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Produção e subjetividade

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 33-37)

Quando definimos como título desta pesquisa: Devir Divino: o protagonismo da Classe C na novela Avenida Brasil, estamos num campo de produção de subjetividades.

Marilena Chauí (2006), em “Simulacro e poder: Uma Análise da mídia destaca que as telenovelas criam o sentimento de realidade graças a três procedimentos principais:

O espaço se torna exótico quando corresponde ao nosso cotidiano (os lugares conhecidos causam admiração e distanciamento simplesmente por sua conversão em imagens no vídeo) e se torna familiar quando corresponde ao exótico e ao

desconhecido (todos os lugares que não conhecemos se tornam próximos e familiares porque suas imagens estão presentes no local onde nos encontramos). O tempo dos acontecimentos novelísticos é lento, para dar a ilusão de que, a cada capítulo, se passou apenas um dia em nossa vida, ou de que se passaram algumas horas, tais como realmente passariam se fôssemos nós a viver os acontecimentos encenados. As personagens, seus hábitos, sua linguagem, suas casas, suas roupas, seus objetos, são apresentados com o máximo de realismo possível, de modo a impedir que tomemos distâncias diante deles. Como consequência, a novela parece o relato do real, reforçando o senso comum social, mantendo a suposta clareza entre as classes sociais, as hierarquias, a recompensa dos bons e a punição dos maus.(CHAUÍ, 2006; p.51).

Nesse sentido, prossegue Marilena (2006), a telenovela se oferece como um gigantesco espelho no qual a única imagem refletida é a nossa, tal como a produzida pela programação e pela propaganda. A imagem não é uma mediação, um signo que nos remeta a uma realidade diferente de nós, mas instaura uma relação imediata conosco, e essa relação só pode ser imediata porque é de identificação. E para que haja identificação, é preciso que tenha um sujeito com quem nos identifiquemos. Quem é ele? Marilena pergunta.

Para Guattari (2007), esse “indivíduo” - chamado de sujeito por Marilena Chauí - com o qual nos “identificamos” é fruto da produção de subjetividade capitalística. Guattari afirma que a vida e o cotidiano das pessoas vêm sendo influenciados constantemente pela mídia. A vida conjugal, familiar, do indivíduo se encontra engessada por uma padronização de comportamentos, constantemente moldados dentro da máquina capitalística. Através de um controle que se dá de forma imperceptível, constante e ilimitada através da cultura mercadoria, tendo a mídia como instrumento auxiliar principal na produção desejante.

A subjetividade capitalística é conseqüência do modo de produção capitalista que dissemina essa subjetividade, subjetivando o indivíduo, trazendo de fora para dentro, modelos de ser e de estar. Toda a subjetivação é a modelização do modelo capitalístico. E essa subjetivação capitalística faz do homem um sujeito maquínico (como máquinas produtoras de desejo, seja no plano teórico, social, estético, etc).

Os indivíduos são formados por “máquinas capitalísticas” e essas são constantemente formadas e modeladas. Cada sociedade corresponde a um campo de força que produz diferentes subjetividades.

Subjetividade é exterior, e cada individuo se apropria da subjetividade de uma sociedade num processo de subjetivação que vai permitir que ele se singularize. Todos nós somos singularidades produzidas pela forma com que se deu nosso processo de subjetivação, ou os agenciamentos que realizamos em nossa vida vivida, também produzindo subjetividade.

Dessa forma, a subjetividade funciona em nossas formas de pensar, de perceber o

mundo e de se relacionar com uma sociedade, de viver conforme as forças produtivas dela. As forças que administram o capitalismo reconhecem hoje que a subjetividade é o produto mais importante do que qualquer outro em nossa sociedade.

De um modo geral, cada indivíduo, cada grupo social carrega seu próprio sistema de modelização da subjetividade, ou seja, “certa cartografia feita de demarcações cognitivas, mas também místicas, rituais, sintomatológicas, a partir da qual ela se posiciona em relação aos seus afetos, suas angústias e tenta gerir suas inibições e suas pulsões.” (GUATTARI, 1992 p.21).

Deste modo, todos os seres humanos, homens, mulheres, crianças, adultos, velhos, todos os grupos sociais, sejam eles grupos de oração, de amigos ou grandes corporações bancárias e midiáticas, passam por processos de subjetivação e produzem subjetividade.

A subjetividade é produzida por agenciamentos de enunciação. Os processos de subjetivação, de semiotização - ou seja, toda a produção de sentido, de eficiência semiótica - não são centrados em agentes individuais (no funcionamento de instâncias intrapsíquicas, egóicas, microssociais), nem em agentes grupais. Esses processos são duplamente descentrados. Implicam o funcionamento de máquinas de expressão que podem ser tanto de natureza extra-pessoal, extra-individual (sistemas maquínicos, econômicos, sociais, tecnológicos, icônicos, ecológicos, etológicos, de mídia, enfim sistemas que não são mais imediatamente antropológicos), quanto de natureza infra-humana, infrapsíquica, infrapessoal (sistemas de percepção, de sensibilidade, de afeto, de representação, de imagens, de valor, modos de memorização e produção de idéia, sistemas de inibição e de automatismos, sistemas corporais, orgânicos, biológicos, fisiológicos, etc.). (GUATTARI; ROLNIK, 1999, p.31).

A subjetividade capitalística é projetada na realidade do mundo e na realidade psíquica, incidindo nos esquemas de conduta, de ação, de gestos, de pensamento, de sentido, de sentimento, de afeto. (GUATTARI, 2007, p.51). É desde a infância que se instaura a máquina de produção de subjetividade capitalística, desde a entrada da criança no mundo das línguas dominantes, com todos os modelos tanto imaginários quanto técnicos nos quais ela deve se inserir. (GUATTARI, 2007, p.49).

Contrariando o senso comum que acredita que a subjetividade é algo pessoal, particular, como uma opinião sobre alguma coisa que vem do interior, do âmago do ser, a subjetividade é exterior. É a conseqüência de engendramentos políticos, sociais atuando sobre o sujeito e a sociedade. Não é resultado de um processo individual, mas de produções coletivas a partir de agenciamentos entre as instituições como do Estado, família, escola, instituições do trabalho, e os meios de comunicação, todos eles, rádio, televisão, cinema, internet.

Não existe uma subjetividade do tipo ‘recipiente’ em que se colocariam coisas

essencialmente exteriores, as quais seriam ‘interiorizadas’. As tais ‘coisas’ são elementos que intervêm na própria sintagmática da subjetivação inconsciente. São exemplos de ‘coisas’ desse tipo: um certo jeito de utilizar a linguagem, de se articular ao modo de semiotização coletiva (sobretudo da mídia) ; uma relação com o universo das tomadas elétricas, nas quais se pode ser eletrocutado; uma relação com o universo de circulação na cidade. Todos esses são elementos constitutivos da subjetividade. (GUATTARI; ROLNIK, 1999. p.34).

Poderíamos dizer que a produção de subjetividade nossa de cada dia muitas vezes é confundida com cultura, porque penetra por toda sociedade e todos os extratos dela.

Guattari (2011), em “Cultura, Um Conceito reacionário” fala de três conceitos de cultura ao longo da história: a cultura-valor, a alma-coletiva, e a cultura-mercadoria.

A cultura-valor está ligada á ideia de cultura erudita, aquela que se aprende na escola e que é disseminada como sendo a cultura que cultiva o espírito, como se o espírito superior tivesse que ser culto, ou aprender a norma culta da cultura. A Cultura-valor diferencia quem tem cultura de quem não tem cultura. E reforça essa diferença alargando o espaço entre esses dois pólos.

A cultura alma-coletiva é aquela que reconhece que todo mundo tem uma determinda cultura. O agricultor tem sua cultura, o índio, o funkeiro da periferia, idem.

Essa cultura serviu de base para os estudos culturais e da antropologia, e permitiu que todo tipo de cultura pudesse ganhar visibilidade, a cultura negra, cultura proletária, a cultura de qualquer extrato social. É o conceito mais democrático da cultura, porque cada um tem a sua.

A cultura-mercadoria é aquela produzida pela indústria cultural. Ela é medida pelos números de produções consideradas culturais. E que produções são essas? Os filmes, os livros, as exposições, as peças de teatro, a gastronomia, a moda, os eventos envolvendo a cultura do entretenimento também.

Esse último conceito, o de cultura mercadoria é responsável pela produção e difusão dos bens culturais. E vai determinar o predomínio da subjetividade de uma determinada classe que está no poder sobre outras. Através de seus agentes, os produtores culturais, ela prepara o conteúdo dos meios de comunicação no formato um-todos, capaz de abarcar o maior número de pessoas possível, massificado, valorizando produção semiótica. É uma produção cultural ligado diretamente ao consumo.

A cultura mercadoria se torna, desta forma, a base da produção de subjetividade capitalística, atendendo a uma necessidade de mercado. Ela é uma poderosa máquina capitalística que produz aquilo que acontece conosco quando sonhamos, desejamos, fantasiamos, nos apaixonamos e assim por diante. (GUATTARI; ROLNIK, 2011, p.22).

Um dos meios de comunicação mais eficazes de produção de subjetividade é a

televisão. E entre as produções que apresenta, a telenovela é a maior delas. Chamada de

“fábrica de sonhos”, é também vista por especialistas e estudiosos como “espelho da nação”, pelas características que assumiu ao longo dos anos no território nacional.

Um dispositivo poderoso que começa hoje a ser visto com menos preconceito e mais estudado em suas formas de enunciação e visibilidade, com seus efeitos no campo da arte.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 33-37)