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Sujeito: um acidente entre dois significantes

No documento Rio de Janeiro (páginas 71-74)

2. A CONSTITUIÇÃO DO SUJIETO NA PSICANÁLISE: DA EXPULSÃO DA

2.2. Sujeito: um acidente entre dois significantes

o sujeito operado pela psicanálise não é o mesmo que o operado pela ciência, ainda que o sujeito do inconsciente, na formulação lacaniana, seja tributário da epistemologia científica moderna, ele é o resto que a ciência tentou escamotear por não comportar em seu aparato simbólico.

Alberti e Elia (2008) esclareceram:

o saber (que em psicanálise é sempre inconsciente) é um subconjunto deste mesmo inconsciente, onde há bem mais não saber do que saber e que está do lado do sujeito enquanto vazio de significantes, poderíamos dizer, do lado do real do sujeito. É o que a ciência exclui de seus cálculos: o real do sujeito. Para a ciência, o sujeito é somente uma variável passível de mensuração quando interfere num experimento científico, por exemplo. Não é esse o sujeito da psicanálise, o sujeito da psicanálise é o sujeito da fala, sempre cindido, sempre da paixão (p. 792).

Esse indizível do qual a psicanálise se ocupa foi nomeado no ensino lacaniano como o real que juntamente com o simbólico e o imaginário constituem os três registros nos quais o sujeito transita. Alberti e Elia (2008) desenvolveram esclarecedora articulação entre os três registros ao retomarem Lacan. O registro do simbólico é da ordem da existência, é ao reduzir as coisas ao significante que as representa para outro significante que a linguagem se afirma.

Contudo, há algo que sempre permanece fora da roupagem significante e que, portanto, escapa à existência: o real, aquilo que está fora do simbólico. Mas considerando a descontinuidade que se apresenta entre um significante e outro é preciso um terceiro registro, o imaginário, que possibilite “a construção que cada um projeta da realidade para velar o abismo do real que, de outra forma, teríamos que encarar regularmente quando passássemos de um significante a outro” (Alberti & Elia, 2008, p. 790). Do que inferimos que enquanto o simbólico constitui a ordem da existência, o real é aquilo que ex-siste (existe fora do) ao simbólico e o imaginário é o registro que dá consistência, possibilita as formações das Gestalten. Todavia, como apontado pelos autores, tal imaginarização sempre carrega um engodo, uma vez que a realidade gestaltizada está calcada na realidade psíquica de cada um, sustentada na fantasia que em psicanálise corresponde à resposta construída por cada sujeito ao impossível de compreender.

Mas de que maneira o enodamento desses registros permite a eclosão do sujeito? Como pensar a ordenação significante de modo a furar o real e promover a surgimento do sujeito do inconsciente? Recorramos a Lacan, ainda, no início de seu ensino.

Em Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, Lacan (1960/1998) postulou que a partir de Freud o inconsciente “é uma cadeia de significantes, que em algum lugar (numa outra cena, escreve ele) se repete e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efetivo” (Lacan, 1960/1998, p. 813). O que torna inaugural o inconsciente freudiano é, portanto, a função significante. É a apreensão da estruturação do inconsciente como linguagem que permitiu a Lacan anunciar a importante postulação:

um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante. Esse significante, portanto, será aquele para o qual todos os outros significantes representam o sujeito: ou seja, na falta desse significante, todos os demais não representariam nada. Já que nada é representado senão para algo (p.833).

O sujeito do inconsciente, ou mais precisamente, o sujeito fundado a partir do inconsciente freudiano, emerge nos cortes do discurso, na barra existente entre significante e significado. São os tropeços do discurso, tais como os lapsos e os atos falhos, ao revelar os furos de sentido como determinantes do discurso que demonstram a estruturação do sujeito como descontinuidade do real (Lacan, 1960/1998).

A estruturação do sujeito em psicanálise é, então, inerente à inscrição do significante.

Mas nessa inscrição da linguagem, dessa Fala como possibilidade de instauração da ordem simbólica exige um outro lugar, ou melhor, o lugar do Outro, o testemunho do Outro (Lacan, 1960/1998) e não apenas de seus pares ‘outrinhos’. Esse Grande Outro enquanto ‘tesouro dos significantes’, ao mesmo tempo em que o produz, permite uma espécie de contorno ao non sense do real, possibilitando a associação de um significante ao outro e a formação de uma Gestalt, a criação de algum sentido, aquilo que entendemos como imaginário. Alberti esclarece que o Outro implica aquilo que:

por meio da fala é transmitido de geração em geração, ou seja, a própria linguagem, a cultura, o simbólico, o desejo, permitindo a cada novo falasser que vem ao mundo, o acesso a eles, subjetivando-se. Assim, o Outro termina sendo o próprio inconsciente de um sujeito, pois ele próprio vai incorporando o que recebe dos primeiros Outros e dos subsequentes, com os quais convive. Por não ser especularizável, ele tem uma posição, digamos, hierarquicamente diferente à do sujeito que sempre dependerá dele (p.2).

Depreende-se, portanto, que a existência do inconsciente é determinada pela existência do Outro, enquanto campo onde se articulam os significantes que são anteriores à constituição do sujeito. Ferreira (2002), ao analisar a subversão operada por Lacan nos estudos da linguística, comentou que o sujeito é o que se produz no intervalo entre o significante (S1), que marca um sujeito e constitui sua singularidade e os outros significantes (S2) que o representam para outros significantes, por mais tautológica que tal apreensão possa parecer.

Para a constituição do sujeito barrado é irremediável a concepção do Outro como lugar do significante. No entanto, esse lugar do Outro não possui qualquer garantia, senão o de sua enunciação, pois essa garantia não pode ser conferida por outro significante, já que não existe Outro do Outro. Isso quer dizer que o ordenamento simbólico introduzido pelo Outro não consiste em uma Lei em si, pelo menos, “não mais do que aquele que dela se autoriza” (Lacan, 1960/1998, p. 828). A autoridade do Pai fundada como representante da Lei é outorgada e sustentada pela Mãe. A inexistência da lei em si implica ser de um outro lugar, que não a realidade, que o Outro irá adquirir consistência. Esse lugar que irá concernir o lugar do Outro como verdade é o lugar da Fala. Fala que marca e constitui a verdade, instituindo-a como estrutura de ficção.

A falta de consistência no Outro que remete ao aforisma segundo o qual a verdade possui estrutura de ficção, leva-nos a interrogar e investigar a construção dessa história que se institui como verdade. Através de algumas (re)leituras freudianas, seja da análise de Édipo, seja na criação de Totem e Tabu, podemos inferir a narrativa mitológica como a tentativa de dar conta da falta de substância, de materialidade que consiste na própria formação do ordenamento simbólico. O mito enquanto narrativa originária serve ao sujeito como tessitura fantasmática, consistindo em uma tentativa de simbolização. Em 1952, Lacan, no texto O mito individual do neurótico, ao abordar a articulação entre a construção discursiva do mito e a definição de verdade, apontou que:

O mito é o que confere uma fórmula discursiva a qualquer coisa que não pode ser transmitida na definição da verdade, porque a definição da verdade não se pode apoiar senão sobre si mesma, e é enquanto a palavra progride que ela a constitui. A palavra não se pode apreender a si mesma, nem apreender o movimento de acesso à verdade, enquanto verdade objectiva. Ela apenas a pode exprimir - e isto de um modo mítico. É neste sentido que se pode dizer que aquilo em que a teoria analítica concretiza a relação inter-subjectiva, e que é o complexo de Édipo, tem valor de mito (1953/1980, p.49).

Contudo, como apontado por Lacan (1960/1998), aquilo que não é mito e fora formulado por Freud tão logo escreveu o complexo de Édipo, é o complexo de castração. Lacan relembrou que em Freud a castração aparece como um “osso” (Lacan, 1960/1998, p. 835), ou seja, o complexo de Castração por ser uma operação tão estruturante para sujeito, constitui este algo que permaneceu, essencialmente à margem, esse algo que se tentou evitar e encobrir, chegando a ser apontado, em Freud, como o que consistiria em um limite de uma análise (Lacan, 1960/1998). No entanto, a partir da introdução da noção do Outro, Lacan realizou verdadeira torção no que concerne ao entendimento freudiano do que consistiria o limite do analisável: a angústia de castração. No desvencilhamento daquilo que foi erigido por Freud como última barreira do sujeito neurótico, Lacan (1962-63/2005) proferiu:

Aquilo diante do que o sujeito neurótico recua não é a castração, é fazer de sua castração o que falta ao Outro. É fazer de sua castração algo positivo, ou seja, a garantia da função do Outro, desse Outro que se furta na remissão infinita das significações, desse Outro em que o sujeito não se vê mais do que como um destino, porém um destino que não tem fim, um destino que se perde no oceano das histórias.

Ora o que são as histórias senão uma imensa ficção? O que pode assegurar uma relação do sujeito com esse universo de significações senão que, em algum lugar, existe gozo? Isso ele só pode assegurar por meio de um significante, e esse significante falta, forçosamente. Nesse lugar de falta, o sujeito é chamado a dar o troco através de um signo, o de sua própria castração (Lacan, 1962-63/ 2005, p.56).

Com Lacan entendemos, portanto, que não é exatamente a castração, pedra angular da constituição do sujeito freudiano, que faz o sujeito neurótico recuar. Aquilo que faz com que o sujeito determinado pelo inconsciente estruturado como linguagem recue é deparar-se com a falta de significante no Outro. Pois é impossível lidar com um desejo sem sentido e para esse sujeito barrado pelo significante é preciso, então, a construção de uma estrutura ficcional que venha a encobrir essa ausência que permita sustentar o circuito do desejo que é, afinal, decorrente da falta (Viola & Vorcaro, 2011). A tessitura dessa ficção que permite ao sujeito sustentar sua posição desejante por meio do velamento desse vazio, remete-nos à construção da narrativa mítica, enquanto eleição de uma verdade que se estrutura como ficção, e tampona essa falta no Outro. Consideração fundamental e muito pertinente a este trabalho, já que nossa clínica, com sujeitos adolescentes, abarca, precisamente, o momento em que esses sujeitos entreveem algo dessa falta, em que o véu que encobria a ausência vacila. Ora, pensar a adolescência à luz da psicanálise, alude a toda a teorização freudiana relacionada ao mito de Édipo. No período pubertário, momento de revivescência do complexo de Édipo, o sujeito terá que se haver de uma maneira mais devastadora com a falta no Outro, escolhendo realizar ou não, a travessia das aparências, tal como cunhado por Alberti (1995/2009).

No documento Rio de Janeiro (páginas 71-74)