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PERSPECTIVA HISTÓRICA E CONCEITUAL

No documento carla piffer - Univali (páginas 78-85)

consenso quanto ao ponto de partida nem mesmo quanto à definição e abrangência da Globalização.

Conforme menciona Faria, a Globalização está longe de ser um conceito original ou inédito na história, na sociologia política, na teoria econômica ou mesmo na ciência do direito. Embora com outra designação, ele pode ser encontrado em análises paradigmáticas sobre os vínculos entre a criação e a reprodução ampliada do capitalismo com os processos de formação de Estados e mercados como em textos clássicos sobre a organização e a interação de espaços econômicos auto-suficientes e amoldados à natureza mercantil dos impérios modernos200.

Para o autor a “Globalização também não é um fenômeno novo. Ele já estava presente, por exemplo, nos antigos impérios, provocando sucessivos surtos de modernização econômica, cultural e jurídica”201. No entanto, afirmar que a Globalização não é recente é possível evidenciar que a mesma é responsável pela ocorrência de inúmeros fatores resultantes da evolução histórica do capitalismo, ou ainda que tivesse derivado das antigas empreitadas imperialistas da idade antiga, momento em que os antigos impérios já se deparavam com indícios de modernização202.

Isto porque desde os grandes impérios da antiguidade os homens se deslocavam e estabeleciam várias relações pela superfície do planeta. Com a descoberta da rota marítima para as Índias e das terras do Novo Mundo a navegação propiciou o estabelecimento de uma das primeiras formas de interligação entre locais distantes do globo.

A partir disso os contatos antes realizados em locais geograficamente limitados atingiram novas proporções. Relações iniciadas com a necessidade de dominação por meio das conquistas das novas terras se firmaram com o

200 FARIA, José Eduardo. O direito na economia globalizada. p. 61.

201 FARIA, José Eduardo. O direito na economia globalizada. p. 61.

202 FARIA, José Eduardo. O direito na economia globalizada. p. 60.

estabelecimento de interesses comerciais e se estenderam às mais variadas espécies de relações de cunho social, cultural, político e jurídico.

Aceitando ser a Globalização um fenômeno antigo é possível convencer-se de que ela foi impulsionada por acontecimentos importantes como a expansão da cartografia, o crescente domínio das técnicas de navegação, a evolução do conhecimento científico, o estabelecimento das rotas comerciais globais, o processo de colonização e expansão territorial, dentre tantos outros.

Portanto, a expansão da civilização europeia no Século XV por meio dos descobrimentos, precedida pelas guerras da conquista e da revolução comercial ocorridas na Europa nos séculos XII e XIII será utilizada neste estudo como marco zero da Globalização203 na acepção do início da verificação do fenômeno. Neste sentido, a criação do Estado Moderno e a transição para o capitalismo calcado nas premissas neoliberais teriam contribuído com características inéditas ao fenômeno diante das novas espécies de relações e modos de vida evidenciados.

Para Wallerstein, o termo Globalização “è stato coniato negli anni Ottanta. Solitamente si ritiene che si riferisca a una riconfigurazione dell´economia-mondo emersa solo di recente, in cui le pressioni esercitate su tutti i governi per un´apertura delle loro frontiere alla libera circolazione di beni e capitali sono insolitamente forti”204. Segundo o autor, o verbete Globalização – nas suas condições atuais - não faz referência às relações comerciais entre os Estados, mas sim aos fatores que circundam um sistema de produção integrado que reconfiguraram a economia-mundo, criando uma multiplicidade de centros políticos e uma multiplicidade de Culturas envolvidas.

Por consequência, novos ordenamentos sociais e novas pressões ao Estado são criados a cada época porque “a qualidade do novo pode passar

203 BATISTA JUNIOR, Paulo Nogueira. Mitos da Globalização. São Paulo: IEA USP, 1997. p. 06.

204 “O termo Globalização foi cunhado na década de oitenta. Acredita-se geralmente que se refere a uma reconfiguração da economia-mundo que surgiu apenas recentemente, em que a pressão sobre todos os governos a abrir suas fronteiras para a livre circulação de mercadorias e capitais são excepcionalmente forte” (tradução livre). WALLERSTEIN, Immanuel.

Compreendere Il mondo. Introduzione all´analisi dei sistemi-mondo. p. 143.

despercebida. Mas a história se caracteriza como uma sucessão ininterrupta de épocas [...] inerente à evolução da humanidade”205. Eis os novos modos de vida contemporâneos, tratados por Giddens como sendo as consequências da modernidade206, os quais “[...] ci hanno allontanato, in maniera del tutto nuova, da tutti i tipi tradizionali di ordinamento sociale. Tanto per estensione che per intensità, le trasformazioni legate alla modernità appaiono più profonde della maggior parte dei mutamenti avvenuti nelle epoche precedenti”207.

Nesta ordem, atribui-se às transformações mundiais da segunda metade do século XX – principalmente após a Segunda Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria - a origem do sistema-mundo e do consequente ápice da Globalização, com a reconfiguração da economia mundial. Internacionalização, mundialização, transnacionalização, sistemas mundiais e fábrica global são algumas das metáforas apresentadas por Ianni para justificar o papel desempenhado pela Globalização nos dias atuais, as quais justificam que “o globo não é mais apenas uma figura astronômica” e que houve uma “drástica ruptura nos modos de ser, agir, pensar em fabular” e que “o centro do mundo não é mais voltado só ao indivíduo”208.

Conforme já mencionado, não existe unanimidade quanto ao surgimento remoto da Globalização. Sustenta Santos que a Globalização é um

205 SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal.

18 ed. Rio de Janeiro: Record, 2009. p. 141

206 Deve-se ressalvar que este estudo aborda a modernidade estritamente como momento histórico que foi palco das principais dimensões da Globalização. No entanto, para Wallerstein, a expressão modernidade designa: “[...] i modi di vita o di organizzazione sociale che affiorarono in Europa intorno al XVII secolo e che successivamente estesero la loro influenza a quasi tutto il mondo. Questa definizione associa la modernità a un´epoca e a una collocazione geografica di partenza, ma per il momento non rivela le sue principali caratteristiche”. Livre tradução: “[...] os modos de vida e de organização social que emergiram na Europa em torno do século XVII e que mais tarde estendeu sua influência para quase o mundo todo. Esta definição associa a modernidade a uma época e a uma colocação geográfica de partida, mas no momento não revela as suas principais característica”. WALLERSTEIN, Immanuel.

Compreendere Il mondo. Introduzione all´analisi dei sistemi-mondo. p. 15.

207 “[...] nos afastaram, de uma maneira totalmente nova, de todos os tipos tradicionais de ordenamento social. Tanto pela extensão quanto pela intensidade, as transformações ligadas à modernidade aparecem mais profundas do que a maior parte das mudanças ocorridas nas épocas precedentes” (tradução livre). GIDDENS, Anthony. Le conseguenze della modernità.

Fiduca e rischio, sicurezza e pericolo. Bologna: Mulino, 1994. p. 17.

208 IANNI, Octavio. Teorias da Globalização. 8.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p.

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fenômeno jovem pela razão desta “não ser semelhante às ondas anteriores, nem mesmo uma continuação do que havia antes, exatamente porque as condições de sua realização mudaram radicalmente”209. O autor defende tal posicionamento por entender que a Globalização é sentida por todos como componente de um novo período e é promovida por um “estado das técnicas e da política”210 nunca antes vivenciado pela humanidade.

O autor211 demonstra que nunca houve na história humana separação entre as duas coisas, pois a Globalização não é apenas a existência de um novo sistema de técnicas. Seria este o resultado das ações que asseguram a emergência de um mercado global, responsável pelos processos políticos eficazes. Assim, um mercado global que utilize estes sistemas de técnicas avançadas (que por meio da técnica da informação possibilita a percepção da unicidade do tempo e encurtamento dos espaços) resulta na Globalização perversa.

Consequentemente, as técnicas apenas se realizam tornando-se história com a intermediação da política, isto é, da política das empresas e dos Estados, conjunta ou separadamente. A história, por sua vez, é comandada pelos grandes atores desse tempo real que são, ao mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores dos discursos ideológicos.

Deste modo, atribuir ao surgimento da Globalização uma data única ou caracterizá-la como um inédito fenômeno em nada modificará a análise das evidências atuais devido à complexidade e abrangência do fenômeno. O que resta pacífico é que há tempos vivencia-se um processo de mutação, de novos acontecimentos, pois faz parte do processo histórico dos Povos a superação de fases que conduzem a novos períodos. Quanto à complexidade facetária da Globalização, Giddens demonstra que:

209 SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal.

p. 141.

210 SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal.

p. 26-28.

211 SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal.

p. 26-28.

La globalizzazione è dunque un complesso insieme di processi, non uno soltanto, un insieme che opera in maniera contradditoria e conflittuale. La maggior parte della gente crede che la globalizzazione sia semplicimente il “trasferire” il potere o l´influenza dalle comunità locali e dalle nazioni nell´arena globale, ma questa è una delle sue conseguenze: le nazioni in realtà perdono parte del potere economico che avevano. Ma ciò comporta anche un effetto opposto: la globalizzazione non spinge solo verso l´alto ma anche verso il basso [...]212.

Esta complexidade e coexistência de novos processos que circulam, se complementam e conflitam nas mais variadas direções, juntamente com as alterações percebidas nas relações entre os Estados213 e indivíduos e as consequências do enaltecimento dos ideais Neoliberais demonstram somente uma análise prévia do fenômeno. Conforme expõe Giddens, “La globalizzazione può prospettare un modo non particolarmente attraente o raffinato, ma nessuno che voglia comprender in che direzione si muove il nuovo secolo può ignorarla”214. Na tentativa de compreender alguns acontecimentos vivenciados se mostra inequívoco analisá-la e compreendê-la, mas não necessariamente concordar com ela.

Assim, para efeitos de delimitação espaço-temporal, tratar-se-á da Globalização como acontecimento coincidente com o surgimento do capitalismo,

212 “A Globalização é, portanto, um conjunto complexo de processos, não apenas uma junção, que opera de maneira inconsistente e conflitante. A maioria das pessoas acredita que a Globalização é simplesmente a transferência do poder ou influência por parte das comunidades locais e nações na arena global, mas esta é uma de suas consequências: as nações realmente perdem parte do poder econômico que tinham. Mas isso também significa que o efeito oposto:

a Globalização não só empurra para cima, mas também para baixo” (tradução livre).

GIDDENS, Anthony. Il mondo che cambia. Come la globalizzazione ridisegna la nostra vita.

Bologna: Mulino, 2000. p. 25.

213 Beck, por utilizar-se das terminologias globalidade e globalismo, ao apresentar uma definição à Globalização, a analisa sob o viés do papel do Estado nacional frente a este fenômeno. Para ele, a Globalização significa “[...] os processos em cujo andamento os Estados nacionais vêem a sua soberania, sua identidade, suas redes de comunicação, suas chances de poder e suas orientações sofrerem a interferência cruzada de atores transnacionais”. Além disso, menciona que “A Globalização significa também: negação do Estado mundial. Mais precisamente:

Sociedade mundial sem Estado mundial e sem governo mundial”. No entanto o autor também apresenta uma análise pluridiminesional do fenômeno a partir dos seus aspectos sociais, econômicos, políticos e Culturais, mas os chama de paradoxos da Globalização BECK, Ulrich.

O que é Globalização? Equívocos do globalismo, respostas à Globalização. p. 32-33.

214 “A globalização pode não ser a prospectiva de um mundo particularmente atraente ou refinado, mas ninguém que queira compreender em qual direção se move o novo século pode ignorá-la”

(tradução livre). GIDDENS, Anthony. Il mondo che cambia. Come la globalizzazione ridisegna la nostra vita. p. 19.

precedida de momentos históricos que serviram como fundamento ao fenômeno, comungando-se com o entendimento de Santos quanto à sua delimitação teórica no sentido de que “A Globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista”215. Significa que a Globalização de que se fala em todo mundo é a Globalização do capitalismo, no qual predomina o Neoliberalismo, sempre combatendo duramente tudo o que é social tanto no socialismo como na social-democrata216. Convém mencionar também que embora comumentemente utilizados em conjunto, Globalização e Neoliberalismo não são verbetes sinônimos, pois “A Globalização é um fato histórico e o neoliberalismo uma teoria” 217.

Igualmente, não pairam dúvidas de que as delimitações espaço- temporal e teórica, comumente atribuídas à Globalização, enaltecem seu aspecto econômico, o que poderá induzir a conclusões errôneas de que este é o seu aspecto único. Neste sentido é o entendimento de Santos, pois “Nem todas as dimensões da Globalização estão inscritas do mesmo modo neste consenso econômico, mas todas são afetadas pelo seu impacto”218.

Neste norte adota-se o posicionamento de que a Globalização, no seu sentido amplo, é um fenômeno multifacetado enaltecido a partir da disseminação dos ideais capitalistas neoliberais com sua base calcada em razões econômicas, a qual impacta todas as vertentes do fenômeno. Utilizando-se da teoria adotada por Giddens219 entende-se que a Globalização, a partir da evidência da

215 SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal.

p. 23.

216 IANNI, Octavio. Capitalismo, Violência e Terrorismo.p. 332

217 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988. 14.ed. São Paulo:

Malheiros. 2010, p. 45.

218 SANTOS, Boaventura de Sousa. Os processos da globalização. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). Globalização: fatalidade ou utopia? p. 13.

219 Giddens divide a Globalização em dimensões, embora não parta de um pressuposto geral, entendendo ser a faceta econômica também uma dimensão da Globalização juntamente com as demais. Para o autor, esta se apresenta em quatro dimensões: a primeira dimensão é a economia capitalista mundial; a segunda é composta pelo Estado-nação, os quais são vistos como atores protagonistas do sistema e as grandes empresas são os agentes dominantes na economia mundial; a terceira dimensão é o ordenamento militar mundial, que denotam as relações existentes entre a industrialização da guerra e os fluxos dos armamentos; como última dimensão, apresenta o desenvolvimento industrial, baseado na indústria moderna fundada na

Globalização econômica como gênero, é dividida em três dimensões:a dimensão política, social e cultural.

No documento carla piffer - Univali (páginas 78-85)