A criação das políticas públicas e a sua aplicabilidade no seio da sociedade tem como premissa básica buscar a solução para um determinado problema, problema este, com já exposto anteriormente, que deve “ser percebido” por vários atores, ou seja, o problema tem que realmente ser grave e também estar atingindo diversas pessoas, o que, por sua vez, mobilizará uma parte desta sociedade, bem como o Estado, na criação de ações que possam extirpar ou, ao menos, diminuir seus efeitos naquela comunidade.
Há que se observar também as prioridades de atendimento dos grupos ditos
“vulneráveis”, quando da criação e aplicação de uma política pública.
A Constituição Federal é clara nesse sentido, no seu art. 227:
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
§ 1º. O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança, do adolescente e do jovem, admitida a participação de entidades não governamentais, mediante políticas específicas e obedecendo aos seguintes preceitos:
I – aplicação de percentual dos recursos públicos destinados à saúde na assistência materno-infantil;
II – criação de programas de prevenção e atendimento especializado para as pessoas portadoras de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente e do jovem portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de obstáculos arquitetônicos e de todas as formas de discriminação.
Assim, os adolescentes, bem como as crianças, gozam de absoluta prioridade constitucional no atendimento às suas demandas.
Ainda nesse sentido, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA – dispõe no seu art. 4º:
Art. 4º. É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Parágrafo Único. A garantia da prioridade compreende:
a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;
b) precedência de atendimento nos serviços públicos e ou de relevância pública;
c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;
d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990) adotou a Teoria da Proteção Integral, que é baseada no reconhecimento de direitos especiais e específicos de toda criança e adolescente (art. 3º). Além dos direitos e garantias fundamentais da pessoa humana, a criança e o adolescente gozam do direito subjetivo de desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, preservando-se sua liberdade e dignidade (ANDREUCCI, 2008).
O ECA foi concebido como um diploma jurídico regulador de toda a matéria relacionada à infância e à juventude, e está conforme a “Convenção sobre os Direitos da Criança”, de 20 de novembro de 1989.
Tal direito da criança e do adolescente situa-se na esfera do direito público, em razão do interesse do Estado na proteção e reeducação dos futuros cidadãos que sem encontram em situação irregular (ANDREUCCI, 2008).
O autor supracitado explica que “políticas sociais públicas” “são mecanismos executados pelo Poder Público com a intenção de aniquilar ou reduzir drasticamente o espectro da fome, da pobreza e da injustiça social” (ANDREUCCI, 2008).
Estas políticas são de incumbência do Poder Executivo, o qual deve
preservar parte do seu orçamento para a consecução desses objetivos. A omissão deste pode ser sanada por meio de ação civil pública, a qual o Ministério Público detém a legitimidade para propor (ANDREUCCI, 2008).
No que se refere à prevenção, Andreucci dispõe:
A prevenção à criança e ao adolescente pode ser geral ou especial. No que concerne à prevenção geral, “é dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente” (art. 70).
Nesse sentido, “a criança e o adolescente têm direito a informação cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento” (art. 71). No que se refere à prevenção especial, a cargo do Poder Público, temos a regulamentação da informação, cultura, lazer, esportes, diversões e espetáculos (art. 74).
O art. 86 do ECA dispõe que “a política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios”.
A responsabilidade pelas políticas públicas afetas à criança e ao adolescente é das três esferas governamentais, bem como pela participação das entidades não governamentais.
Esta ação política inclui a contratação de assistentes sociais, psicólogos, médicos, profissionais de identificação e de assistência jurídica. A omissão das autoridades públicas implica em responsabilidade e a obrigação de fazer pode ser concretizada por meio de ação civil pública ou popular (ISHIDA, 2003).
Não obstante a situação normativa, clara e precisa tanto na Constituição Federal de 1988 quanto no ECA, a realidade da adolescência brasileira tem muito a avançar. Nesse sentido, (FLORES, 2000) afirma que as normas são instrumentais, na medida em que prescrevem comportamentos e impõem deveres e compromissos individuais e grupais, sempre interpretados a partir dos valores vigentes. O autor entende que os valores são preferências sociais que se generalizam em determinado entorno das relações, influindo no modo de acesso aos bens necessários para viver dignamente. A realidade empírica, portanto, não pode ser confundida com a normativa, pois o fato de se afirmar que os direitos estão positivados não os faz existir na materialidade do contexto social.
Costa (2012) afirma que o início do século XXI tem-se caracterizado por distribuição desigual de bens econômicos, sociais e culturais, discriminação,
desrespeito às diferenças, incerteza e violação de direitos. Essas manifestações não são anomalias ou “inevitáveis”, mas integram um processo econômico em curso, embora justificados pelos seus defensores, muitas vezes, como se fossem “desvios”, ou consequências necessárias, tendo em vista o modelo de desenvolvimento regulado pelo mercado. A sociedade brasileira, embora tenha características próprias, está integrada à tendência de fragmentação mundial. O modelo econômico e social, implantado no país, produziu seres humanos avassalados, tanto pessoal como socialmente, com difícil perspectiva de transposição social. Assim, as políticas sociais adotadas pelos diferentes governos, ao longo do século XX, têm em comum o fracionamento, que reflete a tendência de enfrentar os problemas sociais como fatos isolados. Tais políticas, em consequência, trouxeram poucos resultados na melhoria da condição de vida da população.
Desse modo, a vulnerabilidade social contemporânea, relacionada à violação dos Direitos Humanos e Fundamentais de significativa parcela da população, tem origens econômicas, mas se caracteriza, também, por falta de pertencimento social, falta de perspectivas, dificuldade de acesso à informação e perda de auto-estima.
Essa situação de fragilidade repercute na saúde das pessoas, em especial na saúde mental, relaciona-se com o mundo do tráfico e uso abusivo de drogas, estabelece padrões e perspectivas de emancipação social muito restritas. A hierarquia, assim estabelecida, tem, portanto, relação direta com o modelo de sociedade em curso e com a crença coletiva no projeto que justifica tal contexto. Os sujeitos sociais, em decorrência, são valorados conforme a capacidade individual de aderir e de se adaptar ao padrão de homogeneidade instituído histórica e culturalmente. Sendo assim, a produção e reprodução de classes marginalizadas estão relacionadas às precondições morais, culturais e políticas. A miséria não é apenas econômica, mas emocional, existencial e política, produzindo sentimentos individuais e coletivo de falta de pertencimento social, de inferioridade e de responsabilidade individual pela própria condição.
É certo que a igualdade, preconizada pelo texto Constitucional, consiste em tratar, igualmente, os iguais e, desigualmente, os desiguais, na medida em que se desigualam. Se houvesse a possibilidade jurídica de tratar, igualmente, os desiguais ou, desigualmente, os iguais, isso importaria em injustiça e em violação do princípio da igualdade. A diferença de condição dos sujeitos de direito – no caso, criança e adolescente – de certa forma, “compensa” a desigualdade; e é por isso que a
Constituição propõe esse ajustamento proporcional de situações desiguais, visando à igualdade, que é baseada na relação entre o critério de diferenciação e a finalidade pretendida pela Constituição: a isonomia. Portanto, o tratamento jurídico diferenciado proposto pela Constituição, determinado que sejam atendidos, com absoluta prioridade, os direitos da criança e do adolescente, não fere o princípio da igualdade perante a lei, porque propõe uma nova condição especial (condição peculiar de desenvolvimento) daqueles sujeitos de direitos (LIBERATI, 2003).
Ainda nesse sentido:
Quando a Constituição Federal determina o tratamento prioritário à criança e ao adolescente, quer assegurar que sua vontade seja respeitada. Aquilo que é identificado como vontade da Constituição deve ser honestamente preservado, mesmo que, para isso, se tenha de renunciar a alguns benefícios ou, até, a algumas vantagens justas. A preservação de um princípio constitucional fortalece o respeito à Constituição e assegura um bem jurídico indispensável à essência do Estado democrático. Ao contrário, a sucumbência do princípio constitucional põe em risco todo a arcabouço de conquistas até então asseguradas, com o risco de não mais serem recuperadas (LIBERATI, 2003).
Marchesan (1998) sabiamente, afirma que “oprimir a eficácia do princípio da prioridade absoluta é condenar seus destinatários à marginalidade, à opressão, ao descaso [...]”.
Há que se ressaltar, no entanto, que a pretendida prioridade de atendimento à criança e ao adolescente não é obrigação exclusiva do Estado, haja vista que “o texto constitucional convoca a família e a sociedade, para que, em suas respectivas atribuições, imprimam preferencial cuidado em relação às crianças e adolescentes”
(LIBERATI, 2003).
Desse modo, todos deveriam se mobilizar para que políticas públicas destinadas aos adolescentes fossem criadas.
No que se refere à sexualidade na adolescência, após analisar todo o exposto anteriormente, políticas públicas na área da educação sexual são as mais prováveis de surtirem efeitos positivos, haja vista a ideia de se trabalhar de modo preventivo, ou seja, trazer às crianças e principalmente aos adolescentes, informações necessárias ao seu desenvolvimento relacionado à sua sexualidade. Muitos procuram tais informações em grupos nos quais estão inseridos, ou ainda, na família, quando esta lhes dá tal liberdade. Porém, há que se dizer que nem todos os grupos, bem como as famílias, possuem preparação suficiente para dirimir dúvidas
que versem sobre a sexualidade.
Assim, políticas públicas que propõem a criação de programas e/ou projetos, a serem aplicados, principalmente nas escolas, podem ser a solução para muitos problemas vividos pelos adolescentes e suas famílias, problemas estes que não existiram se houvesse prevenção educativa.
A exemplo de um programa nesse sentido, pode-se citar o “projeto Menarca”, o qual foi desenvolvido a fim de dirimir dúvidas sobre sexualidade para os adolescentes na cidade de Ponta Grossa – PR. Tal projeto conta com o apoio da Cooperativa Médica UNIMED – Ponta Grossa, a qual disponibiliza um médico ginecologista que passa as informações às adolescentes voluntárias, que por sua vez, repassam aos demais adolescentes, em forma de debate, de maneira descontraída.
A insuficiência diante do conhecimento dos adolescentes frente a sua sexualidade, o aumento de casos registrados, reconhecidos pelo vírus HIV, o acréscimo na taxa de natalidade entre adolescentes e a inadequação dos programas educacionais para adolescentes e jovens, são condições que despertam preocupação, devendo serem levadas em consideração (ALENCAR, 2008).
As ações voltadas para a saúde, pautadas na prevenção, praticadas de forma coesa e atingindo cada comunidade conforme a sua realidade, bem como desenvolvendo o pensamento crítico, são medidas apropriadas capazes de reprimir as situações expostas no parágrafo anterior.
2 ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE/ECA – CRIME E CRIMES SEXUAIS