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Relação com o corpo

O corpo foi tema do segundo grupo de discussão realizado com 10 jovens (5 homens e 5 mulheres) e tinha como objetivo problematizar como o homem se relaciona com o corpo atualmente. Para motivar o debate foram elaborados por eles/elas cartazes que sinalizaram para comportamentos e gostos masculinos e para a relação homem corpo.

Os cartazes trouxeram os ―gostos masculinos‖ que seriam: corpo feminino de acordo com padrão de beleza da mulher branca, intitulado pelo grupo como ―mulher gostosa‖; bom emprego; carro e celular da moda; ―casa do ano‖. As características

masculinas tidas como positivas que prevaleceram nos cartazes foram: homem de família;

homem trabalhador; homem que assume a paternidade; ―homens de valor‖. Apenas um cartaz apontou para as diversidades das vivências das masculinidades. Estas trouxeram como título a questão: ―macho?‖ com imagens que retratavam pessoas com máscaras.

Neste encontro, os/as estudantes problematizam a existência das várias formas de ser homem e ao mesmo tempo os ―homens que se escondem‖ por medo de sofrerem preconceitos.

Após a apresentação dos cartazes foram lançadas questões ao grupo sobre o material produzido e sobre como eles/elas pensavam a importância do corpo na constituição do que é ser homem. Dessa forma, o primeiro grupo composto por 3 mulheres e 1 homem, destacou na fala de uma das meninas que os homens atualmente gostavam de ir a salão de beleza, que cuidavam mais do corpo e que se depilavam, e finalizando a fala, disse que ―não existia mais homem‖ e que ―os homens eram todos gays‖. Um dos homens do grupo contrapondo a fala da jovem mulher afirmou que o homem cuidar do corpo não significava que este homem era gay. Houve divergência de opiniões, conforme podemos constatar na conversa a seguir:

Pesquisadora: O que vocês percebem da relação do homem com o seu próprio corpo?

Suellem: eles estão se cuidando mais que nós... aqueles desgraçados...risos.

Tão indo pra cabeleireiro, fazer as unhas, estão indo pra academia...

Pesquisadora: E o que vocês acham disso?

Ketlyn:: Eu acho uma viadagem... risos. Os homens estão todos virando gay.

Tá faltando homem. (Grupo de discussão 2).

Em contraposição à conversa anterior e provocando a discussão sobre o cuidado com o corpo que homens têm estabelecido nos dias atuais os jovens Castiel (18 anos, hetero, católico, homem afeminado), Tiago (15 anos, homossexual, evangélico, homem gay) e Alexandre (18 anos, hetero, nenhuma religião, homem macho) afirmaram:

Castiel: A gente precisa se tratar. Precisa ir para academia. Ficar em forma.

Cortar os cabelos. O cuidado com o corpo é interessante.

Tiago: Hoje em dia se o homem dá um arrumadinha, cortar o cabelo de um jeito já é viado... botar uma calcinha (risos do grupo), calça apertada já ta virando gay, o homem não pode andar arrumado que já acha que é viado.

Alexandre: deixa eu folgar minhas mangas aqui.

Grupo: risos (Grupo de discussão 2).

O segundo grupo teve como relator o jovem Alexandre. Este se considera macho e heterossexual e suas expressões são de afirmar o tempo todo sua identidade de gênero, a exemplo de falar com voz grossa, sentar desajeitado. Ao ser questionado sobre o que

achava sobre os cuidados que o homem nos dias atuais tem com o corpo, relatou que faz depilação das pernas e que antigamente não poderia fazer, mas afirmou: ―sou macho, e só faço até o joelho‖. Já para Jeremias (21 anos, hetero, homem macho), quando perguntado em entrevista qual a relação que o homem estabelece com o corpo ele afirma:

automaticamente você vai mudando sem perceber. Você vai mudando ali... E continua:“tirando a voz engrossando, a gente vai pensando coisa diferente...quando você entra na adolescência você volta...tem um pensamento totalmente diferente”.

Após essa discussão inicial, as falas giraram em torno das novas vivências do homem em relação ao seu próprio corpo e os/as jovens citaram algumas mudanças como:

o uso de calças apertadas; a depilação de pernas e sobrancelhas; o cuidado com cabelo; o cuidado com corpo sarado e com a musculação; o uso de cremes hidratantes e produtos de beleza.

Costa: Antes o homem se raspasse as pernas era gay, hoje não.

Izabel: Até hoje se os homens raspar as pernas é gay.

Ketlyn: pode raspar até aqui (joelho)... o povo diz que não pode.

Pesquisadora: O que vocês acham disso?

Costa: revolução humana

Letícia: Antigamente eles se cuidavam na forma de vestir e deixar a barba sempre feita e o cabelo sempre cortado. Hoje em dia isso permanece, porém eles utilizam desses artifícios do corpo em relação a depilação...fazem sobrancelha. A maioria dos jovens hoje tem isso de ir mais em salão, esses tipos de coisas que acabaram se atualizando de certa forma

Pesquisadora: E o que vocês acham disso tudo?

Letícia: eu acho super normal. Eu acho que a consciência do seu corpo é de cada um.

Tiago: é verdade (Grupo de discussão 2).

Durante a realização do encontro observei que alguns jovens, principalmente os homens ficaram um pouco receosos para falar do tema corpo e masculinidade. As mulheres colocavam as questões com mais naturalidade. No entanto, notei nas conversas a ênfase em defender que ao estabelecer na contemporaneidade cuidados maiores com o corpo, não significa que o homem seja gay. Ser homossexual aparecia em algumas falas como uma identidade que deveria ser evitada.

Em seguida, os/as jovens trouxeram reflexões interessantes sobre os estereótipos construídos acerca do gênero. Dois homens trouxeram relatos de sua própria experiência a exemplo de Guilherme (17 anos, hetero, nenhuma religião, homem afeminado) que é visto como gay por sua forma de falar, sentar, vestir e Letícia (23 anos, hetero, agnóstica, mulher masculinizada) que se coloca como hetero, mas é vista como lésbica porque fala com voz grossa e se veste com roupas largas. No momento dos relatos os

jovens iam desconstruindo impressões que tinham dos próprios colegas e trazendo reflexões acerca do preconceito e da aceitação da diferença.

Guilherme: Porque eu chegar e falar para meu pai que sou gay ele acha que eu morri pra ele. Ele acha que eu não sou mais filho dele.

Izabel: Tu não falou ainda não?

Guilherme: eu não sou.

Izabel: Não? Eu pensei que tu era.

Tiago: Tô passado...

Grupo: risos

Guilherme: Posso continuar? Então se eu chegar assim pra ele, ele vai dizer que eu morri e ele acha que eu sou, ou ele me mata ou eu morro, ou vou sair de casa e vou morar bem longe dele.

Letícia: No mundo de hoje as pessoas julgam muito pela aparência.

Suellem: Na sociedade de hoje as pessoas vivem muito de aparência.

Letícia: A gente não.

Suellem: Muita gente vive de aparência.

Letícia: É por isso que eu sempre coloco de não generalizar, mesmo separando uma ou duas pessoas da sociedade não tem que generalizar nada. O caso dele. Quem olha pra ele diz que ele é gay, quem olha pra mim diz que eu sou lésbica.

Izabel: Eu ia te perguntar isso agora. Meu sonho era te perguntar isso. Era meu sonho perguntar isso a ela no colégio.

Grupo: risos

Letícia: Essa é a questão. Já era pra ter perguntado. Eu não ligo de responder isso não.

Guilherme: Logo quando eu te conheci, eu achei que tu era.

Letícia: Pra você ter noção, eu namoro com o mesmo menino há mais de dois anos. E continuando o que eu estava falando... eu acredito que as pessoas por andarem na sociedade que julga se influenciam demais. As pessoas não param para olhar dentro de si e vê o que você verdadeiramente é e o que você quer construir de você. Você contorna o que as pessoas te indicam para onde ir.

Por isso que eu não me incluo na sociedade.

Izabel: eu também não.

Letícia: Pode me chamar de antissocial, pode me chamar a vontade, pra mim não é um problema, um caso de ter vergonha, pelo menos eu tenho opinião própria, não fico numa sociedade na qual fala vai... vai todo mundo...os idiotas vai tudo junto... Eu tenho minha opinião. Por isso que quando você falou: todo mundo é igual... não... pode ser até um ou dois que se destacam diferentes, mas são esses dois que vai fazer a diferença.(Grupo de discussão 3).

É importante refletir sobre o corpo e suas representações sociais, como nos alerta Louro (2016), a qual afirma que ―nossos corpos constituem-se na referência que ancora, por fim, a identidade. E, aparentemente, o corpo é inequívoco, evidente por si; em conseqüência, esperamos que o corpo dite a identidade, sem ambigüidades nem inconstância‖. (LOURO, 2016, p.14). Na conversa do grupo mencionada acima, ao mesmo tempo em que se tece um debate sobre a importância de não julgar pelas aparências, houve uma preocupação em não ser, por exemplo, lésbica ou homossexual, como aparentavam ser.

Ainda com relação ao corpo, as jovens falaram sobre os constrangimentos que sentem quando as formas que se vestem são vistas pelos homens como forma permissiva de abusos. No relato a seguir foi discutido o corpo feminino como objeto de desejo e a cultura machista que atribui a culpa às mulheres pela exposição do corpo:

Suellem: Porque os homens criticam o modo de vestir das mulheres achando que elas estão incentivando eles a praticarem o abuso?

Suellem: Eu queria me colocar como peixe dentro da água. Aliás nem fora da água e nem dentro da água, uma personagem principal, porque isso acontece muito comigo.

Carol: eu não ando com short curto, mas quando eu saio com meu pai de calça antes de vir para o colégio, muitos homens ficam me olhando me encarando e meu pai fica constrangido, eu acabo achando que a culpa é minha.

Ketlyn: eu não saio de casa hoje em dia e não tenho desejo também...

Carol: desejo de que?

Ketlyn: desejo do homem olhar, desejar meu corpo.

Suellem: mas só vai desejar mesmo...

Suellem: mas tem uns que não se controlam... se lembra daquele dia que a gente foi e o cara deu uma piadinha com a gente e quando ele voltou ele xingou a gente? É disso que estou falando. É nesse caso aí, que pelo fato de a gente não ter dado ousadia a ele, ele começou a xingar a gente,chamou a gente de puta e eu xinguei ele porque eu achei uma idiotice... eu visto a roupa que quiser. Eu boto meus micro short e vou comprar pão sim e se alguém falar alguma coisa eu vou empinar minha cabeça e não vou dar ousadia...

Ketlyn: Mas também é porque já está na cabeça da sociedade que se você usar uma roupa curta e se o cara soltar alguma piada pra... só ela olhar pra traz ela já está dando ousadia. (Grupo de discussão 4).

O corpo aqui é trazido como um marcador dentro de uma determinada cultura e sociedade. As falas das jovens sinalizam para objetificação da mulher e seu corpo, bem como para a reação de algumas mulheres a isso, como Suellem, que não aceita mudar sua forma de vestir em razão da cultura machista que impõe como a mulher deve se comportar na sociedade. De acordo com Louro (2016, p. 15-16): ―ao classificar os sujeitos, toda sociedade estabelece divisões e atribui rótulos que pretendem fixar as identidades. Ela define, separa e, de formas sutis ou violentas, também distingue e discrimina‖, como podemos notar na conversa abaixo:

Ketlyn:Sei lá... se você não gosta tudo bem, mas tem muitas pessoas que preferem... como eu explico... se expor pra isso... você bota uma roupa curta e você sabe que tem um corpo bonito... aí você passa e aqueles meninos ficam te desejando... ele pode te desejar, pode não se conter pode lhe abusar,

Carol: A minha avó mesmo falava se for estuprada é por causa da roupa. Ai eu, „não, não é por causa da roupa...olha o que senhora ta falando?‟ A pastora de São Paulo foi estuprada e morta.

Ketlyn: tava vestida de que?

Carol: Vestido longo.

Izabel: Tá vendo Ketlyn, que não é por causa da roupa. Minha prima também, meu suposto tio tentou estuprar ela na cachoeira e ela tava de vestido... a família do meu pai é toda crente, tirando meu pai que é desviado, a família do meu pai é crente...crente...crente que chega enjoa.

Tiago: fervoroso...

Suellem: Fervoroso? Não. Enjoado. E ele tentou abusar dela e todo mundo ficou assim... agora se fosse eu que gosto de usar roupa curta o povo ia pensar o que? Que eu dei ousadia, que fez isso e que fez aquilo.

Pesquisadora: E o que será que está por trás dessa situação?

Carol: Mas assim... se fosse por roupa ninguém ia sair de dentro de casa, não iria andar de biquíni, não ia pra praia, eu fui pra piscina de maiô todo mundo ficou me olhando e eu não sabia se vestia um short ou se eu ia pra casa.

(Grupo de discussão 4).

A ideia de um corpo que precisa ser controlado e educado dentro de padrões heteronormativos não dão conta da diversidade de sujeitos e de suas múltiplas experiências. Retomar aqui a posição do feminino como objeto de desejo masculino, traz à tona as questões no que dizem respeito às relações desiguais de gênero, que insiste em sustentar uma hierarquia destas relações. Por outro lado, o empoderamento feminino ditando suas próprias regras provoca mudanças na produção das masculinidades e no enfrentamento do machismo construído por homens e por mulheres. Além disso, é importante questionar normas, regras que oprimem, que violentam e discriminam. Para tanto, Louro (2016, p. 16), afirma que:

Distintas e divergentes representações podem, pois, circular e produzir efeitos sociais. Algumas delas, contudo, ganham uma visibilidade e uma força tão grandes que deixam de ser percebidas como representações e são tomadas como sendo a realidade. Os grupos sociais que ocupam posições centrais,

‗normais‘(de gênero, de sexualidade, de raça, de classe, de religião, etc.) têm possibilidade não apenas de representar a si mesmos, mas também falam pelos

‗outros‘(e sobre os outros); apresentam como padrão sua própria estética, sua ética, sua ciência e arrogam-se o direito de representar (pela negação ou pela subordinação) às manifestações dos demais grupos. Por tudo isso podemos afirmar que as identidades sociais e culturais são políticas.

Dessa forma, problematizar sobre o que fundamenta nossas construções sociais e culturais a respeito das diversas formas de existir constitui um desafio que requer tecer discussões acerca de preconceitos, violências e sobre relações de poder desiguais que tem matado mulheres e homossexuais, legitimados e reforçados, principalmente na atualidade pelo cenário social, político e religioso. E, nesse sentido:

O modo como os seres humanos se apropriam dos elementos trazidos pela natureza, este é ponto, atribuindo relevância a uns e minimizando ou ocultando outros, relacionando alguns destes elementos e ou desvinculando-os, hierarquizando-os ou nivelando-os, concedendo-lhes direito à expressão ou coibindo sua exposição, cobrindo-os ou desnudando-os. Tudo isto pertence ao mundo da história e da cultura, por mais que um determinado sistema de organização da sexualidade adquira a aparência de eternidade e de naturalidade. (BARROS, 2016, p. 19).

Apesar das relações de gênero na sociedade contemporânea se constituírem de forma dinâmica, fluída e a partir de experiências diversas, o pensamento conservador, nos

dias atuais, insiste em negar estas múltiplas experiências culturais expressas na diversidade de identidades de gênero e identidades sexuais que assumem características inovadoras e desafiantes. Conviver com as diferenças culturais e, ao mesmo tempo, com o apelo conservador à homogeneidade de uma só cultura dominante, constitui um desafio que merece ser enfrentado e debatido pela escola, estimulando a aceitação do outro na sua forma de viver a sexualidade, de lidar com o corpo e de estabelecer relações de gênero.

A seguir faremos uma discussão sobre como os/as jovens deste estudo têm estabelecido relações afetivas e sexuais, considerando as diversidades de identidades de gênero e identidades sexuais.