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4.1. Sobre Dorian Gray

4.1.5 Sentindo o horror de si

Com o passar do romance, Dorian Gray assume sua postura de dândi, exacerbando o luxo, a pose e a moda “e o Dandismo, que a seu próprio modo constitui uma tentativa de afirmar a modernidade absoluta da beleza, [que] sem dúvida, exerciam grande fascinação sobre ele” (WILDE, 2014, p. 227). É no Dandismo, cujo narrador enfatiza com letra maiúscula, que Dorian Gray revelará

“seu estilo de vestir, bem como as peculiaridades que exibia de tempos em tempos”

(WILDE, 2014, p. 227) e que todos os jovens dos bailes o copiavam. Essa caracterização do estilo de Dorian também lembra-nos o próprio estilo de Oscar Wilde, com suas vestimentas excêntricas com meias de cetim até os joelhos, paletós e sobretudos de veludo, capas, peles de animal, bengalas e charutos à mão e suas famosas flores postas sob a lapela, por exemplo, que foram muitas vezes satirizadas em charges136 de periódicos vitorianos como o The Punch.

136 Exemplos de charges vitorianas que satirizam o estilo de Oscar Wilde:

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%20punch&ved=2ahUKEwju59b74ZnrAhVmBbkGHT-nCMMQMygLegUIARCYAQ.

Nesse sentido, outro ponto importante que merece comentário são as fotografias mais conhecidas de Wilde, que retratam uma óbvia relação com o estilo dândi. Em muitas destas, Wilde é fotografado em poses sérias através de imagens encenadas, como num tableau vivant, que é “resultado da estética onde o fotógrafo pensa o espaço da representação como uma espécie de palco de teatro sobre o qual os modelos vêm atuar” (POIVERT, 2016, p. 104), bem como Dorian Gray o faz ao tentar “reproduzir o encanto acidental das afetações elegante” (WILDE, 2014, p.

231). Mas além disso, Dorian queria

ser algo mais que um simples arbiter elegantiarum, a ser consultado sobre o uso de uma joia, o laço de uma gravata ou como carregar uma bengala.

Com efeito, buscava elaborar um novo esquema de vida que possuiria uma filosofia bem fundamentada e princípios normativos, tendo como realização máxima a espiritualização dos sentidos (WILDE, 2014, p. 231).

Assim, Dorian torna-se-á um Eleito, expressão que Wilde usa em A decadência da mentira para definir “os Hedonistas fatigados. [...] Julga[do]s como alimentando uma espécie de culto à Domiciano por trazer[em], durante as reuniões, rosas fanadas nas botoeiras” (WILDE, 1994, p. 28). E justamente a partir da aproximação com as mais variadas formas do belo que Dorian Gray de fato experimenta o poder de suas sensações.

Regressando às ideias de Locke, também consideramos relevante apontar aqui a definição que o filósofo inglês idealiza para sensação, cujo significado também se materializa na caracterização do modo de vida de Dorian Gray e suas filosofias de vida.

O objeto da sensação é uma fonte das ideias. Primeiro, nossos sentidos, familiarizados com os objetos sensíveis particulares, levam para a mente várias e distintas percepções das coisas, segundo os vários meios pelos quais aqueles objetos os impressionaram. [...] Quando digo que os sentidos levam para a mente, entendo com isso que eles retiram dos objetos externos para a mente o que lhes produziu estas percepções. A esta grande fonte da maioria de nossas ideias, bastante dependente de nossos sentidos, dos quais se encaminham para o entendimento, denomino sensação (LOCKE, 1999, p. 57-58).

Nesse pensamento entendemos que os sentidos quando estão conectados a objetos, levam à mente a perceber as coisas. Em Dorian Gray, nos perguntamos o que seria o objeto de sensação. E no tocante às sensações que a Arte desperta no personagem, Wilde cita diretamente a arte gótica. Como aponta Frankel (2014, apud WILDE, 2014), esses pensamentos provêm dos estudos de Walter Pater em O

Renascimento, que Wilde defendia igualmente quando estudou em Oxford. Numa digressão filosófica, o narrador expõe no capítulo IX que:

[p]oucos de nós não terão despertado antes do raiar do sol, após uma dessas noites sem sonhos que quase nos fazem quase enamorados pela morte, ou daquelas repletas de horror e de falsa alegria, quando pelos salões da mente transitam fantasmas mais terríveis do que a própria realidade, transbordantes daquela vivacidade que se esconde sob todas as coisas grotescas e que confere à arte gótica seu vigor duradouro por ser a que nasce, é de crer, que nas mentes perturbadas pelos distúrbios do devaneio. Pouco a pouco, brancos e trémulos se infiltram pelas cortinas.

Fantásticas sombras negras rastejam para os recantos dos aposentos, lá se acocorando (WILDE, 2014, p. 233).

O trecho revela “os modos de pensar” (WILDE, 2014, p. 234) de Dorian quando contempla a arte gótica. As sensações obscuras que ela desperta no personagem são realçadas mais uma vez pelo uso intenso de vocábulos com carga semântica negativa e que denotam o tom sombrio do gótico. Há ainda uma relação de interno versus externo no tocante à visão que o gótico desperta naqueles que o apreciam. Dessa forma, o espaço gótico descrito pelo narrador contribui para compreendermos os efeitos da noite para a criação de uma atmosfera pesada e negativa, permeada de visões fantasmagóricas, pesadelos e devaneios, que se relacionam à estética do sublime (BURKE, 1993).

Ainda encantado pelos efeitos que as sensações podiam lhe causar, Dorian Gray “estudou os perfumes e os segredos de sua manufatura, destilando óleos aromáticos e queimando resinas olorosas do Oriente [...]. em outra época, devotou- se inteiramente à música” (p. 235), colecionando artefatos curiosos e se deixava levar pelo “caráter curioso desses instrumentos, e ele se deixava deliciar ao pensar que a Arte, assim como a Natureza, tem seus monstros, objetos de formato bestial e como vozes medonhas” (WILDE, 2014, p. 237). Não obstante, depois de algum tempo ele se cansava deles, e voltava a sentar num camarote, sozinho ou na companhia de lorde Henry, ouvindo a ópera Tannhaüser por ver naquela grande obra de arte uma representação da tragédia de sua própria alma (WILDE, 2014, p.

237), desvelando mais uma vez a relação da sua vida com a arte.

As experiências pelas quais revela sentir as chamadas sensações apenas intensificam o efêmero. É nessa forma que Wilde faz uma crítica ao transitório, como se o prazer servisse apenas para preencher uma lacuna no momento de êxtase e fuga da realidade. E assim Dorian Gray torna-se cada vez mais dependente da arte para evadir sua solidão. Continuando, no nono capítulo, o narrador apresenta-nos as

múltiplas influências artísticas que Dorian desfrutou ao longo dos anos, mas em certo ponto de sua vida, chegara a “entristecer-se ao refletir sobre a destruição que o Tempo causava em objetos tão bonitos e delicados” (WILDE, 2014, p. 241). Ano após ano, dedica-se a colecionar excentricidades advindas de todos os lugares do mundo. Em certo momento, “deu atenção às bordaduras e às tapeçarias que substituíam os afrescos nos aposentos das nações do Norte da Europa” (WILDE, 2014, p. 240) e de vestes e tecidos eclesiásticos.

Dorian Gray também evita também se afastar do seu retrato “que era parte importante de sua vida” (WILDE, 2014, p. 244), temendo que na sua ausência alguém pudesse entrar “no quarto, a despeito das trancas complicadas que mandara instalar na porta. É verdade que o retrato ainda preservava, sob toda a fealdade a malevolência do rosto, uma clara parecença com ele” (WILDE, 2014, p. 244), mas

“tinha medo que alguém o roubasse. Pensar nisso o deixava ruborizado. Sem dúvida o mundo conheceria seu segredo” (WILDE, 2014, p. 245).