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1.1 Passo a passo da pesquisa

1.1.2 Vínculos familiares

Entre as ruas e a casa.

Tigipió (2019)19

Os vínculos familiares fragilizados ou rompidos são características relevantes entre a população em situação de rua. Das 28 entrevistas realizadas com os sujeitos da pesquisa, 17 pessoas afirmaram possuir vínculos familiares extremamente fragilizados, oito responderam que haviam perdido totalmente o vínculo familiar e três não responderam à pergunta sobre os vínculos familiares.

19 Codinome do entrevistado.

Não pretendemos discutir amiúde os diversos conceitos de família construídos historicamente por importantes teóricos em diversas áreas. No entanto, partimos da compreensão de que a família é parte constituinte das relações sociais, portanto uma construção sócio-histórica e cultural. Nesse sentido, compartilhamos do pensamento de que existe uma diversidade e pluralidade de arranjos familiares. As famílias brasileiras sofrem os rebatimentos das configurações capitalistas nos diversos tempos sócio-históricos, uma vez que é:

Construída e reconstruída histórica e cotidianamente, através das relações e negociações que estabelece entre seus membros, entre seus membros e outras esferas da sociedade e entre ela e outras esferas da sociedade, tais como Estado, trabalho e mercado. Reconhece-se também que, além de sua capacidade de produção de subjetividades, ela também é uma unidade de cuidado e de redistribuição interna de recursos (MIOTO, 2010, p. 166).

Nos relatos coletados, os conflitos familiares estão associados ao desemprego, pobreza, alcoolismo, drogadição, violência doméstica, separação entre casais, conflitos entre pais e filhos/as e entre irmãos/ãs e morte do pai ou mãe. Pautadas nisso, afirmamos que a fragilização e o rompimento dos vínculos familiares possuem multideterminações. O entrevistado Patativa do Assaré (2019) expôs que o rompimento dos vínculos familiares está relacionado ao seu modo de vida: “Todos nós temos dificuldade; dificuldade na família: por exemplo, minhas irmãs não concordam comigo; geram dificuldade no convívio”.

As famílias pobres sentem os efeitos com maior profundidade das constantes configurações capitalistas, principalmente com o aumento da pobreza, ausência de renda familiar, trabalho precário, desemprego e retração da intervenção do Estado nas políticas públicas. A família, nas suas mais diversas configurações, é extremamente complexa e dinâmica. As relações entre seus membros e de seus membros com a sociedade e as diversas esferas do Estado são construções históricas e socialmente determinadas. Nesse sentido, concordamos com Mioto (2010, p. 172), que:

[…]. Entende que a responsabilidade da proteção social não está restrita às famílias e, portanto, a solução dos mesmos [sic] extrapola as suas possibilidades individuais. Condiciona a proteção social, exercida pela família, ao acesso à renda e ao usufruto de bens e serviços de caráter universal e de qualidade.

Na sociedade capitalista, as famílias são obrigadas a conviver com o processo de individualização, em que as responsabilidades recaem cada vez mais sobre seus membros. São notórios os inúmeros desafios no cotidiano das famílias brasileiras, em face das desigualdades sociais que as expõem à situação de

pobreza extrema, contribuindo para o processo de fragilização ou rompimento dos vínculos familiares e comunitários.

O universo amostral desta tese apontou que os vínculos familiares são extremamente fragilizados ou rompidos, mesmo nas situações em que o/a entrevistado/a está na mesma cidade em que reside algum membro familiar.

Minha família mora aqui em Fortaleza. Tenho contato, mas é pouco. Eu sou filha adotada, e minha mãe é muito rígida. Ela tem um mercantil, mas não me ajuda. Ela nem sabe que consegui o aluguel. Tenho um irmão que é guarda municipal. Eles não me ajudam em nada (ANA BILHAR, 2019).

Não tenho contato com a minha família; moram em Fortaleza. Eles sabem que estou em situação de rua. Nem quero contato com a família. Meu pai morreu depois de dois anos da minha mãe. Já passei dez anos sem ter contato com ninguém da família. Sei aonde eles moram. Se encontrar com eles, eu dobro a rua (TREMEMBÉS, 2020).

O relato do entrevistado Bezerra de Menezes (2019) afirma que ele perdeu totalmente o contato familiar e não sabe onde sua família reside: “Tenho irmãos, mas nem sei aonde estão. Há 20 anos que não tenho contato com nenhuma pessoa da minha família. Nem sei aonde eles moram”. Dragão do Mar (2019) nos relatou que mantém o contato com um membro familiar para sentir-se mais protegido: “Eu só tenho contato com uma tia, ando com o endereço dela para se acontecer algo comigo. Ela mora em Maracanaú”.

O Quadro 2 mostra a frequência de contato dos/as entrevistados/as com a família. A frequência dos contatos é esporádica.

Quadro 2 – Frequência dos contatos com a família

Frequência dos contatos Respostas

Semanalmente 01

De uma semana a dois meses 05

De um ano a dois meses 02

Por mais de dois anos 02

Não responderam 18

Fonte: A AUTORA, 2020.

Apenas Juvenal Galeno (2019) afirmou possuir contato sistemático com um irmão, conforme suas próprias palavras: “Tenho apenas um irmão; passo o fim de semana na casa dele. É importante para mim. De acordo com os/as entrevistados/

as de Caucaia e Fortaleza, os contatos com as famílias são realizados por meio de telefonemas e visitas. Os Centros Pop (Caucaia e Fortaleza) e a Pastoral da Rua disponibilizam um telefone uma vez por semana à população em situação de rua para que esses indivíduos possam realizar contatos familiares. Em Maracanaú, o

Creas não disponibiliza telefone para esse fim. A maioria dos/as entrevistados/as reconhece a importância de as unidades disponibilizarem o telefone para a população em situação de rua. Para Castro Alves (2019), o distanciamento dos contatos contribui para a perda dos vínculos familiares: “Passo três meses sem ver a minha família. A gente acaba perdendo mais o contato”.

Entre os/as entrevistados/as, 18 responderam que pelo menos uma pessoa da família sabe que está em situação de rua, cinco declararam acreditar que suas famílias não sabem que estão em situação de rua e seis não responderam à pergunta sobre essa questão. Do total de entrevistados/as, 13 estão em situação de rua na mesma cidade em que a família reside, 14 estão em cidades diferentes de suas famílias e um não respondeu. As pessoas em situação de rua escondem essa informação de seus familiares por vergonha; por conta disso, muitas vezes, preferem morar em cidades diferentes daquelas em que residem suas famílias.

A pesquisa empírica da presente tese mostrou ainda que os conflitos familiares estão entre os motivos que levam pessoas a terem as ruas como espaços de moradia e sustento. Diante disso, os depoimentos coletados são permeados de ressentimentos, mágoas, conflitos em relação aos membros familiares, como mostram os entrevistados José de Alencar (2019), Pedro Pereira (2019) e Tigipió (2019), respectivamente:

[…]. Eu me via só quando eu tive preso em Teresina. Fiquei nove anos e seis meses preso; me sentia abandonado pela minha família. Nunca ninguém foi me visitar. A gente falta enlouquecer lá. Um monte de coisas aconteceram. Uma situação complicada […].

Minha família é de Maracanaú. Minha mãe morreu esse ano. Soube por pessoas próximas. Minha irmã fez o velório sem a minha presença. Ela e a minha sobrinha se apossaram da casa. Estou proibido de entrar no condomínio; fiquei sem nada. Entrei na justiça para ter direito em Maracanaú.

E sempre vivi nas ruas. […]. Muitas vezes, aonde eu trabalhava eu morava também. Por exemplo, quando trabalhei em uma oficina, morei lá também.

Era oficina em Maracanaú. […]. Construí uma família e me separei, fui para as ruas. E bebia muito também. Minha família não aceitava. Então, acabei saindo de casa para sempre.

Por outro lado, os rompimentos de laços familiares contribuem para a construção de novas relações afetivas entre a população em situação de rua e os/as transeuntes nos diversos espaços urbanos, como abordaremos a seguir.