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PRINCÍPIO DO MELHOR INTERESSE DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

No documento UNIVALI ADOÇÃO POR HOMOSSEXUAIS SOLTEIROS (páginas 60-65)

CAPÍTULO 2: ELEMENTOS INFORMADORES DO INSTITUTO DA ADOÇÃO

2.1 NOTAS INTRODUTÓRIAS AO TEMA

2.1.4 PRINCÍPIO DO MELHOR INTERESSE DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

No primeiro capítulo desta Monografia, pôde-se constatar que o instituto da Adoção sofreu uma profunda alteração através da história e que

163 Para Diniz, “Além dos requisitos básicos à adoção (idade do adotante, diferença mínima de idade entre o adotante e o adotando, consentimento do adotando, de seus pais ou de seu representante legal), outros, ainda, podem incidir, tais como: intervenção judicial na sua criação, pois somente se aperfeiçoa perante juiz, em processo judicial, com a intervenção do Ministério Público, inclusive em caso de adoção de maiores de 18 anos (CC, art. 1.623 e parágrafo único);

estágio de convivência entre divorciados ou separados judicialmente (adotantes) e adotando, que tenha se iniciado na constância da sociedade conjugal (CC, art. 1.622, parágrafo único, 1ª parte), comprovação da estabilidade familiar se a adoção se der por conviventes (CC, art. 1.618, parágrafo único) [...]”. In: DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: direito de família, p. 420.

no Brasil não se processou diferente, como aponta Silva Filho164:

No direito brasileiro passou o instituto por diferentes disciplinações jurídicas, até o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente, que veio a imprimir sentido mais humanitário à respectiva regulamentação, em consonância com a ordem constitucional estabelecida em 1988 e, sobretudo, consoante o princípio do melhor interesse do menor.

Pereira165 faz destaque ao Código Civil de 2002 que em matéria de Adoção fez menção às diretrizes do princípio do melhor interesse da Criança e do Adolescente [art. 1.625], princípio que também vem estatuído no ECA [art. 43], este, com fundamento na CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 [art.

227]. Nesse momento, faz-se necessário transcrevê-los, por ordem cronológica:

Art. 227 da CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988: É dever da família, da sociedade e do estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, á saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, á liberdade e á convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

§ 6º Os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por Adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.

Art. 43 do ECA: A Adoção será deferida quando apresentar reais vantagens para o adotando e fundar-se em motivos legais.

Art. 1.625 do CCB de 2002: Somente será admitida a adoção que constituir efetivo benefício para o adotando.

Como se vê, estes dispositivos normativos estão relacionados à questão do princípio do melhor interesse, pois como sustenta

164 SILVA FILHO, Artur Marques da Silva. Regime jurídico da adoção estatutária, p. 98.

165 PEREIRA, Tânia da Silva. Direito de família e o novo código civil. 2. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2002, p.145.

Grisard Filho166:

Concebida a adoção, originariamente, no interesse do adotante, para assegurar a perpetuidade da família e dos ritos domésticos, passou à transmissão do nome e do patrimônio. Modernamente, está ordenada no melhor interesse do menor, tendo por fim protegê-lo, mediante inserção em uma família que lhe dê amor, educação, felicidade e o prepare para a vida de relação. É uma verdadeira instituição de proteção familiar e social, para dotar o menor de uma família que lhe assegure seu bem-estar e seu desenvolvimento integral.

Acerca do art. 43 do ECA, Felipe167 diz que:

O interesse do menor é diretriz dominante, posto que no direito do menor, a Adoção deixou de ser um instituto destinado a resolver o problema de casais sem filhos, para se transformar num forte instrumento de solução para o problema da paternidade irresponsável e do menor desassistido. O Magistrado poderá indeferir a Adoção, se não vislumbrar no pedido atendimento aos interesses do menor, ao mesmo tempo, poderá ter mais liberdade para, sem vulnerar a lei, ajustar o preceito legal às exigências do caso concreto.

Na mesma diretriz, significativas são as colocações de Kauss168 sobre o melhor interesse para o Adotando, ao assim lecionar que:

Não basta a vontade do adotando, do menor e de quem dá em Adoção. É preciso que do ato resulte reais vantagens para o menor e que os motivos sejam legítimos, portanto, cabe a atuação do Ministério Público que oficia todos os procedimentos da justiça da Infância e da Juventude e pelo Juiz que, examinando todas as circunstâncias do caso, aferirá se deve ou não deferir a Adoção.

No pedido de Adoção o Ministério Público não atua como parte, mas na defesa dos direitos e interesses do menor e como o sistema recursal é do Código de Processo Civil poderá apelar da

166 GRISARD FILHO, Waldyr. Será verdadeiramente plena a Adoção Unilateral? Advocacia Gontijo-Gontijo, p. 3.

167 FELIPE, J. Franklin Alves. Adoção, guarda, investigação de paternidade e concubinato. Rio de Janeiro: Forense, 1993, p. 82.

168 KAUSS, Omar Gama Ben. Adoção no código civil e no estatuto da criança e do adolescente, p.

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sentença que contrarie os interesses do menor.

Neste norte, insta observar que no Código de Menores de 1979, revogado pelo ECA, já tinham orientação no sentido de atender, de preferência, ao interesse dos menores. O ECA, abraçando aquela orientação, consagrou normativa legal, mas adotando denominação circunloquial169como descreve Sznick170:

O consagrado termo interesse do menor foi substituído pela expressão ‘reais vantagens’. Ao nosso ver, a expressão interesse do menor é mais ampla, pois abrange, ao lado de reais vantagens – de conotação mais material -, aspectos espirituais, como afeição, dedicação, carinho e outros.

Martins171 expõe sobre o princípio de melhor interesse, de aplicação internacional e adotado pelo ECA, ao assim sustentar:

Significa que na instituição de leis, visando a proteção especial das crianças e adolescentes, facultando-lhes o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual, de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade, levar-se-ão sempre em conta os seus melhores interesses, devendo sempre estar na condição de sujeito de direitos, único caminho capaz de levar ao seu bom desenvolvimento.

De modo análogo, enfatiza Baroza172:

O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069, de 13.07.990) concretizou e expressou novos direitos da população infanto- juvenil, que põem e relevo o valor intrínseco da criança como ser humano e a necessidade de especial respeito a sua condição de

169 Esta expressão significa: “[...] evasivo, subterfúgio, rodeio”. In: HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário houaiss de sinônimos e antônimos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 138.

170 SZNICK, Valdir. Adoção, p. 87.

171 MARTINS, André Alex Baptista. Os onze anos do Estatuto da Criança e do Adolescente.

AMAERJ [Associação dos Magistrados Estaduais do Rio de Janeiro]. Disponível em:

<http://www.amaerj.org.br>. Acesso em: 15 nov. 2004, p. 1.

172 BARBOZA, Heloisa Helena. O Princípio do Melhor Interesse da Criança e do Adolescente. In:

ANAIS DO II CONGRESSO BRASILEIRO DE DIREITO DE FAMÍLIA. A Família na travessia do milênio. Rodrigo da Cunha Pereira [Coord.]. Belo Horizonte: IBDFAM: OAB-MG, Del Rey, 2000, p.

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pessoa em desenvolvimento. A adoção, em sede constitucional, da doutrina do proteção integral veio reafirmar o princípio do melhor interesse da criança, já existente em nossa legislação e que encontra raízes na Declaração Universal dos Direitos da Criança, adotada pela ONU em 20 de novembro de 1959.

Nesta esteira doutrinária, Luz173 tece o seguinte comentário ao artigo 1.625 do CC174, ao assim enfatizar:

Cumpre ao magistrado avaliar, criteriosamente, as circunstâncias que cercam a Adoção, somente permitindo a sua efetivação se houver cabal demonstração de benefício ao adotando. Sendo casos de menores expostos ou abandonados é manifesta a necessidade da Adoção. Já o mesmo não ocorre com menores que convivam com seus familiares, fato que exigirá do Poder Publico estudos mais detalhados a respeito da conveniência da Adoção, máxime a falta de condições financeiras dos pais na manutenção do filho adotando.

Desta forma, o princípio do melhor interesse do menor autoriza flexibilizar os rígidos requisitos da Adoção. Este é o critério vigorante em muitas legislações [Canadá, Suíça, Alemanha, Bélgica, Portugal, França], como registra Grisard Filho175:

O Código Civil de Quebec, de 1995, suprime a condição da diferença de idade. O Código Civil francês estabelece a diferença de idade em dez anos, quando se tratar de adoção do filho do cônjuge e faculta ao juiz, quando a diferença de idade seja menor, a conceder a adoção por justos motivos.

Isto posto, cumpre ao magistrado, atendendo à orientação insculpida no princípio do melhor interesse do menor avaliar, criteriosamente, as

173 LUZ, Valdemar P. da. Comentários ao código civil: direito de família, p. 78.

174 BRASIL. Código civil. “Art. 1.625. Somente será admitida a adoção que constituir efetivo benefício para o adotando”. In: VENOSA, Sílvio de Salvo. Novo código civil: texto comparado - código civil de 2002 e código civil de 1916, p. 426.

175 GRISARD FILHO, Waldyr. Será verdadeiramente plena a Adoção Unilateral? Advocacia Gontijo-Gontijo, p. 4.

circunstâncias que cercam a Adoção, somente permitindo a sua efetivação se houver cabal demonstração de benefício ao Adotando, pois como apregoa Veronese176:

O juiz deve verificar se as partes estão preparadas para a colocação em família substituta, pois não se trata de levar para nossas casas um animalzinho a ser domesticado; trata-se antes de uma criatura que sofreu, por inúmeras razões sociais, psíquicas, econômicas, uma ação de abandono por parte de seus genitores. Assim, é evidente que se tomem alguns cuidados básicos para obstar que um segundo processo de rejeição ocorra.

Em face do todo delineado neste subtítulo, faz-se mister salientar a importância da verificação do “melhor interesse do Adotando”, fazendo-se necessário, também, a observação desse princípio para que o mesmo possa usufruir de carinho, afeto e dedicação necessários ao seu desenvolvimento como pessoa.

No documento UNIVALI ADOÇÃO POR HOMOSSEXUAIS SOLTEIROS (páginas 60-65)