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Sônia Regina Vinco Tornar-se

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Academic year: 2023

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Texto

Uma das muitas perguntas que ele me fez sobre a história de Ana Clara foi esta: a boneca existiu mesmo ou foi criação da autora. Sobre a possibilidade de ter aquele texto reproduzido e “divulgado” entre os colegas, Ana Clara respondeu: “Não gosto de pensar nisso, porque foi muito chato.

Figura 1 – Capa do texto reproduzido pela professora.
Figura 1 – Capa do texto reproduzido pela professora.

O carnaval dos Ibêjis

Como acredito, no credo e na teoria10 - que, nas palavras de Gilberto Gil, “significa estar na contemplação” -, que tudo o que fomos, somos e seremos, vem das histórias, das narrativas que habitamos, eu lhe digo : ali mesmo na cama, diante daquele texto literário, pude interpretar as palavras de Ifá11, ouvidas quase um ano antes, e entender de quais gêmeos estavam falando. O conhecimento de adivinhação (GINZBURG, 2003) me levou a uma atitude cognitiva que me permitiu outros relacionamentos, como vocês logo saberão.

A segunda Ibêji

A partir de um povo mestiço desde o início, o mito da democracia racial foi criado, lenta e progressivamente. No entanto, ainda depende de uma iniciativa individual do professor ou de um grupo de professores.

Figura 5 - Livro didático da 3ª série (1973).
Figura 5 - Livro didático da 3ª série (1973).

Itinerário de intenções: o caminho sinuoso para a definição da

Olhar, ouvir e sentir as diferentes produções que acontecem nos diferentes espaços da escola, compreendendo o espaço como um lugar praticado pelos sujeitos (CERTEAU, 2003). Pais (2003) ajudou-me a justificar pesquisas que se baseiam em grande parte nas histórias de sujeitos do mundo real, sem a assunção de uma obrigação de provar verdades descobertas, o que é semelhante à forma moderna de produzir conhecimento. Um caminho obscuro que se torna mais claro à medida que avançamos, ou seja, quanto mais o percorremos, concordando que “o mundo relatado é o mundo por excelência” (PAIS, 2003, p.66).

Contém as histórias de quem o fala ou escreve, uma visão do interlocutor daquele a quem se dirige, os significados que se espera dar ao assunto de que trata. É nessa arena de contradições e disputas que a história vivida e a escrita da história entram em contato, onde se estabelece uma distância entre os significados dados à palavra fuxico, pelos praticantes e pelos responsáveis ​​por traduzir essa prática.

Figura 7 – Fuxicos
Figura 7 – Fuxicos

Alguns encontros cotidianos que me levaram a formular primeiro

Contudo, o leitor deve lembrar-se que a minha investigação acabou por encontrar fundamento no trabalho da Equipa de Literatura. Neste caso, o sucesso da Equipe de Literatura em suas escolhas político-epistemológicas em relação ao currículo. Primeiro, ela não cita o meu nome nem o de qualquer outro professor, mas sim um trabalho, o trabalho da Equipe de Literatura do Campus São Cristóvão I.

Outra coisa que me emocionou foi que a aluna apontou as aulas de Literatura como aquelas que a fizeram ver que o mundo é muito maior do que aquilo que ela trouxe da família. Ora, é isso que fazíamos como praticantes do cotidiano (CERTEAU, 2003), nas aulas de literatura: mexíamos no currículo.

Passagem do tempo

As conversas que tivemos em aula sobre essa ideia levaram a pesquisa até a sala de leitura da escola, onde analisei as obras e sua recepção pelas crianças. A primeira era a espera de algumas aulas que fazem parte do nosso currículo de literatura: no segundo ano, quando contamos uma série de histórias cujos protagonistas são negros, e as aulas de mitologia, no quinto ano, quando contamos também histórias da mitologia iorubá ; a segunda intenção era fazer uma pesquisa mais lenta na sala de leitura, em novembro, mês que havíamos reservado desde 2013 para celebrar a consciência negra, quando turmas de todos os anos contam histórias sobre a cultura afro-brasileira e outras atividades. Chegou então o final de setembro e, com o consentimento dos professores, comecei a participar de algumas aulas de literatura.

Assistir àquelas aulas foi tão enriquecedor para mim que decidi frequentar muitas mais até ao final do ano letivo de 2016. As histórias que tenho para contar, já que estou no 1.º ano do ensino básico – parece que tantos significados competem pela hegemonia (BAKHTIN, 2004) - há 33 anos, lidando com literatura infantil há 22 anos, a maior parte do tempo em sala de aula.

Fuxicos viram tranças

Tudo vem da terra

Nessa estrada, todo escravo que cavalgava era obrigado a andar em volta de uma árvore: a Árvore do Esquecimento. O local onde se acredita ter existido a Árvore do Esquecimento é marcado por uma escultura do artista Dominique Kouas representando Mami Wata, uma divindade da água muito popular na África Ocidental e Central. Isso traz à mente o relato que um dos participantes de sua busca, um líder Nago, faz sobre a Árvore do Esquecimento.

Ao reproduzir uma visão homogênea da sociedade, a escola colocaria as diferenças em torno da árvore do esquecimento. Mas assim que li a ligação entre a escola e a árvore do esquecimento, isso me lançou numa imagem que ficou comigo para sempre.

Figura 11 - Monumento à Árvore do Esquecimento.
Figura 11 - Monumento à Árvore do Esquecimento.

Gênesis tropical

A frota que partiu de Belém (Lisboa), na segunda-feira, 9 de março de 1500, tinha um escrivão, Pero Vaz de Caminha. Viu-se que havia homens: “Eles eram morenos, todos nus, sem nada para cobrir a vergonha”. Eles tinham arcos, flechas, que baixavam a um sinal. Castanhos, meio corados, com rostos bonitos e narizes bonitos, bem feitos.” “Nus, sem qualquer cobertura”, eles não pensaram em “cobrir ou mostrar sua vergonha”. E eles o fizeram.

Mas eles não foram educados, nem falaram com o capitão ou com qualquer outra pessoa.” Olhou-se para o “colar de ouro muito grande” que o capitão usava. 51 Referência ao quadro de Victor Meirelles, A Primeira Missa no Brasil, pintado entre 1859 e 1861, inspirado na descrição de Pera Vaza de Caminha numa famosa carta ao Rei de Portugal.

De colonialidade e decolonialidade

A noção de raça, segundo Mbembe (2017, p. 39), cria a possibilidade de uma representação dos negros (e de outras humanidades não europeias) que sinaliza simultaneamente uma ausência (dos mesmos) e uma presença – a dos monstros. e fósseis55. Talvez a salvação venha de São Paulo e de outras áreas que foram fortemente injetadas com sangue europeu (NASCIMENTO, 2017, p. 81). Porém, se não obedecessem à ordem, a profecia não se cumpriria e seu futuro “não seria negro apenas na cor” (SCHWARCZ, 2017, p.10).

Seguindo esse tema, podemos nos referir à prática de leitura do texto literário como uma experiência lúdica de criação” (PPPI, 2017, p.127). A produtividade da leitura em voz alta é confirmada pela nossa experiência, bem como pelas pesquisas educacionais, como afirma Colomer (2017, p. 97).

Figura 13: Livro didático de 4ª série (1973).
Figura 13: Livro didático de 4ª série (1973).

Primeiro ano

Fuzarca e Ana e Ana

As crianças brincam com estes instrumentos e dançam, para que “na esteira do atabaque, a fuzarca vire arte!”. (ROSA e PAIVA, 2015, p. 18). Não há referências étnico-raciais no texto escrito, apenas as ilustrações mostram que os personagens são negros, o que coloca a obra em uma tendência presente na literatura infantil brasileira recente. Também diferentemente do que acontece na narrativa de Sônia Rosa, a relação temporal entre Ana e Anna é diferente, mais complexa: a história começa com as personagens ainda bebês e continua ao longo da trajetória de vida das meninas;

Menino em primeiro plano: Porque esse aqui é meio preto (aponta para o livro), e esse aqui é meio branco (aponta na direção do colega). A certa altura, Lima diz: “É triste se você não é branco”. Em mim, sentado na poltrona do teatro, o menino dizia suas falas: “Eu queria ser branco”. “[Porque] gosto de ser branco.

Figura 18 – Desenho infantil das personagens Ana e Ana.
Figura 18 – Desenho infantil das personagens Ana e Ana.

Chuva de manga

E com um menino que encontra uma tampa de garrafa e se abriga debaixo de uma mangueira. A palavra África ganha expressão e afasta-se de uma compreensão monolítica do que é o continente africano, tão característica da percepção etnocêntrica e da visão estereotipada produzida pelo pensamento racista. Também ouvi uma menina dizer, com espanto e êxtase diante de uma fotografia de Angola: “O banco lá é maior que o nosso!”.

Em meio ao mar de resíduos espalhados pelo chão da sala, uma menina negra da turma, ao ver uma caixa contendo uma boneca cara, reconheceu a boneca que havia recebido dos pais. As serpentes florescem e, nesse ínterim, amadurecemos, praticantes cotidianos (CERTEAU, 2003), envolvidos nos propósitos da educação antirracista.

Figura 24  - Sala de aula de Literatura.
Figura 24 - Sala de aula de Literatura.

Segundo ano

De uma deusa a dois meninos: Kofi e o menino de fogo

África já não é uma palavra “em estado de dicionário”, como escreveu Drummond num verso77, mas tem significado: as crianças sabem que Angola e Gana são países desse continente. O que a literatura sabe sobre ser um rapaz africano de uma aldeia no Gana que conhece um rapaz branco pela primeira vez. Um menino responde com entonação indicando estranheza diante das falas que ouviu: "Humanos?!" E há uma resposta assertiva: “Gente”.

Novamente interrompi: “O que você quer dizer com pessoas?” Alguém concorda comigo: “Sim, o que você quer dizer..” Aí outra criança responde: “Brancos!” Tanto a palavra usada na lição anterior para chamar os ingleses – ou seja, os brancos – de 'humanos' (em claro contraste com os nativos não humanos) quanto as imagens que surgiram nesta lição para identificar o mesmo inglês são elos de uma conversa que, como sabemos, começou no século XVI e continua até hoje.

Figura 35- Ombela e a origem das chuvas, de Ondjaki e Rachel Caiano.
Figura 35- Ombela e a origem das chuvas, de Ondjaki e Rachel Caiano.

Os sete novelos

Acho que essa é a grande responsabilidade de uma educação que pretende ser antirracista: trabalhar para fugir da condição de ser ouvinte passivo de tantas declarações racistas e diversas, buscando a reação necessária. Neste momento, porém, ao lê-lo no livro aberto, sou enviado, eu diria, aos fortes feixes que estão entrelaçados na ideologia racista, cujo ramo poderoso é o etnocentrismo. A criança não é, portanto, a primeira criação de Deus, que se depara com “objetos virgens que ainda não foram nomeados” (BAKHTIN, 2003, p.300), esperando que as pessoas os nomeiem.

Portanto, podemos compreender a fala de um menino de sete anos, aluno do 2º ano, diante da foto abaixo, a imagem de Accra, capital de Gana, país onde se desenrola a história de Sete Meadas, a narrativa. lugar. Mas como conseguirão fazer ouro se não há dinheiro em África?!".

Figura 38 - O kente.
Figura 38 - O kente.

O período colonial

  • O amigo do rei
  • A botija de ouro

De repente, um garotinho branco, que nem fazia parte do grupo de crianças que costumava falar oralmente, virou-se e disse a seguinte frase: “Tenho vergonha”. Um dos meninos quis imediatamente dizer: “Acho que este livro é antigo, foi publicado numa época em que tinha alguma coisa a ver com a escravidão. Aquela aluna da Alessandra está aqui do meu lado e diz no meu ouvido: “Tenho vergonha”.

Ele começa a ler as falas que os balões contêm: “Gosto de ser branco”. "Eu amo ser um homem negro." Kofi disse “Gosto de ser negro” e este “Fire Boy” disse “Gosto de ser branco”. E está tudo bem com todos?

Figura 44 - Lâmina de Powerpoint mostrada às crianças 2
Figura 44 - Lâmina de Powerpoint mostrada às crianças 2

Imagem

Figura 1 – Capa do texto reproduzido pela professora.
Figura 2 – Página inicial do texto organizado pela professora
Figura 1 - Ana Clara lendo seu texto.
Figura 5 - Livro didático da 3ª série (1973).
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Referências

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