Em tempos de desenvolvimento tecnológico, cuja comunicação entre as pessoas tornou-se ainda mais eficaz e instantânea, inúmeros assuntos e temas são discutidos diariamente, quer seja entre duas pessoas, quer seja de forma comunitária. O advento das redes sociais contribuiu e contribui para que todos que têm acesso a elas possam emitir suas opiniões e expor aquilo que acreditam ser verdadeiro.
Fala-se sobre uma infinidade de coisas, desde moda, entretenimento, cinema, músicas, arte, educação, violência, amor, até os assuntos que o ditado popular afirma serem indiscutíveis, como política, religião e futebol.
Outro assunto que, igualmente aos citados, era considerado proibido de ser dito e discutido em público até pouco tempo atrás, atualmente, é dito e problematizado de todas
as formas possíveis, ou seja, se fala e se problematiza sobre sexo. Quer seja na televisão, nas redes sociais, na vestimenta diária, nos produtos que podem ser comprados nos supermercados, o sexo está presente e aquela interdição de outrora, que segundo Spargo (2017) era tratada como “aquilo” ou “fazer aquilo”, hoje é explícita e tratada como um assunto corriqueiro.
Quando o assunto é sexo, até mesmo aquilo que era considerado tabu, como a homossexualidade, hoje tem livre discussão e grande participação da sociedade. Diversas marcas e grandes fábricas perceberam a importância de incluir o assunto em seu marketing; muitas logomarcas são pintadas com a bandeira LGBTQ e os anúncios de seus produtos, hoje, contam com a participação de pessoas que antes não tinham a visibilidade garantida pelos meios de comunicação.
No campo da política, direitos humanos e liberdade de expressão, as pessoas LGBTQ parecem ter conquistado um espaço importante no Brasil, como o acesso ao casamento civil7, a criminalização da homofobia e transfobia equiparados ao crime de racismo8, o direito ao nome social9, o acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) para a cirurgia de redesignação sexual10, o direito à doação de sangue sem que este seja descartado11 e, até mesmo, o direito de que o assunto seja trabalhado nas escolas, sem que seja tido como algo imoral ou de cunho ideológico12.
Diante de tantos avanços, a causa LGBTQ parece ter conseguido um Brasil mais tolerante e aberto ao assunto. É isso que Spargo questiona: “Será mesmo? Ou será que a
7 Resolução do Supremo Tribunal Federal (STF) nº 175 de 14 de maio de 2013, aprovada durante a 169ª Sessão Plenária do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que estabelece que os cartórios de todo o Brasil não poderão recusar a celebração de casamentos civis de casais do mesmo sexo ou deixar de converter em casamento a união estável homoafetiva.
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=414010 (acesso em 11/08/2020).
8 Entendimento do STF sobre a inclusão do crime de homofobia e transfobia equivalente ao crime de racismo (Lei 7.716/1989) votado no dia 13/06/2019.
http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=414010&ori=1 (acesso em 11/08/2020).
9 Decreto nº 8.727, de 28 de abril de 2016 assinada pela presidenta Dilma Rousseff e a resolução Resolução Nº 270 de 11/12/2018 do CNJ que dispõe sobre o uso do nome social pelas pessoas trans, travestis e transexuais usuárias dos serviços judiciários, membros, servidores, estagiários e trabalhadores terceirizados dos tribunais brasileiros.
10 Portaria nº 457, de 19 de agosto de 2008 que define as Diretrizes Nacionais para o Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde - SUS, a serem implantadas em todas as unidades federadas, respeitadas as competências das três esferas de gestão.
11 Declaração de inconstitucionalidade das leis que proíbem pessoas LGBTQ de doarem sangue em votação no STF no dia 08/05/2020 - Pela regra vigente até então, gays só poderiam doar sangue se ficassem 12 meses sem transar com outro homem.
12 Julgamento de inconstitucionalidade da Lei 1.516/2015 do Município de Novo Gama (GO), que proibia a utilização em escolas públicas municipais de material didático que contenha o que chama de “ideologia de gênero”. O julgamento aconteceu no dia 29/04/2020
cultura dominante só está flertando com um pedacinho da outra cultura a fim de nos fazer
‘entrar na linha’?” (2017, p. 10).
Em Foucault, muitos autores e pensadores verificam a íntima relação entre o sexo e a política, o corpo e o poder, a sexualidade e o saber. Para a antropóloga Gayle Rubin (RUBIN, 1993), a sexualidade humana é politizada e de tempos em tempos é colocada em evidência com maior força.
Embora os discursos sobre a sexualidade transitem nos mais diversos lugares e os saberes sobre este assunto sejam tomados pela medicina, psicologia, justiça, religiões e pelo legislativo, é importante verificar o que dizem aqueles que, diariamente, são colocados à provapor esses discursos. Quer sejam as mulheres, que ao longo dos séculos ocuparam um lugar de coadjuvante em relação aos homens, e pessoas LGBTQ, que ficaram às margens, imbuídos de uma patologia de desvio sexual.
Tanto um grupo como o outro, desde os anos 1960, procurou ocupar seu lugar de fala e os meios de apresentar-se como produtores de discursos sobre si mesmos.
Miskolci, em sua obra Teoria Queer: Um aprendizado pelas diferenças, de 2012, afirma que na década de 1960 os movimentos que lutavam pelos direitos das mulheres, dos negros e das pessoas LGBTQ ganharam força e estruturaram-se. Foi nesse período que, influenciados pelas lutas trabalhistas e pela teoria marxista, muitos movimentos sociais surgiram.
No que se refere ao movimento social das pessoas LGBTQ, Miskolci (2012) afirma que nesse período se lutava por assentimento social, ao passo que se aceitavam os padrões impostos pela sociedade da época. Assim, normalizou-se um comportamento específico exigido das pessoas LGBTQ. Uma espécie de padrão comportamental. Desse modo, as pessoas que não se enquadravam neste padrão viam-se obrigadas a adequar-se compulsoriamente ou seriam excluídas do convívio social.
É justamente neste contexto que surge a teoria queer, que, em meio a tantas definições, trata-se de um conjunto de pensamentos e críticas realizados por meio da literatura, da arte, da análise intelectual, entre outras formas.
Trata-se de interpretações a respeito do desejo, da sexualidade, do gênero sexual, dos papéis de gênero, das manifestações da sexualidade, da identidade de gênero, do corpo e de tudo que, de alguma forma, esteja ligado a ele, incluindo o poder, o saber e a política.
Segundo o dicionário online Dictionary.com, queer pode ser tanto um adjetivo, quanto um verbo ou substantivo. E, enquanto adjetivo, pode significar “1. strange or odd
from a conventional viewpoint; unusually different; singular; (…) 2. of a questionable nature or character; suspicious; shady”13. A tradução livre teria um significado de estranho ou estranho de um ponto de vista convencional, incomum, singular, de natureza ou caráter questionável, suspeito, sombrio.
Queer foi uma palavra muito utilizada pelos países de língua inglesa para ofender, principalmente, homens gays, o que aqui no Brasil equivaleria à “bicha”, “viadinho”,
“frutinha”, entre outros adjetivos. Vale ressaltar que esses nomes sempre tiveram um valor negativo e visavam diminuir as pessoas a quem se referiam.
Segundo Miskolci (2012), embora o vocábulo queer possa dar a impressão de respeitabilidade, a ideia do nome está assentada na noção de abjeto, daquele que foi rejeitado, ignorado, abandonado, pois, era exatamente assim que se sentiam as pessoas LGBTQ na década de 1980, principalmente devido à epidemia da AIDS que assolava o mundo. A abjeção é exatamente o tema central da temática queer e é apontada por Miskolci em seus estudos, afinal de contas, quando a sociedade acredita estar ameaçada em seu bom funcionamento, relega à exclusão aquilo que acredita ser a causa da ameaça.
Assim, a temática queer abrange não somente as pessoas LGBTQ, mas, uma gama enorme de sujeitos que, de alguma forma, colocam a sociedade em risco.
Como já foi dito, a teoria queer está intimamente ligada às questões que envolvem o corpo e sua politização, o que, no pensamento foucaultiano, é também chamado de biopolítica.
Embora o pensamento queer tenha uma íntima ligação com o pensamento de Michel Foucault, o filósofo não é o fundador deste sistema teórico; essa teoria, embora muitas vezes se aproxime do conjunto da obra de Foucault, em outras trilha caminhos distintos ao que foi desenvolvido pelo pensador. Assim,
Foucault pode ser visto como catalizador, ponto de partida, exemplo e precursor, mas também como permanente estorvo, pedrinha no caminho que continua provocando a criação de novas ideias (SPARGO, 2017, p. 13).
Na década de 1970, Michel Foucault deu início a uma importante jornada em suas investigações. Foi nesse período que o pensador começou a escrever sobre a história da sexualidade, que conta com três volumes, mas, infelizmente, ficou inacabada por ocasião de sua morte.
13 (https://www.dictionary.com/browse/queer?s=t, acesso 26/08/2020)
O primeiro volume, intitulado A vontade de Saber, apresenta não uma construção histórica linear como se acreditava, muito menos tem a intenção de contar como a sexualidade se desenvolveu durante os séculos. A obra aponta como a sexualidade, a partir da era vitoriana, entre os séculos XVII e XIX, na Europa, foi tomada como objeto do saber e, a partir daí, também tomada como objeto de poder.
A sexualidade é apresentada por Foucault (2010c) como discurso construído, verdade dita e reafirmada pelas instituições que validam os discursos como aceitos; da mesma forma, outros discursos foram silenciados. A verdade é, que muito além do aspecto biológico, a sexualidade perpassa aspectos culturais, históricos e sociais.
Os discursos, dispositivos e as [re]existências em Foucault podem ser sintetizados nos seguintes pontos, que serão tomados como referência para a análise dos relatos retirados do documentário “Se essa escola fosse minha”, nas falas LGBTQ:
• Ponto 1: Valorizar as vozes LGBTQ que trazem consigo os discursos escolares sobre sua sexualidade. Discursos prontos e formadores de subjetividades.
Discursos aceitos como verdades acabadas e que formam sujeitos conforme deseja a sociedade em que vivemos. Entretanto, essas mesmas vozes carregam discursos que foram silenciados ao longo dos anos, que apresentam outras possibilidades. Trazer à tona esses discursos interrompe os mecanismos de interdição e coerção dos discursos;
• Ponto 2: Reconhecer a escola e a sexualidade como dispositivos que garantem a eficiência dos discursos na construção de sujeitos que se ajustam à sociedade.
Sujeitos que não causam estranheza e que assumem para si o comportamento tido como normal e aceito pela sociedade em geral;
• Ponto 3: Encontrar novos discursos, com novos significados, que resistam aos discursos postos. Dar visibilidade aos novos discursos que fazem frente aos discursos vigentes. Ressignificar comportamentos, permitindo que os discursos circulem livremente, questionando padrões impostos como verdades inquestionáveis e, a partir de então, encontrar formas de [re]existir no mundo.