O conceito de Dignidade da Pessoa Humana não teve sempre essas feições tal como se conhece atualmente do conceito jurídico- constitucional. Mas sim, foi fruto de uma evolução histórica de pensamentos e
164 GUERRA FILHO, Willis Santiago. Processo Constitucional e Direitos Fundamentais.
p. 44-45.
valores. Ele vem se amoldando desde a antiguidade clássica até os dias atuais e continua em fase de aperfeiçoamento.
A importância de uma conceituação jurídico-constitucional do que vem a ser Dignidade da Pessoa Humana é diretamente proporcional à dificuldade em obter-se tal conceito. Isso porque a dignidade é indissociável do ser humano, sendo, portanto, a ele inerente. E tal dificuldade se nota no fato de ser muito mais simples reconhecer aquilo que é indigno do que aquilo que é digno.
O homem não é um ser individual, ele está tanto inserido em uma sociedade, como também pertence a todo um contexto histórico-cultural. De certo que, aquilo que pode ter sido considerado digno em determinada época, poderá tornar-se indigno em outra. Ou ainda, o que é digno em certa cultura pode, ao mesmo tempo, não o ser numa outra, pelo simples motivo da diferenciação de valores e da construção histórica de cada um. O que dificulta ainda mais a tarefa de se obter uma conceituação amplamente aceita.
A utilidade de ser formulado um conceito que siga, no mínimo, certos contornos como parâmetro, assenta-se na necessidade de proteção e promoção por parte do Estado ao direito de cada indivíduo a sua dignidade. Essencial é revelar o que é a dignidade da pessoa para poder coibir eventuais violações a esta.
Sob a ótica dos poderes estatais, cumpre ressaltar o duplo caráter pelo qual pode ser entendida a dignidade da pessoa: como limite ou como tarefa. No primeiro caso ela assume o papel de limitar a ação do Estado, pois caso não existisse, não haveria mais fronteiras a serem respeitadas. Já no segundo caso, implica na prestação assistencial dos atores estatais, no sentido de preservar, promover e criar condições para o pleno gozo e exercício da dignidade de cada um, principalmente naquilo em que não for possível ao indivíduo conseguir por suas próprias forças.
É importante ressaltar que a autonomia de vontade perquirida é considerada abstratamente, ou seja, no potencial de autodeterminação de cada um e não na capacidade de fato em se alcançar essa liberdade, tendo em vista que alguns são parcial ou absolutamente incapazes em
exprimir suas vontades. E é nesse ponto que a dignidade protetiva, ou assistencial ganha maior destaque.
Como bem se sabe, a Dignidade da Pessoa Humana tem origem no próprio surgimento da humanidade, já que é atributo inerente ao homem, e desse não pode ser dissociado, mas só a partir da antiguidade clássica foi que se inseriu como conceito na consciência humana. E foi sofrendo modificações até atingir os moldes atualmente conhecidos, para finalmente adquirir o status de Princípio fundamental, norteador da Constituição.
Peces-Barba faz relação entre direitos fundamentais e Dignidade da Pessoa Humana:
(...) derechos fundamentales puede comprender tanto los presupuestos éticos como los componentes jurídicos, significando la relevancia moral de una idea que compromete da dignidad humana y sus objetivos de autonomía moral, y también la relevancia jurídica que convierte la los derechos en norma básica material del Ordenamiento y es instrumento necesario para que el individuo desarrolle en la sociedad todas sus potencialidades. Los derechos fundamentales expresan tanto una moralidad básica como una juridicidad básica. 165
Peces-Barbas demonstra que os direitos fundamentais em conjunto com a noção de Dignidade da Pessoa Humana, são pretensão moral justificada e apresentam conteúdo igualitário capaz de abranger todos os destinatários.
O processo de positivação é notadamente recente, já que foi apenas no século XX, mais especificamente a partir da Segunda Guerra Mundial, com a Declaração Universal da ONU de 1948, que a dignidade da pessoa passou
165 PECES-BARBA MARTÍNEZ, Gregório. Curso de Derechos Fundamentales: Teoria General. p. 37. “Direitos Fundamentais podem compreender tanto os pressupostos éticos como os componentes jurídicos, significando a relevância moral de uma idéia comprometida com a
dignidade humana e seus objetivos de autonomia moral, assim como a relevância jurídica, ao converter os Direitos em norma básica do ordenamento jurídico e instrumento necessário para que o indivíduo desenvolva em sociedade todas as suas potencialidades. Os Direitos Fundamentais expressam tanto uma moralidade básica quanto uma juridicidade básica.” (tradução livre).
a constar expressamente nos textos das Constituições166 do mundo todo, salvo algumas exceções.
A Constituição brasileira com relação ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana confere poderes de inestimável importância ao situá-lo dentre os Princípios fundamentais. Visto que esses exercem o papel de centro-motor de todo o ordenamento jurídico-constitucional, capaz de se irradiar sobre todas as normas, compondo-lhes a essência e proporcionando sentido harmônico. Ao ponto que invalidam qualquer preceito que se distancie de suas diretrizes.
Cumpre destacar que, por ordenamento jurídico- constitucional, entende-se, não só o conjunto normativo, mas todo o aparato estatal. Isso significa que o Estado deverá guiar todas as suas ações orientadas pelo Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.
A grande novidade foi que o legislador constituinte pátrio, ao consagrar o referido Princípio, passou a reconhecer a existência do Estado em função das pessoas e não o contrário, ou seja, ver o mesmo como instrumento e as pessoas como finalidade.
Entretanto, a positivação do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, por si só não basta para resguardar a dignidade da pessoa. É preciso torná-lo efetivo através de medidas positivas e negativas por parte do Estado.
As medidas negativas consistem na abstenção do Estado em praticar quaisquer atos, capazes de atentar contra a dignidade da pessoa.
Enquanto que as positivas implicam na obrigação do mesmo em promover, pelas suas ações, condições propícias ao pleno desenvolvimento de uma vida digna.
A maneira pela qual o Estado traz para o plano concreto a proteção contra possíveis – e prováveis - violações aos direitos fundamentais, os quais estão enraizados à noção de dignidade da pessoa, é por meio do processo legal.
166 Constituições da Alemanha (art. 1º, I), da Espanha (preâmbulo e art. 10.1), da Grécia (art.
2º, I), da Irlanda (preâmbulo), de Portugal (art. 1º), da Itália (art. 3º), da Bélgica (art. 23, revisão de 1994), do Brasil (art. 1º, III), do Paraguai (preâmbulo), de Cuba (art. 8º), da Venezuela
(preâmbulo), do Peru (art. 4º), da Bolívia (art. 6º, II reforma de 1994), do Chile (art. 1º), da Guatemala (art. 4º e preâmbulo), Rússia (art. 12-1 da Constituição de 1993).
Contudo, para se extrair do campo meramente normativo – dever ser – e implantar efetivamente no mundo real – ser – defronta-se com um grande desafio que é a acessibilidade de todos a um processo célere e justo.
A tutela jurisdicional confere ao indivíduo a materialização da normatização, tendo como alicerce o Princípio da Dignidade Humana. Portanto, se esta for negada a alguém, seja de forma direta - inacessibilidade das classes mais baixas -, seja de forma indireta – excessiva demora nos trâmites do processo –, estar-se-ia igualmente negando a sua dignidade.
Partindo do pressuposto de que dignidade como autodeterminação, implica em liberdade, real ou potencial, de conduzir-se conforme sua vontade. Conclui-se que os obstáculos ao Acesso à Justiça, reduzem, senão, impedem a liberdade do indivíduo de ter seus direitos assegurados pelo Judiciário. O que necessariamente compromete seriamente, ou até definitivamente, o respeito a uma vida digna.
Acreditando que Acesso à Justiça é condição fundamental de validade e eficiência do ordenamento jurídico garantidor de direitos e considerando o paradigma de igualdade de direitos e Justiça, podemos afirmar que a acessibilidade a uma Ordem Jurídica Justa é o mais basilar dos direitos fundamentais do homem.
Os direitos estão intimamente ligados a condição humana e precisam ser protegidos, por isso Fábio Konder Comparato chama de “cidadania universal”167 e é baseado nessa “cidadania universal” que o Acesso à Justiça se firma como direito fundamental, afastado completamente da matriz epistemológica individual-liberalista. “(...) uma visão axiológica da expressão justiça compreende o acesso a ela como o acesso a uma determinada ordem de valores e direitos fundamentais para o ser humano.”168 Explicando, o Acesso à Justiça facilmente poderia ser o meio pelo qual os direitos são efetivados, em vez de ser apenas um direito social, tornando-se o ponto central do processo.169
Portanto, a partir do momento que a Constituição da República assegurou o Acesso à Justiça como direito fundamental, deve o Estado
167 COMPARATO, Fábio Konder. A Nova Cidadania. p. 89.
168 RODRIGUES, Horácio Wanderley. Acesso à Justiça no Direito Processual Brasileiro.
p. 28.
169 BRANDÃO, Paulo de Tarso. Ações Constitucionais: “novos” direitos e acesso à justiça. p. 185.
garantir Justiça a toda população, independentemente de sua condição econômica, social ou cultura, assim como fazê-lo de forma imparcial.170
O valor fundamental da dignidade humana assumiu particular relevo no pensamento tomista, incorporando-se, a partir de então, à tradição jus-naturalista, tendo sido o humanista italiano Pico Della Mirandola quem, no período renascentista e baseado principalmente no pensamento de Santo Tomás de Aquino, advogou o ponto de vista de que a personalidade humana se caracteriza por ter um valor próprio, inato, expresso justamente na ideia de sua dignidade de ser humano, que nasce na qualidade de valor natural, inalienável e incondicionado, como cerne da personalidade do homem.
Isto posto, o Acesso à Justiça como direito fundamental proporcional o mínimo possível ao cidadão, efetivando também a Dignidade da Pessoa Humana.
3.2 PRINCÍPIO DA INAFASTABILIDADE DO CONTROLE JURISDICIONAL