As produções literárias e acadêmicas feitas por pessoas trans acerca das vivências trans e de seus atravessamentos no Brasil começam a se desenvolver já no final do século XX, mas principalmente a partir do início do século XXI. A respeito dessas produções é possível citar alguns autores como João W. Nery, Jaqueline Gomes de Jesus, Guilherme Almeida, Beatriz Bagagli, dentre outros. Cabe ressaltar que Letícia Lanz, Sara York, e Leonora Áquilla, que são as interlocutoras deste projeto, cujas narrativas de vida constituem parte do material a ser analisado, para além de possuírem longas trajetórias de vida, são também, cada uma a seu modo, produtoras e propagadoras de conhecimentos acerca de vivências trans.
É comum que muitas das obras literárias e acadêmicas de pessoas trans acerca de temas de vivências trans e de outros temas que os atravessem tenham caráter intimista, dado que com grande frequência tais autores recorrem à apresentação de narrativas de suas próprias vivências para traçar os fios condutores de seus textos. Tem se tornado também cada vez mais numerosas as narrativas autobiográficas, das quais um dos primeiros exemplos que se pode e deve citar é o livro ―Erro de Pessoa‖, escrito por João W. Nery (1984) obra na qual o autor, o primeiro homem trans brasileiro a se submeter a procedimentos cirúrgicos de adequação de gênero, discorre sobre diversos assuntos, dos quais: a descoberta de sua transgeneridade; os impactos desse fato em sua vida pessoal e familiar; a realização de procedimentos cirúrgicos de modificação corporal; e reflexões acerca de todo esse processo. Quase três décadas depois é publicada nova autobiografia de título ―Viagem Solitária‖ por João W. Nery (2011), na qual atualiza nomenclaturas18 e faz alguns acréscimos importantes, como o capítulo em que fala sobre suas experiências parentais, ou mais precisamente, sobre sua paternidade. Tendo se relacionado com uma mulher cisgênera, com a qual conviveu por alguns anos até receber dela a notícia de que ela tivera relações sexuais extraconjugais com um homem cisgênero do qual engravidou, João e sua companheira decidiram permanecer juntos e manter a gestação. João se apresenta como pai e única figura paterna de Yuri desde o nascimento deste. A despeito de João se separar da mãe de Yuri quando este ainda era criança, João mantém contato com o filho sempre que possível, participando ativamente da criação de Yuri. O contato entre João e Yuri se mantém até o falecimento daquele, no ano de 2018. De acordo com João, enquanto ser
18 Em ―Erro de Pessoa‖, autobiografia publicada em 1984, João Nery utiliza a linguagem médica comum à época para se referir a seu caso, de modo a se autodenominar ―transexual feminino‖. Tal perspectiva demonstrava a compreensão de que havia uma hierarquia entre gênero autopercebido e o que se chamava de ―sexo biológico‖, sendo este compreendido como uma espécie de verdade inequívoca e inquestionável a respeito do corpo. Já em 2011, quando publica ―Viagem Solitária‖, uma revisão autobiográfica, João passa a se declarar com termos que priorizam a sua identidade de gênero, como ―transexual masculino‖ ou ―homem trans‖.
um homem trans foi em um primeiro momento compreendido como um ―erro‖ de pessoa, em sua segunda biografia, reconhece que ser pai de Yuri é o ―acerto‖ de sua vida.
Uma fundamental contribuição para iniciar quaisquer estudos acerca das vivências trans, tanto aos leigos quanto aos especialistas, é o guia técnico ―Orientações sobre identidade de gênero‖, de Jaqueline Gomes de Jesus (2012). Em nota à segunda edição do texto, a autora reconhece a natureza de constante adaptação dos conceitos nele descritos, de modo que o mesmo deva servir como uma referência para dar início a reflexões, e não para encerrar discussões com a propositura de respostas rígidas, universais e irretocáveis. Esse detalhe é fundamental para perceber o caráter sempre possivelmente mutável de todo o conhecimento que é produzido e que se pretende passível de ser útil e legítimo.
É a partir dessa perspectiva, a qual rejeita uma rígida universalização de conceitos cristalizados, que Guilherme Almeida (2012) analisa a emergência da categoria de homens trans no Brasil. O autor discute a respeito das distinções entre casos de lésbicas; de grupos de pessoas que foram assignadas mulheres ao nascimento e que contestam as normas de gênero sem que se afirmem como homens a todo instante; e de homens trans. E constata nas narrativas de homens trans tanto o frequente uso dos termos ―trans‖ e ―transexual‖ como adjetivos dados à sua categoria de homens, quanto o alívio de encontrar uma unidade semântica que ofereça inteligibilidade às suas vivências. Essa forma de se autonomear é identificada pelo autor como uma espécie de reabilitação semântica do conceito de transexualidade, outrora patologizante. De acordo com o autor serão variadas as formas de experimentar e expressar as masculinidades, bem como de enfrentar os desafios de viver em uma sociedade marcada por uma compreensão de que o gênero é sempre necessariamente rígido e binário.
Nesse cenário de disputas discursivas em que a transgeneridade ainda é patologizada, Beatriz Bagagli (2016) é uma das autoras que contribuirá com discussões transfeministas que visam se debruçar sobre o conceito analítico de cisgeneridade. Percebida como uma produtora de verdades sobre o gênero, as quais orientam algumas das práticas de profissionais da saúde mental, a cisgeneridade será colocada em uma posição de transcendência, de consonância entre corpo e mente. Em contrapartida, a autora argumenta que a transgeneridade, que não pode ser significada a partir de seus próprios termos, será quantificada em termos de falta de coerência cisgênera entre corpo e mente de um sujeito transgênero. Isso significa que na prática da clínica de saúde mental, em muitos casos, pessoas trans permanecem destituídas de autonomia sobre seus corpos e identidades.
Cabe novamente ressaltar que as próprias interlocutoras deste estudo contribuem com a produção e propagação de conhecimentos acerca das vivências trans. Falaremos brevemente das produções acadêmicas de maior peso dessas interlocutoras a seguir.
Letícia Lanz (2014) realiza uma análise do conceito de transgeneridade em sua dissertação de mestrado, tomando como base uma pesquisa qualitativa na qual entrevista cinco mulheres transgêneras para coletar narrativas acerca de suas vivências trans. Três delas tiveram filhos, apesar de o estudo destinar pouca atenção à temática da transparentalidade.
Uma importante contribuição de seu estudo é a opção por analisar casos de mulheres transgêneras que se situam em camadas financeiras mais abastadas, quebrando com uma tradição de pesquisas feitas com pessoas trans que se situam sempre em uma condição de extrema vulnerabilidade social. A conclusão apresentada por seu estudo é a de que pessoas transgêneras, não importando quais as suas vivências, estão concomitantemente dentro e fora de um sistema binário de gênero, o que já é um indicador para reconhecer uma possível origem de suas referências acerca dos processos de construção identitária de gênero marcadas por uma não binariedade.
Já Sara Wagner York (2020), em sua dissertação de mestrado, discursará a respeito das relações pedagógicas marcadas pela presença de pessoas trans enquanto educadoras, e das consequências e dos deslocamentos de gênero produzidos pela presença de pessoas trans em espaços acadêmicos tipicamente transfóbicos, e das implicações práticas e éticas desse processo nas vidas dos estudantes e dos professores. De acordo com a autora a transfobia é um efeito da cisnormatividade, ou seja, da imposição da cisgeneridade como único modo de ser e estar no mundo, o que limita as compreensões das possibilidades de ser. A autora considera que a transfobia é institucional, estrutural e recreativa. Institucional porque se mantém a partir da chancela do Estado, como nos casos em que ela cita as compreensões equivocadas acerca de transgeneridade e travestilidade expressas em documentos oficiais (como o Edital 11/2018 do Projeto 00102654, documento que avalia o cenário atual do tratamento penal dispensado à população LGBT nas prisões brasileiras) que pretendem definir a transgeneridade e a travestilidade segundo uma lógica definitiva e cisnormativa e patologizante. Estrutural porque se baseia nos modos de ser e nas relações interpessoais orientadas pelo que a autora chama de cis-hetero-governamentalidade19, que define e legitima a cisgeneridade e a heterossexualidade como padrões desejáveis de normalidade, os quais são
19 Cis-hetero-governamentalidade é, segundo a autora, ―uma forma de governo de si e das relações que prioriza a existência de corpos que não borrem a norma, excluindo a trajetória trans de/em um mundo cisgênero‖ (YORK, 2020, p25).
reiterados a partir da oposição aos padrões de anormalidade, estes os quais são sempre deslegitimados. Recreativa porque reitera a percepção de que pessoas trans não merecem respeito, logo, pessoas trans são alvos de piadas pelo simples fato de serem identificadas como pessoas trans.
Por sua vez, Leonora Áquilla (2009) escreve um trabalho de conclusão de curso intitulado ―Cidadania T‖ ao concluir uma graduação em nível superior em comunicação social com foco em jornalismo na universidade particular paulistana Anhembi Morumbi. O estudo trata da temática da inserção de mulheres trans e travestis no mercado de trabalho formal, bem como dos processos de discriminação que enfrentam.
Dada essa realidade de deslegitimação das vivências trans que deriva da perpetuação de uma só forma de perceber o mundo, notadamente transfóbica e cisnormativa, pode-se concluir que a produção acadêmica de pessoas trans deve ser estimulada e comemorada. Porém, antes de seguir com as discussões relativas às temáticas centrais desse trabalho, consideramos que é prudente discorrer acerca do cenário social em que tais temas se apresentam, cenário esse que será caracterizado neste trabalho como sendo compulsoriamente cisheteronormativo.