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Foram registrados 2.266 casos novos de TB (Tabela 1), no município de Feira de Santana, no período de 2005 a 2016, conglobando todas as formas da patologia. O maior coeficiente de incidência se deu no ano de 2005 (40/100.000 habitantes), (Gráfico 1).

TABELA 1 - CARACTERÍSTICA EPIDEMIOLÓGICA DOS CASOS DE TUBERCULOSE EM FEIRA DE SANTANA-BA, 2005 A 2016

(Continua) Características N= 2266 % Sexo

Masculino 1.485 65,5%

Feminino 781 34,5%

Raça

Ign/Branco 39 1,7%

Branca 345 15,2%

Preta 650 28,7%

Amarela 5 0,22%

Parda 1223 54%

Indígena 4 0,15%

Idade

Ign/Branco 1 0,045%

<1 ano 7 0,30%

1—4 21 0,90%

5—9 11 0,50%

10—14 27 1,20%

15—19 93 4,10%

20—34 714 31,50%

35—49 694 30,60%

50—64 461 20,35%

65—79 192 8,45%

80+ 45 2,0%

Escolaridade

Ign/Branco 338 14,90%

Analfabeto 192 8,45%

Ensino fundamental completo 191 8,45%

Ensino fundamental incompleto

941 41,5%

Ensino médio completo 238 10,50%

Ensino médio incompleto 214

9,45%

(Conclusão) Educação superior completa 82

3,62%

Educação superior incompleta

33

1,45%

Não se aplica * 37

1,65%

Fonte: SMS – Feira de Santana, Bahia – Sistema de informação de agravos notificáveis (SINAN), 2017 Elaborado pelo o autor, 2017

* Indivíduos que não possuem idade para ingresso escolar

GRÁFICO 1 - TAXA DE INCIDÊNCIA DE TUBERCULOSE, POR 100.000 HABITANTES, DA POPULAÇÃO TOTAL E POR SEXO A CADA 5 ANOS, NO MUNICÍPIO DE FEIRA DE SANTANA-BAHIA.

Fonte: SMS – Feira de Santana, Bahia – Sistema de informação de agravos notificáveis (SINAN), 2017 Elaborado pelo o autor, 2017

Com relação aos dados demográficos, encontrou-se 1.485 casos de TB para o sexo masculino (65,53%). Quanto ao coeficiente de incidência, houve um aumento para o sexo masculino e um decréscimo para o sexo feminino, no ano de 2015 (Gráfico 1 ).

Ao longo desta série histórica, teve-se uma redução gradativa do número de casos novos da TB e um maior predomínio entre os indivíduos do sexo masculino, mesmo que

25,3

23,9 22,8

56,1

35,2

65,1

40

29,3

33,44

0 10 20 30 40 50 60 70

2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016

Coeficiente de Incidência a cada 100.000 habitantes

Ano

População Feminina População Masculina População Total

Conforme o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde foi diagnosticado no ano de 2016, 66.796 casos novos de TB. Fazendo-se uma comparação no período de 2007 a 2016, o coeficiente de incidência da doença apresentou uma variação média anual de -1,7%, passando de 37,9/100 mil hab. em 2007 para 32,4/100 mil hab. em 2016 (SVS, 2017a). Na Bahia, a taxa de incidência no ano de 2014 foi de 30.7/100 mil hab. para 26.7/100 mil hab.

em 2016 (SVS, 2015; SVS, 2017).

Há de se considerar, que embora se tenha uma redução dos casos novos de tal morbidade, ainda existem muitos casos de diagnóstico tardio, devido à precariedade dos serviços públicos de saúde, falta de profissionais capacitados para a realização do diagnóstico e dificuldade para preenchimento da notificação (SCATENA et al, 2009).

De um modo geral, os indivíduos do sexo masculino apresentam uma resistência em procurar os serviços de saúde. Isso está associado a fatores socioculturais, sobre a concepção criada ao decorrer do tempo, a respeito da figura masculina. Além destes fatores, deve-se levar em consideração, as restrições provenientes do trabalho, onde os horários muitas vezes não são compatíveis com os do serviço de saúde e as demandas não são resolvidas em uma única consulta. O que faz com que muitos evitem a se ausentar do labor, mesmo que venham apresentar atestado médico. É importante considerar, que com a emancipação feminina, a mulheres também passaram a ser provedoras do lar. Sendo assim, também enfrentam a mesma barreira que os homens (BERALDO et al, 2012). No entanto estas possuem uma maior preocupação com o seu corpo e com a sua saúde, sobretudo no aspecto preventivo.

Cabe considerar que os indivíduos do sexo masculino, possuem certa tendência a ter TB, devido à exposição a determinados fatores que os tornam propícios a desenvolver a infecção. Tais como: consumir bebidas alcoólicas, usar drogas ilícitas, ser ex-presidiário e ser tabagista (ALCÂNTARA et al, 2012).

A idade teve uma ampla variação, desde os menores de um ano, até os maiores de 80 anos. Sendo que a maior frequência, ocorreu entre os indivíduos em fase produtiva, com maior percentual no intervalo de 20 a 34 anos, correspondendo a 31,51% dos casos (Tabela 1).

CAMPOS et al (2014), destaca em seu estudo, que embora indivíduos da primeira e terceira infância apresentem maior predisposição a desenvolver TB, devido a fatores imunológicos, o maior número de casos se dá entre adultos jovens e adultos, devido ao maior contato social, no âmbito familiar, trabalho e de lazer. Corroborando com os

Ao averiguar o perfil clínico-epidemiológico dos casos de Tuberculose registrados na cidade de Cajazeiras (PB), em uma série histórica, Almeida et al. (2015), constataram que o maior índice dos casos, deu-se em indivíduos na faixa etária produtiva. Tal frequência representa um problema na esfera socioeconômica do país, pois aumentam os índices de afastamento do trabalho, absenteísmo, redução da produtividade nas empresas, comprometimento parcial ou total dos rendimentos familiares. Além de que, a morbidade ocasiona o afastamento social.

Dos casos notificados, 2.227 constavam informações referentes à raça/cor. Destes, 15.23% declararam-se brancos, 28.68% afrodescendentes, 0,22% amarelos, 53.97% pardos e 0.18% indígenas (Tabela 1).

Apesar de neste estudo, a relação raça/cor e casos de TB tivessem uma significância ao decorrer dos anos, em se tratando de tal variável, deve-se considerar que este elemento não pode ser associado como um fator de risco isolado para o desenvolvimento da patologia em questão, pois a classificação racial pode variar de acordo com o período e a região do mundo em que a pessoa vive, além dos interesses sócio-culturais de um determinado grupo. Também, há de se considerar que pessoas denominadas pardas ou negras podem ter um menor nível de escolaridade e poder aquisitivo. Fatores estes, que podem predispor a maior susceptibilidade para a TB e outros agravos (ALMEIDA et al., 2015).

No quesito grau de escolaridade, dos casos que constavam tal informação (1.928), confirmou-se que os indivíduos com baixa escolaridade apresentaram maior frequência da afecção (Tabela 1).

O número elevado da incidência de TB, entre indivíduos com baixa escolaridade têm sido destacados em diversos estudos. Isso assegura que o baixo nível educacional de um indivíduo, ocasiona uma vulnerabilidade social, que exprime pouco cuidado com a sua saúde e também coletiva (CHIRINOS; MEIRELLES, 2011).

Em um estudo realizado por Coêlho et al (2010), no Município de Teresina-PI, no período de 1999 a 2005, dos 2.600 casos averiguados, 794 casos (30, 53%) possuíam até três anos de escolaridade (analfabetos ou semianalfabetos), 1.035 casos (39,80%) possuíam quatro a sete anos de escolaridade (ensino fundamental incompleto), 491 casos (18,88%) de oito a 11 anos de escolaridade (ensino médio incompleto ou completo) e 105 casos (4, 03%) com mais de 12 anos de escolaridade (ensino médio completo ou ensino superior).

Os autores supracitados destacam que o analfabetismo ou a baixa escolaridade, são reflexos dos fatores socioeconômicos precários, que favorecem a vulnerabilidade para a maior incidência da TB e para menor aderência ao respectivo tratamento.

Cabe destacar, que nos últimos anos, o governo federal tem investido em programas que visam à redução do analfabetismo entre jovens e adultos, bem como, no favorecimento da melhoria do acesso ao ensino fundamental, médio e superior. Mesmo que ainda de forma desigual entre as regiões. No entanto, mesmo com a redução das taxas de analfabetismo, ainda prepondera uma parcela da sociedade marginalizada. O que as tornam propícias a TB e a outras indefensibilidades.

Quanto à área de habitação, os indivíduos residentes na área urbana, apresentaram 92,41% dos casos (Gráfico 2 ) .

GRÁFICO 2 - DISTRIBUIÇÃO DOS CASOS DE TUBERCULOSE POR ÁREA DE RESIDÊNCIA EM FEIRA DE SANTANA-BA, 2005 A 2016

Fonte: SMS – Feira de Santana, Bahia, 2017 Elaborado pelo autor, 2018

Conforme o Censo Populacional realizado pelo IBGE, em 2010, o número de habitantes na área urbana em Feira de Santana, era de 510.736 e a do campo 46.022. Ao

1%

92%

7%

Ign/branco Urbana Rural

número dos casos, entre os indivíduos residentes na zona urbana. O que pode ser justificado pelo elevado índice de casos no espaço urbano.

Nesta perspectiva é possível notar que existe uma maior possibilidade de indivíduos da zona urbana, desenvolver TB, quando comparados aos que residem na zona rural. Pois, no espaço urbano, há muitas áreas com conglomerados populares, em péssimas condições de moradia e infraestrutura, que interferem no processo de saúde-doença. Torna-se necessário ressaltar, que embora os indivíduos da zona rural, tenham contato social com indivíduos da zona urbana, possuem pouca influência dos fatores ambientais que possam a vir debilitar em seu lócus. O Mycobacterium tuberculosis tende a não se proliferar na zona rural, devido a uma relativa melhora no saneamento e por não haver grandes áreas de concentração humana (CAMPOS et al,2014).

Vieira et al. (2013) destaca em seu estudo, que embora exista uma diminuição de casos notificados na área rural é válido considerar, que existe uma dificuldade desta parcela da população em ter acesso aos serviços de saúde.

Ainda há de se considerar, que de um modo geral, no campo, existem elementos da cultura popular predominantes, com relação aos meios como se trata o corpo e a doença, o que pode levar o distanciamento de muitos, da assistência médica para o diagnóstico e tratamento de morbidades.

Em relação aos dados clínico-epidemiológicos, 83,76% dos casos corresponderam à forma pulmonar (Tabela 2). Para o diagnóstico quanto à manifestação clínica, pelo teste de escarro 1, 44,16% foram positivo, 25,46% negativo, 24,32% não realizaram e 5,16% não tiveram o dado respondido. Para o teste do escarro 2,36% apresentaram a informação ignorada ou em branco, 28,2% positivo, 18, 14% negativo e 17,66% não realizaram.

Com relação à realização do raio x de tórax, 84,73% foram laudados como suspeito, 2,8% não apresentaram alteração, 0,17% outras patologias, 12% não realizaram e 0,30%

tiveram o dado ignorado/branco.

TABELA 2 - CARACTERÍSTICA CLÍNICA E EPIDEMIOLÓGICA DOS CASOS DE TUBERCULOSE EM FEIRA DE SANTANA-BA, 2005 A 2016

Características N= 2266 % Forma

Pulmonar 1848 83,75%

Extrapulmonar 346 15,27%

Pulmonar+Extrapulmonar 22 0,98%

Diagnóstico Teste do escarro 1

Ign/Branco 117 5,16%

Positivo 1012 44,66%

Negativo 586 25,86%

Não realizado 551 24,32%

Diagnóstico Teste do escarro 2

Ign/Branco 816 36%

Positivo 639 28,2%

Negativo 411 18,14%

Não realizado 400 17,66%

Fonte: SMS, 2017

Elaborado pelo o autor, 2017

No que concerne aos aspectos clínicos, o maior número de casos foi na forma pulmonar, mesmo sem significância estatística. O que pode justificar essa elevada ocorrência dos casos de TB pulmonar, seja pelo o aspecto biológico. Uma vez que, os pulmões, possuem altas concentrações de oxigênio, tornando-se propício para alojar a bactéria aeróbica estrita, Mycobacterium tuberculosis, que desencadeia a TB (MASCARENHAS, ARAÚJO e GOMES,2005) .

No que se refere à execução da baciloscopia, primeira e segunda amostra, verificou- se um elevado número de não realização e dados ignorados/ brancos. De um modo geral, no Brasil, têm-se verificado limitações para instituir e utilizar a baciloscopia, embora, a Organização Mundial de Saúde (OMS) tivesse recomendado desde 1993, tal método para a detecção da TB. Sendo que este constitui o método mais difundido, principalmente por ser de baixo custo. Em relação a realização do raio x, embora se saiba que a sua necessidade seja quando ao menos, as duas baciloscopias sejam positivas, neste estudo, teve-se um número considerável deste exame de imagem (FERREIRA et al., 2005;

MASCARENHAS,ARAÚJO e GOMES,2005).

Ao verificar as notificações dos casos pela forma clínica extrapulmonar, constatou- se que 83.85% foram ignorados ou brancos. Com relação à área afetada, teve-se a maior frequência do evento, em toda série histórica, na forma pleural.

Ao relacionar essa morbidade com os agravos associados, dos 2.226 dos casos notificados, 922 apresentaram esses danos correlacionados. Sendo que, 33%

corresponderam ao alcoolismo, 24.% a outras doenças, 21% a diabetes, 8% a AIDS, 7% ao tabagismo, 5% a doença mental e 2% ao uso de drogas ilícitas.

O uso excessivo do álcool tem sido considerado um problema de saúde pública, pois é um fator que acarreta em mecanismos insalutíferos sobre os diversos elementos do sistema imune, sendo um risco de diversas infecções, inclusive para a TB. Além de que, estes indivíduos procrastinam a demora da assistência médica, quando apresentam alguma desordem no seu estado de saúde física e possuem pouca ou nenhuma preocupação com os cuidados básicos para o seu corpo (COSTA, 2017).

Neste entrecho, torna-se válido destacar que no ano de 2007, por meio do Decreto nº. 6.117 foi aprovada a Política Nacional de Álcool, que visa trazer diretrizes que proporcionam maior visibilidade à questão do álcool. Uma vez que, tal substância é um elemento vulnerável a indivíduos de diferentes faixas etárias, sexo e classes sociais.

Embora se tenha avanços nesta política, o uso deste, deve ser considerado a partir do tripé:

vida social, contexto histórico e cultural. Já que, o consumo de álcool está diretamente ligado ao entretenimento e a cultura brasileira. Além da forte indução, do uso desta substância, proporcionadas pelo marketing comercial, onde as indústrias encontram apoio para defender seus interesses, conflitando com a saúde pública (MEDEIROS, 2013;

GARCIA, 2015).

No que tange, a relação entre diabetes e ocorrência da TB é notório um avolumamento da epidemia da obesidade, a industrialização, a urbanização e as transformações dos hábitos de vida, que favorecem a prevalência do diabetes mellitus (DM). A predisposição a infecções no DM está relacionada à diminuição da imunidade humoral e celular que pode ocasionar casos de TB em áreas endêmicas, principalmente nas zonas urbanas. Pesquisas no âmbito internacional têm sido desenvolvidas para identificar casos de DM e a incidência da TB. Todavia, no Brasil, ainda existem escassez de estudos que visem investigar essa associação (PEREIRA et al., 2016).

Embora neste estudo se tenha verificado um baixo número de casos de TB

BILBERG, 2015). A baixa ocorrência dos casos em Feira de Santana pode estar relacionada à dinâmica no acompanhamento de pessoas com imunodeficiência adquirida, pelo Programa DST/AIDS do município, uma vez que, existe um número considerável de pessoas com diferentes faixas etárias, infectadas pelo HIV, acompanhadas por este programa.