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Pré-requisito

No documento Literatura Portuguesa I (páginas 39-65)

Ler e ter em mão os poemas “II. Horizonte” e

“VII. Occidente”, que você pode encontrar no site: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/

DetalheObraForm.do?select_action=&coobra =15726

“Ó MAR SALGADO, Ó MAR ANTERIOR” (PESSOA)

O mar é a imagem recorrente na alma dos portugueses por habitarem um território cuja metade é banhada pelo oceano. Diante desta fatalidade geográfi ca, MARIA GABRIELA LLANSOL: “Queria desfazer o nó que liga, na literatura portuguesa, a água e os seus maiores textos. Mas esse nó é muito forte, um paradigma frontalmente inatacável” (1985, p. 32). Ao longo do tempo, esse nó foi questionado, gerando hinos de amor ao mar, mas também reações raivosas, como a de Cesário Verde num soneto de título irônico, “Heroísmos”:

Eu temo muito o mar, o mar enorme, Solene, enraivecido, turbulento,

Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;

O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Eu temo o largo mar, rebelde, informe, De vítimas famélico, sedento,

E creio ouvir em cada seu lamento Os ruídos dum túmulo disforme.

Contudo, num barquinho transparente, No seu dorso feroz vou blasonar, Tufada a vela e n’água quase assente,

E ouvindo muito ao perto o seu bramar, Eu rindo, sem cuidados, simplesmente, Escarro, com desdém, no grande mar!

(VERDE, 1992, p. 58)

No longo poema “O sentimento dum ocidental”, já estudado na Aula 11, vimos como Cesário Verde virou as costas para o mar, mas nem por isso deixou de evocar as crônicas navais, os mouros e os heróis, “tudo ressuscitado!”, imaginando um Camões no sul a salvar “um livro a nado!” Ao contrário do que faz o poeta no soneto citado, ao escarrar, “com desdém, no grande mar!”, naquele texto, ele lamenta nostalgicamente as “soberbas naus” que não verá jamais.

O fascínio pelo mar domina a célebre “Canção do mar”, da autoria de Fre- derico de Brito e Ferrer Trindade, cantada por Amália Rodrigues em 1955, no fi lme Os amantes do Tejo, sob o nome de “Solidão”. Mais recentemente, foi interpretada pela fadista Dulce Pontes, à qual se pode escutar, acom- INTRODUÇÃO

MA R I A

GA B R I E L A

LL A N S O L

( 1 9 3 1 - 2 0 0 8 ) Portuguesa de nascimento, a escritora passou décadas na Bélgica, onde escreveu obras singulares em que questiona os valores da cultura portuguesa e ocidental, dentre os quais o mar, a literatura, os gêneros literários, a escrita.

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panhada da letra e de imagens do mar, em: http://www.youtube.com/

watch?v=QCahD0M9cv4.

NO “BRASÃO”, O ANÚNCIO DO MAR

Vimos que os elementos do escudo português enquadram os poemas ligados à formação e expansão territorial da pátria, na parte I – “Brasão” – de Mensagem. A parte II – “Mar portuguez” – reúne os poemas sobre o mar sem alusão ao escudo. No entanto, modernamente, as armas portuguesas incluem igualmente um elemento ligado aos descobrimentos marítimos: a esfera armilar, símbolo do reinado de d. Manuel, o Venturoso.

Figura 13.1: Brasão da bandeira portuguesa.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Flag_

of_Portugal.svg

Ao estudarmos o brasão de Mensagem, deparamo-nos com o elogio aos heróis que construíram a nação portuguesa sobre o território lusitano, envolto em mitos, conquistado pelos pais de Afonso Henriques, tornado primeiro rei e seguido de uma série de outros que ampliaram os limites geográfi cos do condado primitivo até a conquista defi nitiva do Algarve. Mas também o mar se anunciava através da fi gura do poeta-rei – d. Dinis –, nas palavras do poeta Pessoa: “É a voz da terra anciando pelo mar” (PESSOA, 2008, p. 64). Ainda no campo dos castelos e no timbre do brasão, Pessoa homenageia os mentores, os executores e os primeiros mártires da aventura marítima. Assim, d. João I e sua esposa inglesa ocuparão o “Sétimo castello”, como pais da “ínclíta geração

da Dinastia Gloriosa de Avis”, da qual se destacam: o mártir infante d. Fernando, primeira vítima do arremetimento mar afora em direção ao norte da África; o rei d. Duarte, irmão do mártir; e o infante d. Henrique, irmão de ambos e incentivador das navegações.

Pessoa seguirá o exemplo de Camões, que, n’Os Lusíadas, enaltece d. João I como primeiro rei português que “vai cometer [enfrentar] as ondas do Oceano”, tomando a cidade de Ceuta, dominação árabe no norte da África sob “a lei de Mafamede” [leis de Maomé]:

Este é o primeiro rei que se desterra Da pátria, por fazer que o africano Conheça, pelas armas, quanto excede A lei de Cristo à lei de Mafamede.

(CAMÕES, IV, 48, 1972, p. 254)

Em outro momento, o narrador Vasco da Gama faz-lhe uma referência como monarca predestinado por Deus, retomando a lenda da criança de três meses que levantara do berço para anunciar a futura entronização de d. João:

Ser isto ordenação dos céus divina, Por sinais muito claros se mostrou, Quando em Évora a voz de hua minina, Ante tempo falando, o nomeou.

E, como coisa, enfi m que o Céu destina, No berço o corpo e a voz alevantou:

– Portugal, Portugal! – alçando a mão, Disse – polo Rei novo, Dom João! – (CAMÕES, 1972, IV, 3, p. 232)

No poema “Sétimo (I)/D. João”, de Mensagem, a ideia da predestinação divina é mantida, não por conta do gesto infantil, mas em virtude da eleição de Deus, que “faz” o homem, a hora e a História:

O Homem e a hora são um só Quando Deus faz e a historia é feita.

O mais é carne, cujo pó A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo Que Portugal foi feito ser,

Que houveste a gloria e deste o exemplo De o defender.

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Teu nome, eleito em sua fama, É, na ara da nossa alma interna, A que repelle, eterna chamma, A sombra eterna.

(PESSOA, 2008, p. 65)

Como vimos na aula sobre Fernão Lopes, a fi gura de d. João I é muito importante na consolidação da identidade nacional portuguesa, ao defendê-la dos “maus portugueses”, traidores e amigos de Castela, que pretendiam unifi car os dois reinos cristãos. Ainda como mestre da ordem de Avis, d. João I lutou contra os castelhanos em Aljubarrota, consolidando a autonomia de Portugal. Por isso, Pessoa se refere a ele como “Mestre […] do Templo/Que Portugal foi feito ser”, por tê-lo defendido com garra.

O poeta se dirige ao rei como a “eterna chama” que repele a “sombra eterna” (a morte, o esquecimento), graças ao seu nome eleito por Deus para a fama e a glória. Para o eu lírico de Mensagem, isto é o que importa, pois “o mais é carne, cujo pó/A terra espreita”.

De suas relações com o duque de Lencastre, resultou o casamento de d. João I com a princesa inglesa Filipa de Lencastre, fi rmando as bases de uma aliança que durará por séculos.

Figura 13.2: Casamento de d. João I com Philippa de Lencastro. Miniatura sobre vellum, fi m do século XV. British Library. Londres, Inglaterra, Grã-Bretanha. Miniatura atribuída ao mestre da Tosão de Ouro de Viena e Copenhagen, na Chronique d’Angleterre, vol. III, fl . 284, de Jean de Wavrin.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Casamento_Jo%C3%A3o_I_e_Filipa_Lencastre.JPG

British Library

Os fi lhos de d. João I com a inglesa continuaram o projeto nacional, com destaque para o segundo gênito, o infante d. Henrique, o navegador, que fundou e dirigiu a Escola de Sagres, destinada a preparar pilotos, marinheiros e equipamentos para a concretização do sonho expansionista.

Na narração de Vasco da Gama, Camões faz uma breve referência à mãe dos “altos Infantes” no momento da paz entre Portugal e Castela, quando Deus quis “Dar os reis inimigos por maridos/Às duas ilustríssimas inglesas,/Gentis, fermosas, ínclitas princesas” (CAMÕES, IV, 47, 1972, p. 254), ou seja, d. Filipa e d. Catarina, fi lhas do duque de Lencastre.

Pessoa lhe dá um poema inteiro – “Sétimo (II)/D. Philippa de Lencastre” –, no qual mantém um diálogo que sacraliza o seu papel de mãe, “Humano ventre do Império”, “Que só gênios concebia”:

Que enigma havia em teu seio Que só genios concebia?

Que archanjo teus sonhos veio Vellar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto serio, Princeza do Santo Gral, Humano ventre do Imperio, Madrinha de Portugal!

(PESSOA, 2008, p. 66)

Na interlocução do poeta com d. Filipa – “Volve a nós teu rosto serio” –, o intertexto bíblico reaparece sob a fi gura tutelar da Virgem Maria que concebeu o Filho a partir da visita em sonhos do arcanjo Gabriel. Assim como o poeta invocou a proteção de d. Tareja – “mãe de reis e avó de impérios” – também aqui pede a atenção desta que é a “Madrinha de Portugal”, espécie de segunda mãe da pátria, cujos fi lhos levaram longe o nome do Imperio. A sacralização se acentua pela remissão ao intertexto da lenda medieval cristã do rei Artur, como

“Princeza do Santo Gral”, cujas pureza e bondade a aproximam de Galaaz, o cavaleiro perfeito.

Outros vultos do “Brasão” se relacionam à aventura marítima, como d. Sebastião, rei de Portugal, que ocupa a “Quinta Quina”, e os três vultos fi gurados no “Timbre” do brasão, como cabeça e asas do grifo.

Em “O infante d. Henrique (A cabeça do grypho)”, o poeta anuncia a globalização encetada por Portugal graças a este, que, além de

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olhar para as estrelas em busca de orientação para os nautas, enfrentou os desafi os do oceano Atlântico e superou as antigas eras de navegações, tornando-se o único imperador do “globo mundo”:

Em seu throno entre o brilho das espheras, Com seu manto de noite e solidão, Tem aos pés o mar novo e as mortas eras – O único imperador que tem, deveras, O globo mundo em sua mão.

(PESSOA, 2008, p. 81)

Além de fi gurar na importante posição de cabeça do grifo, o infante d. Henrique protagoniza o poema I de “Mar portuguez” –

“I. O infante” –, de que falaremos adiante.

Em Os Lusíadas, Camões lhe dá pouco destaque, no fi nal da epopeia, numa fala de Paulo da Gama ao Catual sobre as imagens nos estofos da embarcação. O narrador aponta para dois infantes, Pedro e Henrique, como resultado da “Progênie generosa de Joane” [e Filipa].

Informa que Henrique tem fama merecida por ser descobridor de mares e por ter dobrado a enorme vaidade dos mouros ao conquistar Ceuta:

“Este, que ela [a fama] nos mares o pubrique,/Por seu descobridor, e desengane/De Ceita a maura túmida vaidade,/Primeiro entrando as portas da cidade” (CAMÕES, VIII, 37, 1972, p. 445).

Figura 13.3: Infante d. Henrique na conquista de Ceuta.

Assim como o infante d. Henrique, d. João II merece dupla referência em Mensagem: é o emblema de uma asa do grifo, além de ser nomeado repetidamente no poema IV de “Mar portuguez” pelo homem do leme diante das ameaças de um mostrengo Adamastor. Foi no seu reinado que Bartolomeu Dias dobrou o cabo das Tormentas, de que resultaria a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Autor do projeto de expansão, d. João II patrocinou expedições anteriores de exploração da costa e do interior da África, onde fi ncou os primeiros padrões de pedra do império. Muito astuto e sábio, encomendou missões de espionagem no Oriente, sendo responsável pela ótima posição para Portugal no tratado de Tordesilhas (1494).

Figura 13.4: Imagem de d. João II na nota de 500 escudos.

Fonte: http://antonioharrington.wordpress.com/2011/01/26/joao-ii-o-perfeito

O seu “grande projeto” de alcançar os “términos” da Terra assim está n’Os Lusíadas, na narração de Vasco da Gama ao rei de Melinde, a partir da estrofe 60:

Este, por haver fama sempiterna, Mais do que tentar pode homem terreno Tentou, que foi buscar da roxa Aurora Os términos que eu vou buscando agora.

(CAMÕES, IV, 60, 1972, p. 260)

Narração, esta, que prossegue nas cinco estrofes seguintes, com a enumeração de suas providências até os confi ns da terra e do mar.

Tais informações nos permitem compreender a profundidade das palavras de Pessoa, a ele dedicadas no poema “D. João o segundo

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(Uma asa do grypho)”. Aqui ele se destaca como um “formidavel vulto solitario” que preenche o céu e o mar. Na primeira estrofe, confunde- se com “uma alta serra” sobre um promontório (cabo que adentra o oceano), fi gura carismática que entrevê o futuro ao fi tar “além do mar”.

Braços cruzados, fi ta além do mar.

Parece em promontorio uma alta serra – O limite da terra a dominar

O mar que possa haver além da terra.

Seu formidavel vulto solitario Enche de estar presente o mar e o céu, E parece temer o mundo vario

Que elle abra os braços e lhe rasgue o véu.

(PESSOA, 2008, p. 82)

Atende ao Objetivo 1

1. O mar é uma obsessão na literatura portuguesa como imagem de ven- tura e desventura. Comente a sua presença nos textos da aula até aqui estudados, com destaque para o tratamento que recebem os “pais do império” em Mensagem e n’Os Lusíadas.

2. Leia a seguinte citação:

Como se sabe, num Brasão, como numa voz, o Timbre é fundamental, é a sua marca, o que, fundamentalmente, os distingue dos outros. Qual terá sido a marca de Portugal, o que lhe deu quase universal visibilidade, o que lhe abriu os caminhos do mundo, o que lhe permitiu dominar uma parte desse mundo oriental que deu a conhecer ao Ocidente? A resposta será forçosamente uma: o mar desbravado por aqueles que lhe abriram a passagem […] (BERARDINELLI, 2008, p. 18).

A partir da leitura, explique como o poema Mensagem representa e home- nageia estes que “abriram a passagem”, na comparação com Camões?

ATIVIDADE

RESPOSTAS COMENTADAS 1. Você pode começar a resposta com uma explicação da afi rmação feita sobre o mar, podendo reportar-se ao que diz uma autora con- temporânea. Não se esqueça de comentar o lado desventuroso do mar, valendo-se do exemplo de um poeta que ironiza os heroísmos.

Por fi m, identifi que o casal, chamado “pai da pátria”, comparando o tratamento que recebem de Camões e de Pessoa. Não deixe de concluir sobre a visão que o mar assume nos textos comentados.

2. Observe que a professora Berardinelli faz referência a uma deter- minada seção do poema de Pessoa, na qual estão selecionados três heróis que também foram abordados por Camões. Não deixe de identifi car e citar estes heróis que, na visão dos poetas, mentalizam, preparam e executam o início da expansão por mar, corporifi cando o nascimento do império. Escolha apenas um deles para desenvolver a sua resposta, como, por exemplo, o Infante infante d. Henrique, cuja Escola de Sagres foi fundamental para a expansão. Na sua análise, observe que Camões é bem econômico no elogio ao infante, ao con- trário de Pessoa, que lhe dá a mais alta posição no “Brasão”, além de lhe dedicar dois poemas (o segundo será visto adiante).

MAR PORTUGUÊS E A OUTRA DISTÂNCIA

Na aula anterior, antecipamos alguns dados sobre a parte II de Mensagem, “Mar portuguez”, composta de 12 poemas, oito dos quais homenageiam alguns artífi ces das navegações, como o infante d.

Henrique e d. João II (ambos pela segunda vez), Diogo Cão, Bartolomeu Dias, os Colombos (representando todos os navegadores), Fernão de Magalhães, Vasco da Gama e d. Sebastião. Os demais poemas (quatro) não são representações de vultos históricos, mas refl exões poéticas sobre

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as difi culdades das travessias (poemas “Horizonte”, “Ocidente”, “Mar portuguez” e “Prece”). Ao afastar-se da História, o fi o narrativo de Mensagem vai-se tornando mais delgado.

Os construtores do império

Considerando o conjunto dos vultos históricos, podemos fazer uma leitura combinada entre os poemas alusivos ao infante d. Henrique e a d. João II, de modo a completar as análises anteriores relativas a ambos.

Na aula de apresentação do curso (Aula 1, Atividade 3), pedimos a interpretação do primeiro verso do poema pessoano dedicado ao infante d. Henrique – “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Vimos que o sentido de “obra” se conecta à ideia do império construído graças ao deslocamento marítimo, propulsionado pelo empenho do infante. No entanto, a obra decorre do desejo ou da predestinação de Deus, que planta o sonho dela no coração do homem. Assim, desde o poema-abertura de “Mar portuguez”, o caráter providencial das descobertas marítimas fi ca assegurado e confi rmado pela utilização do verbo “sagrar” em dois versos do poema, apresentado a seguir por inteiro:

I. O infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quiz que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fi m do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou creou-te portuguez.

Do mar e nós em ti nos deu signal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

(PESSOA, 2008, p. 89)

Graças ao desejo de Deus, ao sonho do infante e às descobertas marítimas de Portugal, o mundo pôde ver a terra unida pelos mares, ao surgir inteira e “redonda, do azul profundo”, lembrando-nos as posteriores imagens espaciais de Gagárin. A posse dos mares, tal como

fi gurada na epígrafe da parte II de Mensagem – “Possessio mares” – diz respeito não só à grandeza do império português, mas igualmente ao

“signal” premonitório do futuro império espiritual que será sonhado pelo poeta na parte III de Mensagem. Isto porque o “Imperio se desfez”

e o poeta invoca o “Senhor” (Deus ou a fi gura do infante), pois “falta cumprir-se Portugal”. Este primeiro poema dialoga com o 12º e último de “Mar portuguez”, “Prece”, e com o último de “O Encoberto”, que fecha o círculo da desgraça e da ânsia do poeta.

Gagárin (1934-1968)

Astronauta soviético e primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1, quando disse: “A Terra é azul”.

Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:The_Earth_seen_

from_Apollo_17.jpg

Mensagem é um poema épico-lírico feito de imagens e sentidos em

L E I X A-P R E N deixados e retomados. É o caso de d. João II, que reaparece em Mensagem como artífi ce do império marítimo. Trata-se do poema IV de “Mar portuguez”, em que a fi gura de um monstro desafi a o capitão de uma nau portuguesa, cujo nome não é citado. Quem será? Imediatamente lembramos de Adamastor, d’Os Lusíadas, como o principal intertexto deste poema. Porém, aqui se trata de um “mostrengo” alado que mantém um diálogo aterrorizante com o “homem do leme” que, por três vezes, treme e invoca o nome do seu senhor, que não é d. Manuel (monarca da época de Vasco da Gama), mas “El-rei D. João Segundo”.

IV. O mostrengo

O mostrengo que está no fundo do mar Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou trez vezes, Voou trez vezes a chiar,

E disse: “Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, LE I X A-P R E N

Expressão medieval que signifi ca “deixa e pega”, usada em cantigas de amigo galego-portuguesas, como um tipo de recurso de repetição de versos ao longo das estrofes.

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Meus tectos negros do fi m do mundo?”

E o homem do leme disse, tremendo:

“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?”

Disse o mostrengo, e rodou trez vezes, Trez vezes rodou imundo e grosso.

“Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?”

E o homem do leme tremeu, e disse:

“El-Rei D. João Segundo!”

Trez vezes do leme as mãos ergueu, Trez vezes ao leme as reprendeu, E disse no fi m de tremer trez vezes:

“Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fi m do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo”.

(PESSOA, 2008, p. 92)

Como no poema épico de Camões, há um jogo entre a dimensão histórica e a fi ccional, em que um monarca destemido – d. João II – enfrenta uma alegoria representativa dos medos humanos – o monstrengo.

Por sua vez, o capitão não nomeado pode ser um daqueles navegadores que tentaram ultrapassar “os vedados términos”, em especial o cabo das Tormentas, representando a força coletiva de um “Povo que quer o mar”. Este verso dialoga com o poema do infante em que “o homem sonha”, mas aqui “quer” e age segundo a vontade que o ata ao leme

“De El-Rei D. João Segundo!” Além dos aspectos identitários nacionais, o texto tem ressonâncias clássicas (o ciclope da Odisseia, a esfi nge de Tebas), numerológicas (repetição do número três) e cabalísticas, de base rosacruciana (o ritual iniciático, com “cavernas” a desvendar).

Rosacruciana

Relativo à Ordem Cabalística da Rosa-Cruz, fundada em Paris, por volta de 1888, com a qual Fernando Pessoa se identifi cou, fazendo muitas alu- sões em sua obra e em Mensagem, que pode ser lido sob esta orientação esotérica. Para saber mais sobre o assunto, consulte: http://pt.wikipedia.

org/wiki/Ordem_Kabbal%C3%ADstica_da_Rosa-Cruz.

O sentir e o pensar frente ao mar

Entre os poemas mais reflexivos e abstratos da parte II de Mensagem, podemos destacar “Horizonte” e “Ocidente”, ou ainda “Mar portuguez” e “Prece”. Se os dois primeiros trazem imagens gloriosas das navegações passadas, os últimos fazem uma refl exão poético-crítica sobre o passado em busca de respostas no futuro.

Você deve ler por conta própria o poema “II. Horizonte”, em conexão com o poema “VII. Occidente”, tentando encontrar elementos aproximativos entre ambos, o que é bem visível na terceira estrofe de cada um deles. Mas, antes, para servir de exemplo, vamos fazer juntos a leitura combinada dos poemas X, “Mar portuguez”, e XII, “Prece”?

Em primeiro lugar, leiamos (na verdade é uma releitura) por inteiro o primeiro poema, cujas partes são muito citadas fora do contexto de Mensagem.

X. Mar portuguez

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lagrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos fi lhos em vão resaram!

Quantas noivas fi caram por casar Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abysmo deu, Mas nelle é que espelhou o céu.

(PESSOA, 2008, p. 98)

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