• Nenhum resultado encontrado

Síntese conclusiva

No documento PROFETA TAUMATURGO E MESSIAS INAUDITO: (páginas 90-94)

89

(4) A reverência dos beneficiários de seus milagres que o chamam “pai” e

“senhor”;

(5) A veneração ao profeta Eliseu aparece claramente no texto com o pedido do rei de Israel para que Giezi lhe conte todas as grandes coisas que Eliseu fez (2 Rs 8,4). E diz “note-se que este é o único lugar da literatura bíblica em que nos deparamos com a transmissão de tradições que lidam com uma pessoa em vez do Senhor e que em outras partes da Bíblia gedolot ‘grandes coisas’ sempre se refere aos atos divinos ou milagres.”60

(6) O relato de ressurreição pós-morte é, para Shemesh, a coroação dos louvores do profeta e reconhecimento do mesmo como santo homem de Deus.

Corroboramos a leitura de Yael Shemesh por ver nisso uma autoridade humana que vem do próprio Deus. Não existe nenhuma oposição entre o homem santo de Deus e seu Senhor e Deus. Antes, é justamente por conta de sua estreita e íntima relação com Deus que esse pode agir com autoridade. O drama de Eliseu é uma lenda de santo ou uma hagiografia profética e narra a vida de um homem tocado por Deus e guiado por Seu espírito.

Assim, podemos ir além e explicitar que o drama de Eliseu, bem como a inteira narrativa Elias-Eliseu, é uma hagiografia profética e, como tal, nada mais é que uma história salvífica em forma biográfica, pois os relatos pretendem revelar a ação de Deus na história de seu povo através das ações dos profetas Elias e Eliseu.

90

processo de reconhecimento de Jesus messias através de sua ação portentosa.

Brodie vê a inteira narrativa Elias-Eliseu como uma espécie de modelo para os evangelhos e considera de modo especial Lucas e Marcos. Nosso interesse aqui é explorar a inspiração da personagem Eliseu e seu drama na composição e apresentação de Jesus no Evangelho segundo Marcos e é isso que veremos a seguir.

91

3 A CONFIGURAÇÃO DA PERSONAGEM JESUS: PROFETA PODEROSO E MESSIAS SOFREDOR

Encontramos a unicidade fundamental do Evangelho segundo Marcos em níveis diversos de sua escrita. Dizendo isso, queremos chamar a atenção para os diferentes níveis de percepção aos quais sua narrativa convida.

Existe um nível em que a história acontece entre as personagens, enquanto o ouvinte-leitor de alguma forma assiste ao que se passa e pode tirar conclusões a partir do que lê ou escuta. Existe um nível em que o narrador fala ao público implícito1 e, consequentemente, ao leitor, orientando-o assim a tirar conclusões em relação aos dados da narração. Existe, ainda, o nível mais sutil e difícil de apreender, que é o da mensagem veiculada por trás das afirmações feitas e dos fatos cuidadosamente narrados.

Elizabeth Malbon percebeu essa característica multinível marcana. No entanto, sua leitura se distingue um pouco da que acabamos de apresentar. Ela identificou três níveis na narrativa, partindo da noção de conflito, ao refletir sobre

“o que Jesus faz em relação a quem.”2 O que mais chama a atenção no estudo dessa autora é a percepção de que as relações de Jesus com as outras personagens da trama são basicamente relações conflituosas.

Ela apresenta esses três níveis apreendidos pelos conflitos entre Jesus e os grupos de personagens. O primeiro deles é o grupo das personagens transcendentes, em segundo vem o das autoridades e, em terceiro, o dos discípulos.

Ao primeiro, ela nomeia conflito no plano de fundo, ao segundo, conflito no plano intermediário, e ao terceiro, conflito em primeiro plano.3

1 Para mais esclarecimentos sobre os conceitos próprios à crítica narrativa sobre autor (implícito e real) e leitor (implícito e real), narrador e narratário, e personagens consultar BONNEAU, Guy. San Marco: nuevas lecturas. Estella: Verbo Divino, 2003 e MALBON, Elizabeth Struthers. Mark’s Jesus: Characterization as Narrative Christology. Waco, Tex: Baylor University Press, 2009. Ou ainda o excelente manual de crítica narrativa de MARGUERAT, Daniel. La Bible se raconte: initiation à l’analyse narrative. Paris: Cerf , 1998.

2 MALBON. Mark’s Jesus, p. 43.

3 Optamos por essa tradução dos termos “background conflict”, “middle-ground conflict” e

“foreground conflict” para manter a ideia de planos como numa película de cinema. Ibid., p. 43-55.

92

Para Malbon, as intercalações em Marcos vão além de narrativas específicas4 e alcançam todo o Evangelho, isso torna esses níveis de conflito determinantes para a interpretação da narrativa de Marcos. Com base nisso, Malbon diz que todos os outros conflitos de Marcos devem ser lidos a partir desse conflito inicial com os seres transcendentes que revelam uma oposição entre o reino de Deus e o reino de Satanás. Textualmente:

O conflito de fundo subjacente ao Evangelho segundo Marcos é aquele entre o reino de Deus e o reino de Satã. O “reino de Deus se aproxima” (1,15), e para o reino de Satã o “fim se aproxima” (3,26).

Tudo o mais que acontece em Marcos deve ser entendido frente a esse pano de fundo transcendente.5

Se ela tem razão quanto a isso, então a configuração de Jesus como messias deve também se encontrar dentro dessa dinâmica do transcendente. Como exatamente se dá a apresentação de Jesus em relação a esse pano de fundo? Como Marcos desenvolve essa apresentação de sua personagem principal?

Cremos que cada detalhe da intriga marcana é uma peça indispensável na apresentação de Jesus. Mas isso se dá de modo processual, num diálogo que se instaura entre o narrador e o narratário, entre o autor implícito e o público implícito6 de sua narrativa. Assim, o lugar escolhido pelo autor para cada trecho tem sua razão de ser, fazendo da estrutura geral do Evangelho um dado importante para a composição do quadro que revela a personagem Jesus.

Como veremos adiante, é essa leitura narrativa que permite uma visão multinível do Evangelho e distingue, praticamente, o estudo de Malbon dos estudos de outros autores7 que se mantêm no nível mais da superfície, ou seja, no nível

4 Como é o caso da cura da hemorrágica no interior da narrativa de cura da filha de Jairo em Mc 5,21-24/25-34/35-43).

5 Tradução nossa. “The background conflict underlying Mark's Gospel is that between the kingdom of God and the kingdom of Satan. The ‘kingdom of God has come near’ (1,15), and for Satan's kingdom the ‘end has come’ (3,26). Everything else that happens in Mark is to be understood against this transcendent background.” MALBON, Mark's Jesus, p.

43.

6 Malbon nos recorda que atualmente “muitos críticos narrativos têm dado preferência à expressão ‘público implícito’ em vez de ‘leitor implícito’ em reconhecimento aos contextos orais/auriculares originários das narrativas bíblicas.” Ibid., p. 7.

7 Tais como KONINGS, Johan. Marcos. São Paulo: Loyola, 1994; MINETTE DE

93

mais imediato ao qual se chega pela análise do material marcano em suas particularidades, sem analisar a intriga narrativa que mostra a unidade e o dinamismo do texto, bem como seu nível mais profundo.

No documento PROFETA TAUMATURGO E MESSIAS INAUDITO: (páginas 90-94)