3.1 Os adolescentes que conhecemos
3.1.4 Religião
Os dados da pesquisa apontaram que dos 29 estudantes que se consideram religiosos, 82,8% deles se declararam evangélicos e 17,2% se autodeclaram católicos. Os 16 alunos restantes afirmaram ter fé em alguma divindade, porém não são adeptos a religiões. A religião aparece nos relatos dos adolescentes como um meio de contato com o sagrado e através do qual estabelecem vínculos de socialização com a comunidade e laços de afetividade com os pares.
A predominância de adolescentes que se auto declaram evangélicos (82,8%) difere do perfil religioso da população de Feira de Santana que, segundo o Censo Demográfico de 2010, apresenta o maior percentual de adeptos ao catolicismo, com 57,1% (IBGE, 2010), alcançando mais de 300 mil13 pessoas, enquanto os evangélicos giram em torno de 140 mil adeptos, ficando em segundo lugar. A tabela 4 expressa os dados obtidos dos questionários sobre a religiosidade dos sujeitos pesquisados:
Tabela 4 - Distribuição de frequência e percentual de filiação religiosa (n=29)
Religião Frequência Porcentagem
Protestante/evangélico 24 82,8
Católico 5 17,2
Espírita 0 0,0
Candomblecista 0 0,0
Total 29 100,0
Fonte: Dados obtidos na pesquisa de campo realizada pela autora, 2019.
Nesse contexto, os dados da pesquisa dialogam com o que tem acontecido no cenário municipal e nacional no que concerne ao crescimento das religiões pentecostais. Em estudo sobre transição religiosa no Brasil, Alves (2018) revela que as afiliações católicas que representavam mais de 90% da população brasileira em meados do século XX têm gradativamente reduzido o percentual de adeptos, ao passo que as afiliações evangélicas se tornam crescentes. A partir dessa observação, apresenta a seguinte classificação da transição religiosa no país:
1. As filiações católicas vêm caindo em termos relativos durante todas as décadas do século XX, mas o declínio se acentuou entre 1991 e 2010 (queda de 1% ao ano), sendo que houve declínio absoluto entre 2000 e 2010;
2. As filiações evangélicas crescem de forma consistente e com aceleração nas últimas décadas, mas o crescimento é abaixo do percentual de perda católica (também houve diversificação das denominações e aumento dos evangélicos não institucionalizados) [...]
4. Por fim, nota-se um aumento absoluto e relativo do número de pessoas que se auto declaram sem religião (incluindo ateus e agnósticos). (ALVES, 2018, s.p.).
A classificação da transição religiosa no Brasil, além dos índices das afiliações católicas e evangélicas já mencionados, sinaliza o crescimento das religiões não cristãs e da pluralidade religiosa no país. Apresenta também o panorama das pessoas que autodeclaram não ter religião alguma, informação que dialoga com os dados produzidos no campo sobre a temática quando identifica que 16 dos 45 participantes se encaixam neste perfil.
13 Dados disponíveis em https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ba/feira-de-santana/panorama. Acessado em 25/03/2020.
De acordo com Alves (2018), as mudanças sofridas no perfil religioso da população brasileira devem-se ao processo de urbanização que implicou na dificuldade de descentralização da Igreja Católica. Já a igreja evangélica, caracterizada pela descentralização e autonomia, alcança os espaços periféricos, contando também com o apoio da mídia e da política e segue alcançando gradativamente o número de adeptos, principalmente nas periferias brasileiras (ALVES, 2017).
Os dados revelam ainda que dentre os 29 adolescentes que responderam frequentar igreja ou instituição religiosa, 66,7% afirmaram ter uma frequência regular nesses espaços, sendo que 40% destes frequentam mais de uma vez na semana, 23,3% uma vez por semana e 3,3 tem frequência mensal. Já 33,3% do quantitativo declara frequentar raramente a igreja ou instituição religiosa. Esses índices nos permitem afirmar que a trajetória dos adolescentes é atravessada pela influência religiosa e esta, por vezes, ocupa um espaço considerável em sua rotina.
Esses dados apontam, ainda, para algo muito relevante: o crescimento acelerado da presença da religiosidade evangélica nas camadas mais pobres da população. Segundo Bonh (2004), o número de evangélicos no Brasil passou de 7,8 milhões nos anos 80 para 26 milhões nos anos 2000, crescimento este associado aos segmentos sociais mais desprovidos da sociedade. Bohn (2004) não dissocia dessa constatação o perfil dos adeptos de religião católica e de matrizes afro-brasileiras.
Os fiéis evangélicos - sobretudo os membros das denominações pentecostais provêm de setores socioeconômicos significativamente desprivilegiados, tanto no que se refere à renda quanto ao nível de escolaridade. Esse perfil, no entanto, não é exclusivo ao segmento evangélico; ao contrário, guarda consideráveis similaridades com o público adepto das religiões católica e afro-brasileiras (candomblé e umbanda). Diante dessa semelhança de perfis, dificilmente eventuais diferenças de opinião, atitude ou comportamento entre esses três grupos podem ser atribuídas aos fatores acima mencionados - renda e escolaridade. (BOHN, 2004, p. 335).
Corroborando com esta ideia, que reconhece que religiões se fortalecem em meio a contextos de vulnerabilidades sociais, Cunha (2008) considera o crescimento das igrejas evangélicas um fenômeno mundial de grande repercussão na década de 1960. Reconhece ainda que houve uma adesão que não se restringiu apenas às camadas populares, já que houve também um número considerável de adeptos por parte dos mais privilegiados socialmente; no entanto, admite que os menos favorecidos ocupam a maior adesão, conforme sinalizado no trecho abaixo:
O mapeamento do crescimento pentecostal, sobretudo nos países do chamado Terceiro Mundo, aponta para a possível relação entre este fenômeno e a desigualdade
e a vulnerabilidade sociais, ou seja, o pentecostalismo seria uma corrente religiosa que cresce mais, ou se fortalece, onde os contextos de precariedade político social são abundantes [...] Há um movimento de adesão importante de integrantes dos segmentos mais abastados às igrejas evangélicas pentecostais; não se pode negar que os mais vulneráveis econômica e socialmente são os que compõem a maioria dos fiéis mundo afora. (CUNHA, 2008, p. 25).
As falas dos autores supracitados dialogam com a realidade dos adolescentes pesquisados; moradores de bairros periféricos que compõem os espaços de crescimento das igrejas em suas comunidades. Esses adolescentes, que em sua maioria passam por privações dos direitos à cultura e lazer, têm nos espaços religiosos um meio de socialização e integração com a comunidade.
Nos grupos de discussão, a necessidade de afiliação e de participação na vida religiosa aparece muitas vezes como uma pressão por parte das famílias, como cobrança em relação ao controle de comportamentos tipicamente juvenis - como sair, beber, namorar -, restringindo a experiência de ser adolescente. Esse contexto é ilustrado nas falas a seguir:
Na minha família, eu sou a única mulher da família inteira. Todo mundo quer me criar, ninguém me deixa fazer nada. Nem no mercado eu vou. Por isso que eu faço as minhas coisas escondidas mesmo. Ninguém quer me deixar fazer nada. Até me afastou da igreja, por que só era crente, crente. Se a família é crente, eu também sou obrigada a ser crente e eu não quero. Eu quero curtir, saber o que é um paredão. Mainha fala que o mundo é mal, traiçoeiro, mas como é que eu vou saber se eu nunca vivi, nunca vi, não sei como é. Eu quero saber, viver aquilo ali para saber se é ruim ou não.
(ROBERTA, 15 anos).
Nesse caso, a religião é utilizada como um instrumento de opressão sobre os adolescentes, especialmente entre as mulheres, como para moldar os seus comportamentos, relações, até mesmo as suas vestimentas, como mencionada na fala da adolescente Tainan (15):
Eu já tinha aceitado Jesus por influência do meu tio, mas ele não me deixava vestir a roupa que eu queria (eu nem tinha me acostumado ainda). Eu saí da igreja por que não estava aguentando mais. Eu não podia fazer nada que ele pegava no meu pé. A igreja é no bairro próximo daqui, no início ele me levava., fazia de tudo comigo, depois me deixou de lado e não me levava mais. Mesmo quando eu ainda estava na igreja, ele já não levava mais. Daí eu voltei a usar as minhas roupas e ele ficava falando. Aí eu me afastei de vez. (TAINAN, 15 anos).
Tainan (15) revela nesse relato que a pressão que ela sofreu para que mudasse radicalmente a sua postura, vestimentas, bem como a obrigatoriedade de ter uma frequência regular na igreja, fizeram com que ela se afastasse definitivamente. Wender (17), faz um contraponto: “a pessoa tem que estar na perfeição. Todo mundo erra. Somos seres humanos.
Nem Jesus Cristo, filho de Deus agradou a todo mundo quem é a gente para agradar? Pecador!
Pra agradar a todos?”, deixando claro o seu sentimento de insatisfação contra aqueles que se utilizam da religião como instrumento de controle e opressão sobre as crianças e adolescentes.
Tais reflexões denotam que tanto a religião quanto a família constituem espaços de socialização e formação da subjetividade que atravessam os adolescentes, podendo acarretar processos tanto de integração quanto de exclusão, a depender de como são conduzidos.
As falas de Roberta (15) e Tainan (15) denunciam situações em que a religião é utilizada como um meio de repressão e controle, um elemento de poder exercido sobre os seus corpos, pensamentos e comportamentos. Outro fator denunciado nas falas das adolescentes se refere à relação de gênero e religião, permeado por um discurso social e político que reduz o feminino ao lugar de subalternidade e controle em detrimento do masculino, dominante e controlador.
Conforme mencionado por Santos (2019), quando discute o processo de socialização juvenil e a religião:
As relações de poder têm sido acentuadas no cenário político e social atual, com incentivo à manutenção e o retorno do conservadorismo, com base na defesa da ordem natural das coisas e com a questão de gênero entendida dentro dessa lógica, bem como evidenciando a sobrevalorização da hierarquia de gênero que supervaloriza os modos de ser homem e mulher a partir do referencial da heteronormatividade e através da deslegitimação de outros possíveis modos de ser e de viver a sexualidade, como também de ser masculino e feminino. (SANTOS, 2019, p. 92).
Esse contexto corrobora com a atual conjuntura política nacional que tenta controlar as pessoas através de ideais moralistas, conservadores e fundamentados na religião, atuando como uma tentativa de negar e/ou restringir os direitos conquistados, a exemplo do direito à liberdade de crença e de convivência social.