E PRÁTICAS COTIDIANAS ESTÉTICAS
2. RELATO DE EXPERIÊNCIA
Era imprescindível, que as (os/es) alunas (os/es) se sentissem acolhidas a expressar o mundo em que vivem, ressinificando suas atividades cotidianas, as quais acreditamos que, em meio a uma pandemia, adquirem um valor ainda maior na construção de suas subjetividades e mundos possíveis. Para Mandoki, a estética se expressa e, deve ser entendida, para além dos espaços artísticos e ir em direção "À riqueza e à complexidade da vida social em suas diferentes manifestações" (2006), tradução nossa30.
Como pensar que a vida cotidiana está cheia de ações criadoras que são nutridas por uma sensibilidade estética expressa na capacidade de maravilhar-se, e de não “esquecer que as práticas artísticas são mais que um conhecimento específico validado por um circuito, ou pelo saber acadêmico” (LOPEZ, 2015).
Propusemos a criação de ações performativas e processos de criação de elementos visuais, sonoros, ou audiovisuais, tendo como máquina de operacionalização a intermídia, centrando-nos em explorar a potência criadora das diferentes atividades cotidianas das (os/es) discentes – criação artística + internet/mídias; implicou, compreender a dinâmica que ocorre em relação à experiência que as pessoas têm com os produtos midiáticos contemporâneos - pensar a partir das linguagens multimídia e narrativas transmídia, outros cenários para os processos estéticos da criação artística.
Para Paulo Freire, tal qual uma obra de arte, é a educação, e segundo ele “É nesse sentido que o educador é também artista”, logo, a docência é um viés dentro do equipamento do estado onde a pessoas que a exerce “Refaz o mundo, redesenha o mundo, repinta o mundo, recanta o mundo, redança o mundo” (FREIRE, 2000B: 6m42 – 7m02). Sugerimos como provocativa a performance Homo Pri.Mato, um ensaio fotográfico (com interferência digital), que aborda signos incontestáveis do “do império do homem” (BACON, 1620) - branco - na cidade de Cuiabá31.
30 “... hacia la riqueza y complejidad de la vida social en sus diferentes manifestaciones”.
31 Centro geodésico da América do Sul, Cuiabá teve sua “fundação” em 1719 pelos genocidas/bandeirantes Miguel Sutil e Pascoal Moreira Cabral, hoje capital do estado é mundialmente referida como capital do agronegócio.
Incitamos as (os) discentes a olharem as escolhas no âmbito social que se evidenciaram nestes tempos pandêmicos, a partir de uma localidade da cidade de Cuiabá- MT que acreditamos destacar, pela sua fisicalidade, a discussão trazida pelo autor Boaventura de Souza Santos, na conferência “Para Descolonizar o Ocidente – mais além do pensamento abismal” no ano de 2007. Na conferência Souza Santos aponta que durante o processo de invasão das coroas espanholas e portuguesas sob tutela imperial britânica e papal no ano de 1492 estabeleceu-se um novo evento neste Território Ancestral chamado América, ali segundo o autor fez-se as “as linhas do lado de cá e de lá” (2007).
O que Souza Santos busca apontar é que, neste período, deu-se origem ao sistema hierárquico e meritocrático que desenvolvemos em tempos pós-modernos como sociedades transnacionais. Este fato se deu por razão das coroas portuguesas e espanholas serem revestidas de autoridade pelo representante supremo do deus do homem branco, esse aval papal que categorizava que estes homens reis eram superiores às demais vidas humanas e não-humanas, que foram desde o primeiro contato descritos como seres primitivos, pagãos, sem almas, recursos naturais para o enriquecimento infinito das coroas.
Destacamos, a partir dessas observações e os diálogos que confluíram por estes prismas da colonialidade pela criação das categorias: gênero, raça e classe, o espaço onde está sendo erguida/construída uma praça, uma benfeitoria da mobilidade urbana que a Prefeitura de Cuiabá e o estado de Mato Grosso junto à iniciativa privada promoveriam à população cuiabana ao vencer uma concorrência nacional tornando-se uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Este espaço que desde os tempos pré-invasão – antes de 1750 até 2010, era um bolsão de umidade/chuva – mata ciliar de um dos afluentes do nosso avô Rio Cuiabá; está uma avenida de mão dupla, que intersecciona a região central do município a seu parque industrial como também à cidade industrial de Várzea Grande - MT.
Cuiabá sempre é apontada, nas mídias e meios de comunicação, como uma cidade provinciana, o que não é questão alguma, contudo na língua colonial estabelecida como língua oficial, provinciano é um lugar atrasado, mas bom para se ganhar dinheiro.
Pela leitura hierárquica e meritocrática, as culturas de coletivos humanos não europeus, não tem nenhum valor - a colonialidade produziu e desenvolveu mecanismos perpetuantes por onde as sociedades dominantes dos territórios invadidos e saqueados prosseguissem implementando a monoculturalidade da vida – modo único de se olhar e interagir para e ao regional, onde adjetivos como “nada presta” ou “é feio” são comuns ao pensar, falar e agir coletivo.
Em razão de todos os desvios de recursos financeiros, apenas a meses atrás foram iniciadas as obras da praça e abertura da avenida de mão dupla em toda extensão do projeto.
Até então ainda havia dois pontos, com mata ciliar, a que se estendia para além de 50 m da margem do afluente, foi totalmente derrubada para que a praça fosse edificada, e assim os chamados, cidadãos de bem – homens, brancos e famílias, tenham à sua disposição aparelhos de ginástica, espaço para jogar conversa fora e um parquinho para passear e brincar com seus pets; benefícios que homens brancos valoram, e assim obtém seu direito constitutivo ao lazer.
Figura 1. Encruzilhada Norte e Sur. Performance Homo Pri.Mato 2021.
Decidimos, primeiramente, ir até o local e passar algum tempo ali. Observamos aspectos que no cotidiano de grandes centros, mesmo os com ares provincianos, ficam desapercebidos. A futura praça que gerará bem-estar social, fica de frente para um dos mercados de alimentos in natura e industrializados na capital/município que se vende às mídias para os setores da sociedade chamados classe média-alta e alta. No entorno do futuro espaço de lazer há lotes, casas e apartamentos que iniciam seu valor de mercado na faixa dos 200 mil reais, podendo, tranquilamente, ultrapassar 15 milhões de reais, e a Universidade Federal de Mato Grosso.
Ficamos no espaço por cerca de 1 hora, andamos no entorno do afluente, que só conhecemos como o córrego de esgoto do Barbado. Quando traçávamos a metodologia de captura da performance, observamos o posicionamento do Sol, notamos, com a ajuda de um aplicativo de bússola que a frente da praça se volta para o Sul, então tínhamos como poética ao norte prédios/moradias tecnológicas e ficcionalmente sustentáveis prontos ou em
processo de edificação ao sul o que ainda resiste do Ecossistema de faixa de transição dos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal que foi construída a capital do agronegócio e do pantanal.
Tínhamos, então, um espaço que expunha no concreto as linhas abissais do processo de invasão e que, como sistema, perdura, em conjunto com as grandes questões que vieram às vistas neste período pandêmico partilhadas nas aulas remotas tais quais: a maneira que nos alimentamos; os lucros das indústria alimentícia, farmacêutica e tecnológica neste período catastrófico; o trabalho e usa estruturação na metodologia fordista, tanto ao que tange pensa-lo quanto ao que tange pratica-lo; e aspectos outros que são resultantes do sistema necrófilo que acreditamos ser o único modo, para compor a performance digital.
Criamos, um figurino em conjunto com o espaço de pesquisa para criação e confecção de produtos para artes [House of Einstein Halking], um casaco/paletó de plástico com vários bolsos onde foram introduzidos dezenas de embalagens de drogas químicas lícitas para o diabetes, a pressão alta e problemas cardiovasculares, agulhas que diabéticos conferem suas glicoses e garrafa d’água de plástico; adicionamos roupas vendidas como roupa feminina – legging preta e camisa de gola alta branca - coturno/botas, fones de ouvidos com designer moderno [comprados em uma dessas casas de produtos chineses], uma vasilha redonda de comida para cães de ferro na cor prata; um produto vendido como comida, mas é veneno de uma franquia de fast-food; um capacho – tapete de porta – elegante, óculos, máscaras de guardanapos de papel.
Como cenário temos: solo/cimentado + uma personagem agênero – amplificados aos signos do homem branco referentes a prazer, conforto e acesso a crédito capital. No processo de elaboração da performance decidimos por incorporar a parte inicial capítulo
‘Sociologia da imagem’ do livro ‘Sociologia da Imagem – olhares ch’ixi desde a história andina’ da ch’eje/mestiça Aymara, a antropóloga Silvia Riviera Cusicanqui e aqui a trazemos integralmente abaixo.
A muito tempo trabalho sobre a ideia de que no momento presente nossos países produzindo situações de colonialismo interno. E é sobre este ponto que vou agora falar sobre a sociologia da imagem, a forma como as culturas visuais, portam possibilidades de compreensão do social, pois se desenvolveram em uma trajetória própria e que revela e reatualiza muitos aspectos não conscientes do social. Nossa sociedade tem elementos e características próprias de uma confrontação cultural e civilizatória, que se iniciou em nosso espaço desde 1532. Há no colonialismo uma função peculiar para as palavras: as palavras não designam, mas encobrem, e isto é particularmente evidente na fase republicana, onde tiveram que adotar ideologias igualitárias e ao mesmo tempo retirar os direitos da maioria da população. Deste modo as palavras se converteram em um registro ficcional, cheio de eufemismos, que ignoram a realidade ao invés de designá-la. Os
discursos públicos se converteram em formas de não dizer. E este universo de significados e noções não ditas, de crença na hierarquia racial e na desigualdade de seres humanos, vão se reproduzindo no senso comum, e ascendem como um estralo de vez em quando, de modo catártico e irracional.
Não se fala de racismo, mas temos testemunhado ações coletivas de racismo, como em janeiro de 2007 em Cochabamba ou em maio de 2008 no Sucre, e que a primeira vista parecem inexplicáveis. Eu acredito que aí se desnudam as formas escondidas, soterradas dos conflitos que culturais que resultamos e não podemos elaborar um raciocínio sobre. Inclusive, não podemos conversar sobre eles. Nos custa falar, conectar nossa linguagem pública com a privada.
Nos custa dizer o que pensamos e nos fazermos conscientes neste transfundo pulsional, de conflitos e vergonhas inconscientes. Isto nos deu modos retóricos de nos comunicarmos, sentidos dúbios, sentidos táticos, convenções da fala que escondem uma série de mal-entendidos e que orientam as práticas, mas que divorciam a ação da palavra pública (CUSICANQUI; 2015) tradução nossa.
Essa citação como é feita em espanhol, deste modo também buscamos trazer discussões entre as (os) discentes sobre a manipulação, a separatividade de uma mesma espécie, em suma parentes, sob duas línguas coloniais. Como pesquisadoras latino- americanas acreditamos que nossas miradas Bororo, Xavante, Coxiponês, Kayabi, Ch’ixi, Ch’eje ou del Sur nos levam a um reencontro com nossa Mãe, nossas avós, e introduzir no âmbito da docência a troca/partilha de saberes amplificados pela intermídia - estar e ser à palavra-imagem-vídeo; poderá, talvez, re-agenciar retomadas de estados cognitivos expandidos ou globais.
O título da performance surge como uma brincadeira de criança, pegamos o Homo da classificação eurocentrista de nossa biologia a Homo Sapiens Sapiens – primata diurno que pode refletir. Já a palavra Pri alude a primário – sob os aspectos discutidos ao que tange o trabalho, a produção de produtos primários em escala global & a “monocultura de ideias”
(Shiva; 2005). Mato é signo ao verbo que se perpetua no cotidiano da capital e do celeiro/estado do agronegócio.
Figura 2. Percurso Consequências. Performance Homo Pri.Mato 2021.
Acreditamos, tal qual Cusicanqui afirma que “as imagens nos oferecem interpretações e narrativas sociais que, desde os séculos pré-coloniais iluminam esse transfundo social e nos oferecem perspectivas de compreensão crítica sobre a realidade” (2015) tradução nossa.
Este artigo & performance digital “Homo Pri.Mato”, é um discurso poético que se intersecciona entre a potência criativa das epistemes do Sul junto aos novos modos tecnológicos para a universalização de saberes nos institutos públicos e privados para a Educação, aplicativos et e tal. As ferramentas tecnológicas, nos escravizam para e pelo consumo, mas, ainda assim, uma imagem partilhada em #feed ou #story pode sim re- agenciar diálogos outros. Acreditamos que a intermídia é uma metodologia potencial, na Era Digital, tanto para o exercício da docência ou da palavra pública quanto no exercício privado/coletivo/civil.
Salve as Caboclas da Mata, salve Iracema, salve Jurema, salve Iara, salve Oxumaré, salve Gavião Real, salve Onça, salve Jiboia, salve Mamãe Oxum, salve Abuelas.