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ficará responsável por divulgar e comercializar essa histórica região ainda pouco desbravada (PARAGUAY, 2016).

A região transfronteiriça possui uma riqueza histórica e uma identidade cultural muito forte, cuja área é coberta de peculiaridades que podem atrapalhar a interligação turística, dentre elas as condições impostas por cada país, diferenças lingüísticas, culturais e raciais, relações políticas e as disparidades econômicas (CARNEIRO FILHO; DOS SANTOS, 2012). Mesmo assim ainda existem roteiros e associações que continuam tentando desenvolver turisticamente os três países missioneiros. Mas percebe-se que o que foi criado e ainda continua em funcionamento está sob a responsabilidade do setor privado, ou seja, sendo divulgado e comercializado por agências de viagens.

Todos esses roteiros turísticos visualizados anteriormente possuem diversos atrativos que fazem parte do patrimônio cultural que compõe a região missioneira, do qual falaremos a seguir.

É importante destacar que o Patrimônio Cultural não se resume aos objetos históricos, artísticos, monumentais ou aos centros históricos protegidos pelos órgãos governamentais. Existem mais formas de expressão cultural, consideradas o “patrimônio vivo” das comunidades: artesanato, maneiras de caçar e pescar, as formas de cultivo da terra, a culinária, as danças, as músicas, as roupas, os rituais, os eventos populares são reveladores de aspectos que assumem a “cultura viva e presente de uma comunidade” (HORTA; GRUNBERG e MONTEIRO, 2009, p. 7). Independente das dimensões, a excelência desse patrimônio cultural está ligada ao seu significado e importância, pois ele carrega uma mensagem intrínseca de seu tempo para as futuras gerações (MOSER, 2014). Estando de frente para cada fragmento material deixado pelos guaranis e jesuítas “o observador precisa de um esforço imaginativo para reconstituir o ambiente vivo dessas realidades” (OLIVEIRA, 2011, p. 210).

A UNESCO, em 1970, emitiu diversos documentos normatizadores ou orientadores referentes à diversidade cultural, ao mesmo tempo em que diversos grupos sociais passaram a questionar as relações de dominação econômica e social sofrida por alguns indivíduos e coletividades, principalmente de mulheres indígenas e trabalhadoras rurais (DA SILVA; DE MORAES, 2016), tendo em vista a valorização, até então, somente da cultura material.

No Brasil e na Argentina, os órgãos responsáveis pela proteção do patrimônio histórico cultural foram criados em 1937 e 1938, respectivamente.

Atualmente, no Brasil esse órgão se chama IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e na Argentina se chama CNMMYLH (Comisión Nacional de Museos y Monumentos y Lugares Históricos) (AGUIAR; CHUVA, 2014). No Brasil, dentro da estrutura do Ministério da Cultura, além do IPHAN (mencionado anteriormente) existe o IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) que é responsável pelas questões museológicas do país. No Paraguai foi encontrado somente o Ministério de Cultura como responsável pelo patrimônio cultural.

No Brasil, Fonseca (1997) afirma que a temática do patrimônio começou a ser trabalhada com mais relevância e uma preocupação em salvaguardar os

vestígios do passado da nação, protegendo monumentos e objetos de valor artístico e histórico a partir da década de 20 do século passado.

Na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, existe um artigo que trata dos aspectos patrimoniais, no que segue seu texto (BRASIL, 1988):

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I. As formas de expressão; II. Os modos de criar, fazer e viver; III. As criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV. As obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V. Os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Na lista de Patrimônios da Humanidade, estabelecida pela UNESCO, é possível perceber que eles não são somente edifícios individuais, mas aglomerados de edificações e a malha urbana, através de casa, bairros, cidades inteiras e até conjuntos de cidades (CHOAY, 2001).

Pensar nos cuidados com o patrimônio não deve ser uma tarefa somente dos poderes públicos municipais, estaduais e federal, mas de uma união de esforços de toda a comunidade. Percebe-se no art. 216, § 1º da Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988) que o poder público deverá promover e proteger o patrimônio cultural brasileiro com a colaboração da comunidade. Vale ressaltar que os patrimônios culturais se encontram cada vez mais ameaçados, tanto pelo homem, como também pelos fatores naturais (SANTOS; CARVALHO, 2013).

Choay (2001) fala sobre a valorização ligada ao patrimônio, destacando que existe muita destruição, principalmente do patrimônio edificado, para dar lugar à modernização das cidades. Não é o caso da cidade objeto deste estudo. O município de São Miguel das Missões possui um atrativo que já é considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO e que necessita de ações de planejamento e preservação, principalmente no seu entorno.

A fim de cumprir seu papel, o Patrimônio Cultural precisa ser preservado. A preservação, muitas vezes necessita de uma intervenção legal no bem histórico, chamada de tombamento, sendo tão importante a ponto de justificar sua

permanência à posteridade, recebendo proteção legal, integrando o inventário dos bens culturais (PIRES, 2002). Essa preservação pode ser proposta em diferentes níveis, como por exemplo, na esfera internacional (UNESCO), na esfera nacional (IPHAN), na esfera dos estados e também dos municípios.

O objeto de estudo possui um modelo urbanístico diferenciado a partir da conquista dos guaranis pelos jesuítas. No primeiro período missioneiro as construções eram em madeira e desapareceram por completo, dando lugar a uma proposta arquitetônica mais consistente conforme se estabeleciam em locais definitivos. A escolha dos locais era estudada, levando em conta o clima, a fertilidade do solo, as vantagens estratégicas para defesa. Alguns templos constituem-se provas objetivas e materiais, nos três países, do que os missioneiros jesuítas conseguiram realizar durante os séculos XVII e XVIII (OLIVEIRA, 2011).

Figura 03: Distribuição urbanística em São Miguel das Missões no tempo dos índios

Fonte: Portal das Missões, s/d.

Na figura 03 é possível perceber como os índios e os jesuítas construíram a Igreja de São Miguel Arcanjo e seu entorno. Pela tradição das igrejas

missioneiras, Batista Neto (2009) afirma que ela deveria ser colorida e com uma ornamentação bastante rica, constituída por imagens sacras. O templo começou a ser construído em 1745 por mais ou menos seis mil índios e levou cerca de dez anos para ser concluído (PADILHA; TRENTIN, 2009).

Vários são os componentes que integram uma cidade histórica: a cultura material, os complexos históricos, os costumes e práticas comuns da comunidade (PIRES, 2002), e não só aquilo que representa a cultura das classes mais abastadas, mas também dos menos favorecidos (MOSER, 2014).

Com relação ao exposto acima, afirma-se que os 30 Povos Missioneiros possuem muitas manifestações artísticas, ligadas principalmente à arquitetura, à escultura, à música, à dança e ao teatro (OLIVEIRA, 2011). Algumas dessas manifestações permanecem até os dias atuais e é possível percebê-las em visita aos países.

No caso do patrimônio missioneiro, pode-se considerá-lo como um complexo histórico, conjunto dos componentes orgânicos de um bem ou o conjunto de bens em que cada um desempenha ou já desempenhou uma função complementar ao outro. A monumentalidade desse bem pode aumentar a atratividade, porém estando dentro de um complexo, sua importância turística aumenta (PIRES, 2002).

A UNESCO, na Conferência Geral que determinou a Convenção sobre a Salvaguarda do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural em 1972, definiu o patrimônio cultural como (UNESCO, 1972):

Os monumentos - Obras arquitetônicas, de escultura ou de pintura monumentais, elementos de estruturas de caráter arqueológico, inscrições, grutas e grupos de elementos com valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência;

Os conjuntos - Grupos de construções isoladas ou reunidos que, em virtude de sua arquitetura, unidade ou integração na paisagem têm valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência;

Os locais de interesse - Obras do homem, ou obras conjugadas do homem e da natureza, e as zonas, incluindo os locais de interesse arqueológico, com um valor universal excepcional do ponto de vista histórico, estético, etnológico ou antropológico.

Para esta pesquisa foi escolhido estudar o Sítio Arqueológico jesuítico- guaranis de São Miguel Arcanjo, no Brasil. Para Horta; Grunberg e Monteiro, 2009, p. 32, sítio arqueológico:

É um lugar onde se encontram vestígios da vida e da cultura material dos povos do passado. Estes vestígios podem estar sobre a superfície do solo – uma aldeia indígena abandonada, uma fortaleza do século XVIII, as ruínas de uma igreja, ou enterradas – um sambaqui, por exemplo, locais à beira do mar onde se acumularam conchas, ossos, restos de alimentos e utensílios utilizados por grupos humanos que ali viveram.

No caso missioneiro, existem sete Patrimônios da Humanidade reconhecidos pela UNESCO, distribuídos entre a Argentina, o Brasil e o Paraguai, sendo possível observar restos dos remanescentes das igrejas, de algumas casas e outras construções, existindo ainda muitos estudos voltados para a arqueologia nesses lugares.

O patrimônio cultural de uma localidade pode ser considerado como um recurso a serviço do desenvolvimento sustentável, pois tem valor por si só, constituindo a memória coletiva da população e um potencial recurso para o futuro (MOSER, 2014). Embora o objetivo principal da lista do Patrimônio da Humanidade da UNESCO seja promover a compreensão e a gestão dos sítios com valores patrimoniais universais, a inclusão na lista é amplamente reconhecida como uma poderosa ferramenta de marketing (EUROPA NOSTRA, 2015), pois trás demanda turística para a localidade e aumenta a auto-estima da comunidade local.

Destaca-se que, na atualidade, um dos grandes desafios é planejar a integração de ações de proteção e de valorização do patrimônio cultural numa abordagem local de desenvolvimento, garantindo sua viabilidade, sustentabilidade patrimonial e cultural e seu aproveitamento coerente (MOSER, 2014). Ou seja, é necessário haver um equilíbrio entre a preservação e a utilização dos recursos patrimoniais (SU; WALL, 2011).

A fim de manter os bens e os sítios patrimoniais, os administradores necessitam que os mesmos se tornem auto-sustentáveis e para isso, o turismo adquire um caráter fundamental entre as diversas possibilidades de ações que

geram recursos financeiros (COSTA, 2014). As últimas décadas têm testemunhado grandes desenvolvimentos conceituais e também avanços nas políticas públicas internacionais que reconheceram os múltiplos benefícios que o patrimônio cultural trás para a sociedade (EUROPA NOSTRA, 2015). O próximo item tratará sobre as políticas públicas e sua importância no desenvolvimento do turismo.