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PRINCÍPIOS INSPIRADORES DA EDUCAÇÃO JESUÍTA SUPERIOR

Ainda que aberta a estudantes de todas as confissões religiosas e de todas as tendências ideológicas, as instituições universitárias dirigidas pela Companhia de Jesus não escondem sua identidade cristã e católica. Evidentemente seu objetivo não é a conversão religiosa dos que as frequentam. Trata-se antes de, juntamente com os estudos nas várias áreas de saber e através deles, promover uma reflexão lúcidaesincerasobreosentidodaexistênciahumanaeamissãoquecabe a cada um no seio da sociedade.

Pressuposta a adesão a um humanismo solidário, o respeito pelo ideário da instituição e a observância das normas nela vigentes, os membros da comunidade universitária gozam da autêntica liberdade acadêmica na expressão de suas opiniões. Dar-se-á, contudo, especial atenção à reflexão sobre as relações entre Razão e Fé, em geral, e no campo das diversas ciências, insistindo, ao mesmo tempo, na racionalidade da atitude de Fé e na autonomia dos processos racionais.

2.3.2 Formação integral

Trata-se de integrar instrução e educação no âmbito da atividade acadêmica, de modo que esta não se limite à transmissão de conhecimentos, mas abranja todas as dimensões da personalidade, científicas e artísticas, ao esporte e à educação física, à capacidade de comunicação e de liderança, e demais competências, conforme as qualidades e pendores de cada estudante. Nesse sentido, embora atue formalmente apenas nas áreas de Filosofia, Teologia e afins, a FAJE estimula seus alunos e alunas a desenvolverem a sua cultura geral e a abrirem-se às inovações tecnológicas e digitais, a organizarem eventos científicos, artísticos, literários e esportivos, bem como atividades de cunho social.

Com efeito, visa-se com tal perspectiva a formação do caráter, em vista da plena realização do ser-humano. À primeira vista, esta pretensão pode parecer inoportuna, uma vez que os estudantes universitários, mesmo no nível de graduação, como adultos que fizeram sua opção profissional, não buscam nos cursos que frequentam elementos formativos, mas tão somente conhecimentos teóricos e práticos em determinadas áreas que os habilitem a aprofundar-se em suas especialidades e a exercer com competência sua carreira profissional. Talalegaçãodeve,porém,ser desconsiderada por várias razões.

a. O ensino de qualquer disciplina se confronta de algum modo com a realidade. Por mais que queira permanecer neutro, o professor ou a professora não pode esquivar-se de emitir juízos de valor

31 implícitos ou explícitos. A própria seleção dos fatos que analisa, dos aspectos que focaliza, já implica preferências ditadas por fins e valores assumidos;

b. A omissão de qualquer posicionamento é ainda mais irrealizável nas áreas de Filosofia e Teologia, que abordam sistematicamente a questão do fundamento da realidade e do sentido último da existência;

c. Nesta perspectiva, o projeto educacional inaciano, de modo geral, preconiza expressamente os valores que assume como meta do processo formativo e oferece meios para que sejam compreendidos, assimilados e livremente assumidos pelos destinatários da proposta. Formam-se assim homens e mulheres capazes de oferecer à Igreja e à sociedade um serviço competente e dedicado;

d. Este modo de proceder nada tem a ver com a absolutização de princípios e a imposição de verdades dogmáticas. Os jesuítas partilham com os que acorrem a suas instituições aquilo que consideram a maior riqueza de suas vidas em termos de Fé e de crescimento pessoal. Como já se aludiu a propósito dos valores que orientam o processo educativo, eles estão plenamente conscientes do pluralismo de abordagens da realidade, da importância fundamental do diálogo e da riqueza de viver a unidade na tensão das divergências, não radicalizadas, antes assumidas como pontos de vista complementares;

e. Aliás, é importante sublinhar que o papel educativo do docente não se exerce em primeiro lugar pelo que ensina e pelas posições que assume e transmite, mas por seu comportamento, pelo ethos que representa espontaneamente. Certamente a sua competência e o brilho de suas aulas são também determinantes. Mas é, sobretudo, na responsabilidade com que assume a sua missão, na justiça de suas atitudes e decisões, no interesse que manifesta pelo progresso de todos os estudantes, na maneira como se comporta diante dos seus comentários e perguntas e a elas responde, no modo como discute as ideias discordantes, como apresenta as próprias, que ele realiza o seu papel de educador, deixando por vezes marcas indeléveis e lembranças queridas nos jovens que estão por iniciar as suas carreiras profissionais.

2.3.3 Educação personalizada

Cada vida é estritamente singular e sobremaneira valiosa. Cada ser humano está chamado a dar sua contribuição específica para o bem de seus semelhantes, a ser um presente de Deus ao mundo.

Consciente dessa verdade, o educador inaciano volta a sua atenção para cada um daqueles que foram confiados aos seus cuidados, como se fosse único. Procura estabelecer com todos uma relação pessoal, conhecer suas qualidades, sua história, sua situação, compreender seus problemas, descobrir suas potencialidades, apontar caminhos, estar a seu lado nos momentos de crise, mas também de vitória.

Sua proximidade não deve gerar, contudo, dependência, antes estimular as iniciativas, favorecer o amadurecimento que leva a decisões pessoais refletidas, especialmente no encaminhamento da própria vida afetiva e profissional, na preparação para as missões concretas que estão reservadas a cada um.

Na prática do ensino, o contato pessoal do professor, através do método de trabalho e da abertura de horizontes de pesquisa, tem lugar sobretudo por ocasião de trabalhos de maior fôlego. O reconhecimento da individualidade de cada estudante deve, porém, marcar o conjunto de sua atuação.

Importa respeitar as preferências naturais e o ritmo de cada um na diversificação dos exercícios e de sua avaliação. Apesar da tendência uniformizadora nas práticas e objetivos do sistema educacional vigente, no espírito da educação inaciana, a própria exigência de resultados é, quanto possível, adaptada ao estilo de cada um. A diversidade de talentos não deve levar a classificações rígidas, que provoquem discriminações, pois todos têm qualidades a mostrar desde que se lhes dê um voto de confiança.

32 2.3.4 Método ativo

Integral e personalizado, o método pedagógico inaciano é antes de tudo ativo. De fato, o ser humano não chega à maturidade sem a intervenção de adultos, seja pela transmissão de saberes, seja no aprendizado do saber agir e do saber viver. No entanto, como se viu a propósito dos Exercícios Espirituais, o papel do mestre, ainda que indispensável, consiste em iniciar e motivar em cada novo campo e nível de aprendizagem, apontar metas e fornecer instrumentos, justamente para dar espaço ao estudante, para que abra por si mesmo o seu caminho e atinja os alvos desejados. Nessa perspectiva, a função do docente não consiste apenas em transmitir informações, mas em ensinar o estudante a pensar por si, a arriscar suareflexãoepalavrasobrearealidade,apartirdaexperiência,agindoem consequência.

Esse método foi sistematizado, como já foi assinalado, em três passos: experiência, reflexão, ação, que pressupõem a explicitação do contexto da experiência e se concluem com uma avaliação:

1. Contextualização: Leva em conta as circunstâncias concretas em que se encontra o estudante, seus conhecimentos prévios, seu ambiente familiar e cultural, a situação sócio-político-econômica vigente, bem como o modo de proceder da própria instituição, fatores todos que podem afetar decisivamente a reação à experiência;

2. Experiência: A apresentação de qualquer ponto novo de um programa de estudos não pode ser feita de maneira meramente verbal, antes deve pôr o estudante em contato direto ou, pelo menos, indireto, com a realidade em questão, de modo a, além da aquisição de elementos cognitivos, provocar uma reação de ordem afetiva;

3. Reflexão: Corresponde ao processo mental de definição do conteúdo da experiência, compreensão de seu sentido, avaliação das situações nela implicadas e discernimento das ações postuladas pela realidade assim encarada;

4. Ação: Em virtude da compreensão intelectual da experiência e dos sentimentos nela implicados, a vontade sente-se movida a opções e atitudes na linha da interiorização dos valores adotados,que impelem a ações coerentes com as convicções que vão se formando ao longo do processo;

5. Avaliação: O processo conclui-se, a cada vez, com a avaliação do progresso alcançado, não só quanto aos conteúdos, mas também quanto às atitudes, prioridades e modos de proceder de acordo com o objetivo de ser “pessoas para os outros”.

Todos esses passos, ainda que acompanhados pelo docente, dependem inteiramente do envolvimento do discente e de sua participação ativa no processo de crescimento intelectual e humano global. Eles são coerentes com outros princípios inacianos como o que assevera que não é a quantidade de informação que estrutura a mente e torna sábio, mas a realidade experimentada e refletida pessoalmente. Nesse sentido, a pedagogia inaciana exclui qualquer formalismo no processo educativo, insistindo na gradualidade da aprendizagem, com a prática da “repetição”, ou seja, a retomada dos mesmos temas sob diferentes aspectos, não se passando adiante até que sejam satisfatoriamente assimilados e vividos.

2.3.5 Dinamismo do “magis”

A busca da excelência já foi apresentada como um dos valores orientadores da vida da FAJE.

Volta aqui como um elemento constitutivo da pedagogia inaciana enquanto impulso a desenvolver ao máximo as diversas dimensões da personalidade. Esse elemento se apoia em um otimismo sustentado pela Fé na obra do Criador e Salvador, atuante em todo ser humano e toda a realidade criada. Na sua existência histórica, nem a pessoa, nem a sociedade humana alcançam a sua perfeição, de modo que sempre podem avançar em humanidade e justiça. O dinamismo do “mais” representa o apelo a sair da

33 mediocridade, da tendência a contentar-se com a mediania, de modo passivo, rotineiro ou inconstante, e a favorecer a iniciativa, a perseverança na realização dos objetivos traçados, a busca do mais perfeito.

Por vezes, essa excelência acadêmica pôde dar a impressão de elitismo, como se a educação jesuíta fosse reservada aos bem-dotados intelectualmente ou às elites mais abastadas. Na verdade, o objetivo é, dentro dos condicionamentos de cada situação, dar uma educação da melhor qualidade a todos, de acordo com a capacidade de cada um. Não se visa, portanto, a excelência do centroeducativo ou resultados brilhantes em exames e concursos, mas o verdadeiro proveito dos destinatários do trabalho educacional.

Nesse sentido, o princípio de “procurar em tudo aquilo que mais conduz ao fim que se tem em vista”, para “o melhor serviço de todos”, leva a flexibilizar as práticas e as estruturas conforme as circunstâncias. Não se fica fixado em nenhum modo de proceder específico, podendo adotar, por exemplo, atividades educativas na modalidade presencial ou a distância, ou ainda sob outras formas que se demonstrarem como mais válidas.