2.1 FUNDAMENTOS DO TURISMO E HOTELARIA
2.1.1 Panorama
O turismo pode ser compreendido segundo as várias abordagens e perspectivas existentes, os seus diferentes aspectos, especialmente por ser uma atividade que se desenvolve em âmbito global. Desta forma, é possível observar variados conceitos a respeito do turismo, segundo diferentes teóricos e pesquisadores.
A definição de turismo sofreu alterações ao longo do tempo; a primeira, introduzida pelo economista austríaco Herman Von Schullard, em 1910, consigna a atividade como “[...]
a soma das operações, principalmente de natureza econômica, que estão diretamente relacionadas com a entrada, permanência e deslocamento de estrangeiros para dentro e para fora de um país, cidade ou região”. (WAHAB, 1991, p. 23).
Cândido e Vieira (2003, p. 17) explicam que o turismo pode ser definido “[...] como um conjunto de atividades socioeconômicas, que provoca o deslocamento temporário de pessoas ou grupos de pessoas, com uma ou diversas finalidades: lazer, cultura, negócios ou saúde”.
O Brasil, MTur (2012) também apresenta duas definições para o turismo. Na primeira, considera-o como
[...] atividade econômica representada pelo conjunto de transações de compra e venda de serviços turísticos efetuadas entre os agentes econômicos do turismo. É gerado pelo deslocamento voluntário e temporário de pessoas para fora dos limites da área ou região em que têm residência fixa, por qualquer motivo, excetuando-se o de exercer alguma atividade remunerada no local que visita.
Na segunda definição, o turismo é entendido como o “[...] conjunto de relações e fenômenos produzidos pelo deslocamento e permanência de pessoas fora do lugar de domicílio, desde que tais deslocamentos e permanência não estejam motivados por uma atividade lucrativa”. (BRASIL, MTur, 2012).
A atividade turística pode ser considerada como uma atividade complexa, que se originou pela necessidade de deslocamento das populações dentro do espaço físico mundial.
A ação de viajar compõe um dos elementos da vida social, cultural e econômica da humanidade, no transcorrer de cada era e de cada civilização.
O documento “Panorama OMT del Turismo Internacional” destaca o fato de que o turismo emprega milhões de pessoas, direta ou indiretamente, em 56 segmentos da economia, caracterizando-se, por isso mesmo, como a maior atividade do comércio internacional.
Informa ainda que o turismo colabora para a ativa preservação do patrimônio histórico e cultural nos quatro cantos do mundo, consequentemente é uma atividade que impulsiona o desenvolvimento intersetorial em função do efeito multiplicador dos investimentos. (OMT, 2011).
Autores como Liguory e Gray (1990), Andrade (2000), Mota (2001) e Lage e Milone (2001) explicam que as origens do turismo estão na Grécia, onde há relatos de viagens realizadas para ver e participar dos jogos olímpicos. Na Antiga Grécia havia atividades de lazer como: atividades artísticas e culturais, cursos, conferências e diversas solenidades, além de competições esportivas, em honra de Zeus. Essas viagens geravam necessidade de alojamento, pois devido aos recursos existentes para a locomoção, costumavam durar dias, meses ou até anos. Desta forma, os alojamentos para viajantes, por sua vez, evoluíam à medida que aumentavam as necessidades de viagens e de meios de transporte.
Sobre a relação entre a evolução dos meios de transporte e a evolução dos hotéis, Castelli (1997a, p. 23) expõe:
Como fazer turismo implica necessariamente em deslocamento, a evolução dos meios que proporcionaram a locomoção tem sido fator primordial para o desenvolvimento das empresas hoteleiras. À medida que os meios de transportes ganhavam velocidade, segurança e conforto, o mesmo progresso era registrado nos meios de hospedagem.
Para uma melhor compreensão, no Quadro 1, apresenta-se, sinteticamente, a evolução da hotelaria no mundo, destacando os principais aspectos de cada época.
Quadro 1 – Marcos da hotelaria no mundo
Período Evolução da hotelaria no mundo
Antiguidade
“O mais antigo registro a respeito da hospedaria organizada data da época dos Jogos Olímpicos, em cuja organização e instalações constavam o dispositivo de recepção e hospedagem, que consistia em um abrigo de grandes dimensões, em forma de choupana. Denominava-se Asylon, ou Asilo, porque era um recinto inviolável, com a finalidade de permitir o repouso, a proteção e privacidade dos atletas de fora, convidados a participar das cerimônias religiosas e das competições esportivas”.
(ANDRADE, 2000, p. 165).
Séc. IV a.C.
O governo romano iniciou a diversificação de caminhos. A maior variedade de destinos possibilitou que os viajantes pudessem alcançar pontos e locais de diversão e lazer para realizar o turismo. Nesta época, o alojamento era feito em casas, templos e acampamentos.
Séc. II a.C. a II d.C.
Em Roma, os estábulos eram o ponto de descanso para os plebeus. Em seguida, surgiram as estalagens junto às tabernas, para abrigar nobres e oficiais.
Séc. III d.C.
Em Roma, Jerusalém e Meca, iniciam as peregrinações religiosas com a liberação do cristianismo por Constantino,“O Grande”; surgem então as hospedarias, os alojamentos e as instalações rústicas e alimentação.
Séc. IX
Neste período, intensificaram-se as peregrinações religiosas por terra e por mar, surgindo assim as novas hospedarias: jacobinos peregrinavam para Santiago de Compostela (Espanha); budistas para o extremo oriente; hindus e muçulmanos para Shri Para (Índia).
Séc. XII
As viagens na Europa, igualmente, intensificaram-se em razão da maior segurança nas estradas e, rapidamente, as hospedariam começaram a surgir.
Neste momento, criam-se leis e normas para regulamentar a atividade hoteleira, principalmente na França e na Inglaterra.
Séc. XIV Surgimento do primeiro hotel comercial do mundo e ainda hoje existente: o Wkalet-Al-Ghury, na cidade do Cairo, Egito.
1750 a 1850
Na Inglaterra, as estalagens foram substituídas pelos inns (hotéis de categoria econômica), que ofereciam uma variedade de serviços, alto padrão de limpeza e excelente alimentação. No interior da Inglaterra, muitas pousadas se desenvolveram a partir dos monastérios que aos poucos fechavam as suas portas.
Séc. XIX
O setor hoteleiro é impulsionado pela Revolução Industrial, o capitalismo, a produção, as facilidades de locomoção (máquina a vapor, motor de explosão), fluxos organizados por ferrovias (Thomas Cook, 1841 – a primeira agência de viagens) e também as reservas e o voucher hoteleiro.
Os Estados Unidos se tornaram o maior país do mundo em número de albergues e também ofereciam os melhores serviços da época. Neste século, a expansão econômica norte-americana provocou aumento no turismo de negócios e de lazer. As grandes transformações da hotelaria europeia vieram com o suíço César Ritz.
1870
Fundação do Conselho Internacional de Hoteleiros, em Colônia, Alemanha, por quarenta hoteleiros de várias nacionalidades, que criaram estatutos próprios.
1950
Após a Segunda Guerra Mundial, houve um estímulo no que se refere à construção de hotéis nas capitais e nos centros de atração turística de diversos países.
Fonte: Adaptado de Campos e Gonçalves (2006), Cândido e Vieira (2003), Andrade (2000) e Beni (2003).
Conforme se observa, desde o seu nascimento, a hotelaria tinha como propósito o abrigo, o descanso e a privacidade, como ocorre nos dias atuais. Ainda, sua notável expansão deu-se após a Segunda Guerra Mundial.
No Brasil, o desenvolvimento da hotelaria tem início em 1808. Porém, somente no começo dos anos 1900 é que se verifica um avanço no setor, devido a incentivos econômicos, como demonstra o Quadro 2.
Quadro 2 – Marco da hotelaria no Brasil
Período Evolução da hotelaria no Brasil
1808 Incentivo de implantação de hospedarias no Rio de Janeiro com a vinda da corte portuguesa para o Brasil.
1904 Primeira lei de incentivos para a implantação de hotéis no Rio de Janeiro.
1946 Proibição dos jogos de azar e fechamento dos cassinos.
1966 Criação da EMBRATUR e do FUNGETUR, que viabilizam a implantação de grandes hotéis.
1990 Entrada definitiva das redes hoteleiras internacionais no país.
Fonte: Andrade; Brito; Jorge (2007, p. 25).
Merece destaque a chegada das redes hoteleiras internacionais ao Brasil, que impulsionam a competitividade e o crescimento no setor.