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4.1. Sobre Dorian Gray

4.1.1 Sobre o contexto e a publicação do romance wildeano

Richard Ellman (1988), um dos biógrafos mais conhecidos de Oscar Wilde, aponta que o contexto da literatura vitoriana fin de siècle diferiu de todos os períodos anteriores após a publicação de O retrato de Dorian Gray. Tal fato resultou não apenas das temáticas ‘imorais’ para a época e das concepções artísticas abordadas nessa narrativa wildeana, mas também, em grande parte, devido ao processo de publicação desta. Discutimos essa perspectiva num estudo anterior em 2018, focando na implicação e recepção no contexto da imprensa vitoriana.

Retomaremos algumas questões desse estudo para tecer algumas considerações sobre O retrato de Dorian Gray. Primeiramente, a publicação do romance “se deu no periódico Lippincot´s Magazine em 1890 e a segunda edição apenas em 1891, em livro, em que Oscar Wilde adicionou o seu famoso prefácio em forma de aforismos” (FERNANDES; MAGALHÃES, 2018, p. 2), como forma de justificar, à luz do Esteticismo, os princípios artísticos do seu romance.

A edição de O retrato de Dorian Gray (The picture of Dorian Gray), como estampada na capa da Lippincott´s Magazine, veio ao público no volume 47 (jul- dez)127 de 1890. Porém, quase um ano antes,

[e]m 30 de agosto de 1889, J. M. Stoddart, editor-chefe da Lippincott´s Monthly Magazine, com sede em Filadélfia, deu um jantar em Londres para Wilde e Arthur Conan Doyle. Com um adiantamento de £ 200 por 30.000 palavras, Wilde enviou o conto de fadas "O pescador e sua alma" em 1889.

Mas quando Stoddart pediu um texto duas vezes mais longo, Wilde começou a trabalhar em O Retrato de Dorian Gray.128

A edição do romance tal qual foi submetida a Stoddart por Wilde, foi posteriormente redigida/editada pelos editores da Lippincott´s antes da publicação em 1890. Nessa tese utilizamos a versão sem censura do romance, publicado no Brasil

127 Tais apontamentos provém do artigo publicado na Revista Organon (2018), em que analisamos a primeira edição do romance de Wilde no contexto vitoriano e em específico, o volume 47 do periódico Lippincott´s Magazine.

128 Fonte: https://www.bl.uk/collection-items/the-picture-of-dorian-gray-as-first-published-in-lippincotts- magazine#sthash.tCcYc0JK.dpuf . Acesso em: 22 nov. 2018.

apenas em 2013, com um extenso estudo de Nicolas Frankel. Sobre essa edição, Frankel (2013) aponta:

[a] versão do romance reproduzida [na revista] segue o texto datilografado e revisto por Wilde: representa a obra tal qual Wilde a concebeu na primavera de 1890, antes que [o editor] Stoddart começasse a usar seu lápis e antes que Wilde a autocensurasse quando posteriormente a revisou e aumentou para a publicação em forma de livro pela Ward, Lock, and Company. O resultado é um romance mais ousado e escandaloso, mais explícito em seu conteúdo sexual e, por tal motivo, menos propenso que as duas versões posteriormente publicadas a aderir às convenções vitorianas (apud WILDE, 2014, p. 30).

Mas apesar do romance ter sido modificado na segunda edição, em livro, no intuito de se tornar mais aceitável pelo público, não fugiu às críticas negativas da época.

Para se ‘adequar’ às normas sociais e culturais do periódico em que foi publicado, considerável parte do conteúdo original escrito por Wilde fora redigido e reescrito por Stoddart. Dentre esses, houve a supressão de trechos que sugeriam afeições homoeróticas entre o pintor Basil Hallward e Dorian Gray e outros personagens.

Preocupado com a recepção dos leitores da época, Stoddart ainda eliminou trechos,

“que, a seu ver, pudessem incitar à heterossexualidade promíscua ou ilícita, como as referências às amantes de Dorian Gray”129.

Nesse sentido, percebemos que “Stoddart estava preocupado com a influência do romance, tanto sobre as mulheres quanto sobre os homens”

(FERNANDES; MAGALHÃES, 2018, p. 10) e assim decidiu por “omitir passagens que indicassem a decadência da moral e dos costumes” (FERNANDES;

MAGALHÃES, 2018, p. 10). Essa excessiva preocupação com a moral, educação e os bons costumes na Era Vitoriana, como já apontamos no capítulo II, também esteve presente de forma transgressora na prosa gótica vitoriana, em especial através de temáticas que abordavam corrupção da moralidade e fascínio com o crime, como aponta Belville (2009).

Além disso, apontamos que é imprescindível conhecer o contexto da época de Wilde para atribuirmos outros sentidos à leitura do seu único romance, sobretudo no suporte literário em que fora primeiramente publicado. Nesse sentido, Lorang (2010) afirma que,

[a]o lado de sua participação no diálogo cultural sobre as interseções do ocultismo e da ciência, arte e ciência e adivinhação do caráter via ciência ou ocultismo, a Lippincott de julho de 1890 participa na discussão da

129 Fonte: Harvard University Press Blog https://harvardpress.typepad.com/hup_publicity/2011 /02/textual-history-picture-of-dorian-gray-frankel.html . Acesso em: 03 mai. 2020.

moralidade que veio definir os últimos anos do século XIX. Dentro desse diálogo, as questões de julho de 1890 avançam uma moralidade tradicional e potencialmente abalam tal assunto. É preciso considerar essa rica conversa intertextual e registro que marcou a primeira aparição do romance dentro do texto-periódico. Tal reconhecimento é particularmente crucial para o avanço da compreensão do romance como foi publicado pela primeira vez (p. 31)130

Ao nosso entendimento, como Lorang (2010) cita em suas palavras, a questão moral, movia a literatura vitoriana, época em que valorização do decoro, honestidade e caráter, preceitos ligados à integridade, prevaleciam como atributos bons princípios. É nesse contexto histórico de repressão e silenciamento que boa parte da produção literária dita como ‘erudita’ passa a abordar e questionar temas consideravelmente proibidos como sexualidade, misticismo, politeísmo, maldade, a natureza humana e outros temas tabu. Com a melhoria da qualidade e avanço da imprensa, bem como o crescente número de leitores da classe trabalhadora, Londres desfrutava de uma massa de leitores que consumiam literatura em diversos formatos, como as produções serializadas em periódicos, publicadas semanal ou mensamente (TAUTON, 2014), facilitando o acesso à leitura.

Um dos mais populares periódicos, a Lippincott´s Magazine, foi publicada tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, apresentava sessões diversificadas de assuntos que iam da publicação de contos, poemas, romances, ensaios, críticas a artigos de assuntos variados como quiromancia, astrologia, fotografia, arte política, eventos sociais e etc. De fato, esse arcabouço conteudístico da revista contribuiu para que o romance de Oscar Wilde pudesse ser compreendido à luz do suporte textual em que fora publicado pela primeira vez. Apesar de nosso objetivo nessa tese não ser apontar discussões relativas sobre o suporte literário em que O retrato de Dorian Gray fora publicado, tais conjecturas se fazem relevantes para compreender as questões sociais e culturais, e principalmente morais, que cercavam o imaginário vitoriano na época.

Ao longo de Dorian Gray131, Wilde retrata inquietações vitorianas; a narrativa dialoga com muitos elementos provenientes da prosa gótica clássica, aquela do Romantismo, como o mistério, o mal e o sobrenatural, mas adiciona relevantes

130 Within this dialogue, the July 1890 issues advance both a traditional morality and potentially shakes this traditional morality. One must consider this rich, intertextual conversation and record that marked the novel's first appearance within the periodical-text. Such an acknowledgment is particularly crucial for advancing understanding of the novel as it was first published.

131 Por vezes usaremos essa abreviação, em itálico, para nos referir apenas ao romance de Wilde, devido à extensão do título.

questões do fin de siècle como a ênfase na dualidade, no monstruoso e na corrupção da alma.

No próximo tópico faremos apontamentos sobre o personagem Dorian Gray e como este se desenvolve no decorrer do romance. Assim, questões do espaço decadente da Londres vitoriana e ideias filosóficas de Wilde também refletem a nossa leitura.