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Passagem do tempo

No documento Sônia Regina Vinco Tornar-se (páginas 80-83)

constringiu em suas fronteiras povos e etnias bastante diversos, porém marginalizando as culturas dos povos subalternizados no processo colonial. Se é direito de todas as nossas crianças, é dever (e direito) de todos os professores procurar preparar-se para dialogar com essa complexidade, sendo mister “manter-se a par das novas ideias, além daquelas que pertencem ao campo específico de sua disciplina” (SANTOS, 2016, p.14-15), mas, obrigatoriamente, daquelas que fazem parte do seu campo de atuação. Sustento que só desse modo, em algum futuro, um reitor branco poderá ter, sim, bem mais para dizer numa situação similar, porque ele, brasileiro, terá conhecimentos para além do “currículo clássico”, isto é, eurocêntrico, e terá vivido um processo de formação identitária que lhe tenha possibilitado questionar as formas com que o projeto colonial se assenta na nossa formação cultural, estruturando nosso racismo.

Acreditava – mas, hoje, não tenho dúvidas de que foi por isso mesmo - que tal se tenha devido ao meu encontro com a estudante Ana Clara na sala de leitura, quando fui apresentada, sem que tivesse procurado, a algo que precisava encontrar:

seu texto autobiográfico, escrito espontaneamente. A pungência daquele escrito me tocou de tal modo, que eu achei viável restringir a pesquisa a narrativas infantis apenas. Todavia, não pude cursar a disciplina.

Vieram somarem-se aos meus problemas pessoais as questões coletivas relativas ao sucateamento da universidade impetrado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, amplamente noticiadas. Já não cursava a disciplina e, além disso, tivemos muitas paralisações das atividades, o que deu àquele segundo semestre uma fragmentação que me contagiou.

O ano letivo de 2016, por sua vez, já começou com a universidade em greve.

Eu me inscrevera novamente na disciplina da professora Rita, que, daquela vez, a compartilhava com minha orientadora, professora Mailsa Passos. Mas as aulas só vieram a começar em setembro.

A universidade foi ficando distante de mim, mas não o trabalho na escola.

No primeiro dia de aula da disciplina, em setembro, novamente, o questionário sobre a pesquisa estava diante de mim. Daquela vez, respondi de modo diferente. Por causa de uma conversa informal que havia tido com Mailsa e com o professor Carlos Roberto Carvalho, eu tinha mudado de intenção: estava, então, interessada em investigar as obras voltadas para crianças. Assim escrevi na tal folha:

A Lei 10.639/03 indica as áreas de História, Artes e Literatura como campos preferenciais para o trabalho com história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, visando a uma educação antirracista.

No entanto, questões importantes me ocorrem:

A simples presença dos livros nas escolas atende a esse propósito?

Na esteira das determinações legais, as editoras vêm despejando enxurradas de obras no mercado, para serem consumidas nas escolas, principalmente. Como olhar criticamente para esse vasto universo?

As conversas que tivemos em aula sobre essa ideia direcionavam a pesquisa para a sala de leitura do colégio, onde eu analisaria obras e a recepção destas pelas crianças. E mais um caldeirão de análises foram listadas como possibilidades.

Mas eu não fiquei feliz. E “a alegria é prova dos nove”, como um dia disse Oswald de Andrade.

No período do ano letivo em que nada parecia acontecer – porque a vida é assim mesmo, tem fases, e insisto em que precisamos nos lembrar de que a pesquisa está na vida, não fora dela -, eu continuava trabalhando no colégio, ou seja, imersa no campo, mesmo sem saber ainda exatamente o que faria, e já no segundo ano do curso.

Duas intenções me habitavam. A primeira era aguardar chegar o tempo de certas aulas que fazem parte do nosso currículo de Literatura: no 2º ano, quando contamos uma série de histórias cujos protagonistas são negros, e as aulas de mitologia, no 5º ano, quando contamos também histórias da mitologia iorubá; a segunda intenção era pesquisar com maior vagar na sala de leitura, em novembro, mês que, desde 2013, vínhamos reservando para celebrar a consciência negra, quando turmas de todos os anos vivenciam contações de histórias da cultura afro- brasileira e outras atividades.

Então, eis que chegou o final de setembro e, com a concordância das professoras regentes, comecei a participar de algumas aulas de Literatura.

Ironicamente, lá estava eu, novamente, onde eu venho estando desde 1996:

imiscuída no trabalho da equipe de Literatura. Como Alice43, envolta nas sinuosidades do caminho, quando atravessou o espelho: “perambulando para cima e para baixo, e tentando curva atrás de curva, mas sempre voltando para casa, fizesse o que fizesse” (CARROL, 2015, p.37). Eu estava “voltando para casa”.

A participação naquelas aulas foi-me de tal modo rica, que decidi que iria participar de muitas outras, até o final do ano letivo de 2016. No entanto, meus planos foram, mais uma vez, interceptados: o desmonte do estado promovido pelo golpe “capitalista, patriarcal, racista, fundamentalista, midiático, jurídico e heteronormativamente orientado”44 que afastou do poder a presidente Dilma Rousseff fez com que se deflagrasse uma greve nas Instituições Federais de Ensino e o CPII fechou as portas no dia 28 de outubro. Votou-se o final da greve em dezembro, às vésperas do recesso natalino que se emendaria às férias escolares de janeiro, mês em que escrevi o texto para qualificação do projeto de pesquisa. Só retomamos o ano letivo de 2016 no dia 1º de fevereiro de 2017.

43 Referência à famosa personagem da obra clásica de Lewis Carrol.

44 Essa definição foi feita pela professora Nilma Lino Gomes, em fala na mesa redonda ”O que é pedagogia decolonial”, ocorrida durante o II Seminário de Formação Política do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas, Movimentos sociais e Culturas – GPMC /UFRRJ – UERJ-2018

Foi, de fato, processo deveras complexo. Contudo, considerei importante persistir nesse projeto, pois acredito no valor da minha experiência profissional, que é também, e muito, uma experiência coletiva de tessitura curricular. As histórias que eu tenho para contar, já que estou na escola básica de 1º segmento – ringue onde tantos sentidos disputam hegemonia (BAKHTIN, 2004) - há 33 anos, lidando com literatura infantil há 22 anos, a maior parte desse tempo, em sala de aula. E porque eu preciso comunicar as leituras do mundo que ouço, que cheiro, que toco, que vejo.

Mundo cujo sabor sinto com o corpo inteiro, e interpreto. Minhas interpretações do real (PAIS, 2003) só com o sal das minhas palavras eu poderia temperar. Saber e sabor são palavras de igual étimo, um dia aprendi com Barthes (2002a). No cerne do saber está o sabor, e em todo conhecimento este se intrinca: pequeno, insosso, sutil, desagradável... Ou simplesmente imenso.

Eis-me, pois.

No documento Sônia Regina Vinco Tornar-se (páginas 80-83)