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Sistema misto

No documento INQUÉRITO POLICIAL (páginas 57-60)

3. ESTUDO REALIZADO ACERCA DA APLICABILIDADE DO PRINCÍPIO DO

3.1 SISTEMAS DO PROCESSO PENAL

3.1.3 Sistema misto

O sistema misto, também chamado de sistema acusatório formal, surgiu inicialmente na França, porém foi regulamentado e sistematizado pelo Código de Napoleão de 1808. Seu auge foi no século XIX, no qual a maioria dos países da Europa Continental o adotaram. Atualmente ele vigora em alguns países da Europa e na América do Sul compondo o sistema processual penal da Venezuela.

O sistema em testilha possui o mesmo propósito do sistema inquisitivo, acabar com a impunibilidade. Tem essa finalidade, pelo fato do ofendido muitas vezes deixar de comunicar o fato criminoso por desinteresse, ou por não ter condições de arcar com as despesas processuais, assim o Estado, representado pelo juiz tomou parte nas investigações criminais, afetando inteiramente sua imparcialidade, pois ele formava seu próprio convencimento para

108 LEONE, Apud. AQUINO, José Carlos G. Xavier de. Manual de processo penal. p. 11/12.

proferir o seu próprio julgamento, desta forma tornando-se parcial na decisão.109

Além das duas formas citadas no parágrafo superior, no qual irresignavam o Estado por dar margem a impunidade, existia ainda um terceiro fator que não o agradava, seria este a entrada em juízo de pessoas motivadas apenas pela vingança. Esta não é aceitável por ferir o significado da justiça, que visa, dar a cada um o que é seu, estabelecendo uma proporcionalidade entre o dano e a reparação.

O sistema misto é a fusão do sistema inquisitivo com o sistema acusatório. A figura do Ministério Público, o órgão acusador, compõe tal sistema. Este é dividido em duas fases, inicia com a investigação com caráter todo inquisitorial, imperando o sigilo e a não contrariedade, este é realizado pelo juiz, e na fase final. Então, após todas as provas estarem carreadas nos autos é dado ao réu todas as garantias do sistema acusatório, quais sejam, o contraditório, publicidade, etc.

Sobre a divisão do sistema misto, esclarece José Malcher:

A forma mista do processo surgiu, primeiramente, na França, após e sob o influxo da Revolução Francesa, quando a Assembléia Constituinte dividiu o processo em duas fases; a primeira (fase de instrução), realizado sob forma inquisitória, secreta, mas pelo juiz; e a segunda (fase de julgamento), com a oralidade, característica do processo acusatório, admitindo o contraditório entre as partes e a publicidade (Código de Instrução Criminal de 1808).110

A imperfeição do sistema misto é notória, posto que a investigação está a cargo do magistrado, desta forma torna-se parcial para julgar o feito.

109 Cf. RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. p. 48.

110 MALCHER, José Lisboa da Gama. Manual de Processo Penal. p. 57.

Assim como nos demais sistemas é importante arrolar suas características próprias, portanto Paulo Rangel é quem expõe da melhor forma:

a) a fase preliminar de investigação é levado a cabo, em regra, por um magistrado que, com o auxílio da polícia judiciária, pratica todos os atos inerentes à formação de um juízo prévio que autorize a acusação. [...];

b) na fase preliminar, o procedimento é secreto, escrito e o autor do fato é mero objeto de investigação, não havendo contraditório nem ampla defesa, face à influência do procedimento inquisitivo;

c) a fase judicial é inaugurada com a acusação feita, em regra, pelo Ministério Público, onde haverá um debate oral, público e contraditório, estabelecendo plena igualdade de direitos entre a acusação e a defesa;

d) o acusado, na fase judicial, é sujeito de direitos e detentor de uma posição jurídica que lhe assegura o estado de inocência, devendo o órgão acusador demonstrar a sua culpa, através do devido processo legal [...];

e) o procedimento na fase judicial é contraditório, assegurada ao acusado a ampla defesa, garantida a publicidade dos atos processuais [...].111

Existe um atrito entre alguns autores acerca do real enquadramento do processo penal brasileiro. De um lado está o entendimento de que o nosso sistema é acusatório, do outro lado entende-se que o nosso sistema é de forma mista.

A tese usada para os defensores do sistema acusatório no nosso processo penal brasileiro é a de que, o inquérito policial, a fase investigatória, não é considerado processo, isto porque, as provas colhidas no inquérito não são utilizadas para convencimento do magistrado. Estas tem a mera função de fornecer subsídios para o oferecimento da ação penal, realizado pelo órgão do Ministério Público ou pelo ofendido. O inquérito é considerado inquisitivo, por ser ele sigiloso, secreto, não permitir a presença do advogado e não amparar o contraditório.112

Na outra esfera da discussão, a que entende ser o nosso processo penal brasileiro ordenado pelo

111 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. p. 49.

112 Cf. AQUINO, José Carlos G. Xavier de. Manual de processo penal. p. 14.

sistema misto, apresenta o argumento de que o inquérito policial é considerado processo, portanto, tem-se a fusão dos dois sistemas, sendo a parte da investigação policial inquisitiva e a parte da persecução penal acusatória, pois neste admite-se todas as garantias constitucionais do processo penal e naquele não vigora o princípio constitucional do contraditório.

Flávio Medeiros é um dos que defende piamente o sistema misto no processo penal brasileiro, sendo assim explicita:

Entre nós, vigora o sistema misto. O sistema repressivo penal brasileiro realiza-se em duas fases ou etapas. A primeira fase é o inquérito policial, tipicamente inquisitivo: o indiciado pode não saber do que é acusado, há possibilidade de ser feito em sigilo, não há contraditório, são amplos os poderes da autoridade para investigar o fato, etc... A segunda etapa se aproxima mais do sistema acusatório: há contraditório, são encarregadas pessoas distintas para defesa, a acusação e para julgar, a acusação é anterior à defesa, publicidade, etc...113

Acerca dos dois entendimentos, observa-se que a celeuma encontra-se no inquérito policial, pois é neste que existe o conflito. O que determina o sistema repressivo penal brasileiro, depende exclusivamente se o inquérito é processo ou não. Sendo ele processo, o sistema é misto, não sendo ele processo, o sistema é acusatório.

No documento INQUÉRITO POLICIAL (páginas 57-60)

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