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Como afirmam Romanowski e Ens (2006, p. 39), estudos do tipo estado da arte “[...]

não se restringem a identificar a produção, mas analisá-la, categorizá-la e revelar os múltiplos enfoques e perspectivas”. Assim, as pesquisas foram categorizadas por temas, problemas, crianças participantes, referências teóricas e metodologias.

 Rosa (2018): como as identidades de gênero são (re)produzidas pelas crianças a partir de suas interações com os adultos no contexto de uma turma de Educação Infantil do campo.

 Moraes (2019): o que as crianças pensam sobre as situações de violência que elas vivenciam em seu cotidiano e como as interpretam, em especial em relação às violências de gênero vivenciadas em suas famílias?

 Mizusaki (2020): como as crianças constroem suas experiências de identidades de gênero durante seus fazeres diários em uma instituição de Educação Infantil de Vilhena-RO?

 Schutz (2020): compreender como as crianças pequenas manifestam seu entendimento sobre as questões de gênero, por meio de suas brincadeiras e interações no contexto de Educação Infantil.

Com exceção do trabalho de Moraes (2019), que analisou as percepções e falas das crianças sobre a respectiva família e relações com adultos para discutir as relações entre violência e relações de gênero, os demais trabalhos enfocaram as experiências das crianças na construção de suas percepções sobre as identidades de gênero.

Desse modo, seis das pesquisas sobre gênero registram e analisam as construções, experiências e modos de perceber e expressar as relações de gênero e as formas de ser menina e menino que as crianças externam no cotidiano da Educação Infantil. A partir de formas diversas de evidenciar e analisar a experiência das crianças sobre a temática, essas pesquisas utilizaram também instrumentos variados na geração de dados com as crianças, apontando facetas múltiplas de como as crianças informam sobre sua vida no que se refere a como as questões de gênero são vivenciadas por seus pares e pelos adultos.

No conjunto de estudos envolvendo o debate sobre temas envolvendo raça, foram encontradas cinco investigações, sendo quatro dissertações e uma tese. Miranda (2013) estudou as culturas infantis de crianças quilombolas e seus contributos para o currículo; Bischoff (2013) pesquisou a questão racial pela ótica das crianças na relação com a literatura infantil; Machado (2014) se debruçou sobre as relações étnico-raciais sob a perspectiva de pedagogias da racialização; Gonçalves (2018) abordou representações sobre diversidade racial; Cardoso (2018) investigou as relações étnico-raciais na construção de identidades.

Os problemas dessas pesquisas ou objetivos gerais foram:

 Miranda (2013) – Como as crianças, no espaço de Educação infantil, apreendem a cultura quilombola em suas culturas de infâncias?

 Bishoff (2013) – Perceber como as relações entre crianças brancas e negras se dão numa turma de Educação Infantil, principalmente a partir do que é apresentado acerca de brancos e negros presentes na literatura infantil.

 Machado (2014) – Analisar como as pedagogias da racialização operam constituindo significados sobre raça/cor em uma turma de Educação Infantil.

 Cardoso (2018) – Analisar as interações e produções culturais de crianças de 5 anos de idade em uma turma de Educação Infantil, tendo em conta as relações étnico- raciais na construção da sua identidade.

 Gonçalves (2018) – Quais as representações sociais de crianças da Educação Infantil do Campo sobre a diversidade racial, sua percepção de Si e interação com o Outro?

Nessas investigações, as problemáticas estiveram em torno das relações que as crianças estabelecem com marcadores raciais. Como elas constroem suas percepções de raça/cor em contato com artefatos culturais e nas relações com outras crianças e adultos. Na pesquisa de Miranda (2013), as relações étnico-raciais são tratadas partindo de uma questão ainda mais específica no que tange às discussões sobre as diferenças. A autora deu atenção às construções culturais de crianças de uma comunidade quilombola, esteve também interessada em relacionar a participação das crianças com contribuições para se pensar em um currículo para a educação quilombola.

Concernente às discussões sobre inclusão, apenas a pesquisa de Zortéa (2007) foi selecionada; trata-se de uma dissertação que apresentou um olhar acerca das relações de pares entre crianças relativas à inclusão na Educação Infantil. A intenção foi registrar como ocorrem as interações entre pares no processo de inclusão de crianças com necessidades especiais. A pesquisadora se questionou tanto em relação a como as crianças percebem e se relacionam com crianças anunciadas ou vistas como diferentes quanto de como as crianças tidas como diferentes atuam entre seus pares.

Conforme já se discutiu na seção sobre os pressupostos teórico-metodológicos, uma das categorias a posteriori foi a discussão sobre estética e beleza. A pesquisa de Ribeiro (2020) apresentou como problema de pesquisa: Como as representações sociais das crianças de 5 anos sobre beleza influenciam o processo de socialização no espaço escolar? Dos 323 trabalhos localizados no nosso inventário, essa foi a única investigação sobre a temática. Foram discutidas questões estéticas relacionadas a vestimentas e adereços, mas no trabalho com imagens, a pesquisadora utilizou a escolha de pessoas “bonitas” pelas crianças a partir de opções de imagens centradas na cor/raça.

Embora não apresente raça como palavra-chave, nem sequer como categoria na construção do problema e dos objetivos da pesquisa, como se percebeu nos capítulos de análise de dados, raça/cor foi uma categoria central na escolha de imagens de pessoas para apresentar às crianças ao abordar as questões de estética e beleza na pesquisa. A autora considera que um dos resultados da pesquisa foi que a cor branca, cabelos lisos e corpos magros foram considerados pelas crianças como elementos relacionados a beleza.

No que tange aos sujeitos das pesquisas, a maioria das crianças que participaram das pesquisas estava matriculada na pré-escola, portanto, crianças com 4, 5 e 6 anos de idade, sendo as crianças com 5 anos as mais selecionadas (em 6 pesquisas, essa faixa etária foi a única delimitada). Apenas um estudo (ROSA, 2018) trabalhou com crianças da creche também, sendo realizado numa turma mista de crianças de 2 a 5 anos, numa escola do campo. Então, além dessa pesquisa com crianças do campo e da pesquisa com crianças quilombolas, há uma predominância de crianças residentes em cidades. Outro aspecto relacionado às crianças, é que são todas matriculadas nas redes municipais de educação.

Quadro 3 – Informações sobre as crianças das pesquisas

Continua

Trabalho Idade Gênero Cor/raça Localização

Geográfica/Território Zortéa (2007) 5 e 6 anos

(1 criança com Síndrome de Down

e 1 criança com Paralisia Cerebral)

27 meninas e 23 meninos

Não informou Porto Alegre-RS

Zona Leste

Miranda (2013) 3 a 5 anos 10 meninas e 16 meninos

Crianças negras Santa Leolpodina-ES

Comunidade Quilombola Retiro de Mangaraí Bischoff (2013) 4 e 5 anos 9 meninas e

9 meninos

“Não há, na turma, nenhum aluno, cuja cor da pele seja negra, mas há alguns que podem ser declarados negros, pois são filhos de pai ou mãe negros ou, ainda, tem seus antepassados, avós, bisavós negros” (p. 35).

Portão-RS

Machado (2014) 5 e 6 anos Não informou Não informou Alvorada-RS

Oliveira (2015) 4 a 6 anos 8 meninas e 5 meninos

Não informou Maceió-AL

Pimenta (2016) 4 e 5 anos Não informou Não informou São Paulo-SP

Gonçalves (2018) 5 anos 12 meninas e 12 meninos

Autoidentificação das crianças:

2 não se autoidentificaram;

7 morenas; 2 marrons; 5 pretas;

8 brancas.

Augusto Corrêa-PA Vila Agropesqueira de

Aturiaí

Quadro 3 – Informações sobre as crianças

Conclusão

Pesquisa Idade Gênero Cor/raça Localização

Geográfica/Território Cardoso (2018) 5 anos 13 meninas e

24 meninos

1 negra, 2 amarelas, 13 brancas, 22 pardas (heteroidentificação – ficha de matrícula)

São João Del-Rey-MG

Inoue (2018) 5 anos 11 meninas e

15 meninos

15 crianças de cor branca, 5 pardas, 4 pretas e 2 amarelas24

São Paulo-SP Zona Sul Rosa (2018) 2 a 5 anos

(turma mista)

Não informou Não informou Santa Maria-RS

Distrito de Boca do Monte

Moraes (2019) 5 anos 8 meninas e

10 meninos

Não informou Porto Alegre-RS

Mizusaki (2020) 5 anos 12 meninas e 10 meninos

Não informou Vilhena-RO

Ribeiro (2020) 5 anos 8 meninas e 16 meninos

Não informou Ananindeua-PA

Schutz (2020) 4 e 5 anos 5 meninas e 11 meninos

Não informou Santa Maria-RS

Fonte: Organizado pela autora.

Apesar de algumas pesquisas não informarem gênero e identificação racial das crianças, conforme a análise das informações que constam das pesquisas é possível afirmar que há uma aproximação entre o número de meninas e de meninos. No que se refere à raça, pelos dados informados majoritariamente crianças negras compõem a participação nas pesquisas. Outro dado é que as crianças estão localizadas em bairros e comunidades periféricas.

Os dados levantados acerca dessas crianças apontam para algumas experiências compartilhadas por elas, no entanto, a pretensão não foi de homogeneizar as formas de elas se relacionarem com os outros e com o mundo. O objetivo foi sinalizar se elas vivenciam algumas experiências marcadas por questões de gênero, raça, classe e território que se aproximam, embora também guardem seu caráter de diversidade.

No tópico que segue são descritos o mapeamento referente às perspectivas teóricas e autores e autoras que embasaram os discursos das pesquisadoras dos trabalhos selecionados.

5.2 HORIZONTES TEÓRICOS NA PRODUÇÃO DE SABERES SOBRE AS