisprudência comentada. p. 199.
223 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil. p. 47.
[...]. Força maior considera-se um fato natural, superior às forças humanas, não sendo possível ao ser humano evitar sua ação e conseqüências, apesar de identificá-lo e, até mesmo, prevê-lo.
Não se resiste a ele mesmo que se queira. Portanto, a força maior se caracteriza por ser um evento externo à relação médico e paciente.
O caso fortuito é aquele fato que decorre da conduta humana, tendo como característica ser imprevisível e, portanto, inevitável pelos participantes da relação profissional e paciente. Assim, independe a sua ocorrência tanto do médico, como do paciente, apesar de ocorrer no âmbito da relação médico-paciente. Pode-se dizer, até, ser, o caso fortuito, um evento interno desta relação. É obra do acaso – não esperado na conjuntura do que está ocorrendo em um determinado momento de um atendimento médico224.
Sendo assim, conclui-se, vislumbrando que, “há exoneração da responsabilidade civil do cirurgião plástico se a lesão ao paciente é decorrente de caso fortuito ou força maior”225.
Expostas as possibilidades de excludente de responsabilidade, examina-se, no próximo e último item, deste trabalho, sobre os aspectos psicológicos da cirurgia plástica.