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PRINCÍPIOS INFORMATIVOS DO PROCESSO DE EXECUÇÃO

No documento Bruna Anziliero.pdf - Univali (páginas 38-44)

Princípios são “enunciados amplos que conduzem à solução de problemas e orientam comportamentos”148, regras norteadoras de condutas.

Segundo De Plácido e Silva, princípios são “o conjunto de regras ou preceitos, que se fixam para servir de norma a toda espécie de ação jurídica, traçando, assim, a conduta a ser tida em qualquer operação jurídica”149.

De acordo com Juarez Freitas, citado por Araken de Assis150, por princípio ou objetivo fundamental, entende-se o critério ou a diretriz basilar de um sistema jurídico, que se traduz numa disposição hierarquicamente superior, do ponto de vista axiológico, em relação às normas e aos próprios valores, sendo linhas mestras de acordo com as quais se deverá guiar o intérprete quando se defrontar com antinomias jurídicas.

A doutrina, em sua maioria, divide os princípios em informativos e fundamentais ou gerais, sendo os primeiros, criados por Mancini, Pisanelli e Scialoja, no século XIX, que são o lógico, o jurídico, o político e o econômico151, e os segundos, os que regem todas as espécies de processo no âmbito processual civil brasileiro, como o devido processo legal, do contraditório, publicidade dos atos processuais etc.

Entretanto, existem princípios que se aplicam mais propriamente ao processo de execução, como o da realidade, da satisfatividade, da utilidade, da menor onerosidade para o devedor, da especificidade, do ônus, da autonomia, do título, da disponibilidade, e da responsabilidade patrimonial, e estes serão objeto de análise no presente trabalho. Desta forma, quando aqui se fizer referência a princípios informativos do processo de execução, trata-se não dos princípios

148 MEDINA, José Miguel Garcia. Execução civil: teoria geral e princípios fundamentais. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. v. 48. (Coleção Estudos de Direito de Processo). p. 54.

149 SILVA, De Plácido e. Vocabulário jurídico, 2006. p. 1095.

150 ASSIS, Araken de. Manual da execução, 2007, p. 96.

151 MEDINA, José Miguel Garcia. Execução civil: teoria geral e princípios fundamentais, 2004, p. 81- 82.

esculpidos por Mancini, Pisanelli e Scialoja, e sim, dos princípios que norteiam o processo de execução brasileiro.

2.2.1. Princípio da realidade

Toda execução é real, ou seja, toda a atividade executiva está voltada para o patrimônio do devedor e não atinge a pessoa do devedor, regra esta que pode ser encontrada no art. 591 do Código de Processo Civil, ao prescrever que o devedor responde com todos os seus bens para o cumprimento da obrigação assumida.152

2.2.2. Princípio da satisfatividade/resultado

A execução busca satisfazer o direito do credor, na medida em que expropria bens do devedor suficientes para a extinção da obrigação.153

Tal princípio vem insculpido no art. 612 do Código de Processo Civil, in verbis:

Art. 612. Ressalvado o caso de insolvência do devedor, em que tem lugar o concurso universal (art.

751, III), realiza-se a execução no interesse do credor, que adquire, pela penhora, o direito de preferência sobre os bens penhorados.

E também, no art. 659, caput do Código de Processo Civil:

Art. 659. A penhora deverá incidir em tantos bens quantos bastem para o pagamento do principal atualizado, juros, custas e honorários advocatícios.

Desta forma, explica Misael Montenegro Filho154:

A regra de que a execução (como ação ou como fase do processo de conhecimento) é instaurada em atenção ao credor, comprometendo-se o Estado com

152 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execução e cumprimento de sentença, 2009, p. 121.

153 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execução e cumprimento de sentença, 2009,p.121.

154 MONTENEGRO FILHO, Misael. Curso de direito processual civil, 2007. p. 232.

a sua plena satisfação, o que apenas será possível com a imposição de sacrifício de maior ou menor estatura em detrimento do devedor, que recalcitrou na obrigação de adimplir de forma espontânea a imposição que lhe foi dirigida.

Apesar de a execução buscar a satisfação do crédito, há a isonomia processual, ou seja, há um equilíbrio entre credor e devedor no processo, na medida em que o devedor pode se defender utilizando os meio processuais admitidos, como mencionado anteriormente, bem como deve ter ciência dos atos que envolvam a expropriação de seus bens, como a avaliação do bem penhorado.155

2.2.3. Princípio da utilidade da execução

Ao dar início à tutela executiva, o credor deve buscar a satisfação de seu crédito, e não almejar prejudicar o devedor.156 Humberto Theodoro Júnior aponta que tal princípio vem demonstrado nos arts. 659, §2º e 692 do Código de Processo Civil, conforme se observa:

Art. 659.[...]

§2º Não se levará a efeito a penhora, quando evidente que o produto da execução dos bens encontrados será totalmente absorvido pelo pagamento das custas da execução.

Art. 692. Não será aceito lanço que, em segunda praça ou leilão, ofereça preço vil.

Parágrafo único. Será suspensa a arrematação logo que o produto da alienação dos bens bastar para o pagamento do credor

Ou seja, deve-se provocar a tutela jurisdicional para satisfazer o crédito, e diante da impossibilidade de cumprir-se tal objetivo, não impor ao devedor medidas que lhe causem danos sem qualquer satisfatividade para o credor ou além do que representar o crédito.

155 MONTENEGRO FILHO, Misael. Curso de direito processual civil, 2007. p. 232-233.

156 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execução e cumprimento de sentença, 2009, p. 121.

2.2.4. Princípio da menor onerosidade para o devedor

O processo de execução deve se desenvolver da forma menos gravosa ao devedor para satisfazer a obrigação.157 Neste sentido, veja-se o art. 620 do Código de Processo Civil:

Art. 620. Quando por vários meios o credor puder promover a execução, o juiz mandará que se faça pelo modo menos gravoso para o devedor.

Desta forma, a execução deve se desenvolver de forma a não causar graves prejuízos ao patrimônio do devedor, atingindo apenas o patrimônio necessário, e também, mas tampouco se deve prejudicar o credor ao utilizar-se tal princípio.158

2.2.5. Princípio da especificidade da execução

A execução deve dar ao credor o que ele receberia se a obrigação fosse cumprida de forma voluntária pelo devedor. Nas palavras de Humberto Theodoro Júnior, “o que prevalece é a inviabilidade, seja de o credor exigir, seja de o devedor impor prestação diversa daquela constante no título executivo, sempre que esta for realizável in naturaI”. 159

2.2.6. Princípio do ônus da execução

Como se presume que se o credor buscou a via judicial para ver a obrigação adimplida, o devedor encontra-se em mora, é mister que a execução corra

“a expensas do executado”160.

Tal regra pode ser encontrada nos arts. 651 e 659 do Código de Processo Civil, que enunciam o pagamento pelo devedor, além da dívida principal, a atualização monetária, os juros e os honorários advocatícios.161

157 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execução e cumprimento de sentença, 2009, p. 122.

158 MONTENEGRO FILHO, Misael. Curso de direito processual civil, 2007. p. 232-236.

159 THEODORO JÚNIOR, Humberto. p. 122.

160 Lopes da Costa apud THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil:

processo de execução e cumprimento de sentença, 2009, p. 122.

2.2.7. Princípio da autonomia

Este princípio é o que permite diferenciar o processo de execução do de conhecimento e cautelar. O processo de execução tem regras próprias e se desenvolve independentemente dos outros tipos de processo.

Humberto Theodoro Júnior162 explica: “atua o Estado, na execução, como substituto, promovendo uma atividade que competia ao devedor exercer: a satisfação da prestação a que tem direito o credor.”

Assim, apesar de tanto o processo de conhecimento quanto o de execução visarem à pacificação social, conforme exposto no Capítulo 1, não se pode dizer que os processos sejam idênticos ou se desenvolvam de modo semelhante.

Ernane Fidelis dos Santos163 explica:

No processo de execução, ao contrário do que se passa no de conhecimento, não há litígio a se compor, mas direito a ser realizado. A realização da justiça não consiste na aplicação do direito ao fato em controvérsia, mas na efetivação daquilo que já está reconhecido.

Humberto Theodoro Júnior164 afirma:

Pode-se, portanto, compor o litígio sem necessidade de utilizar o processo de execução; e pode-se, também, compor o litígio apenas com o processo de execução, sem necessidade de passar pelo prévio acertamento do processo de conhecimento.

Doutrinadores, como Araken de Assis, defendem o posicionamento de que apesar desta autonomia há tanto pregada, com as modificações trazidas pela reforma processual, a autonomia passou a ser funcional apenas, de forma que “os atos de realização coativa do direito reconhecido no

161 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execução e cumprimento de sentença, 2009, p. 122-123.

162 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execução e cumprimento de sentença, 2009, p. 109.

163 SANTOS, Ernane Fidélis dos. p. 283.

164 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execução e cumprimento de sentença, 2009, p. 113.

provimento distinguem-se dos atos que conduziram ao seu reconhecimento.”165 Humberto Theodoro Júnior diverge de tal opinião, uma vez que no tocante à execução de títulos executivos extrajudiciais ainda há plena autonomia.166

2.2.8. Princípio do título

Tal princípio vem insculpido pela tão conhecida regra nulla executio sine titulo. José Frederico Marques expõe:

A existência de título executivo (nulla executio sine titulo) é o que torna a prestação imediatamente exigível pelos meios coativos da execução forçada, enquanto o inadimplemento do devedor é que faz necessária a coação estatal, criando situação de fato que vai levar o Estado, no exercício da função jurisdicional, a tornar efetiva a prestação.167

Assim, observa-se que o título “é a base de toda execução”.168

2.2.9. Princípio da disponibilidade

O credor pode desistir da ação de execução ou de alguma medida executiva, como a penhora, sem necessitar da aquiescência do devedor, quando ainda não foram interpostos embargos à execução, conforme disposto no art. 569 do Código de Processo Civil, entretanto, arcará com as custas processuais, veja-se:

Art. 569. O credor tem a faculdade de desistir de toda a execução ou de apenas algumas medidas executivas.

Parágrafo único. Na desistência da execução, observar-se-á o seguinte:

a) serão extintos os embargos que versarem apenas sobre questões processuais, pagando o credor as custas e os honorários advocatícios;

b) nos demais casos, a extinção dependerá da concordância do embargante.

165 ASSIS, Araken de. Manual de execução, 2007. p. 99.

166 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execução e cumprimento de sentença, 2009, p. 113.

167 MARQUES, José Frederico. p. 2.

168 MEDINA, José Miguel Garcia. Execução civil, 2004, p. 98.

A desistência tem fundamento diante do objetivo do credor ao buscar a tutela executiva: satisfazer seu crédito. Assim, na medida em que observa não ser mais necessária ou efetiva a tutela jurisdicional, cabe a ele decidir se deseja ou não prosseguir com a demanda.169

No documento Bruna Anziliero.pdf - Univali (páginas 38-44)