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4.2 Retratos da adolescência: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”

4.2.4 Retrato de Maria

apresentações. Com a sua vontade de ajudar, está sempre atenta, dando sugestões para melhorias que impactem o bem-estar dos colegas e da escola.

me sinto só, mesmo tendo gente comigo dentro de casa. Eu fico assim, poxa... quando eu saio, já tenho vontade de voltar pra casa. Eu fico dentro de casa sozinha com a televisão desligada, dentro do quarto mexendo no celular. E às vezes eu falo pras pessoas o que eu sinto mas ninguém presta atenção, não! Falo que eu sinto que eu tô triste, uma dor no coração, uma angústia, uma vontade de chorar, gritar de sair andando por aí pra não...e não é por nada”. (MARIA, 15 anos).

Diante da complexidade dos sentimentos e emoções nessa fase da vida, Maria expressa dificuldade em entender ao certo o que se passa com as suas emoções, principalmente quando se trata da falta de reciprocidade das pessoas e ilustra essa situação quando diz:

tem hora que eu estou de boa, mas quando a gente para pra pensar nas coisas, a gente fala: poxa parece que eu não sou importante pra ninguém. Eu já participei de tantas festas de aniversário surpresa das pessoas e ninguém nunca fez uma festa, eu dou tanto de mim pras pessoas, mas as pessoas não sabem retribuir do jeito que a gente trata elas. (MARIA, 15 anos).

Diante da sua dificuldade de expressar o que sente e como maneira de evitar maiores problemas com a falta de compreensão das pessoas, Maria prefere se calar e/ou negar o que está sentindo.

Às vezes o povo pergunta assim: ‘por que tu tá triste?’ Eu não sei responder. Às vezes quando as pessoas me perguntam: ‘Você tá bem?’ Eu falo: “tô!”. Por que se eu falar que eu tô ruim, vão perguntar por que e eu não sei responder. E as pessoas ficam: ‘anh é besteira, você não precisa estar sofrendo, não lhe falta nada, sua mãe é isso, sua mãe é aquilo e você não precisa ficar sofrendo não, oh rapaz isso é coisa sua e tal’. Eu prefiro não comentar. (MARIA, 15 anos).

Desde muito cedo a adolescente teve que lidar com a ausência do pai, que saiu de casa quando ela tinha 5 anos e a sua irmã, 3. Além da ausência física, o afastamento do pai envolve também a falta de amor e de apoio financeiro.

Ele fica dizendo que não está trabalhando toda vez que a gente vai cobrar o dinheiro pra comprar as coisas que a gente precisa. Aí fica dizendo que a minha mãe tá jogando praga na vida dele, que ele não arranja trabalho [...]. Aí eu brigo com ele! Esses tempos pra cá ele disse que tá trabalhando e mandou dinheiro pra gente duas vezes, mas toda vez que manda é uma briga, uma discussão. Antes de mandar ele faz uma guerra pra procurar um motivo pra não dar, toda vez é assim, mas presente mesmo não é não!

(MARIA, 15 anos).

Frente aos problemas de relacionamento com o pai, Maria demonstra a sua inquietação com a falta de compromisso e de responsabilidade que a ausência da figura paterna representa em sua vida “[...]a minha mãe trabalha, entendeu, pró? Mas ela não fez filho sozinha, ela tem que cobrar. Quando a gente vai cobrar, ele diz que não está trabalhando, mas a minha mãe já sabe porque ele é mentiroso; tem, mas não quer dar [...]”.

Em paralelo a essa situação, Maria relata as dificuldades enfrentadas tanto por ela quanto pela mãe no relacionamento com a irmã. Segundo ela, a irmã está na fase ‘rebelde’ da vida,

gerando muitos conflitos em casa: “a gente conversa, brinca, também briga. A gente briga mais quando ela sai e volta, que minha mãe quer corrigir e ela fica batendo boca com a minha mãe, aí eu não gosto de ver ela brigando com a minha mãe, sendo que a minha mãe está certa!”.

Maria demostra uma grande preocupação com a irmã estar saindo de casa, sem horário pra voltar, por causa dos perigos eminentes que uma cidade violenta oferece. Este, inclusive é o maior medo que ela diz ter.

o meu medo é sair e não voltar mais. Sair pra algum lugar assim e acontecer alguma coisa, por que está muito perigoso ultimamente, a cidade, os lugares, está tudo perigoso. O que eu tenho mais medo é isso, não que eu faça nada errado, entendeu?

Mas é por causa da violência. Tá demais, tanta gente que não deve nada e tá morrendo, aí eu fico com medo de estar em algum lugar na hora errada. É só isso que eu tenho medo e também tenho medo de perder a minha mãe, só isso! (MARIA, 15 anos).

Sonhando em ter a sua própria casa, transporte e seu dinheiro, Maria deseja implantar o seu salão de beleza e empreender no ramo de estética, o que tem habilidades e gosta de fazer.

Eu gosto muito de mexer com cabelo. Eu trabalho com cabelo, coloco trança. Aí eu queria fazer um curso pra poder entrar no salão, mexer nesses negócios de cabelo assim e trabalhar. Eu gosto também de mexer com maquiagem. Eu queria trabalhar com essas coisas, entendeu pró? Pra eu poder ter meu dinheiro, fazer as coisas que eu quero, mesmo a minha mãe me dando as coisas, às vezes a gente quer sair pra algum lugar assim, ter o nosso dinheiro, a única dificuldade que eu tenho é essa! (MARIA, 15 anos).

Em meio a todas essas reflexões, a estudante demostrou grande inquietação pelo fato de não poder trabalhar agora, na adolescência. Para ela, o trabalho seria uma forma de melhorar a sua condição atual de vida e ajudar a mãe nas despesas da casa.

Eu queria ter um trabalho, por que assim, eu tenho as coisas que eu quero por que, embora a minha mãe não tenha assim uma condição financeira, ela nunca deixou faltar nada que a gente precise, mas eu queria ter um trabalho, ajudar ela, entendeu? Mesmo eu estudando, eu queria ter um trabalho para ajudar ela, queria trabalhar também pra ter dinheiro pra fazer um curso. (MARIA, 15 anos).

A continuidade dos estudos no nível superior não envolve as pretensões futuras de Maria: “eu já pensei assim em só me formar. Tipo, acabou as aulas, eu acabei o terceiro ano e ... eu não pensei ainda em uma profissão, fazer uma faculdade, a única coisa que eu penso assim é ser uma dona de salão, essas coisas assim de beleza”. Ela afirma ainda que este pensamento perpassa pela maioria dos adolescentes que ela conhece.

Maria associa estes pensamentos relativos à perda de interesse pelos estudos como resultado da forma como a escola vem atuando e ilustra a sua fala com o seguinte argumento:

eu não vou mentir não, eu queria já acordar sabendo de tudo. Às vezes a gente vem pra escola [...] os professores ficam dando as matérias ... é por que tem adolescentes que não entende a linguagem que os professores falam, tipo, misturam as coisas, sabe?

Umas palavras difícil que a gente não entende [...] outras pessoas que estão dizendo

que a escola está chata, tem pessoas que mudam de colégio, estuda um pouco aqui, um pouco ali, ah tá chato, não tá dando mais para mim não. Aí vai ser transferido pra outro colégio, que fica chato também e aí vai. Eu conheço! (MARIA, 15 anos).

Entre os motivos que levam os adolescentes a evadirem da escola, Maria acredita que a maioria deles gira em torno também da necessidade financeira, de colaborar com as despesas de casa e ter seu próprio dinheiro.

às vezes é por causa do trabalho, que quer trabalhar pra poder ajudar dentro de casa.

Às vezes é por influência de outras pessoas, amigo que fala: ‘deixa de estudar,

“abestalhado”, estudar não ajuda em nada’... eu conheço meninas que se prostituem por que querem dinheiro, quer dinheiro fácil, aí não precisa, não quer mais estudar.

Uma pessoa que já tem dinheiro sem precisar fazer muito esforço, tem dinheiro fácil, pra que uma pessoa dessa vai querer estudar? (MARIA, 15 anos).

Maria é uma adolescente que se preocupa com o bem-estar da sua família; bem relacionável e atenta, está sempre ligada ao que acontece no seu entorno, no que concerne à postura e comportamento das pessoas que estão ao seu redor. Sonhadora, quer conquistar independência financeira para melhorar a condição de vida da família.