nome a uma escola e uma praça na cidade, o que ajuda seu nome ter maior referência no cenário gonçalense, o que não é uma regra para ser um destacado educador.
Silva (1991) exalta com uma flagrante admiração Estephania de Carvalho; em seus textos podemos compará-la a uma “heroína”. Essa é uma escolha político-epistemológica, um modo de contar a história. Sendo assim, no nosso caso preferimos ver a professora como uma educadora importante, mas de forma nenhuma infalível, e procurar através das pistas que nós tínhamos uma leitura mais humana sobre a vida da educadora.
Ao ler trechos do livro para os alunos, durante as oficinas, eram exatamente as questões mais humanas que chamavam a atenção deles. Perguntas como: “ela era casada?
Teve filhos? Era rica?” foram muito frequentes. Por exemplo, ao ler o trecho “Após o falecimento de sua única filha, aos dois anos de idade, voltou a se dedicar ao ensino, fundando em sua própria residência um curso primário [...]” (SILVA, 1991, p.15), a reação de todos foi de muita tristeza, pensar em perder um filho é algo muito doloroso até mesmo para crianças do ensino fundamental II. Esse sentimento de perda caracterizava uma Estephania de Carvalho humana, alguém que viveu problemas e sofrimento como qualquer um.
Cabe ressaltar que o termo “destacados educadores” não é o foco da problematização dos estudos de Maria Helena Menna Barreto Abrahão e sim as histórias de vida desses educadores, mas, ao longo de sua produção, a autora vai fornecendo indicativos do que para ela significa o termo. Na primeira obra dessa natureza, “História e histórias de vida:
destacados educadores fazem a história da educação rio-grandense” (ABRAHÃO, 2004), destaca a importância de estudar esses educadores:
A História de Vida de destacados educadores rio-grandenses com a inclusiva história profissional de cada um é, sem dúvida, um manancial rico de ser explorado, dando-lhe visibilidade, constituindo-se certamente, em material de consulta para estudantes de todos os níveis de ensino, mas, muito especialmente, para alunos de cursos de formação de professores em nível de graduação, mestrandos e doutorandos em educação, educadores, em geral e, de forma especialíssima, para pesquisadores que investigam integrando as Linhas de Pesquisa em Ensino e Educação de Professores – entendida não só no que respeita à formação inicial, mas, muito especialmente, no que se refere à formação continuada do professor – e de História da Educação (ABRAHÃO, 2004, p.13).
Durante a primeira parte dessa obra, a autora faz um esforço para contextualizar sua pesquisa, metodologia e questões de estudo. Vendo as histórias de vida como uma construção na qual o pesquisador participa na elaboração de uma memória, ela complementa: “as Histórias de Vida de destacados educadores rio-grandenses como um potencial para a
construção de propostas significativas para a formação de professores e para a profissionalização docente” (ABRAHÃO, 2004, p. 19).
Percebemos, assim, que por meio dessas histórias de vida é possível escrever outra história, nesse caso, da educação sul-rio-grandense, pois os “destacados educadores”
vivenciaram, no conjunto, diferenciadas e importantes fases da conjuntura sócio-política- econômica-cultural brasileira. É possível observar, dessa forma, a contribuição e os atravessamentos que ocorreram na vida desses educadores e na sociedade.
Trata-se de verificar as características da formação desses educadores; influências que tiveram/têm, tanto durante sua vida acadêmica, quanto em sua vida profissional;
qual seu entendimento a respeito de sociedade, de homem, de educação; que relações e como as estabeleciam/estabelecem com esse entendimento e sua prática profissional; que veios teóricos informavam seu saber e seu fazer; qual a práxis desses educadores; como se educaram/educam em seu cotidiano de trabalho; porque são reconhecidos como destacados educadores em nosso estado. Trata-se, igualmente de, à luz das Histórias de Vida, clarificar, para melhor compreender, a própria História da Educação no estado em determinado período (ABRAHÃO, 2004, p. 13-14).
Portanto, os “destacados educadores” são “os educadores cujas Histórias de Vida construídas foram selecionadas por terem se sobressaído como pessoas que influenciaram comunidades e gerações, escrevendo a História da Educação rio-grandense” (ABRAHÃO, 2004 p.22). Em sua segunda obra dessa natureza, “Identidade e vida de educadores rio- grandenses: narrativas na primeira pessoa (... e em muitas outras)”, a autora mostra mais uma vez o esforço de ressignificar histórias de vidas e problematizar questões utilizando a abordagem (auto)biográfica. Podemos compreender melhor essa ideia com uma reflexão apresentada pela autora, em que ela relata o significado do termo “destacados educadores”:
Quando nos referimos a destacados educadores, fazemo-lo conscientes de que esses profissionais, embora tenham se destacado positivamente – razão pela qual foram indicados para participar da pesquisa – não foram pessoas infalíveis. Não deixamos de ter presente que nossos destacados educadores foram/são, antes de tudo, seres humanos e, portanto, longe de se constituírem em super-homens e supermulheres.
Não obstante as Histórias de Vida estejam realçando as positividades antes do que as debilidades desses educadores, o constructo das respectivas histórias não perde em consistência, em virtude de que, embora não sendo infalíveis, eles foram por nós escolhidos, intencionalmente, justamente porque apresentam características muito especiais que os colocaram na lembrança das pessoas com essa feição tão positiva, quase heroica (ABRAHÃO, 2004, p.14).
É preciso entender que, acima de tudo, esses educadores não são infalíveis, são seres humanos com trajetórias e histórias únicas, passando longe de serem “super-homens” ou
“supermulheres”, como já mostrado anteriormente. Neste caso, como os “destacados
educadores” não precisam ser necessariamente famosos, a indicação deles e a escolha de aprofundamento em suas histórias de vida se dá por meio de consenso e indicação de pessoas que com eles conviveram “colegas, ex-alunos, alunos, chefes, parentes, amigos”
(ABRAHÃO, 2008, p. 10). Na triagem de qual educador gonçalense estudar, além da Estephania aparecer de forma frequente, parceiros de estudo também me indicaram e me incentivaram no estudo de sua história de vida. Colegas do grupo de pesquisa e a orientadora se mostravam mais interessados ao saber mais sobre a vida da Estephânia de Carvalho e relacionavam a importância dela aos lugares de memórias que receberam seu nome, contribuindo, assim, para um foco maior dirigido à educadora.
Por fim chegamos à obra mais recente da autora (2011), em que a mesma desenvolve esse conceito. No livro “Destacados Educadores Brasileiros: suas histórias, nossa história”
observamos que foi reforçada a visão de que, ao trabalhar com histórias de vida, vamos além da história oficial.
Essas quatro obras da autora nos deram embasamento suficiente para problematizar e entender melhor o termo “destacados educadores”. Trata-se de identificar pessoas extremamente significativas no trajeto educacional de outras pessoas, sujeitos que são pertinentes para a educação local. Essas obras enriquecem o acervo das histórias de vida, possibilitando e ampliando a discussão teórica da pesquisa (auto)biográfica.
Aproximamo-nos, desse modo, do termo “destacados educadores” e do trabalho realizado no Rio Grande do Sul, tomando como inspiração e dialogando com os conceitos, ao estudar a história de vida da destacada educadora Estephania de Carvalho.