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Segundo Marcos (e Lucas): o batismo de arrependimento para

No documento REINO DE DEUS E CONVERSÃO (páginas 92-95)

2.6 João Batista e o reino de Deus

2.6.1 Segundo Marcos (e Lucas): o batismo de arrependimento para

No evangelho de Marcos, João não fala do reino de Deus. Sua mensagem foi sintetizada por Marcos como “arrependimento para a remissão dos pecados” (Mc 1,4).

122 Cf. PAGOLA, Jesus, p. 91.

123 Cf. PAGOLA, Jesus, p. 91.

124 VIDAL, Jesus, o Galileu, p. 37.

125 VIDAL, Jesus, o Galileu, p. 37.

126 Cf. PAGOLA, Jesus, p. 92.

93 A pregação do Reino caberá a Jesus, após João sair de cena (Mc 1,14-15). João pregou a possibilidade do perdão dos pecados, na condição de arrependimento. A recepção da proposta de perdão foi expressa simbolicamente com o ser mergulhado nas águas do rio Jordão, pelo que João recebeu o epíteto de “o Batista”127. Assim se explica que os judeus da Judeia e de Jerusalém se submetessem ao batismo de João, confessando seus pecados (Mc 1,5 // Mt 3,6).

A ligação entre o perdão e o ser imerso em água decorre do fato de que, no ritual de purificação do Antigo Testamento, é frequente o uso metafórico da água para a limpeza moral128 (Sl 51,4-11; Is 1,16-17; Ez 36,25). João explora essa associação metafórica, e usa a imersão na água como símbolo para o perdão que o povo recebeu na condição de arrependimento. João deve ter entendido “ser imerso na água”, não só como símbolo do perdão, mas como um meio de purificação ritual. Dá-nos a impressão de que João estava oferecendo ao povo tanto o perdão como também a purificação ritual.

Também Lucas descreve João Batista pregando no deserto um batismo de conversão que leva à remissão dos pecados (Lc 3,8). “A sua pregação desafia o povo a produzir frutos dignos de penitência e não, se apoiar em seu status de descendentes físicos de Abraão”129. Mc 1,4 é citado por Lucas, em At 11,16: “João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo”. Logo após, em At 11,21, lemos: “E a mão do Senhor estava com eles e grande número acreditou e se converteu ao Senhor”.

Este é o verdadeiro arrependimento bíblico, reconhecer a culpa de um pecado e voltar para o Senhor a fim de receber o perdão. Para João Batista, a conversão significa ruptura com a vida de pecado”130. “Na narrativa da infância, o anjo Gabriel define a atividade de João como „fazer voltar‟” (evpistre,fw)131 os filhos de Israel ao Senhor seu Deus, a fim de preparar um povo digno e agradável ao Senhor (cf. Lc 1,16-17).

127 Cf. supra.

128 Para o uso da metáfora da lavagem com água para transmitir a ideia de purificação escatológica do pecado, cf. Ez 36,25-29; Is 4,3-5.

129 MATERA, Ética do Novo Testamento, p. 95.

130 LÉON-DUFOUR, Agir Segundo o Evangelho, p. 25.

131 VINE afirma que evpistre,fomai significa “voltar-se, virar-se, virar em direção a” , é usado no transitivo evpistre,fw, e assim traduzido em Tg 5, 19-20 por “converter” (fazer uma pessoa virar). Em outros lugares, o verbo é usado ou na voz média e uso intransitivo, ou na voz passiva, com o significado de voz média evpistre,fomai (Mt 13,15; Mc 4,12; Lc 22,32; At 3,19; 28,27) (VINE, Dicionário VINE, p.

508).

94 João vai dando ao povo instruções morais de como deve ser, de como se portar diante da chegada iminente do reino de Deus (cf. Lc 3, 10.12.14). “O ensinamento ético de João prefigura tema importante da pregação de Jesus: o uso correto das posses”132. Diante da pregação de João Batista, somos informados de que o povo e os publicanos aceitaram o batismo de João, porém, os fariseus e escribas recusaram ser batizados por ele e desprezaram o plano salvífico de Deus (cf. Lc 7,29-30).

Quando o Apóstolo Paulo encontrou em Éfeso alguns dos discípulos de João, disse-lhes que João batizava com batismo de conversão, instruindo o povo a crer naquele que era o “mais poderoso do que eu”133 (o` ivscuro,tero,j mou) (Mc 1,7), ou seja, Jesus de Nazaré (At 19,4).

Lucas tinha, assim, plena consciência de que a obra do Batista ainda não era a inauguração do Reino que aconteceria com Jesus. Ele exprimiu isso, literariamente, aprofundando a separação temporal entre a atividade dos dois já na cena do batismo de Jesus, que pode ser considerada como a investidura do Messias. Jesus é o agente messiânico134. Para evitar qualquer confusão, e para não ter de voltar a falar sobre o Batista no episódio do banquete de Herodes (Mc 6,17-29 // Mt 14,3-12), Lucas encerra definitivamente o período de João (conforme o dito de Lc 16,16), relatando a morte do Precursor ainda antes de descrever a investidura do Cristo (Lc 3,20). Além disso, transforma a cena do batismo de Jesus, em relação a Mc 1,9-11, situando a teofania e descida do Espírito Santo não no momento do batismo, mas na oração de Jesus que se seguiu ao batismo (Lc 3,21-22).

Na apresentação de Marcos e Lucas, João Batista era um pregador muito direto e sem rodeios. Aos fariseus e saduceus que vinham ao seu batismo, dizia-lhes sem temor:

“Crias de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?” (Mt 3,7//Lc 3,7). Na pregação de João Batista não há relatos de milagres ou curas. O grande milagre que João fazia era a transformação da mentalidade dos seus ouvintes.

João Batista anunciou a iminência da intervenção de Deus na história. “Com a aparição de Jesus, está terminado o tempo do Batista, que cederá lugar ao tempo de

132 MATERA, Ética do Novo Testamento, p. 95.

133 VIDAL, Jesus, o Galileu, p. 58.

134 Cf. VIDAL, Jesus, o Galileu, p. 60.

95 Jesus”135. O período Batista tem apenas caráter de preparação. Ele é chamado de

“precursor”. O batismo de Jesus não pertence mais ao tempo do Batista. Mas já é irrupção do cumprimento messiânico136.

A missão de João apontava para fora dele mesmo. Ele era um precursor, arauto para proclamar que “Aquele que era maior do que ele” estava para aparecer e para prevenir o povo para recebê-lo. Assim, João era um construtor de estrada para Jesus e executou sua missão de três modos:

1) anunciando que o Messias estava para surgir (Mt 3,11-12; Mc 1,7-8; Lc 3,16-18);

2) convidando as pessoas para preparar-se, abandonando os pecados (Mt 3,2; Mc 1,15;

Lc 3,3);

3) batizando-as como demonstração pública de que haviam dado ouvido à mensagem d‟Aquele que haveria de vir (Mt 3,5-6; Mc 1,4-5; Lc 3,7) .

2.6.2 Segundo Mateus: João anunciando o Reino e reconhecendo as obras

No documento REINO DE DEUS E CONVERSÃO (páginas 92-95)