• Nenhum resultado encontrado

Perfil do setor varejista brasileiro

No documento PDF Discente: Luiz Carlos de Macedo (páginas 59-65)

Do ponto de vista governamental, o varejo tem um vínculo muito estreito com a política econômica vigente. O setor é extremamente sensível aos pacotes econômicos e às oscilações do mercado financeiro. Normalmente, as vendas do setor varejista respondem de maneira muito rápida às alterações na conjuntura macroeconômica e no poder aquisitivo dos consumidores, sejam positivas ou negativas as mudanças ocorridas no cenário econômico.

Segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES, 1996), em parte isso acontece porque:

o varejo integra funções clássicas de operação comercial: procura e seleção de produtos, aquisição, distribuição, comercialização e entrega. É tradicional absorvedor de mão-de-obra, historicamente menos qualificada que a empregada no setor industrial, caracterizando-se pela alta rotatividade do emprego. No entanto, a função de setor compensatório do desemprego na indústria tende a ser reduzida, uma vez que o novo padrão de concorrência também exige o emprego de tecnologias poupadoras de mão-de-obra e a melhor qualificação dos empregados (BNDES, 1996, p. 2).

Nos últimos nove anos, o varejo tem avançado de maneira muito forte no Brasil.

Essa evolução decorre das condições econômicas favoráveis, que têm impactado diretamente nos resultados positivos do setor, com destaque para o estímulo do governo brasileiro ao consumo da população, que tanto tem favorecido o desenvolvimento do mercado interno e sua maior participação no PIB, propiciando a expansão das redes varejistas. Nesse período, o desempenho do varejo tem aproveitado o aumento do poder aquisitivo dos consumidores, a

60 melhoria nos níveis de emprego, a queda nas taxas de juros e a vasta oferta de crédito. Todos esses elementos influenciam positivamente o consumo das famílias e, consequentemente as vendas do varejo, como demonstra o Gráfico 5.

Gráfico 5 – O ritmo do consumo: evolução anual das vendas do comércio varejista – em %

Fonte: IBGE, Pesquisa Mensal de Comércio, dezembro/2012

Em 2012, por exemplo, o varejo no Brasil teve um crescimento de 8,4% nas vendas em relação a 2011. Mesmo com o ritmo de crescimento da economia abaixo do esperado, o varejo ainda se manteve bem com relação ao seu desempenho dos últimos anos, principalmente pela entrada de dezenas de milhões de pessoas na classe média brasileira no decorrer da última década. A ascensão social dessa parcela da população impulsiona o desenvolvimento do setor varejista, na medida em que as lojas, sejam elas físicas ou virtuais, tornam-se uma espécie de referência para esses consumidores atingirem seus sonhos de consumo.

Entre os setores varejistas que contribuíram para o bom desempenho do comércio varejista no Brasil em 2012, podemos destacar:

1) O segmento de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que registrou expansão no volume de vendas de 8,4%, o mesmo índice de crescimento do varejo como um todo. Este comportamento reflete, sobretudo, o aumento do poder de compra da população brasileira, resultado da elevação da massa salarial, com a melhora da renda e do emprego;

61 2) A atividade de móveis e eletrodomésticos teve aumento de 12,3% em relação ao ano anterior. Tal desempenho foi decorrente da manutenção do crescimento do emprego, do rendimento e da disponibilidade de crédito; bem como da redução dos preços, principalmente no que tange aos eletrodomésticos, estimulado pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), decretada pelo governo desde dezembro de 2011 para a linha branca e, a partir de março de 2012 para móveis;

3) O setor de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria registrou crescimento de 10,2%, em relação ao ano anterior. A estabilidade do emprego, expansão da massa de salários e disponibilidade do crédito, aliado ao caráter de uso essencial e permanente de seus produtos foram os principais fatores que contribuíram para o desempenho positivo do segmento;

4) O segmento de materiais de construção obteve um incremento de 7,9% no acumulado do ano, impulsionado pela redução do IPI para uma cesta de produtos do setor, bem como as condições favoráveis do crédito habitacional;

5) A atividade de comercialização de tecidos, vestuário e calçados (varejo de moda), apesar de ter crescido menos, também deu sua contribuição para o resultado global do comércio varejista no ano de 2012, com um crescimento de 3,4% em relação ao ano anterior.

Esses dados comprovam que a atividade comercial tornou-se uma espécie de vocação natural da economia brasileira na última década. Hoje, o comércio é um dos principais motores do desenvolvimento econômico do país.

De fato, o desempenho dos diversos segmentos do comércio varejista encontra-se entre os primeiros sinais de aumento ou redução das atividades econômicas (BNDES, 2000).

Dessa forma, os indicadores desse desempenho são muito relevantes como “termômetro” e parâmetro para a tomada de decisões estratégicas pelas entidades governamentais, pelos setores industriais e pelo próprio setor de comércio. Guidolin, Costa e Nunes (2009) exemplificam muito bem essa realidade do varejo quando afirmam que:

a grande proximidade do consumidor torna os indicadores do comércio relevantes para a indústria nas decisões de planejamento da produção, bem como para o setor financeiro, no acompanhamento das tendências do consumo e do crédito. Esses indicadores podem antecipar movimentos importantes do comportamento da economia (GUIDOLIN; COSTA;

NUNES, 2009, p. 7).

De acordo com os resultados da última edição da Pesquisa Anual de Comércio – PAC3, publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em junho de

3 A PAC representa a principal fonte de dados sobre o funcionamento do setor comercial e tem por objetivo descrever as características estruturais básicas do segmento empresarial do comércio no país e suas transformações no tempo, em três agrupamentos: comércio varejista, comércio por atacado e comércio de veículos automotores, peças e motocicletas. A análise abrange os níveis Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação. A publicação completa da Pesquisa Anual de Comércio 2011 pode ser acessada no site do IBGE:

http://www.ibge.gov.br.

62 2013, com dados referentes ao ano de 2011, o setor comercial brasileiro gerou R$ 2,1 trilhões de receita e ocupou, naquele ano, 9,8 milhões de pessoas, pagando o equivalente a R$ 130,2 bilhões em salários, retiradas e outras remunerações. O levantamento estimou cerca de 1,57 milhão de empresas comerciais, distribuídas por 1,68 milhão de unidades locais que exerciam a atividade de revenda de mercadorias. As empresas com 20 ou mais pessoas ocupadas geraram 74,1% do total dessa receita do comércio (R$ 1,6 trilhão), correspondentes a 53,1 mil empresas, que representaram 3,4% da PAC. Como pode ser observado no Gráfico 6, em 2011 estas empresas responderam por 4,2 milhões de pessoas ocupadas, 43,3% do total, e pagaram R$ 75,6 bilhões em salários, retiradas e outras remunerações, representando 58% do total do comércio.

Gráfico 6 – Distribuição percentual das empresas comerciais, por divisões de atividades, segundo as variáveis selecionadas – Brasil – 2011

Fonte: IBGE, Pesquisa Anual de Comércio 2011

63 Segundo os dados da PAC 2011, o Gráfico 6 aponta que entre os principais segmentos do comércio brasileiro, o comércio varejista se destacou com a maior parcela do número de empresas (79,7%), de pessoas ocupadas (73,6%), e dos salários, retiradas e outras remunerações (62%), representando 42,7% de toda a receita gerada (R$ 911,3 milhões).

Gráfico 7 – Distribuição percentual das empresas comerciais, por atividades do comércio varejista, segundo as variáveis selecionadas – Brasil – 2011

Fonte: IBGE, Pesquisa Anual de Comércio 2011

Com relação ao comércio varejista, a pesquisa ainda assinala, de acordo com o Gráfico 7, que três segmentos se destacam nesta atividade: hipermercados e supermercados;

combustíveis e lubrificantes; e lojas de departamento, eletrodomésticos e móveis. Juntos eles responderam por mais da metade (56%) da receita líquida de revenda total do comércio varejista em 2011 (24,5%, 16,8% e 14,7%, respectivamente). Em relação à massa salarial, foram destaque os segmentos de hipermercados e supermercados, comércio de tecidos, artigos

64 do vestuário e calçados e as lojas de departamento, eletrodomésticos e móveis, com 16,3%, 16,6% e 16% de participação. Hipermercados e supermercados responderam pela maior média de pessoas ocupadas por empresa (77 pessoas). O comércio de lojas de departamento, eletrodomésticos e móveis contava com 163.380 (13,0%) empresas, registrou R$ 132,7 bilhões de receita de revenda, ocupou mais de 1 milhão (14,2%) de pessoas e despendeu R$

13 bilhões (16%) em salários. Tecidos, artigos do vestuário e calçados, equipamentos de informática e comunicação e o comércio de produtos farmacêuticos alcançaram as maiores taxas de margem de comercialização, 74,3%, 56,4% e 54,7%, respectivamente.

Outro dado muito significativo para demonstrar a relevância do varejo em termos econômicos e sociais é que em 2011 ele foi o segmento do comércio responsável por empregar o maior número de pessoas no Brasil (73,6%), um contingente de 7,2 milhões de pessoas. Além disso, o comércio varejista respondeu pela maior parcela de salários, retiradas e outras remunerações, em todas as grandes regiões brasileiras.

É no varejo que o consumidor decide se dá ou não valor aos produtos criados pela indústria. O contato direto e o estreito relacionamento com os consumidores, identificando suas preferências e exigências são o maior ativo do comércio varejista. Por isso, a relevância do varejo na sociedade e na economia precisa ir muito além da sua participação de mercado ou do volume de empregos criados (GUIDOLIN; COSTA; NUNES, 2009; FALEIROS, 2009).

Mais do que isso, estamos vivendo um momento em que o varejo passa por um processo de consolidação. Sendo assim, as empresas varejistas deverão pensar em seus negócios de forma estratégica, analisando não somente seu posicionamento e sua proposta de valor. Elas precisarão ser capazes de executar suas atividades com competência, eficácia e responsabilidade pelos impactos de suas operações, buscando perenizar sua marca e seu conceito ao longo do tempo. Tal comportamento é bem definido pela consultoria Deloitte (2011, p. 27) quando afirma que “além de pensar nas estratégias operacionais, os varejistas brasileiros, mais do que nunca, devem se preocupar com suas estratégias de continuidade e negócio”.

Neste sentido, é fundamental que as empresas varejistas entendam que os aspectos econômicos e financeiros não são os únicos responsáveis pela sobrevivência no mercado. A competividade e o bom desempenho do varejo exigem também a compreensão e a superação dos desafios sociais e ambientais na gestão das empresas varejistas.

65

No documento PDF Discente: Luiz Carlos de Macedo (páginas 59-65)