O primeiro volume, intitulado A vontade de Saber, apresenta não uma construção histórica linear como se acreditava, muito menos tem a intenção de contar como a sexualidade se desenvolveu durante os séculos. A obra aponta como a sexualidade, a partir da era vitoriana, entre os séculos XVII e XIX, na Europa, foi tomada como objeto do saber e, a partir daí, também tomada como objeto de poder.
A sexualidade é apresentada por Foucault (2010c) como discurso construído, verdade dita e reafirmada pelas instituições que validam os discursos como aceitos; da mesma forma, outros discursos foram silenciados. A verdade é, que muito além do aspecto biológico, a sexualidade perpassa aspectos culturais, históricos e sociais.
Os discursos, dispositivos e as [re]existências em Foucault podem ser sintetizados nos seguintes pontos, que serão tomados como referência para a análise dos relatos retirados do documentário “Se essa escola fosse minha”, nas falas LGBTQ:
• Ponto 1: Valorizar as vozes LGBTQ que trazem consigo os discursos escolares sobre sua sexualidade. Discursos prontos e formadores de subjetividades.
Discursos aceitos como verdades acabadas e que formam sujeitos conforme deseja a sociedade em que vivemos. Entretanto, essas mesmas vozes carregam discursos que foram silenciados ao longo dos anos, que apresentam outras possibilidades. Trazer à tona esses discursos interrompe os mecanismos de interdição e coerção dos discursos;
• Ponto 2: Reconhecer a escola e a sexualidade como dispositivos que garantem a eficiência dos discursos na construção de sujeitos que se ajustam à sociedade.
Sujeitos que não causam estranheza e que assumem para si o comportamento tido como normal e aceito pela sociedade em geral;
• Ponto 3: Encontrar novos discursos, com novos significados, que resistam aos discursos postos. Dar visibilidade aos novos discursos que fazem frente aos discursos vigentes. Ressignificar comportamentos, permitindo que os discursos circulem livremente, questionando padrões impostos como verdades inquestionáveis e, a partir de então, encontrar formas de [re]existir no mundo.
No ano de 2004, o Governo Federal brasileiro, por meio do Programa de Direitos Humanos, em seu Plano Plurianual 2004-2007, definiu uma estratégia de combate à discriminação e à violência sofrida pela população GLTB (Gays, Lésbicas, Transexuais e Bissexuais), que visava promover a cidadania dessa população, garantindo a equiparação de direitos, combatendo a violência e respeitando as características de cada pessoa. Essa ação criou o Programa Brasil sem Homofobia, que tinha como princípios:
*A inclusão da perspectiva da não-discriminação por orientação sexual e de promoção dos direitos humanos de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais, nas políticas públicas e estratégias do Governo Federal, a serem implantadas (parcial ou integralmente) por seus diferentes Ministérios e Secretarias;
*A produção de conhecimento para subsidiar a elaboração, implantação e avaliação das políticas públicas voltadas para o combate à violência e à discriminação por orientação sexual, garantindo que o Governo Brasileiro inclua o recorte de orientação sexual e o segmento GLTB em pesquisas nacionais a serem realizadas por instâncias governamentais da administração pública direta e indireta;
*A reafirmação de que a defesa, a garantia e a promoção dos direitos humanos incluem o combate a todas as formas de discriminação e de violência e que, portanto, o combate à homofobia e a promoção dos direitos humanos de homossexuais é um compromisso do Estado e de toda a sociedade brasileira (BRASIL, 2004, p. 11-12).
Vale salientar que o Programa reconhece que a população LGBTQ sofre discriminação e violência e se posiciona contrário a essa prática, de forma a garantir que políticas públicas sejam implantadas e que pesquisas sejam realizadas, considerando essa população que, até então, era invisibilizada, com o intuito de promover a cidadania e assumir um compromisso de Estado.
No documento base do programa, várias ações foram propostas em diversos segmentos, visando à garantia da cidadania e procurando meios legais que proporcionem direitos à educação, saúde, trabalho, cultura, e que criminalizem práticas discriminatórias, quer sejam por orientação sexual, de gênero ou de cor.
Em sua justificativa, o programa reconhece que o ambiente escolar é lugar de frequente sofrimento para a população LGBTQ, “revelando que os professores não apenas tendem a se silenciar diante da homofobia, mas, muitas vezes, colaboram ativamente na reprodução de tal violência” (BRASIL, 2004. p. 18). Por isso mesmo que o Programa, em suas ações, propôs:
Elaborar diretrizes que orientem os Sistemas de Ensino na implementação de ações que comprovem o respeito ao cidadão e à não-discriminação por orientação sexual;
Fomentar e apoiar curso de formação inicial e continuada de professores na área da sexualidade;
Formar equipes multidisciplinares para avaliação dos livros didáticos, de modo a eliminar aspectos discriminatórios por orientação sexual e a superação da homofobia;
Estimular a produção de materiais educativos (filmes, vídeos e publicações) sobre orientação sexual e superação da homofobia;
Apoiar e divulgar a produção de materiais específicos para a formação de professores;
Divulgar as informações científicas sobre sexualidade humana;
Estimular a pesquisa e a difusão de conhecimentos que contribuam para o combate à violência e à discriminação de GLTB.
Criar o Subcomitê sobre Educação em Direitos Humanos no Ministério da Educação, com a participação do movimento de homossexuais, para acompanhar e avaliar as diretrizes traçadas (BRASIL, 2004. p. 22-23).
O programa procurou formar educadores, avaliar livros didáticos, estimular a produção de materiais didáticos no intuito de combater a homofobia e ensinar sobre orientação sexual, promover a formação continuada dos educadores na área da sexualidade, considerar informações científicas a respeito da sexualidade humana e criar um subcomitê com a participação do movimento LGBTQ sobre educação e direitos humanos.
O Programa Brasil sem Homofobia foi um grande avanço em vários aspectos para a população LGBTQ, reconhecendo, em nível nacional, a vulnerabilidade da população citada, a dificuldade enfrentada por essas pessoas de terem acesso à cidadania, a violência diária que muitos sofrem por sua condição sexual e a falta de preparo do país em acolher essas pessoas e de garantir-lhes uma vida digna. Na área da educação, o Programa também reconhece a falta de preparo dos educadores e o fato de que a escola, em muitos momentos, é um lugar que perpetua a violência e a discriminação de pessoas LGBTQ.
No ano de 2006, o Projeto de Lei nº 122/2006 (PL 122/2006), proposto pela Deputada Federal Iara Bernardi (Partido dos Trabalhadores), dava novos saltos em direção da criminalização da homofobia, mas, embora o tenha sido aprovado na Câmara dos Deputados, não foi no Senado. O PL 122/2006 foi alvo de muita polêmica, principalmente pela bancada religiosa, que diz ser contrária à prática homossexual.
Depois de oito anos, o projeto foi arquivado sem sua devida aprovação.
Continuando as ações do Programa Brasil Sem Homofobia, no ano de 2011, o Ministério da Educação e Cultura (MEC), em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI), produziu um material educacional, que deveria ser utilizado nas escolas públicas a fim de garantir as ações propostas no Programa de 2003. Entretanto, a divulgação antecipada de alguns materiais audiovisuais que compunham o Kit Anti-homofobia ocasionou grande debate sobre o ensino da educação sexual nas escolas. Setores conservadores da sociedade alegavam que
o material, chamado pejorativamente de “Kit Gay”, promovia a sexualização das crianças e incentivava a promiscuidade. Diante do ocorrido, a presidenta Dilma Rousseff vetou o material que não pode ser utilizado nas escolas.
Ainda em 2011, o Deputado Federal João Campos, do Partido da Social Democracia Brasileira em Goiás, propôs um Projeto de Decreto Legislativo (PCD 234/11) que suprimiria a Resolução do Conselho Federal de Psicologia que proibia os profissionais psicólogos de oferecer terapias de mudança de orientação sexual. Em outras palavras, psicólogos de todo país poderiam desenvolver terapias de reversão sexual, também chamadas de “cura gay”. Essa tentativa de patologizar a homossexualidade vai contra a orientação da Organização Mundial de Saúde, que desde 1991 retirou a homossexualidade dos registros de doenças. Embora o projeto tenha sido criticado por psicólogos e ativistas LGBTQ, em 2013 o Projeto de João Campos foi aprovado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara, porém, dias depois, o projeto foi arquivado pelo proponente, visto que seu partido era contrário ao projeto.
O Kit anti-homofobia tornou-se arma utilizada por políticos conservadores e toda a produção discursiva contrária à utilização do material ganhou força a partir de então. O Deputado Federal Jair Messias Bolsonaro foi um dos que utilizou essa cruzada contra a população LGBTQ para se promover na sociedade brasileira. Muitas notícias falsas foram amplamente divulgadas pela grande mídia e pelas redes sociais. Notícias que garantiam que o “kit gay” fora distribuído nas escolas, que o Governo Federal distribuiu mamadeiras com bicos em formato de pênis e que educadores ofereciam às crianças nas creches e berçários. Notícias de que a educação brasileira tinha um plano de promover uma ditadura
“gayzista”, transformando as crianças em gays e lésbicas, destruindo o conceito de família no país.
No ano de 2016, a então Presidenta da República, Dilma Rousseff, sofreu um impeachment, sendo precedida pelo Vice-presidente Michel Temer. Esse fato interrompeu os programas desenvolvidos pelo governo do Partido dos Trabalhadores, que procuravam promover a cidadania da população LGBTQ no Brasil. E a partir de então, os discursos conservadores e fascistas ganharam lugar de prestígio entre os políticos brasileiros, alimentando o ódio da população contra as minorias sociais. No ano de 2018, Jair Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil.
Durante o avanço da onda fascista que aconteceu a partir de 2016, importantes discussões eram feitas no âmbito da educação. A Base Nacional Curricular Comum estava em sua fase final de desenvolvimento e, seguindo os acontecimentos de seu tempo,
excluiu o ensino sexual e da diversidade dos documentos orientadores da educação brasileira.
Ao assumir a presidência no ano de 2019, Jair Bolsonaro tratou de desfazer todo o caminho trilhado até aquele momento contra a discriminação e violência contra as pessoas LGBTQ. Entre suas ações, está a extinção da SECADI, a retirada da população LGBTQ do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que passou a se chamar Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, cargo ocupado pela Ministra Damares Alves, Pastora Evangélica que afirmou em sua posse ser
“terrivelmente cristã”14, apesar de vivermos em um país laico. Nesse período, também houve a intervenção do MEC na Universidade da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), que promovia um vestibular específico para candidatos/as transexuais e intersexuais. Na ocasião, a Universidade foi obrigada a cancelar o certame.
Foi também no ano de 2019 que o Governo Federal, em uma parceria entre o MEC e o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, anunciou a criação de um canal de denúncias sobre assuntos considerados inadequados nas escolas. O canal seria usado para denunciar educadores de todo o território nacional que ensinar ou promover o debate de assunto que “[...] atente contra a moral, a religião e a ética da família”15.
Esse é o cenário atual da educação brasileira, um cenário totalmente desfavorável para a discussão da diversidade sexual nas escolas, e embora não exista nenhuma lei que proíba de tratar sobre o assunto, os educadores não têm nenhum respaldo para trabalhar o tema. Há sim, ainda, a possibilidade de serem punidos caso insistam em falar sobre o assunto. E é justamente nesse cenário que os crimes de ódio contra a população LGBTQ aumentam no Brasil.
14 https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/01/02/estado-e-laico-mas-esta-ministra-e-terrivelmente- crista-diz-damares-ao-assumir-direitos-humanos.ghtml
15 (Ministra Damares – Entrevista ao jornal nacional https://g1.globo.com/jornal- nacional/noticia/2019/11/20/governo-cria-canal-para-denuncias-sobre-ocorrencias-em-escolas.ghtml acesso em 11/01/2021).
3 FALAS DO PÚBLICO LGBTQ PARA APLICAÇÃO DA ANÁLISE DO DISCURSO FOUCAULTIANO
Esta seção traz os relatos de LGBTQ, pessoas que passaram pela escola e tem muito a dizer (seus discursos) sobre os discursos da escola. A análise do discurso em Foucault desenvolvida na pesquisa buscará problematizar os discursos e o dispositivo de sexualidade foucaultiano. Dessa forma, avançará para contribuir com as frentes de lutas e resistências/existências, no sentido da construção de uma escola mais aberta à diversidade, que não exclua os LGBTQ, ao mesmo tempo em que constrói espaços formativos em Educação Sexual sobre lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, Queer e todas as demais representatividades sexuais.
3.1 DADOS TRANSCRITOS E ANÁLISE DOS DADOS DO DOCUMENTÁRIO SE