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RESULTADOS E CONCLUSÕES 1 Componente hemodinâmica

No documento Revista Científica (páginas 89-93)

1.REVISÃO DA LITERATURA

3. RESULTADOS E CONCLUSÕES 1 Componente hemodinâmica

Segundo o estudo realizado por Levine e colaboradores (3), a transição imediata para protocolo de si- mulação de microgravidade provoca uma alteração do gradiente hidrostático corporal acompanhada pelo aumento da pressão de enchimento das camaras cardíacas que ocorre com o desvio intratorácico da vo-

lémia. Este conceito ficou objetivamente suportado por um aumento de cerca de 15 % no volume sistólico com pico ao 30° minuto, com a RPT e FC a seguirem tendências semelhantes.

Em linha com o estado da arte, os resultados das variáveis hemodinâmicas no estudo atual, apontam para um desvio de volémia com acumulação intratorácica. Este facto é suportado pelo decréscimo da RPT do momento Basal para o momento inicial de exposição ao ambiente de simulação de microgravidade, acompanhado com aumento do débito cardíaco, aumento do intervalo entre despolarizações ventricula- res, decréscimo da pressão arterial sistólica e diastólica. Fisiologicamente com a exposição imediata ao ambiente de microgravidade simulada (HDT), é expectável um aumento do retorno venoso provocado pela redistribuição do pool volémico oriundo dos membros inferiores para o tórax, causando um aumen- to transitório da pressão venosa central.(4, 5, 6) Como consequência pode especular-se que a pressão de enchimento das cavidades cardíacas (pré-carga ventricular) estará aumentada, havendo maior volume sanguíneo acomodado nos ventrículos antes da sístole. Este fenómeno irá também forçar o alonga- mento das fibras do músculo cardíaco, que pelo mecanismo de Frank-Starling, condicionará uma maior contratilidade cardíaca e dessa forma esvaziamento mais eficaz da cavidade. Estes mecanis- mos podem explicar o aumento do volume sanguíneo bombeado em cada sístole durante o proto- colo HDBR. No entanto, verifica-se, que existem paradoxos entre o observado em ambiente factual de microgravidade e o ambiente simulado. (4) De facto, a pressão venosa central nos indivíduos ex- postos à ausência de gravidade encontra-se diminuída e, mesmo assim, o débito cardíaco e o vo- lume diastólico final estão aumentados. Pode, assim, pensar-se numa diminuição da pressão peri- cárdica como resposta à diminuição, ainda maior, da pressão transmural. (1,4) Verifica-se, portanto, que mecanismos diferentes de aumento de olume sistólico provocam alterações tendencialmente semelhantes. A alteração fisiológica provocativa do desvio volémico, terá também, importantes re- lações com a estimulação dos baroreceptores cardiopulmonares e arteriais, que quando estimula- dos pelo aumento do volume e de pressão irão influenciar, através do mecanismo de arco reflexo, resposta eferente vagal com influência negativa no cronotropismo cardíaco e na resistência vascular periférica (pós-carga ventricular). (7)

O volume sanguíneo ejetado em litros por minuto, mensurado na variável de débito cardíaco, poderá revelar alterações a variar entre a manutenção dos valores antes do protocolo HDT e o aumento(4) dependendo do resul- tado entre a combinação da diminuição da frequência cardíaca (influenciada pela sensibilidade do baroreflexo da população em estudo) com aumento do volume sistólico influenciado essencialmente pela pré-carga, con- tratilidade miocárdica e pós-carga. A pressão arterial, por sua vez, está diretamente correlacionada com a ten- dência do resultado entre a variação da resistência periférica total e do débito cardíaco que constituem os seus principais determinantes. No contexto de exposição imediata a microgravidade simulada tanto a pressão arterial sistólica como a diastólica apresentam-se diminuídas (5, 8, 9) o que aponta para que a vasodilatação exerça uma pressão mais importante que o aumento do débito cardíaco.

Depois da exposição imediata ao novo ambiente fisiológico, decorrerá a fase de remodelagem provo- cada pelas alterações induzidas pela nova pressão adaptativa, que ocorrerá nas 24-48 horas seguintes à exposição (3, 4, 5). Nesse contexto, é evidenciado no estudo actual, uma alteração na tendência de todas as variáveis. O débito cardíaco e a RPT iniciam a alteração de tendência imediatamente após B1.3, man- tendo-a ao longo de todo o protocolo. Os IRR atingem o seu valor máximo no momento B2 (30°minuto) e, de seguida, reverte a tendência diminuindo ligeiramente até B4. Por outro lado, PAs e PAd mantiveram a tendência descendente até B2 (valor máximo), revertendo a tendência em B3 com valores superiores aos evidenciados em basal, alterações essas, não suportadas por relevância estatística.

Segundo a bibliografia, a remodelação fisiológica ocorre pela perda de volume efetivo, que consequen- temente provocará redução da pré-carga por diminuição da pressão de enchimento ventricular e diminuição do trabalho miocárdico (3, 4, 5, 6, 7) . Estas alterações explicam a redução do volume sistólico e, também, conse- quentemente do débito cardíaco. Pode ser especulada uma adaptação vascular com a redução do volume efetivo, através do fenómeno de diminuição de resistência periférica total, com influência direta sobre os baroreceptores cardiopulmonares e arteriais.

Estes vão ser tendencialmente menos estimulados com a perda de volume, que através do arco ba- roreflexo reduzirão o tónus eferente vagal e consequentemente o encurtamento entre as despolarizações ventriculares (IRR).

As alterações evidenciadas neste estudo estão em linha com a bibliografia, no entanto, a duração do protocolo não é suficiente para ser percetível toda a extensão das alterações da fase de remodela- gem.

A manutenção das tendências e ordens de grandeza de todas as variáveis hemodinâmicas quando comparadas com o momento de antes da prova de stress, demonstram que a readaptação ao momento de repouso após momento de stress (.3) é rápido e adequado, voltando a nivelar em valores semelhantes a (.1).

3.2 Reflexo Baroreceptor

Como discutido em cima, o mecanismo adaptativo de feedback do baroreflexo constitui a pedra de toque na manutenção da homeostasia do sistema hemodinâmico nas várias fases de adaptação ao novo meio. Neste contexto, a avaliação da eficácia da sua resposta assim como a sensibilidade em meio simula- do de microgravidade torna-se fundamental.

Segundo o estudo Di Rienzo et al (7), a sensibilidade do baroreflexo em fase aguda de exposição MG, vai estar aumentada. De seguida, com a fase de remodelação ocorrerá um desvio na tendência com a diminui- ção deste componente até valores inferiores aos encontrados em Basal. Di Rienzo et al (7), também conclui que durante o exercício com cicloergómetro a sensibilidade do baroreflexo manteve-se significativamente reduzida comparativamente ao repouso, contudo manteve a mesma resposta tanto em ambiente terrestre como em MG. Relativamente à eficácia do baroreflexo, concluiu-se que o BEI ou índice de eficácia do baro- reflexo se encontrava ligeiramente mais baixo durante MG sem que este fosse significativamente diferente dos valores adquiridos em ambiente terrestre.

Em linha com a bibliografia, o estudo atual demonstra um aumento na sensibilidade Baroreflexo de cerca de 68% entre o momento B1 e B2 no segmento pré-stress (.1), contudo esta alteração não é devi- damente suportada pela estatística, grande parte devido à reduzida dimensão da amostra e grande varia- bilidade dos valores obtidos. Quando analisada a componente de stress verifica-se a redução expectável da sensibilidade do baroreflexo e a manutenção dos valores encontrados em Basal ao longo de todo o protocolo.

Relativamente ao segmento de recuperação após provocação de stress mental (.3), verifica-se um au- mento da sensibilidade do baroreflexo desde o momento B1 até ao B5. Esta evidência segue uma tendên- cia contrária ao verificado em repouso+HDT (.1) e tem que ser integrada com a resposta da variação das variáveis hemodinâmicas de stress para pós-stress. Neste contexto, após a cessação da manobra simpa- toexcitatória, haverá a fase onde as adaptações agudas ao stress vão ser recalibradas para o retorno às necessidades em repouso.

Esse momento é essencialmente mediado pelo desvio simpatovagal em prol do ramo parassimpático do SNA. Este facto irá potenciar a intensidade da resposta do baroreflexo com vista a balancear rapidamen- te a FC, RPT, CO e PA. No presente estudo, a manutenção das tendências e ordens de grandeza de todas as variáveis hemodinâmicas em (.3), quando comparadas com o momento de pré-stress, demonstram que a readaptação ao momento de repouso após momento de stress é efetuado de forma eficaz, voltando a nivelar em valores semelhantes a (.1).

Relativamente à efetividade do baroreflexo, os resultados obtidos neste estudo demonstram tal como Di Rienzo et al.(7) a manutenção de BEI em níveis estáveis ao longo dos 120 minutos tanto no segmento de pré-stress, como em stress e pós-stress.

3.3 Sistema nervoso autónomo e variabilidade de pressão arterial e frequência cardíaca

Tal como concluído pela task force “Computational tools for assessing cardiovascular variability” (2), a variabilidade cardíaca pode ser avaliada em função do tempo e da frequência.

Atualmente, a análise espectral em ordem à frequência é amplamente utilizada pela comunidade científica no estudo do Sistema Cardiovascular. Através desta ferramenta, o espectro da frequência pode ser decomposto em dois componentes fundamentais, LF (baixa frequência) e HF (alta frequência), correspondendo a modulação simpática vasomotora e arritmia sinusal respiratória, respetiva- mente. Neste contexto, o aumento LF correlaciona-se com a estimulação simpática (SNS) do nódulo SA e consequente aumento da FC, enquanto a estimulação parassimpática (SNP), correspondente ao aumento de HF, potencia um decréscimo da FC.

No contexto da modulação autonómica em ambiente microgravitacional, muitas teorias têm sido formula- das, contudo não existe suporte cientifico numa única direção. No entanto, durante a fase aguda, na qual se integram as alterações do presente estudo, existe a evidência bibliografia de predominância da modulação pa- rassimpática cardiovascular (7,8,10). Estas alterações podem ser verificadas nos segmentos de repouso e stress, onde a banda LF se encontra mais acentuada durante o protocolo HDT do que em posição supina. O segmen- to pós-stress mental demonstra valores constantes da fração HF compatíveis com a resposta parassimpática à readaptação pós-provocatória. Apesar destas evidências em linha com a bibliografia, a fração LF/HF não é compatível com predominância parassimpática em exposição de fase aguda, visto que aliado a um aumento da componente parassimpática, decorre um aumento superior da componente simpática. Esta incongruência verificada pode ser explicada pelo desconforto da técnica HDT que pode ter enviesado os resultados.

3.4 Stress mental

A análise da simpatoexcitação provocada nos voluntários, em momentos chave durante o proto- colo, demonstra uma resposta mantida de aumento da FC, com desvio simpático do balanço simpato- -vagal sendo evidenciável um aumento da componente HF e diminuição da LF. Objectivamente, houve um incremento durante os 5 momentos de stress, em BASAL (B1) o aumento em média foi de cerca de Δ7 bpm e de Δ10 bpm durante a simulação de microgravidade (HDT).

Cada vez mais se teoriza uma importante componente interindividual, onde as alterações observa- das dependem sobretudo dos valores antes do voo do que propriamente da pressão adaptativa provo- cada pelo meio microgravitacional.

3.5 Limitações do estudo

Destacam-se a ausência de controlo ventilatório directo pois é importante conhecer não só a frequência respiratória mas, também, o volume corrente. A intensidade da estimulação de stress deveria ter sido mais variada evitando a habituação ao estímulo stressor. Também a dimensão da amostra e a duração do proto- colo deverão ser optimizados em estudos posteriores.

Em conclusão, com o presente estudo pretendia-se fazer a validação do laboratório de estudos autonó- micos para a execução de estudos em microgravidade simulada. Os resultados obtidos a partir da avaliação de voluntários jovens e sem desmonstração clinica de doença sujeitos a um protocolo de microgravidade simulada por tilt down são semelhantes aos obtidos noutros laboratórios pelo que o laboratório possui as condições necessárias para o estudo das adaptações agudas a microgravidade simulada em laboratório.

No documento Revista Científica (páginas 89-93)