4.3.1 Princípio do Acesso a Justiça
Segundo Miirra (2004, p. 123) este princípio pode ser compreendido da seguinte forma:
O acesso a Justiça constitui modernamente tema central de algumas das principais discussões e análises no meio jurídico e corresponde a um verdadeiro movimento mundial cuja finalidade básica é fazer com que o sistema por intermédio do qual se permite às pessoas reivindicarem os seus direitos e resolverem os seus litígios seja igualmente acessível a todos e à proteção indiscriminada dos direitos reconhecidos e produza resultados justos, sob o prisma individual e social.
Dessa forma, a conclusão que se chega segundo Capelletti et al (apud MIRRA, 2004, p. 123) é que:
[...] a simples titularidade de direitos pelo cidadão comum não tem sentido verdadeiro se não vier acompanhada de instrumentos adequados que permitam a sua reivindicação e a sua proteção integral, de nada servindo, com efeito, o reconhecimento e a proclamação de direitos no plano formal se não forem ao mesmo tempo assegurados e implementados mecanismos para a sua efetivação.
Neste sentido, a Lei da Ação Civil Pública surgiu como um instrumento processual específico no nosso ordenamento jurídico, para propiciar o acesso a justiça para a proteção do Meio Ambiente. (MIRRA, 2004).
Da mesma forma, pode-se dizer que aconteceu com o instituto do Compromisso de Ajustamento de Conduta. Todavia, antes de entrar neste conteúdo, faz-se uma reflexão sobre o ensinamento de Cappelletti (apud Rodrigues, 2006, p.
122) por ser pertinente ao presente estudo:
Devemos estar conscientes de nossa responsabilidade; é nosso dever contribuir para fazer que o direito e os remédios legais reflitam as necessidades, problemas e aspirações atuais da sociedade civil; entre essas necessidades estão seguramente as de desenvolver alternativas aos métodos de remédios, tradicionais, sempre que sejam demasiado caros, lentos, inacessíveis ao povo; daí o dever de encontrar alternativas capazes de melhor atender às urgentes demandas de um tempo de transformação sociais em ritmo de velocidade sem precedentes.
Diante disso, Rodrigues (2006, p.124) afirma que:
O Compromisso de Ajustamento de Conduta surgiu no contexto de se procurar meios alternativos de proteção dos direitos transindividuais, de forma a contribuir para uma tutela mais adequada desses direitos.
Podemos dizer que integra a terceira onda de acesso a justiça. O Ajuste de Conduta não objetiva substituir a atividade jurisdicional, que inclusive já conta com mecanismos mais eficientes para a garantia desses direitos, mas complementá-la nos casos em que a solução negociada se revele mais apropriada.
E continuando, a mesma autora ensina:
O Compromisso enseja a conciliação pré-processual de direitos que são em essência indisponíveis. Para conceber um novo mecanismo de composição de conflitos envolvendo direitos transindividuais o legislador, no evidente intuito de propiciar novas formas de tutela desses direitos, superou uma tradição de limitar os benefícios da solução negociada apenas aos direitos marcadamente disponíveis.
Por outro lado, a introdução do Compromisso também foi ousada, posto que conferiu legitimidade da negociação a quem não é o verdadeiro titular do direito, a quem não pode dispor do mesmo. (2006, p.124 -125).
Posto isso, para que o Compromisso de Ajustamento de Conduta aumente o acesso à justiça, necessariamente, ele deve ser um meio econômico, breve e justo na solução dos interesses transindividuais. (RODRIGUES, 2006).
4.3.2 Princípio da Tutela Preventiva
Segundo Milaré (2007, p. 766) este princípio é aplicado “[...] quando o perigo é certo e quando se tem elementos seguros para afirmar que uma determinada atividade é efetivamente perigosa”.
O mesmo autor enumera o seguinte exemplo:
[...] indústria geradora de materiais particulados que pretenda instalar- se em zona industrial já saturada, cujo protejo tenha exatamente o condão de comprometer a capacidade de suporte da área. À evidência em razão dos riscos ou impactos já de antemão conhecidos, outra não pode ser a postura do órgão ambiental que não a de – em obediência ao princípio da prevenção negar a pretendida licença.
Assim, o princípio da prevenção visa impedir a ocorrência de danos ambientais, consubstanciado em medidas acautelatórias, antes da implantação de empreendimentos poluidores. (MILARÉ, 2007).
Dessa forma, o instrumento do Ajustamento de conduta vem a ser um mecanismo de solução extrajudicial também para propiciar a prevenção da ocorrência de dano ambiental, ou seja, poderá ser celebrado ajustamento de conduta na forma preventiva, pois prevenir é melhor do que remediar, principalmente quando não pode existir remédio eficaz para combater a lesão, como ocorre na maioria das vezes com o dano ambiental. (RODRIGUES, 2006).
4.3.3 Princípio da Tutela Específica
O princípio da Tutela Específica “[...] é o conjunto de remédios e providências tendentes a proporcionar àquele que será beneficiado com o cumprimento da prestação o preciso resultado prático atingível por meio de adimplemento.”
(RODRIGUES, 2006, p. 130).
A Tutela Especifica concernente ao Meio Ambiente deve estar consubstanciada principalmente nas obrigações de fazer e de não fazer e não nas pecuniárias, não obstante, a tutela específica também poderá enquadrar-se na obrigação pecuniária. (RODRIGUES, 2006).
Porque, o Ajustamento de Conduta é, em regra, palco justamente dos interesses transindividuais (Meio Ambiente), ou seja, de caráter extrapatrimonial, e o que importa realmente para coletividade, por exemplo, é a preservação ou a recuperação (obrigações de fazer e não fazer) do Ambiente, e não a indenização em dinheiro como forma de reparar o dano. (Rodrigues, 2006).
Assim, segundo Prudente (2007) o nosso Código de Processo Civil, passou a tratar da Tutela Específica no tocante as obrigações de fazer e não fazer, no art.
461, com a redação da Lei n. 8.952, de 13/12/94, que assim dispõe:
Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido, determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do adimplemento (art. 461, caput). A obrigação somente se converterá em perdas e danos se o autor o requerer ou se impossível a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspondente (art. 461, § 1º). A indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa (art. 287) - (art. 461, §
2º). Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou mediante justificação prévia, citado o réu. A medida liminar poderá ser revogada ou modificada, a qualquer tempo, em decisão fundamentada (art. 461, § 3º). O juiz poderá, na hipótese do parágrafo anterior ou na sentença, impor multa diária ao réu, independentemente de pedido do autor, se for suficiente ou compatível com a obrigação, fixando-lhe prazo razoável para o cumprimento do preceito (art. 461, § 4º). Para a efetivação da tutela específica ou para a obtenção do resultado prático equivalente, poderá o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas necessárias, tais como a busca e apreensão, remoção de pessoas e coisas, desfazimento de obras, impedimento de atividade nociva, além de requisição de força policial(art.461,§5º)..(PRUDENTE, 2007, p. ?)
Diante do exposto, Rodrigues (2006) ensina que a reforma de 1994 valorizou o conteúdo da tutela específica consoante a celebração de Ajustamento de Conduta, pois a eficácia executiva do Compromisso ficava muito comprometida antes dessa reforma, isso porque, não se podia executar obrigações de fazer e de não fazer oriundas de título executivo extrajudicial. Assim, o Ajustamento de Conduta ou tinha uma previsão de pagamento de quantia pelo ressarcimento, ou acabava apenas funcionando como um meio de prova para ação de cognição, o que o desqualificava como meio de obter a tutela específica.
Portanto, com a reforma processual o Compromisso de Ajustamento de Conduta, deve ensejar também a tutela específica, quando se tornar impossível a aplicação do princípio da prevenção, porque o conteúdo do Ajustamento de Conduta, deve em regra buscar recuperação do dano ao Meio Ambiente. (RODRIGUES, 2006).
4.4 LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO PARA TOMAR O COMPROMISSO