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RELATO DE EXPERIÊNCIA

No documento Pesquisa em Arte, Mídias e Tecnologia: (páginas 135-140)

E PRÁTICAS COTIDIANAS ESTÉTICAS

2. RELATO DE EXPERIÊNCIA

Era imprescindível, que as (os/es) alunas (os/es) se sentissem acolhidas a expressar o mundo em que vivem, ressinificando suas atividades cotidianas, as quais acreditamos que, em meio a uma pandemia, adquirem um valor ainda maior na construção de suas subjetividades e mundos possíveis. Para Mandoki, a estética se expressa e, deve ser entendida, para além dos espaços artísticos e ir em direção "À riqueza e à complexidade da vida social em suas diferentes manifestações" (2006), tradução nossa30.

Como pensar que a vida cotidiana está cheia de ações criadoras que são nutridas por uma sensibilidade estética expressa na capacidade de maravilhar-se, e de não “esquecer que as práticas artísticas são mais que um conhecimento específico validado por um circuito, ou pelo saber acadêmico” (LOPEZ, 2015).

Propusemos a criação de ações performativas e processos de criação de elementos visuais, sonoros, ou audiovisuais, tendo como máquina de operacionalização a intermídia, centrando-nos em explorar a potência criadora das diferentes atividades cotidianas das (os/es) discentes – criação artística + internet/mídias; implicou, compreender a dinâmica que ocorre em relação à experiência que as pessoas têm com os produtos midiáticos contemporâneos - pensar a partir das linguagens multimídia e narrativas transmídia, outros cenários para os processos estéticos da criação artística.

Para Paulo Freire, tal qual uma obra de arte, é a educação, e segundo ele “É nesse sentido que o educador é também artista”, logo, a docência é um viés dentro do equipamento do estado onde a pessoas que a exerce “Refaz o mundo, redesenha o mundo, repinta o mundo, recanta o mundo, redança o mundo” (FREIRE, 2000B: 6m42 – 7m02). Sugerimos como provocativa a performance Homo Pri.Mato, um ensaio fotográfico (com interferência digital), que aborda signos incontestáveis do “do império do homem” (BACON, 1620) - branco - na cidade de Cuiabá31.

30 “... hacia la riqueza y complejidad de la vida social en sus diferentes manifestaciones”.

31 Centro geodésico da América do Sul, Cuiabá teve sua “fundação” em 1719 pelos genocidas/bandeirantes Miguel Sutil e Pascoal Moreira Cabral, hoje capital do estado é mundialmente referida como capital do agronegócio.

Incitamos as (os) discentes a olharem as escolhas no âmbito social que se evidenciaram nestes tempos pandêmicos, a partir de uma localidade da cidade de Cuiabá- MT que acreditamos destacar, pela sua fisicalidade, a discussão trazida pelo autor Boaventura de Souza Santos, na conferência “Para Descolonizar o Ocidente – mais além do pensamento abismal” no ano de 2007. Na conferência Souza Santos aponta que durante o processo de invasão das coroas espanholas e portuguesas sob tutela imperial britânica e papal no ano de 1492 estabeleceu-se um novo evento neste Território Ancestral chamado América, ali segundo o autor fez-se as “as linhas do lado de cá e de lá” (2007).

O que Souza Santos busca apontar é que, neste período, deu-se origem ao sistema hierárquico e meritocrático que desenvolvemos em tempos pós-modernos como sociedades transnacionais. Este fato se deu por razão das coroas portuguesas e espanholas serem revestidas de autoridade pelo representante supremo do deus do homem branco, esse aval papal que categorizava que estes homens reis eram superiores às demais vidas humanas e não-humanas, que foram desde o primeiro contato descritos como seres primitivos, pagãos, sem almas, recursos naturais para o enriquecimento infinito das coroas.

Destacamos, a partir dessas observações e os diálogos que confluíram por estes prismas da colonialidade pela criação das categorias: gênero, raça e classe, o espaço onde está sendo erguida/construída uma praça, uma benfeitoria da mobilidade urbana que a Prefeitura de Cuiabá e o estado de Mato Grosso junto à iniciativa privada promoveriam à população cuiabana ao vencer uma concorrência nacional tornando-se uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Este espaço que desde os tempos pré-invasão – antes de 1750 até 2010, era um bolsão de umidade/chuva – mata ciliar de um dos afluentes do nosso avô Rio Cuiabá; está uma avenida de mão dupla, que intersecciona a região central do município a seu parque industrial como também à cidade industrial de Várzea Grande - MT.

Cuiabá sempre é apontada, nas mídias e meios de comunicação, como uma cidade provinciana, o que não é questão alguma, contudo na língua colonial estabelecida como língua oficial, provinciano é um lugar atrasado, mas bom para se ganhar dinheiro.

Pela leitura hierárquica e meritocrática, as culturas de coletivos humanos não europeus, não tem nenhum valor - a colonialidade produziu e desenvolveu mecanismos perpetuantes por onde as sociedades dominantes dos territórios invadidos e saqueados prosseguissem implementando a monoculturalidade da vida – modo único de se olhar e interagir para e ao regional, onde adjetivos como “nada presta” ou “é feio” são comuns ao pensar, falar e agir coletivo.

Em razão de todos os desvios de recursos financeiros, apenas a meses atrás foram iniciadas as obras da praça e abertura da avenida de mão dupla em toda extensão do projeto.

Até então ainda havia dois pontos, com mata ciliar, a que se estendia para além de 50 m da margem do afluente, foi totalmente derrubada para que a praça fosse edificada, e assim os chamados, cidadãos de bem – homens, brancos e famílias, tenham à sua disposição aparelhos de ginástica, espaço para jogar conversa fora e um parquinho para passear e brincar com seus pets; benefícios que homens brancos valoram, e assim obtém seu direito constitutivo ao lazer.

Figura 1. Encruzilhada Norte e Sur. Performance Homo Pri.Mato 2021.

Decidimos, primeiramente, ir até o local e passar algum tempo ali. Observamos aspectos que no cotidiano de grandes centros, mesmo os com ares provincianos, ficam desapercebidos. A futura praça que gerará bem-estar social, fica de frente para um dos mercados de alimentos in natura e industrializados na capital/município que se vende às mídias para os setores da sociedade chamados classe média-alta e alta. No entorno do futuro espaço de lazer há lotes, casas e apartamentos que iniciam seu valor de mercado na faixa dos 200 mil reais, podendo, tranquilamente, ultrapassar 15 milhões de reais, e a Universidade Federal de Mato Grosso.

Ficamos no espaço por cerca de 1 hora, andamos no entorno do afluente, que só conhecemos como o córrego de esgoto do Barbado. Quando traçávamos a metodologia de captura da performance, observamos o posicionamento do Sol, notamos, com a ajuda de um aplicativo de bússola que a frente da praça se volta para o Sul, então tínhamos como poética ao norte prédios/moradias tecnológicas e ficcionalmente sustentáveis prontos ou em

processo de edificação ao sul o que ainda resiste do Ecossistema de faixa de transição dos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal que foi construída a capital do agronegócio e do pantanal.

Tínhamos, então, um espaço que expunha no concreto as linhas abissais do processo de invasão e que, como sistema, perdura, em conjunto com as grandes questões que vieram às vistas neste período pandêmico partilhadas nas aulas remotas tais quais: a maneira que nos alimentamos; os lucros das indústria alimentícia, farmacêutica e tecnológica neste período catastrófico; o trabalho e usa estruturação na metodologia fordista, tanto ao que tange pensa-lo quanto ao que tange pratica-lo; e aspectos outros que são resultantes do sistema necrófilo que acreditamos ser o único modo, para compor a performance digital.

Criamos, um figurino em conjunto com o espaço de pesquisa para criação e confecção de produtos para artes [House of Einstein Halking], um casaco/paletó de plástico com vários bolsos onde foram introduzidos dezenas de embalagens de drogas químicas lícitas para o diabetes, a pressão alta e problemas cardiovasculares, agulhas que diabéticos conferem suas glicoses e garrafa d’água de plástico; adicionamos roupas vendidas como roupa feminina – legging preta e camisa de gola alta branca - coturno/botas, fones de ouvidos com designer moderno [comprados em uma dessas casas de produtos chineses], uma vasilha redonda de comida para cães de ferro na cor prata; um produto vendido como comida, mas é veneno de uma franquia de fast-food; um capacho – tapete de porta – elegante, óculos, máscaras de guardanapos de papel.

Como cenário temos: solo/cimentado + uma personagem agênero – amplificados aos signos do homem branco referentes a prazer, conforto e acesso a crédito capital. No processo de elaboração da performance decidimos por incorporar a parte inicial capítulo

‘Sociologia da imagem’ do livro ‘Sociologia da Imagem – olhares ch’ixi desde a história andina’ da ch’eje/mestiça Aymara, a antropóloga Silvia Riviera Cusicanqui e aqui a trazemos integralmente abaixo.

A muito tempo trabalho sobre a ideia de que no momento presente nossos países produzindo situações de colonialismo interno. E é sobre este ponto que vou agora falar sobre a sociologia da imagem, a forma como as culturas visuais, portam possibilidades de compreensão do social, pois se desenvolveram em uma trajetória própria e que revela e reatualiza muitos aspectos não conscientes do social. Nossa sociedade tem elementos e características próprias de uma confrontação cultural e civilizatória, que se iniciou em nosso espaço desde 1532. Há no colonialismo uma função peculiar para as palavras: as palavras não designam, mas encobrem, e isto é particularmente evidente na fase republicana, onde tiveram que adotar ideologias igualitárias e ao mesmo tempo retirar os direitos da maioria da população. Deste modo as palavras se converteram em um registro ficcional, cheio de eufemismos, que ignoram a realidade ao invés de designá-la. Os

discursos públicos se converteram em formas de não dizer. E este universo de significados e noções não ditas, de crença na hierarquia racial e na desigualdade de seres humanos, vão se reproduzindo no senso comum, e ascendem como um estralo de vez em quando, de modo catártico e irracional.

Não se fala de racismo, mas temos testemunhado ações coletivas de racismo, como em janeiro de 2007 em Cochabamba ou em maio de 2008 no Sucre, e que a primeira vista parecem inexplicáveis. Eu acredito que aí se desnudam as formas escondidas, soterradas dos conflitos que culturais que resultamos e não podemos elaborar um raciocínio sobre. Inclusive, não podemos conversar sobre eles. Nos custa falar, conectar nossa linguagem pública com a privada.

Nos custa dizer o que pensamos e nos fazermos conscientes neste transfundo pulsional, de conflitos e vergonhas inconscientes. Isto nos deu modos retóricos de nos comunicarmos, sentidos dúbios, sentidos táticos, convenções da fala que escondem uma série de mal-entendidos e que orientam as práticas, mas que divorciam a ação da palavra pública (CUSICANQUI; 2015) tradução nossa.

Essa citação como é feita em espanhol, deste modo também buscamos trazer discussões entre as (os) discentes sobre a manipulação, a separatividade de uma mesma espécie, em suma parentes, sob duas línguas coloniais. Como pesquisadoras latino- americanas acreditamos que nossas miradas Bororo, Xavante, Coxiponês, Kayabi, Ch’ixi, Ch’eje ou del Sur nos levam a um reencontro com nossa Mãe, nossas avós, e introduzir no âmbito da docência a troca/partilha de saberes amplificados pela intermídia - estar e ser à palavra-imagem-vídeo; poderá, talvez, re-agenciar retomadas de estados cognitivos expandidos ou globais.

O título da performance surge como uma brincadeira de criança, pegamos o Homo da classificação eurocentrista de nossa biologia a Homo Sapiens Sapiens – primata diurno que pode refletir. Já a palavra Pri alude a primário – sob os aspectos discutidos ao que tange o trabalho, a produção de produtos primários em escala global & a “monocultura de ideias”

(Shiva; 2005). Mato é signo ao verbo que se perpetua no cotidiano da capital e do celeiro/estado do agronegócio.

Figura 2. Percurso Consequências. Performance Homo Pri.Mato 2021.

Acreditamos, tal qual Cusicanqui afirma que “as imagens nos oferecem interpretações e narrativas sociais que, desde os séculos pré-coloniais iluminam esse transfundo social e nos oferecem perspectivas de compreensão crítica sobre a realidade” (2015) tradução nossa.

Este artigo & performance digital “Homo Pri.Mato”, é um discurso poético que se intersecciona entre a potência criativa das epistemes do Sul junto aos novos modos tecnológicos para a universalização de saberes nos institutos públicos e privados para a Educação, aplicativos et e tal. As ferramentas tecnológicas, nos escravizam para e pelo consumo, mas, ainda assim, uma imagem partilhada em #feed ou #story pode sim re- agenciar diálogos outros. Acreditamos que a intermídia é uma metodologia potencial, na Era Digital, tanto para o exercício da docência ou da palavra pública quanto no exercício privado/coletivo/civil.

Salve as Caboclas da Mata, salve Iracema, salve Jurema, salve Iara, salve Oxumaré, salve Gavião Real, salve Onça, salve Jiboia, salve Mamãe Oxum, salve Abuelas.

No documento Pesquisa em Arte, Mídias e Tecnologia: (páginas 135-140)