1. A PRIMEIRA PUXADA
1.5 Semana da Consciência Negra (1995) e Programa Rede UNEB
1.5.2 Rede UNEB 2000
afro filhos de Olorum, também conduzido pelo Mestre Roque, eu lembro além do bloco afro filhos da Jamaica e havia outros blocos que agora não me lembro o nome, a memória da infância, às vezes algumas coisas a gente lembra e outras nem tanto, mas eu lembro dos chamados sambas de roda, sambas de reza que é uma variação do samba de roda, é um samba de reza que ele é precedido pela reza, pelas ladainhas das rezas, as devoções, as promessas a São Cosme e Damião, Santa Bárbara, lembro dos carurus, eu considero todas essas práticas sociais, essas experiências como movimentos sociais negros e também esses movimentos, essas práticas me auxiliaram a formar a minha consciência racial (Citação de entrevista concedida ao autor).
A Semana da Consciência Negra de Santo Antônio de Jesus apresenta um substrato ético-formativo que ajuda a compor um quadro de experiências afrodiaspóricas na Bahia. Uma oferenda epistêmica que também me alimenta e constitui pela experiência e memória compartilhadas, reiterando a afirmação de Bakhtin (1997) de que nenhum pensamento é produzido a partir do silêncio ou de um sujeito monológico. Foi na Semana da Consciência Negra de Santo Antônio de Jesus que conheci o saudoso Mestre Roque e o bloco afro Filhos de Olorum. Este evento revela características eminentemente pedagógicas e formativas, é importante inscrevê-lo em uma perspectiva mais ampla, ou seja, inseri-lo em um conjunto de ações próprias de uma universidade que nasce voltada para a formação de professores e cria a sua excelência a partir deste aspecto. Para Wilson Roberto de Mattos,
A Semana da Consciência Negra é formativa porque ela nasce também voltada para um público, os alunos e professores da Educação Básica. Ela nasce assim, dentro dessa perspectiva, depois ela se amplia, mas ela nasce voltada para esses professores, é uma ação afirmativa e outras atividades relacionadas à questão da própria formação (Citação de entrevista concedida ao autor).
Importante ressaltar o pioneirismo da Semana da Consciência Negra na questão das lutas antirracistas e processos de descolonização nas universidades baianas. Um evento que acontecia desde 1995 e já nasce no contexto de um conjunto de ações afirmativas bem anterior à implementação da Lei 10.639/03 no Brasil.
através da resolução nº 190/98, publicada no Diário Oficial de 27 de março de 1998 com o intuito de atender a demanda de professores(as) das redes municipais de ensino que ainda não possuíam a formação em nível superior para a docência da educação infantil e do ensino fundamental, oferecendo o curso de licenciatura em Pedagogia.
Tratava-se de um programa de formação intensiva que na primeira etapa apresentava a formação em pedagogia com carga horária total de 2.670 horas, cumpridas em quatro períodos, distribuídos num tempo máximo de dois anos. No ano de 2002, a partir da quarta etapa, a carga horária do curso foi ampliada passando a ser de 3.300 horas cumpridas em seis períodos distribuídos num tempo máximo de três anos. O programa pode ser interpretado como uma tentativa de contribuir com a melhoria dos índices de formação docente que naquele momento, final da década de 1990, evidenciava a precariedade da formação docente no estado da Bahia.
A importância desse programa no aspecto relacionado à educação antirracista é destacada na seguinte fala de Wilson Mattos.
A UNEB é uma universidade que nasce a partir da formação de professores, eu lembro que mesmo antes da Lei 10.639 a gente já realizava um seminário na UNEB com esses conteúdos de história da África e cultura afro-brasileira, mesmo antes da Lei. A gente realizava um seminário naquele programa da UNEB, chamado Rede UNEB 2000, mas começou em 1998. A gente já fazia esse seminário percorrendo vários municípios baianos e dando um seminário de 10 ou 20 horas, você participou dessa ocasião, desse seminário antes da Lei 10.639. A gente já fazia essa ação de formação de professores, nisso que hoje é chamado de educação das relações étnico-raciais (Citação de entrevista concedida ao autor).
Penso que o Rede UNEB 2000 pavimentou muitas das discussões relacionadas à temática nas diversas cidades baianas onde atuou, especialmente em Santo Antônio de Jesus. Essa ação ocorre no contexto das discussões sobre as ações afirmativas na UNEB, especificamente no que diz respeito às cotas raciais. Para Denilson Lessa,
O rede UNEB 2000 ocorre concomitantemente com a discussão da implementação das cotas na UNEB(...) Eu ainda não era professor da UNEB quando isso ocorreu, evidentemente, mas essa memória eu tenho compartilhada porque nós sabíamos disso, do projeto, além do projeto stricto sensu que era formar professores sobretudo na área de Pedagogia pelo interior da Bahia, ele tinha essa missão, muitas palestras eram públicas(...) (Citação de entrevista concedida ao autor).
Acredito que esse pioneirismo foi primordial no sucesso do AfroUneb, outro importante programa de formação de professores(as) nascido alguns anos depois e que vem na esteira dessas discussões.
Então, quando o AfroUneb chega ele (sic) já tem esse background na formação de professores, a gente insiste na formação de professores e depois a gente transforma o AfroUneb em um núcleo que ainda continua com essa questão da formação de professores, mas passa a se dedicar mais a essa questão da pesquisa, da realização de seminários, não abandona nunca a formação de professores, mas começa a se dividir com outras ações mistas, como a organização da Semana de Consciência Negra (Citação de entrevista concedida ao autor).41
Mesmo observando que já constava a oferta de formação docente em interface com as relações étnico-raciais antecedendo a própria Lei 10.639, esse pioneirismo da UNEB não ofusca a luta mais ampla dos movimentos negros anteriores a esse período, pelo contrário, foi graças às suas articulações que essas discussões puderam acontecer na Universidade. Para Denilson Lessa, essa vanguarda
de forma alguma é novidade em relação à UNEB, a própria memória histórica revela que o próprio Movimento Negro Unificado, o MNU, as casas de santo, terreiros de candomblé, por exemplo, já em meados dos anos 60 e 70 já cobravam que esses conteúdos fossem ensinados, trabalhados no mundo da Educação, no mundo da escola. Isso é importante porque essa discussão ganha lastro, se sistematiza, se institucionaliza e dou aqui dois exemplos disso: a Semana de Consciência Negra, algo já orgânico e que já faz parte da própria agenda do Campus V da UNEB desde 1994 e através de outras ações, a exemplo do curso de formação de professores do programa Rede UNEB 2000 e a própria discussão do sistema de cotas raciais na UNEB, isso é um marco, então isso é interessante porque faz pensar a trajetória da universidade, de muitos professores e estudantes que estiveram vinculados a essas discussões, mas, também, isso demonstra de que houve um acúmulo mais sistemático, mais organizado, ainda que do ponto de vista acadêmico (Citação de entrevista concedida ao autor).
Trouxe as memórias destes intelectuais para reiterar a importância da referência destes movimentos que nos antecederam e abriram caminhos nas tentativas de descolonização dos currículos e lutas antirracistas. Os próximos tópicos são tratados a partir da implementação da Lei 10.639/03.
41 Fala de Wilson Roberto de Mattos.