1.1 Passo a passo da pesquisa
1.1.4 Tempo de permanência nas ruas
Idas e vindas para as ruas.
Pedro Pereira23
O tempo de permanência das pessoas em situação de rua é uma variável de difícil identificação, tendo em vista que são comuns relatos de processos de idas e vindas, como o do entrevistado Tigipió (2019): “Eu saí do poder do meu pai com 13 anos. Momentos nas ruas e em casas. Sempre foi assim. Mais de 20 anos que estou nas ruas, entre ruas e casas”. Identificamos a existência de dificuldade de os/as entrevistados/as mencionarem com precisão o tempo em que estão em situação de rua, conforme apontou Patativa do Assaré (2019): “Nem sei falar; mais de 25 anos”.
A partir da coleta de dados na nossa pesquisa, identificamos que 13 responderam que estavam entre um mês a cinco anos nas ruas; três, entre seis e
23 Codinome do entrevistado.
10 anos; sete, entre 11 anos e 25 anos; e três, acima de 26 anos. Um/a entrevistado/a não respondeu à pergunta. Um/a entrevistado/a relatou que era a primeira vez que estava em situação de rua e por poucos meses:
É a primeira vez que me encontro em situação de rua. Estou com dois meses na situação de rua. […] Tenho uma filha de 10 anos. Ela sabe que estou na rua. Estou sofrendo nas ruas; dormindo no papelão. Só não passo fome.
Tomo café no Centro Pop e almoço no restaurante (SILVA JATAHY, 2019).
Os diálogos abaixo expõem os processos de idas e vindas, ou seja, a alternância entre a situação de rua, a moradia convencional ou a vivência em abrigos, albergues ou similares:
Nos fins de semana, eu durmo na Praça do Ferreira; Pousada Social, na semana. Na semana, durante o dia, fico também na Praça do Ferreira: fico até 20 horas. Depois da sopa, vou para a Pousada Social (ANTÔNIO SALES, 2019).
Mais de 10 anos, mas não totalmente em situação de rua. Quando eu estou trabalhando e tenho condições financeiras, procuro um abrigo para mim, chamo abrigo, mas é um quarto; não é casa propriamente dita. Casa é mais complexa. Morei em casas alugadas (JOSÉ DE ALENCAR, 2019).
Então, deixei minha esposa e meu filho na casa de uma amiga. Ela e meu filho também moravam nas ruas comigo. Estou com uns três anos, mas não é direto. E, quando tenho o dinheiro, eu pago aluguel. Quando eu estou trabalhando, eu saio da situação de rua. Nesses três anos, já é a quarta vez que moro nas ruas (DOMINGOS OLÍMPIO, 2019, grifo nosso).
Neste último depoimento, constatamos que o processo de idas e vindas para as ruas está associado ao acesso ao trabalho e à renda. Na pesquisa realizada no mestrado (PINTO, 2015), dos/as 22 entrevistados/as, 11 responderam que estavam em situação de rua entre dois meses e cinco anos, nove responderam que estavam há mais de cinco anos em situação de rua e dois não responderam à pergunta. A Pesquisa Nacional/2009 identificou que, dos/as 31.992 entrevistados/as, 48,8% estavam há mais de dois anos dormindo nas ruas.
Considerando esses dados expostos, temos três inferências para suscitarmos.
A primeira indica que o maior tempo de permanência expõe cada vez mais os indivíduos e famílias em situação de rua às diversas violações de direitos, como fome, desemprego, frio, sono, violência física, moral e psicológica, preconceito, estigma e outras, como já citamos. A segunda aponta que o maior tempo de permanência contribui para a possibilidade de rompimento definitivo com a família e amigos/as devido à perda de contatos, receio de retornar a procurar a família, mudança de endereço ou cidade da família. A terceira sinaliza que o tempo de permanência contribui no ingresso ao mercado formal de trabalho e aos programas de moradias que contemplem a realidade da população em situação de rua. Portanto,
o aumento de permanência de pessoas e famílias em situação de rua é um enorme desafio para as políticas de assistência social, saúde, educação, trabalho e renda, previdência social, segurança alimentar, cultura, lazer, esporte e direitos sociais.
O representante do MNPR/CE nos alerta que a ampliação do tempo de permanência nas ruas amplia o número de idosos/as em situação de rua: “Existe também um aumento de idosos/as em situação de rua. O envelhecimento nas ruas é extremamente preocupante”. Registramos no nosso diário de campo que o movimento da população em situação de rua vem dialogando acerca do envelhecimento dessa população. Os/As participantes alertaram ainda que as políticas sociais não estão preparadas para dar respostas a essa problemática (PINTO, DIÁRIO DE CAMPO, 2019). Tigipió (2019) revelou sua preocupação com o envelhecimento da população em situação de rua:
Tenho 53 anos. Hoje em dia, eu entendo mais sobre sair das ruas; como me sair das ruas. Estou cansado. Já enjoei. Pensei que ia suportar a vida toda. Estou envelhecendo. Passei oito meses doente, esperando uma cirurgia. Fiz a cirurgia de hérnia, mas ainda estou fazendo em acompanhamento. Sinto que estou envelhecendo mais rápido.
Por fim, ressaltamos que a heterogeneidade da população em situação de rua exige uma atenção pelos/as gestores/as das diversas políticas públicas. A situação dessas pessoas é resultante das múltiplas determinações das desigualdades sociais inerentes à relação entre o capital e o trabalho, que alimentam a lucratividade do capital. Para aprender sobre as desigualdades entre o capital e o trabalho na realidade brasileira, é necessário adentrar no nosso processo de formação socioeconômica, que teve como base a exploração da força de trabalho escrava, que mantém um racismo estrutural retratado nas diversas expressões da questão social, a exemplo do fenômeno população em situação de rua.
2 FORMAÇÃO SOCIOECONÔMICA DO BRASIL NO CONTEXTO DA REPRODUÇÃO DO CAPITAL MUNDIALIZADO
O Brasil é o segundo país do mundo com a maior distância entre pobres e ricos. É também o sétimo país mais desigual do mundo. Os mais ricos representam somente 1% da população e concentram 28,3% da renda total produzida no país, atingindo o segundo lugar na lista com a maior concentração de renda mundial, consoante dados divulgados em dezembro de 2019 no Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH). Por outro lado, metade da população brasileira, cerca de 104 milhões de pessoas, possuía uma renda de R$ 413,00 per capita em 2018, conforme dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Em dezembro de 2019, o ano encerrou com 12,2 milhões de desempregados/as, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cerca de 80% das pessoas negras ganham até dois salários mínimos, dados também da PNAD Contínua/2016. Por que nosso país é tão desigual? “Tudo é tão desigual”.24 Que caminhos trilhamos para chegarmos a um país com tantas contradições sociais? Quais as relações fundantes entre o processo de formação social e as desigualdades sociais no nosso país? Por que há uma distância abissal entre pobres e ricos no Brasil? Quais as determinações e os determinantes estruturais e estruturantes para a produção e reprodução de diversas expressões da questão social no Brasil, a exemplo do fenômeno população em situação de rua, que cresce visivelmente, principalmente nos grandes centros urbanos do nosso país?
Compreender as indagações acima é instigante, mas também um desafio, pois é necessário mergulhar na nossa História. Ir além dos fatos aparentes. Como bem dizem Marx e Engels (2010, p. 107), “[...] a nossa concepção da história é, sobretudo, um guia de estudo [...]. É necessário voltar a estudar toda a história”.
Imbuídas por esse desafio, analisaremos as reflexões elencadas acima à luz dos processos sócio-históricos da formação brasileira no contexto da expansão do capitalismo mundial, que teve como base fundante a exploração da força de trabalho compulsório durante 300 anos de escravidão da população negra pela classe dominante brasileira, articulada à burguesia internacional. Assim, discutiremos sobre a formação socioeconômica nacional sob a lógica de um modelo de capitalismo dependente e periférico no contexto da fase imperialista expansionista.
24 Trecho da música “A novidade”, de Gilberto Gil (1994).
Nessa direção, este capítulo está dividido em três seções inextricavelmente interligadas. A primeira seção trata do processo de formação socioeconômica à base da exploração da força de trabalho escrava protagonizado pelos senhores coloniais para atender aos interesses dos países de capitalismo avançado dos países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos da América (EUA) na fase expansionista do capitalismo imperialista. A segunda seção compreende a discussão da gênese da questão social com a urbanização e a industrialização sob a intervenção estatal a favor dos interesses do grande capital. A última seção traz a inserção da agenda neoliberal durante os governos a partir da primeira eleição direta no Brasil nos dias atuais, bem como debruça-se sobre a ampliação das desigualdades sociais.
2.1 Formação socioeconômica brasileira no contexto de acumulação do