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REDE DE SIGNIFICAÇÕES E A CARTOGRAFIA

No documento modos de ser/estar jovem na escola - UEFS (páginas 31-35)

Esta proposta de investigação é pautada na abordagem qualitativa de pesquisa que considera a produção científica como um processo que envolve a complexa rede das ações humanas, nos contextos sociais e culturais, ou seja, as significações e relações que as pessoas criam em suas ações (CHIZZOTTI, 1995). Nessa perspectiva, o conhecimento científico con- figura-se como uma produção intersubjetiva, descritiva e interpretativa da realidade.

Situa-se na vertente contemporânea da produção do conhecimento que considera a pessoa humana como autor e sujeito do mundo, colocando-a no centro da produção de conhe- cimento (SANTOS, 2008). Essa complexidade, cunhada nas subjetividades dos sujeitos e nas particularidades dos contextos, tem legitimado esses novos modos de se pensar/fazer/produzir ciência. Nesse horizonte compreensivo, a construção dessa metodologia pauta-se em alguns princípios da Rede de Significações e da Cartografia.

A Rede de Significações é uma perspectiva teórico-metodológica que vem sendo de- senvolvida tanto como ferramenta nos processos investigativos, quanto para pensar o processo de desenvolvimento humano. Os pressupostos teóricos estão ancorados em autores das verten- tes sócio-históricos ou históricos culturais: Vigotsky, Wallon, Bakhtin e Valsiner, e ainda nas áreas da psicologia do desenvolvimento e da psicologia social, como Bruner e Bronfenbren- ner, entre outros (ROSSETTE-FERREIRA, AMORIM & SILVA, 2004).

A partir dessas interlocuções teóricas, a RedSig entende que o desenvolvimento hu- mano se dá por meio de processos complexos, imersos em uma malha composta por elemen-

tos de natureza semiótica, dentre eles: os contextos, as interações e as práticas discursivas.

Assim sendo, “esses elementos são concebidos como se inter-relacionando dialeticamente.

Por meio dessa articulação, aspectos da pessoa em interação e dos contextos específicos cons- tituem-se como partes inseparáveis de um processo em mútua constituição” (ROSSETTI- FERREIRA, AMORIM & SILVA, 2004, p. 23).

Tendo em vista apreender a complexidade na qual os jovens e seus processos de inte- rações estão imersos, recorro à metáfora de rede, na qual vários elementos, de ordens diver- sas, articulam-se num movimento de construção e reconstrução. A rede entrelaça vários ele- mentos de ordem “pessoal, relacional e contextual, atravessados pela cultura, ideologia e rela- ções de poder, isto é, pelo que denominamos de matriz sócio-histórica, de natureza semiótica e polissêmica, a qual tem concretude e se atualiza continuamente no aqui-agora da situação no nível dialógico das relações” (ROSSETTI-FERREIRA, AMORIM & SILVA, 2004, p. 17).

Ao discutir essas questões, incorpora-se, a este trabalho, a dimensão da matriz sócio- histórica. Para Rossetti-Ferreira, Amorim & Silva (2004, p. 27),

A materialidade da matriz sócio-histórica revela-se, por exemplo, na organi- zação de espaços, das rotinas, das práticas e dos discursos circunscritos a um determinado grupo de pessoas e contexto, e, através do próprio corpo, possi- bilitando e delimitando os campos interativos, favorecendo certas organiza- ções sociais, certos significados e sentidos.

Desse modo, esta pesquisa se insere nessa dimensão dialética e semiótica, uma vez que busquei pensar os modos de ser jovem na escola a partir de fatores contextuais, interacio- nais e discursivos, sem perder de vista a interligação desses elementos na rede de significa- ções.

Neste horizonte teórico-metodológico, considerando os objetivos específicos desta pesquisa, busquei, ainda, inspiração no método da Cartografia. A Cartografia recebe a atribui- ção de método com Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995), configurando-se como uma pro- posta de pesquisa que visa o acompanhamento do processo e não a representação de um obje- to. Nesse sentido, segundo Barros e Kastrup que vêm propondo pistas para o método cartográ- fico:

[...] a processualidade está presente em cada momento da pesquisa. Nos avanços e nas paradas, em campo, em letras e linhas, na escrita, em nós. A cartografia parte do reconhecimento de que, o tempo todo, estamos em pro- cessos, em obra. O acompanhamento de tais processos depende de uma ati-

tude, de um ethos, e não está garantida de antemão. Ela requer aprendizado e atenção permanente, pois sempre podemos ser assaltados pela política cogni- tiva do pesquisador cognitivista: aquele que se isola do objeto de estudo na busca de soluções, regras, invariantes (BARROS, KASTRUP, 2009, p. 73).

Sendo assim, no campo empírico, a produção dos dados se constituiu em um movi- mento atencional, mergulhado na experiência, na localização de pistas e de signos do próprio processo de pesquisa. O caminho metodológico foi sendo traçado no próprio percurso do tra- balho, com movimentos próprios, caracterizando-se em um modo de pesquisa que pensa a vi- dapulsante, inclusive nos contextos educacionais.

Nesses deslocamentos entre a RedSig e a pesquisa cartográfica, busquei capturar, nu- ma dimensão processual e não linear, discursos, expressões e práticas juvenis, considerando, principalmente, a relação pessoa-contexto, ou seja, jovem-escola. Nesse acompanhamento de processos, fez-se necessário, também, considerar a produção coletiva do conhecimento. “Há um coletivo se fazendo com a pesquisa, há uma pesquisa se fazendo com o coletivo” (BAR- ROS, KASTRUP, 2009, p. 73). O coletivo, na cartografia,

não pode ser reduzido a uma soma de indivíduos ou ao resultado do contrato que fazem entre si. É a rede de composição potencialmente ilimitada de seres tomados na proliferação das forças de produção de realidade (KASTRUP, PASSOS, 2013, p. 270).

Para essas autoras, a cartografia deve traçar um plano comum. Mas, é preciso destacar que é comum não por ser homogêneo ou por reunir pessoas, mas porque opera comunicação entre singularidades heterogêneas, em um plano que é pré-individual e coletivo. Traçar esse plano comum é o movimento para a construção de um mundo comum heterogêneo. Em se tratando desse trabalho, que coloca, de algum modo, os pés nas rotas da cartografia, foi plena participação dos jovens em todo processo de investigação, fazendo valer o protagonismo e a participação ativa e discursiva deles neste processo de produção de conhecimento. Nessa perspectiva,

A pesquisa deixa de ser produção de conhecimento do sujeito cognoscente sobre o objeto, do pesquisador sobre o campo, para ser ação de “estar com”

ou de transversalidade em um plano comum. A cartografia é pesquisa- intervenção participativa porque não mantém a relação de oposição entre

pesquisador e pesquisado tomados como realidades previamente dadas, mas desmancha esses polos para assegurar sua relação de coprodução ou co- emergência (KASTRUP, PASSOS, 2013, p. 270).

Nesta perspectiva, durante a investigação, especificamente nas observações e nos gru- pos de discussão, não houve a oposição entre pesquisador e pesquisados, uma vez que houve uma coprodução dos dados, aspecto que configura a pesquisa cartográfica, e que se relaciona com a perspectiva da Rede de Significações, na qual o pesquisador é visto como parte inte- grante da rede.

Ao considerar o caráter inventivo da Cartografia e perspectiva dialógica da RedSig re- alizei três movimentos metodológicos no contexto do campo empírico: 1) “vivência inicial”

(visitas à escola), construindo uma visão “panorâmica” e um primeiro delineamento dos signi- ficados e sentidos na situação investigada, através do uso do diário de campo; 2) coleta mais sistemática dos dados através das observações realizadas, de registros em diário de campo, produção de fotografias e a realização dos grupos de discussão 3) análise de dados através do diálogo contínuo com a teoria.

No documento modos de ser/estar jovem na escola - UEFS (páginas 31-35)