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Apresentado o enquadramento da banda desenhada, revela-se importante uma atenção ao género dentro do qual se insere o presente projeto. O romance mostra-se significativamente representado nos comics americanos e as suas narrativas ilustradas assemelham-se tematicamente às das fotonovelas, que contam as mesmas histórias, recorrendo antes à fotografia. Segundo Michelle Nolan, durante cerca de três décadas, os Romance Comics foram uma instituição americana.64 Contudo, apesar da sua notória popularidade durante os anos 50, a influência do género no panorama geral da banda desenhada é frequentemente desvalorizada.

As narrativas refletidas nos Romance Comics assemelham-se às histórias de milhares de revistas pulp, revistas confessionárias e radionovelas produzidas desde meados de 1920 até à década de 1950 e adiante. Publicada em julho de 1947 pela editora Hillman, a primeira edição de My Date é considerada como o primeiro Romance Comic, apesar de se tratar, na verdade, de uma comédia adolescente que aborda o tema do amor.

Conta com a arte de Jack Kirby, autor que, dois meses depois, juntamente com Joe Simon, apresenta a primeira obra assumidamente romântica, estabelecendo o género - Young Romance.65 O sucesso da mesma revelou o seu potencial, e dois anos mais tarde, em 1949, várias outras editoras concretizaram as suas ambições de capitalizar a partir da sua popularidade.

64 C.f. Nolan, M. (2015). Love on the Racks. McFarland. “For the better part of three decades, romance comics were an American institution”. Trad. livre do autor

65 C.f. Goulart, R. (1992). Encyclopedia of American Comics (pp. 311–313). Facts On File.

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Fig. 10 – Capas de My Date #1 (Kirby,1947), à esquerda, e Young Romance #1 (Kirby & Simon, 1949), à direita.

A maioria das pequenas e grandes editoras de banda desenhada americanas na década de 1950 publicou títulos românticos e cada uma procurou distinguir-se por estilos individuais, resultando numa interpretação do género muito livre. Contudo, o grande volume de publicações que foram sendo sucessivamente editadas era produzido por pequenas equipas de artistas e escritores, algo que se veio a refletir em algumas qualidades do material. Os guiões eram, na sua maioria, redigidos pelos autores que participavam em outros géneros, dentro das mesmas editoras, vendo-se obrigados a reciclar clichés66, confrontados com o volume de trabalho e a escassez de tempo.

A banda desenhada foi fortemente censurada no final de 1954 através da entidade Comics Code Authority e várias editoras caíram em falência. Assim, o número de edições de Romance Comics diminuiu significativamente e, por consequência, a proliferação e desenvolvimento do género foram interrompidos, consolidando-se fórmulas narrativas já populares. Nos últimos anos da década de 1950 e na década que se seguiu, o género já diminuído era dominado pelas maiores editoras, obedecendo a modelos de narrativa rígidos. Distinguem-se títulos da editora DC como Girls’ Love Stories, Girls’ Romances, Secret Hearts e Falling in Love.67

66 C.f. Goulart, R. (1992). Encyclopedia of American Comics (pp. 311–313). Facts On File.

67 Ibidem.

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Fig. 11 – Capas: Girl’s Love Stories #174, Girls Romances #124, Falling in Love #119, Secret Hearts #120.

27 Na década de 1960, a revolução sexual e o movimento feminista questionaram os valores patriarcais propagados nestas histórias e, desde então, os Romance Comics têm vindo gradualmente a transformar-se em paródias das narrativas que inicialmente retratavam.68

Direcionaram-se, assim, a um público feminino, desde a adolescência até a idade adulta. Estabeleceu-se o público-alvo destas histórias ao abordar questões mais maduras como problemas matrimoniais, o trabalho e a carreira, relações entre gerações e classes sociais, além de outros tópicos. Estas histórias eram, naturalmente, frutos dos seus tempos e representavam realidades da respetiva época – a opressão da Mulher e o seu papel na sociedade eram evidentes pela falta de autoridade das protagonistas destas histórias sobre o seu próprio destino, estando as suas aspirações raramente em pé de igualdade com as do sexo oposto.

Os Romance Comics constituem um género de banda desenhada que aborda situações verosímeis, por oposição a personagens dotadas de superpoderes ou criaturas sobrenaturais. Contudo, a “vida real” representada nestes romances é um conjunto de fantasias plausíveis apenas em ficções, podendo ser interpretadas, no máximo, como situações invulgares e romantizadas.69

A influência artística e cultural dos Romance Comics consagrou-se como parte integrante do património dos E.U.A., enquanto elemento do imaginário Americana. A sua relevância comprova-se pelas recorrentes referências estéticas a estas publicações na cultura Pop. Salienta-se, entre elas, o artista plástico Roy Lichtenstein, que apropriou e recontextualizou imagens de Romance Comics em algumas das suas obras.

68 C.f. Nolan, M. (2015). Love on the Racks. McFarland.

69 Ibidem.

28 4.2.1 O Romance e o Humor: Archie’s Girls: Betty and Veronica

A reinterpretação da fotonovela que se pretende concretizar na componente prática deste projeto visa apresentar de forma irónica as narrativas típicas das fotonovelas, também presentes nos Romance Comics, recorrendo para isso ao humor. Com base nestes dois contextos culturais distintos, mas semelhantes e contemporâneos, torna-se pertinente uma observação sucinta do humor em banda desenhada, bem como da sua aproximação ao romance. As origens da conjugação entre o humor e o romance identificam-se no género da comédia adolescente. Destacam-se, nesse contexto, os livros de banda desenhada de autoria atribuída à editora Archie Comics Publications, cujas publicações tiveram início no ano de 1941. O universo nelas retratado situa-se na cidade fictícia de Riverdale e as suas histórias descrevem situações de uma vida adolescente idealizada, abordando temas como a escola, o desporto, trabalhos part-time, a amizade e o romance, atribuindo a Archie o papel de protagonista, que se vê encurralado num triângulo amoroso entre Betty e Veronica.7071

A série Archie’s Girls: Betty and Veronica, segmento da editora já identificada, estreou o seu primeiro volume em 1950 e apresenta uma outra perspetiva, centrada no ponto de vista das duas raparigas, abordando tanto os seus afetos por Archie como a relação entre ambas.

“Betty Cooper e Veronica Lodge são extremos opostos. Betty é uma maria-rapaz humilde e doce, enquanto Veronica é rica, egocêntrica e extremamente ambiciosa. Os únicos aspetos que têm em comum são Archie e o facto de serem melhores amigas. As aventuras das “melhores amigas e piores inimigas” em Riverdale é o tema da revista mensal “Betty & Veronica”, com o par a dar provas constantes de que dois opostos podem ter, afinal, a melhor das amizades!”72

70 C.f. Sava, O. The evolution of Archie Comics: updating the Riverdale gang for the 21st century. Vox; Vox.

71 C.f. Goulart, R. (1992). Encyclopedia of American Comics (pp. 12–13). Facts On File.

72 Archie’s Girls Betty & Veronica. Archie Comic Publications. “Betty Cooper and Veronica Lodge are polar opposites: Betty is the humble, sweet, and tomboy-ish girl-next-door, while Veronica is rich, self-absorbed, and extremely ambitious. The only things they have in common are Archie and the fact that they are best friends. The adventures of "best friends and worst enemies" in Riverdale is the subject of the “Betty &

Veronica” book each month, as the two constantly prove that opposites do make for best friends!”

29 Direcionadas sobretudo a um público adolescente, estas bandas desenhadas adequam-se também às famílias, o que permitiu a sua transmissão de geração em geração e solidificou o seu nome como uma referência icónica e intemporal.

A fórmula narrativa que se repete ao longo dos episódios não se revela complexa, sendo a sua simplicidade uma característica refletida de igual forma na identidade visual das pranchas.

O artista responsável pela modernização das personagens e que consequentemente estabeleceu o estilo gráfico emblemático da série é Dan deCarlo, que trabalhou como freelancer para a Archie Comic Publications desde a década de 1950 até meados de 1960.73

Fig. 12 – Capa de Archie’s Girls: Betty and Veronica #1 (Vigoda et al., 1950)

73 C.f. Sava, O. The evolution of Archie Comics: Updating the Riverdale gang for the 21st century. Vox; Vox.

30 5 Reinterpretação da fotonovela

Este projeto pretende reunir as três condicionantes que lhe serviram de motivação:

a preferência pela banda desenhada como ferramenta narrativa, a motivação pelo desenvolvimento de estéticas alusivas à nostalgia, neste caso através da fotonovela, e a comunicação específica com um público-alvo português.

As etapas de realização desta banda desenhada não seguiram uma ordem rígida, tendo havido lugar a momentos de reconsideração de aspetos anteriormente dados como adquiridos. Contudo, para fins descritivos, divide-se o processo criativo em duas etapas –os processos preliminares e a realização da banda desenhada – os quais se desdobram posteriormente em vários capítulos.

O objeto resultante deste trabalho visiona-se como um álbum de formato A5, com a extensão aproximada de cem páginas impressas em papel reciclado com uma textura rugosa e uma gramagem média.

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