ASA DE BALEIA
2. PROCESSO CRIATIVO
1. O texto seria escrito de forma virtual, na plataforma Google Docs, com a ferramenta de edição habilitada para que todas pudessem acompanhar as alterações do texto.
2. Cada uma escreveria um trecho do poema partindo da escrita anterior, podendo ser inserido em qualquer lugar do texto, sem a necessidade de uma linearidade.
3. A escritora, em sua vez, poderia, além de escrever, editar, apagar ou incluir outros versos.
4. A ordem da escrita (ou a vez de cada uma escrever) foi definida antes do início do poema.
5. Não houve imposição de quantidade de versos para a escrita de cada uma.
gramatical? Que língua é essa? Dizem que as jubarte tem bons ouvidos. Saber ouvir é um gesto tão ancestral, quase mitológico, por isso as baleias parecem mitos: “O mito é um fato da mente manifestado em uma ficção da matéria”.
As baleias têm esse mistério de uma vida em contrafluxo (ou refluxo), uma existência que não cabe. Já somos desse tamanho e não. Já somos desse tamanho e tão monstruosos – mal cabemos. Imagina uma baleia! Tão mansa e gentil no meio do mar, toneladas de mansidão e incoerência.
Baleias não voam, não é?
Não é?
Qualquer ilusão de que a humanidade sabe o que está fazendo no mundo pode ser dissipada quando olhamos uma baleia jubarte. Não sabemos lidar com existências. E agora?
Desaprender. “A cura acontece quando a gente desaprende”. (DIÁRIO DE CRIAÇÃO COLETIVA, 2021).
A escrita do poema durou cerca de um mês, feito diariamente. Depois de pronto, o poema foi encaminhado a outra amiga e colega, Taiane, a quem está dedicado, para que pudesse ler e fazer suas considerações. Por fim, foi marcada uma reunião para que pudéssemos realizar uma leitura coletiva sobre o poema composto até então. Nessa ocasião, fizemos algumas modificações e ajustes finais a partir da leitura em voz alta de cada uma, para afinar o ritmo e alinhar a intenção gráfica e sonora do poema.
Todo o processo nos fez refletir sobre o bloqueio criativo, sobre esse incômodo inicial, que é muito mais que uma oposição a uma força externa, como pensa Agamben (2018). Há uma presença na ausência, daquilo que não está em ato – a potência. Assim, fazer poesia pode significar estar à mercê de sua própria impotência, não como ausência de potência, mas como potência-de-não, potência de ser e de não ser, de fazer e de não fazer. Todo artista está sujeito a desvios, relutâncias, a vacilações, enfim, há uma resistência inerente a cada ato artístico.
Uma baleia vive em média 70 a 80 anos. Elas não são apenas cantoras, mas também compositoras. Seu canto vai se modificando a cada ano, recebendo e perdendo notas, num processo contínuo de aprendizado, principalmente pelos filhotes. Ninguém sabe ao certo por que o canto da baleia-jubarte é tão triste.
Sobre o que escrevemos quando escrevemos sobre baleias? O que elas nos dizem? (DIÁRIO DE CRIAÇÃO COLETIVA, 2021).
A criação deste poema ilustra também a escolha de um procedimento para a criação poética e as possibilidades a partir de algumas restrições e modos de fazer, a partir da escrita
de uma outra pessoa, e o encontro por meio da escrita (mesmo estando longe), além de ter sido um grande exercício e aprendizado sobre leitura e ritmo.
Roberto e eu estamos pensando sobre o ritmo e como o ritmo exige uma presença que dê espaço ao movimento do outro, ao limite do outro. “Todo ritmo é sentido de algo”, diz Octavio Paz (1982), e todo sentido exige um outro, um espaço de ressonância. Pensamos na brincadeira de pular a corda e como, para atingir um ritmo no movimento da corda, é preciso sentir e se harmonizar com a intenção de quem está segurando a outra ponta, e propor também uma abertura para corda, uma frequência para o movimento. Um equilíbrio entre guiar e soltar. Quem salta também precisa afinar o corpo com o movimento proposto pela corda e sua presença, sua resposta, seu tipo de movimento, altera a resposta daqueles que giram a corda.
As baleias me espantam pelo abandono, pela frequente constatação do próprio peso que devém uma leveza que é mais do que leveza, é desintegração, desastre, mais próximo da origem etimológica do termo que Steiner (2005) lembra: uma chuva de estrelas.
E se o canto das baleias for um gesto parecido ao salto que eu imagino como um constatar a própria existência pelo encontro com o outro (maior, distante ou inatingível), pelo chamado, pela atitude de espera que Paz atribui ao ritmo?: “O ritmo provoca uma expectativa, suscita um anelo. Se é interrompido, sentimos um choque. Algo se rompeu. Se continua, esperamos algo que não conseguimos nomear. O ritmo engendra em nós uma disposição de ânimo que só poderá se acalmar quando sobrevier «algo». Coloca-nos em atitude de espera” [...]. (PAZ, 1982) (DIÁRIO DE CRIAÇÃO COLETIVA, 2021).
Talvez um dos elementos mais importantes do processo tenha sido o de praticar uma escrita que não se levasse tão a sério, que abrisse um espaço para a ausência de domínio e para um olhar mais aberto, menos autoritário. Percebemos esse movimento criativo e entendemos que criar consiste nessa cadeia infinita de interações – com o outro, com o mundo – não lineares de ideias trabalhadas de diferentes formas, isto é, em uma série de infinitas aproximações e desalinhos para atingi-la, um fio que se desenrola numa multiplicidade dinâmica de sentidos e relações.
A criação coletiva possibilitou novas ideias e movimentos criativos que foram se construindo ao longo do processo, como afirma Cecília Almeida Salles (2008), “um percurso feito de formas de caráter precário, porque hipotético”. Nesse sentido, o processo criativo produz conexões entre seus elementos e permite novas linhas de maneira que, a todo momento, novos mapas podem ser criados e cartografados, numa contínua metamorfose.
A experiência também nos fez refletir sobre a necessidade de integrar o afeto e a vulnerabilidade no próprio campo acadêmico. Se, por um lado, os estudos teóricos e manuais de escrita nos apontam caminhos e técnicas possíveis para o processo de escrita, é difícil, ainda, encontrar nesses registros o espaço de fuga e, por assim dizer, as técnicas do
impossível, do estado humano ainda vivo, confuso, da palavra vibrando antes da análise clínica. Na sua tentativa de escrever à maneira contínua e caótica da vida, Saramago diz que precisa “ouvir” a voz que fala internamente, e foi o que fizemos. Ouvimos a nossa voz interna, as vozes outras, o canto da baleia e mergulhamos.